por F. Morais Gomes

09
Jul 12

Foi há três anos que André se decidiu a avançar com o projecto, um filme sobre a  Gafaria de S.Pedro, a mal conhecida  leprosaria no Arrabalde de Sintra.Lázaros escorraçados  e errantes ali encontraram refúgio até ao século XVI, sob a protecção do Espitral do Espírito Santo, o argumento seria fascinante. Se não arranjasse produtor, faria uma curta. Atraíam-no os filmes grunge, Murnau e Tod Browning, lendo nas sombras e angustias dessas fitas grandes semelhanças com o mundo actual.

Da pesquisa feita para o filme, chamou-lhe a atenção uma tal Mabília, leprosa que ali morrera em 1567, tida como feiticeira e de quem se dizia ter contraído lepra como castigo pela prática de magia que usava para   seduzir os homens e depois os roubar. Morrera deformada e no maior sofrimento, jurando vingança.

Falando com os mais velhos de S.Pedro, André verificou que apesar do tempo decorrido, a história ainda era lembrada, notando porém silêncios cúmplices a cada tentativa de saber mais, havendo  quem jurasse ter visto missas negras nos Capuchos orquestradas por Mabília, enquanto velas rodeavam animais oferecidos em sacrifício.

Por essa altura alguns casos ocorreram reveladores de anormalidade numa terra geralmente bucólica e pacata, surgindo notícias em tablóides relatando o desaparecimento de diversas pessoas sem deixar pistas ou testemunhas. Um em Ranholas, em Março, outro no Ramalhão, um mês depois, outro ainda a quem haviam visto pela ultima vez na Mourisca, pouco antes da meia-noite. Vozes  delirantes, dos que habitualmente viam filmes de terror, associavam mesmo o facto à tenebrosa Mabília, séculos após ter morrido, se bem que sempre emprestando um ar trocista aos comentários.

Três pessoas estavam desaparecidas, não havia pistas, uma testemunha que fosse. André, absorvido na concepção do seu filme e desafiado pela adrenalina do perigo, decidiu investigar  por conta própria. Passadas algumas semanas, contudo, nada descobrira. Os desaparecidos não voltaram a ser vistos e a GNR pensava em arrumar o assunto, para ela a dispensar grandes cuidados. Até nem eram da terra, comentavam, se calhar até tinham fugido zangados com os  familiares. Importante, eram os gangues da linha de Sintra, e fechar bares por causa do ruído aos sábados à noite.

Uma noite, visivelmente alterado, André irrompeu arfando e agitado no posto da GNR de Sintra. Não dormira na noite anterior, assaltava-o uma intuição que se adensava no seu espírito. Visivelmente fora de si, pediu ao cabo Inácio que o acompanhasse com alguns guardas a S. Pedro, tinha a certeza de ter descoberto algo aterrador, tendo o grupo seguido para o local onde pela sua pesquisa a bruxa Mabília havia dado o último suspiro, uma encosta perto da igreja de S. Lázaro. Movido por uma força estranha, André começou a escavar e arrancar as pedras da calçada, perante o ar surpreso dos agentes, seguros de já lhes terem estragado a noite. Estranhamente, a terra, já no enfiamento com o largo de S. Pedro parecia mole e húmida, como se ali tivessem cavado recentemente. Perturbadores, restos de um braço  putrefacto começaram a ficar visíveis. Nessa altura, o rosto de André transfigurou-se, e começou a gritar palavras incompreensíveis, cabeceando possesso. Percebia agora o que se passara. Era como se um inquilino invisível e usurpador habitasse o seu corpo, manietando-lhe os movimentos, vexando-o como  presa ocasional para lhe parasitar o espírito e assim concretizar uma ânsia de vingança que de tempos havia que saciar.O corpo era de um dos desaparecidos, fora André, possuído por Mabília, quem o havia morto, tal como os outros, embora nada recordasse.

Arrancou a camisa e desatou a gritar, descobrindo-se marioneta sem alma e capturada por um dono invasivo do qual não se conseguia apartar, dos seus olhos chispavam os de Mabília. Sem o saber, ao tanto querer descobrir sobre ela na pesquisa para o filme, o seu corpo fora por si possuído, e assim se vingava séculos depois de ter morrido numa enxerga imunda, usando  André como títere impotente do seu plano predador.

André recupera hoje numa casa de repouso em Mértola, quebrantado, com os olhos sempre fixos num horizonte invisível. Mabília, dizem, ainda hoje pode ser avistada em S.Pedro em noites de lua cheia, sentada no Túmulo dos Dois Irmãos e esperando as infelizes presas nas noites de lua cheia.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 21:42

21
Jun 12

O arrastar dos pés amparados pela muleta ampliava o som no velho salão agora restaurado. À beira de completar noventa e sete anos, D. Georgina fizera questão de invadir o passado, visitando o teatro da sua infância que o povo de Galamares em boa hora restaurara, e que daí a três dias voltaria a ver gente, vida, cor.

Pequena de oito anos, num longínquo de Verão de 1923 ali escutara o som mágico dum piano que um senhor grave com óculos de massa dedilhava qual sortilégio, e que, enrolada na saia da mãe, observava entre a estupefacção e a alegria.

Recordava agora esse momento e o senhor do piano, o seu olhar absorto, dedos férreos, tez altiva. Na pequena sala, as mesmas pinturas campestres inglesas e o tecto de flores em papel estampado, ecoavam os acordes cristalinos dum piano solitário, voz obediente a seu mestre e criador.

Viana da Mota, assim se chamava o senhor de óculos, ensaiava para um concerto em Galamares, no cineteatro que em boa hora o Visconde de Monserrate mandara erigir, pequena ilha numa floresta de palácios altivos e férteis pomares, concerto de angariação de verbas para a electrificação da estrada até Colares. Pedira a comissão de melhoramentos, e com prazer anuíra.

Já à beira dos sessenta e cinco, sempre tivera Sintra no coração. Desfiando aquele piano com o transe próprio dum profundo apaixonado, ensaiava a sós o concerto que essa noite tocaria a favor dessa luz tão necessária ao progresso.

Brincando com as notas, familiares e cúmplices, recordava os anos já longínquos em que vindo duma roça nos trópicos aportara a essa Colares húmida e silenciosa, palco de pescarias no rio da sua infância. Os primeiros concertos no Salão da Trindade, jovem e aplaudida promessa da música. E acima de tudo, a felicidade daquele dia em que a doce condessa Elise lhe anunciou a vontade de pagar os estudos com Scharwenka, em Berlim.

Nunca esqueceria a emoção desse encontro no chalé de cortiça na Pena, e mais tarde da récita, onde jovem executante, perante D. Fernando, a condessa d’Edla e convidados, tocara pela primeira vez  “Au bord du lac de Pena”, que compôs em sua homenagem. Gratidão de artista paga-se com arte, pensou.

Pela tarde, e sob o olhar surpreso da pequena Georgina, chegou entretanto o gerador da Sintra- Atlântico, para iluminar a sala para o concerto, que as famílias abastadas amavelmente pagariam. Viana da Mota ensaiou então andamentos mais exaltados, levado pelo eco da sala ainda vazia.

Escolheu as “Cenas da Montanha” para abertura, o von Bullow sempre lhe dissera que era um dos seus temas mais conseguidos, partes da “Evocação dos Lusíadas”a seguir. No fim, se a luz não falhasse, “A Pátria”, a sua imagem de marca, que o visconde sublimemente apreciava e a plateia quase sempre reclamava.

Era 15 de Setembro de 1923, o Outono afastava já os veraneantes para a capital, havia risco de não encher, disseram. Viana da Mota adorava o desafio, porém. Que viessem dois mas bons em vez de trinta a bocejar.

A sala encheu, afinal, senhores de fato impecável, senhoras com os melhores chapéus, Georgina com os pais, empregados da casa Monserrate, os homens da Sintra-Atlântico, a cultura juntando-se ao progresso. Cumprimentos, vénias, Guilherme Oram, o feitor, verificando os pormenores, as tosses da praxe, a função.

Saudando com uma simples vénia, José Viana da Mota saboreou o silêncio expectante que sempre antecede os recitais, e depois dum momento sepulcral, qual guerreiro alucinado de espada em riste esperando a fera desafiadora, espalhou o néctar inebriante de melodias redentoras sobre aquele cineteatro ufano e orgulhoso, São Carlos de aldeia, mas nem por isso menos vibrante e atento. Toda a família do visconde assistia, Eduardo Gaio e esposa, também pianista amadora, os Farias, da casa do visconde, bombeiros, autoridades. Algum povo, desconfiado e distante não deixava de espreitar ou ouvir no exterior.

Nessa noite mágica e luminosa, os tordos na serra fizeram silêncio, os sapos abafaram o coaxar, o som hipnotizado e hipnotizador do piano  mágico atravessou o vale e Monserrate,  agitando as acácias, amenizando  as almas .Galamares, por umas horas, ganhava o seu pedaço de paraíso,

Lá longe, em Lisboa, já para lá dos oitenta, a velha condessa d’Edla tomava chá, e sorria, como se o som daquele concerto dum tímido rapaz que um dia mandara para Berlim lhe chegasse perfumado pela brisa da noite. E Georgina, perfumada pela música daquele feiticeiro senhor dos teclados, transportou por toda a vida o som mágico do salão, mesmo quando a incúria o apagou e sombras sobre o seu destino caíram cruéis.

Viana da Motta entrou para a lenda, Georgina criou filhos e netos, e bisnetos, hoje já homens. O salão de Galamares esse, desperta da agonia, e quem sabe, outros pianistas ali renovem o chilrear da serra fluindo dolente na beleza dum teclado.

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:32

22
Abr 12


Eram quatro horas e um desejo súbito de pipocas apressou Tiago para a cozinha, um pacote de vinte cêntimos no micro-ondas e estava arranjado o bulímico complemento para trabalhar na reportagem sobre a Islândia. Sílvia estava estranha, saíra a pretexto dum visita à avó no lar onde há dois anos a haviam depositado, remorso talvez, a crise a fazer descer à terra e devolvendo a zombies consumidores pelas vielas de néon dos hipers alguma humanidade.

Era bom um pouco de silêncio. Pensou pôr música, mas deixou-se ficar com o som de fundo dos carros na rua, tentando respirar a casa onde pouco tempo passava, intervalo entre a fila do trânsito, o emprego stressante e os soundbytes da crise, essa palavra invasora como osga pegajosa. Um velho vinil dos Pink Floyd no armário da sala reportou-o para anos antes, quando conhecera Sílvia no 2001, magra, felina, com um olhar distante. Era o seu álbum favorito. Já não pick up tinha, para o poder tocar, tinha-se porém dado ao trabalho de digitalizar fotos antigas, todas num ficheiro salvas do passado e dos ácaros.

Muita coisa mudara desde então. Até de pipocas passara a gostar, esse adereço capitalista parceiro da caramelizada mistela americana que em tempos significara o imperialismo yankee. Escritor na juventude, fã de Elluard e Herberto, dedilhava agora os artigos para o jornal num Ipad de nova geração, pecadilho a que não resistira, pago em três prestações. Escrevia e de quando em quando fixava o relatório que o dr.Pestana lhe entregara como quem anuncia a mobilização para o Ultramar: calhara-lhe a ele, aquele ponto negro no TAC. Não, infelizmente não era defeito do aparelho, asseverara insolente o dr.Pestana.

Sílvia, nada deveria saber, por enquanto. Já vasculhara a Wikipédia e a Britanica e todos os sites e fóruns na net, não havia dúvidas. Cancro do cólon, uma desenganada via sacra de tratamentos em perspectiva. O cheiro das pipocas era apelativo, e devorou-as num ápice, rematando com um improvável Jameson, virtuoso analgésico para as irritantes arrazoadas do Pestana, esse charlatão, lampião ainda para mais, uma segunda opinião esclareceria a incompetência.

Um ruído abafado anunciou um SMS. Era Sílvia, perguntando o que queria jantar, passaria pelo Modelo depois da visita à avó. Ia a escrever algo, mas de súbito mudou de ideias, e digitou uma resposta: “Vai ter ao bar do Fred. Vamos jantar fora”.

Um ok seguido dum smiley sinalizou que a ideia agradara. Largou o teclado e serviu-se de mais um Jameson, na rua o velho Joaquim seguia curvado a caminho da tasca do Jacinto, para o ritual tinto das cinco. Meteu-se no chuveiro e deixando cair a água quente o filme dos últimos dias foi-lhe passando húmido e vaporoso: a cara do Pestana, a tarde desse dia guiando sem destino como quem levara um murro no estômago, o romance histórico que levava a meio,  raivoso agora por os personagens estarem felizes, havia que matar um para espalhar a depressão.

Disfarçando e salpicado com o after shave favorito de Sílvia, dirigiu-se ao bar do Fred, numa tela gigante passava um jogo do campeonato inglês, o Simão e o Quim Zé, amigos habituais puxavam pelo Manchester, devorando minis mais rápido que Fergurson pastilhas. Um cumprimento ritual saudou o encontro, Sílvia não chegara ainda.

-Tiago! Chega aqui e bebe um copo com a gente! Ninguém te põe a vista em cima, pá. Não me digas que te deu a ternura dos cinquenta!-o Quim Zé andara com ele na tropa, nos anos 80, quando ele fora trabalhar num jornal local, abrira uma oficina onde regularmente Tiago ia mudar o óleo, pachorrento, despachava o prato de tremoços depois da quarta mini. Tiago ensaiou um sorriso, e juntou-se aos amigos. Pediu uma mini e sentou-se, pouco falador, o ruído da sala era de quando em quando entrecortado com um ou outro grito puxando pelo Manchester, três dias apenas haviam passado desde a horrorosa  consulta com o Pestana.

-Sabes quem morreu? O Aníbal, das Finanças. Um AVC, durante um almoço com os colegas. Nem cinquenta tinha! Temos de por a barba de molho, que eles andem aí….- comentou o Simão, já com sentença de diabetes lida. Tiago espantou-se, murmurando um quase silencioso “pois…”.

Sílvia chegou entretanto. Apesar de como Tiago rondar os cinquenta, a beleza da juventude parecia não largá-la, o ar maduro tornara-a mais sensual. Num flash, Tiago imaginou-a de preto, depois de ter partido, ali, disponível para aqueles devoradores de tremoços, ser-lhe-ia fiel depois de enviuvar? Um beijo rápido e um alô aos amigos e pediu um café, sentando-se junto a eles. Tiago puxou conversa:

-E a tua avó?...

-Está muito velhinha, coitada. Perguntou pelo irmão, o tio Alfredo, que já morreu há dez anos. Quando se chega a estas idades….

Tiago fez silêncio, queria sair dali para a ter só para si, num canto dum restaurante. Italiano, se possível. Queria contar-lhe tudo, o ambiente caloroso dum chianti e uns canneloni tornaria a coisa menos fria e cruel.

-Olha, quando vinha para cá encontrei o doutor Pestana no shopping. Mal me viu veio a correr ter comigo, disse que tinha estado toda a tarde a tentar ligar-te, mas não conseguiu. Pede para lhe ligares com urgência.

Tiago enregelou. Mais más notícias, e todas do médico. Maldito Pestana, nem no shopping. Sílvia notou-lhe um desconforto com a notícia, e olhou-o nos olhos:

-Algum problema….?

-Não, nada, foi ele que me pediu uma coisa lá do jornal, depois ligo-lhe…

Fazendo menção de ir à casa de banho, Tiago ligou ao médico. O semblante estava lívido e as mãos trémulas, Sílvia ficou a perguntar pelos filhos de Simão.

Dez minutos depois, Tiago voltou, dirigindo-se ao Fred, a voz estava mais solta e aparentemente bem disposto. Na tela, o Manchester despachava o adversário com três bolas sem resposta.

-Fred! Uma rodada para todos, pago eu!

-Estás a festejar o Manchester agora, Tiago? Fazia-te mais do Real Madrid!- o Quim Zé estranhou tanta fartura, Tiago não era muito dado a largueza de bolsos. Com um sorriso, Tiago roubou um beijo a Sílvia e rematou, enigmático:

-Não, sou mais de outro campeonato. Mas o meu clube ia acabar a partida a perder, e afinal parece que vai haver prolongamento….-do outro lado, o Pestana desfizera-se em desculpas, os exames haviam sido trocados e ele estava são como um pêro.

-Amor, e se depois do jantar fossemos ao cinema? Apetecia-me um balde daquelas pipocas….

publicado por Fernando Morais Gomes às 18:29

23
Fev 12


Nos vinte e cinco anos da morte de Zeca Afonso, mais gordos e burgueses, encontraram-se na Trindade para um mítico bife e recordar esses dias frenéticos de conspiração nos corredores da Aula Magna, quando o Zeca anunciava futuros e era consequente a luta. O tempo separara-os, hoje advogados de sucesso e políticos do centrão, um, cantor romântico até, deitara as leis às malvas para enfrentar outros  júris.

Nos fins de setenta, Direito era território maoísta, iconográficos, os retratos de Ribeiro Santos e Maximino de Sousa pontificavam no átrio da faculdade, chorados heróis de escaramuças passadas. A maioria era conservadora, liberal, como após Abril era correcto dizer e durante a greve académica havia-se pregado a revolução na rádio universitária e em zelosos piquetes. Alexandre, o da voz mais grave, entre jingles anunciava a gloriosa luta dos estudantes e à moda do Pão com Manteiga, em voga na época, lançava setas aos instalados professores, achincalhando a obesidade da Magalhães Colaço ou as épicas tiradas de Soares Martinez. Sem graça, metera-se uma vez com o professor Sousa Franco, crismando-o de inteligente, por tudo lhe entrar por um ouvido mas jamais sair pelo outro, assim gozando com a sua deficiência na orelha. Glorinha, agora procuradora em Aveiro, era a mais acirrada, quebrando a vitrina das pautas com um pé de cabra, duas vezes fora detida por vandalismo, mas imediatos comunicados desmascaravam a discricionariedade fascista, estudantes unidos jamais seriam vencidos. Pedro Heitor, hoje deputado, depois da passagem por uma Câmara, primeiro como assessor e depois vereador, via o jantar como a oportunidade de mostrar que até fora irreverente em tempos, romântico aos vinte, calculista aos quarenta. Do grupo, só Rafael enveredara pelos jornais, investigava a fuga ao fisco dum político, por sinal do partido de Heitor.

Haviam sido tempos gloriosos. Comunicados policopiados, pichagem de paredes, oportunos e revolucionários “copos” no Bolero e no Jamaica, para tudo acabar no Cacau da Ribeira, após a tomada da Aula Magna. Portugal mudara muito, e até há pouco tempo só o Charneca, o eterno contínuo, continuava vendendo cópias de exames no átrio da faculdade, prova viva de que aquele passado existira, afinal. Glorinha  mantinha a beleza de outrora, todo  o 5º ano a disputava nessa altura, Passionária do Campo Grande, uma voz de arrepiar, muitas vezes se tinham reunido cantando os hits do momento, sonhando amanhãs e congeminando protestos. Em 1979 o socialismo caminhava já inexorável para a gaveta e os avós da troika já cá estavam, mas era quente a luta e com muita garra. A utópica alegria de rasgar caminhos os unira, hoje, apesar de madura, essa recordação sobrevivia ainda, nostálgica.

Por esses dias correram Lisboa no Audi do pai do Heitor, chamando à luta, reuniões no Técnico, em Económicas e em Letras, sempre bem servido de moças com bom aspecto, o plenário na Aula Magna apesar de alguns provocadores, correu bem. Durante dias, fumos negros nos braços e tiras nas paredes decretaram luto pelo ensino, depois de experiências fracassadas e da revisão curricular. Ao lembrar a cena, Rafael comentou como irónico parecia hoje ser o “exorbitante” preço das propinas, uns meros selos no valor de seiscentos escudos, comparado com os tempos de hoje, mais elitistas, apesar do ruído com a defesa da escola pública.

No jantar da Trindade, abatidas varias canecas, revisitaram-se mergulhados nesse passado fraterno, onde coexistiam Zeca, Pablo Neruda ou os Fisher-Z, perdidos nos esconsos das garagens onde após lânguidos slows se haviam prometido amores eternos e o nirvana do Shangri-La socialista. Após o jantar, como nos velhos tempos, voltaram ao Jamaica, depois de um copo no Hot Club, ali Rafael apanhara a sua primeira cardina, chamando princesa a uma desdentada deusa da noite perto do Fontória. O passado era marcado pelos bares: primeiro o Archote, o Whispers, o Bolero, depois o Jamaica, o Bora-Bora, o Charlie Brown, mais burguêses o Ad Lib ou os Stones, atrevidos  a Cova da Onça e o Pipodrom junto ao Coliseu, onde por uma moeda de vinte cinco escudos se via  a Olga de Jurídicas por um óculo, fazendo streap-tease para pagar os estudos. Todos os rapazes da turma lá foram várias vezes, à vez esbugalhando os olhos ante a visão celeste do corpo da hoje ilustre advogada no Algarve. No final da noite, à porta do Jamaica e abraçados, celebraram esse passado, já de si marcado num filme de vida várias vezes rebobinado.

Os anos passaram, e a seu modo haviam respondido à chamada do seu tempo, de sangue na guelra para as causas generosas e razoavelmente exigindo os impossíveis, pois só salvando o mundo se poderiam salvar. Salvara-se a memória, o orgulho de ter tentado e a certeza de nunca ter desistido. Deambulando a pé até à Baixa, no Rossio, um grupo de jovens dormia, passavam já as duas da manhã. Junto ao Nicola, em silêncio, os veteranos da greve académica miraram os ingénuos actores das novas utopias. Atrás de tempo, tempo vem, muitos anos passaram e valera a pena, o som dos Vampiros, metálico e dolente soava no rádio dum táxi. Hoje como ontem, o tempo ainda é feito de mudança.

 

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 18:26

07
Fev 12

Passando hoje 200 anos sobre o nascimento de Charles Dickens, reedito a história "Os pesadelos de Alfredo Regaleira",que se inspirou na sua obra "A Christmas Carol", adaptada a outros Scrooges mais próximos....

                  

 

Alfredo Regaleira ganhara as autárquicas de 2017 pelo Partido dos Verdadeiros Sintrenses, criado após o resgate do FMI  de 2011 e formado nas redes sociais. Oriundo duma família abastada, fora administrador de empresas municipais, vereador e suplente da distrital. Depois da inesperada morte de João Xavier, o candidato preferido do partido, o  recurso foi o cinzento tecnocrata, eleito pela margem mínima  presidente da Câmara de Sintra, para um mandato de quatro anos.

Era uma pessoa amarga e seca, enfiado em estatísticas, telemóveis e impessoais powerpoints. Raramente visitava as associações  ou recebia os munícipes, o Orçamento  pautava-se por cortes cegos, ferrenho adepto  do fim do estado social. Os funcionários odiavam-no, mas receavam pronunciar-se. A introdução de controlo da assiduidade através da retina, a diminuição dos funcionários para metade, as câmaras de vigilância nos serviços, controladas a partir da presidência, aconselhavam prudência e Ivone, a secretária, detestava-o, sempre carrancudo, um sorriso de plástico apenas para a televisão ver, implicara até com um retrato da filha que tinha na secretária. Familiaridades a mais, dizia, mal-humorado. Aos que lhe pediam apoio, despachava sem contemplação, "não há dinheiro, não sou a Santa Casa", respondia, insensível. Até um lancinante pedido dos pais da pequena Sandra para ajudar a fazer um transplante de medula enviara para o Querida Júlia,as pessoas são lamechas”, desabafava entediado, “haveriam de lançar um peditório.” Divorciado e sem filhos, morava na Beloura com Sócrates, um labrador ainda cachorro, e aí se isolava quando se conseguia livrar das aborrecidas cerimónias nos infantários e lares de idosos, distribuindo beijos a crianças ranhosas e velhas sempre a queixar-se.

Uma noite, já tarde e de regresso a casa, passado o Ramalhão, um vulto sumido e esbranquiçado arrastando correntes nos pés, surgiu-lhe à frente do carro. Esfregou os olhos, alguma digestão mal feita, pensou. O vulto, translúcido, entrou pelo vidro do carro e sentou-se no banco a seu lado:

-Boa noite Alfredo! -saudou numa voz metalizada. Sou eu, o Mário!

Atónito, reconhecia Mário Rabaçal, seu correligionário político e  antigo administrador da empresa municipal de educação, falecido meses antes num acidente perto dali.

-Não é possível! Mas tu não morreste? Estive no teu funeral, c’um raio…

-Estou morto sim, Alfredo. Mas venho para te avisar que ainda estás a tempo de emendar a mão. Os cortes no leite das escolas, a comida estragada que servíamos nas cantinas, o desfalque na tesouraria, tudo paguei bem caro, errando agora como uma alma penada! -e exibiu um grilhão, pesado, parecia  uma cena de  thriller americano. -Venho avisar-te que ainda esta noite receberás três visitas, às quais deves estar muito atento.

-Mas…E antes que tivesse tempo de concluir, o banco do lado ficou de novo vazio, eclipsando-se o vulto no éter.

Chegado a casa, bebeu um chá de limão e foi deitar-se. Devia ter sonhado, pensou. Meia hora não era volvida quando uma figura irradiando luz, de casaca e cartola, lhe surgiu no quarto. Sobressaltado, pensava chamar a Policia, quando o vulto o advertiu que não abrisse a boca.

-Boa noite Alfredo Regaleira. Eu sou a Sintra do passado. Levanta-te e acompanha-me!

Mal tivera tempo de reagir e de pijama, já o vulto o levava voando nos céus de Sintra, para logo pousarem no Palácio da Pena. Candelabros com velas profusamente espalhados iluminavam a noite, lá dentro uma orquestra tocava no salão grande, onde vistosas damas e dignitários envergando fardas coloridas deslizavam dançando. Animado, o rei D. Fernando conduzia uma corada cortesã ao som da Marcha Radetsky. Lá em baixo, na vila, carruagens passeavam dandyscom casadoiras donzelas, na estação do Larmanjat, saloios com seus jumentos esperavam novos forasteiros, para os transportarem ao Lawrence e ao Nunes. Felicidade e harmonia reinavam. Alfredo, absorto, admirava aquele quadro de beleza, Sintra no seu esplendor, romântica e aristocrática. Ia interpelar o espírito, quando de novo se viu  na cama, sentado e baralhado. Foi à cozinha beber água, apaziguando o torpor em que se achava. Minutos depois, encostada ao frigorífico, outra figura o aguardava já, um homem de fato e óculos escuros, fumando um cigarro e com um jornal debaixo do braço. Conformado, abordou-o:

-Suponho que sejas Sintra do presente…

O vulto assentou com a cabeça, e de automóvel saíram para Sintra, deserta à noite. Num lar de idosos racionava-se a luz por falta de verba, uma família de desempregados vasculhava caixotes buscando comida, enquanto na Volta do Duche, um jovem  fazia carjacking a um incauto turista, logo se pondo em fuga. Encolheu os ombros, suspirando, e pediu que voltassem, esta realidade conhecia ele, mais pelos relatórios que por experiência.

De volta a casa, inquieto e pensativo no sofá da sala, com o labrador aos pés, receava a terceira visita. Das traseiras, minutos depois, surgiu um jovem desdentado, com um capuz na cabeça e dois piercingsno lábio. Olhando-o com desprezo, fez sinal que o seguisse. Acabrunhado, de motorizada foram ver a Sintra do futuro: sem-abrigo aqueciam-se em fogueiras na zona pedonal da Estefânea, na Vila, no lugar da Piriquita, surgira uma loja chinesa, apenas sete moradores resistiam, a igreja ruíra por falta de obras. Na Volta do Duche, alinhavam-se contentores onde moravam famílias sem tecto depois dos despejos  por si ordenados. A pequena Sandra morrera por falta de transplante, desesperados, os pais não haviam conseguido o dinheiro para a operação. Parando no cemitério do Chão Frio, o jovem dos piercingsapontou-lhe uma lápide grafitada onde se lia: “Alfredo Regaleira 1970-2018”, e  descontraído, um cachorro urinava em cima. Estarreceu, com suores frios.

Mal refeito, acordou na cama, em sobressalto. Abriu os olhos, o labrador que dormitava ergueu-se e lambeu-lhe as mãos, brincalhão. Amanhecia lá fora.

Vestiu-se num ápice, meteu-se no carro e correu para a Câmara. Pelo caminho, sorridente, distribuiu bons dias aos atónitos munícipes, acenando e buzinando, e parou numa florista a comprar um bouquet  para a Ivone, a quem entregou com um beijo na mão.

-Ivone, mande chamar os pais daquela pequena, a Sandra, desmarque todas as reuniões, e convoque o director do departamento de assuntos sociais, é urgente. Ah, nunca lhe disse que o seu penteado é muito charmoso?

Ivone hesitava entre o boquiaberto e o espantado, derretendo-se dengosa ante o piropo. Correu a dar andamento, o homem tinha-se passado, com certeza.

Daí em diante, as pessoas foram a prioridade de Alfredo Regaleira. Inaugurou o novo hospital, apoiou os artistas do concelho, aboliu o controlo de assiduidade, criou empregos. Foi reeleito duas vezes, sempre com maioria absoluta. À cabeceira da cama, na casa da Beloura, onde agora a pequena Sandra, curada, brinca com o labrador, está sempre um inspirador livro da autoria de Charles Dickens…

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:29

06
Fev 12
Estava a chegar, mesmo para os que não tinham jardim nem viviam nos campos, despertadas, as Criaturas da Mata anunciavam a presença, sinos do submundo tocavam, arautos da cor e clorofila, despertando perfume nas flores. Tonitruante, toda a nação dos pássaros tocava a rebate, comandada por zelosas andorinhas, voltadas do Grande Sul. Depois do Branco Inverno partir para o sono de várias luas na gruta-ventre, exércitos de borboletas invadiam libertinas os ares em  sagração, poisando em pétalas redentoras, bafejadas por raios generosos. Poetas estremunhados abandonavam os invernosos esconsos, bebendo Luz e respirando jasmim, em busca da Iniciação Multicolor.Era o Começo.
Ostara chamava a reunir, gamos e colibris, crisântemos e girinos, libelinhas e lagartos, todo o mundo do silêncio convocado pelas forças da Criação em noite de Equinócio. No bosque da Cynthia Imortal, lá onde entre o oceano e fortalezas homens ergueram templos à Floresta Mãe, reunia a Grande Assembleia de elfos e centauros, como sempre, desde a noite dos tempos, a desenhar o anel de luz e em prece às chuvas, sémen da vida e seiva de renovação. No silêncio cúmplice da noite, a sagrada chama crepitava no altar, ao lado, a vigorante poção dum druídico caldeirão saciava ressequidos lábios, bafejados por novo renascimento. Toda a Floresta comparecia, absorvendo o anel dourado na altura do ano em que  dia e noite se faziam iguais. Os dias escuros partiriam agora, a terra albergaria sementes, o mundo renovaria a Luz.
No altar sagrado, pejado de grinaldas e ovos, grãos e raízes, o Coelho Pontífice guardava sentinela, atento às entranhas de Cynthia, perturbada e perturbante. De mãos dadas, os convocados, em adoração à deusa liberta da longa noite de  Inverno, entregavam-se ao ritual das fragrâncias, viajando por ramos e folhas, orvalho vitamínico e puro. Toda a Floresta desvairadamente celebrava, num festim de castanhas, pinheiros, verduras e verdes límpidos.
Terráqueos da montanha colocavam flores no altar e no chão, no caldeirão água pura e flores esperavam o momento da oferta, enquanto na clareira, iluminada pela argêntea Lua, incensos e brancas velas se acendiam em acordo com os elementos. Rasteiros e vindos de Cynthia, terráqueos assustados tocavam as plantas, em busca do milagre da vida, prometendo amizade e cumprindo o círculo, para depois partirem por algumas luas, ao encontro de Beltane, Litha mais tarde celebraria o apogeu de Ostara e o seu declínio, para os entes da floresta e desde a noite dos tempos, sinal sabido da chegada breve de Samhein e Yule, e com eles das trevas da gruta em novo apagar de fogueiras, fugidas ao eólico norte e à escuridão da tundra uivante.
Nas aldeias de Cynthia, as terras pediam sementes, e as árvores folhagens, chilreios em beirados prometiam fertilidade, logo partiriam sulcando céus e mares, noites e dias, até o grande astro outra vez os trouxesse. Ostara, como sempre, protegiria Cynthia, antes a fizera rude e pedregosa, e agora apoteose do verde.
Toda a noite o fogo redentor aqueceu os terráqueos, com Pã no carvalho chilreando a flauta e logo em melódico coro acompanhado pelos rouxinóis e toutinegras. Ao amanhecer, cristalina e espelhada nos frescos lagos, a Primavera reinaria enfim esplendorosa, com o seu ceptro de azevinho e coelhos nervosos saltitando. Os avaros dias do longo Inverno cresceriam generosos, frutos e plantas brotariam suculentos e em abundância, cardumes cruzariam os rios, serpenteantes patos se banhariam nos riachos atrás de irrequietas rãs.
No ano seguinte e em todos a seguir, assim seria até ao fim dos tempos, ou até que Odin na Valhalha juntasse os guerreiros no  esperado advento do Ragnarok. Cynthia veria choros, risos, lutos, borrascas, milagres, sagrado e eterno templo da floresta, e sempre no tempo em que o dia seria igual à noite, Ostara voltaria, fugaz e pitonisa, a espalhar a  redentora Luz.

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:26

05
Fev 12
"Um Glenffidich, com gelo, em fundo, a dança dos espíritos abençoados, do Orfeu e Eurídice. É domingo, e cada vez mais Inverno.Para quê sol nos corpos quando gelam as almas? Odeio os domingos. Dantes a família almoçava, depois da missa, enfiada nos fatos domingueiros. Já não há famílias, nem missa. Que saudades do passeio de barco ao Ginjal, no fatinho à marujo, a comer enguias e a visitar a avó, que esperava com o bolo de noz e scones com geleia. Nunca mais comi bolo como esse. Também têm passado, os sabores, Rogério, e muitos deles sem futuro. E o rádio, com o relato da bola, gritando cada canto como antecedendo um enfarte.
É, o passado está todo aí, na prateleira, como tu, em porcelana. Nos álbuns, arquivos mortos de vidas passadas. Cansei do Gluck, põe o Strauss, Rogério, a valsa do esquiador, seja, encerra juventude e nostalgia, só por isso, outro Glenfiddich, raios partam o Famous Grouse. Engraçado. Nunca estive nesse passado, com valsas e palácios, mas também ele é passado do meu passado. Cliché. Bonito. É sempre bonito falar do passado, por nostalgia ou arrependimento. Tem uma vantagem: ao menos tem-se passado. E apaga a televisão, chega de electrodomésticos, por hoje!
Não mexe uma palha lá fora, sabes, mas dentro, corre um vento intranquilo. Que presente recordaremos daqui a vinte anos como bom passado? Os copos que se beberam? A infância dos filhos, ingénuos e puros, azul ou rosa como os fatos que lhes enfiámos à nascença? Queria ouvir o Morrison, mas estou intemporal, apetece-me música de salão, hoje. Põe a Annen, Rogério, sim, a polka 117 de Strauss, grande música para um slideshow de vida, feliz e realizada. Para os infelizes, antes Philip Glass ou Bartok, eu quero evadir-me, quero Glenffidich, aumenta o som, diz à vizinha que enlouqueci e que o som é a conselho médico!
Engraçado, Rogério, sinto-me um pássaro em melodia de Dvorák, ainda bem que o domingo acabou. Naquele tempo não importavam os domingos, todos os dias eram de Vida, sem separar por semanas, décadas, gerações.Amanhã será segunda. Monday. Dia da Lua. Na Serra da Lua, curioso. Olha, esconde a garrafa de Glenffidich e diz ao mundo- ou pelo menos ao caseiro- que Arnaldo da Nóbrega desistiu de viver. Só ouvia vinis e num mundo onde já não  vendem pontas de diamante, riscou-se de membro. Que partiu, ao som de Annen, levando os livros, os sonhos, o perfume de Sofia,os passeios ao Ginjal e o bolo de noz da avó. Auf Wierdersehn! É forte, o adeus em alemão, seguro e sem lamechas. Rogerio! Maldito boneco de porcelana, não fosse a tia Zita e já te tinha esfrangalhado, degenerado!"
publicado por Fernando Morais Gomes às 11:38

04
Fev 12

 


A funcionária da limpeza pasmava, no hemiciclo da Assembleia, nem oito da noite eram e um indivíduo, deputado por certo, dormia com a cabeça sobre a bancada, como não haveriam as pessoas de ter má opinião dos deputados. Preparava-se Olívia e a sua esfregona para lavar o local onde muito se lava roupa suja, quando aquele vulto com óculos de massa lhe surgiu no areópago do povo.Hesitando em acordá-lo, aproximou-se, era na bancada do Partido da Liberdade, o computador estava aberto na página do Facebook e uma mensagem dum tal Libertador rezava“Já pagaste pelos teus actos.Lol”Visto mais de perto, o deputado parecia branco como a cal da parede, já ninguém restava no hemiciclo, a sessão sobre os novos impostos terminara pelas sete horas.A medo, tentou acordá-lo, ao que o corpo sem acordo do representante da Nação, a um toque, tombou no chão. Uma mancha de sangue brotando da camisa branca deixava à vista o horroroso cenário: o deputado estava morto!
Sirenes de ambulância e piquetes das televisões acorreram, mal se espalhou o sucedido. Crime na Assembleia, relatavam uns, ajuste de contas, aventavam outros, Hélder Carneiro, deputado por Faro, estava ligado ao sector imobiliário, um condomínio de luxo em Vilamoura antes de ser candidato originara querelas entre sócios, um dos quais ele. E o Libertador? Quem seria a enigmática figura?
O inspector Tomás, dos Homicídios tomou conta da ocorrência. Autopsiado, a causa da morte foi atribuída a um tiro de pistola com silenciador, em cheio no coração, a ultima pessoa a ver Carneiro vivo fora Vasco Trigoso, do Partido dos Valores, adversário político mas correligionário da caça, ainda dias antes tinham estado em Vinhais, numa batida ao javali. Nada fazia supor tal tragédia: deixava mulher e um filho e na assembleia apenas se levantara uma vez para votar o Orçamento. Sempre que havia plenário jogava Farmville, apenas interrompendo para aplaudir ou rematar com um “muito bem!” as intervenções dos colegas. Um pormenor chamou a atenção ao inspector: sobre a mesa, num papel, estava desenhado um flamingo, a morte tê-lo-ia surpreendido quando faltava terminar a pata.
Nada fazia sentido. Na televisão, o Primeiro-Ministro e vários deputados recordavam o insigne cidadão e o muito que havia a esperar de tão loquaz parlamentar. Nenhuma pista parecia esclarecer o móbil: não tinha inimigos declarados, a família era equilibrada, politicamente pardacento, nunca se ouviria falar dele, não fora a infausta morte no seio da representação nacional.No dia do funeral, muito concorrido, o inspector Tomás, discreto, observou os presentes: gente do Algarve, deputados de todos os partidos, e muito povo, sempre pronto a comparecer quando a televisão está por perto. Formado o cortejo fúnebre, uma carrinha branca com três homens dentro incorporou-se, era dum tal Hotel Flamingo, em Vilamoura, um animal semelhante ao do papel encontrado junto ao corpo do deputado estava pintado na porta.
Curioso, Tomás não mais a largou. Depois do funeral, parou no Gambrinus, onde os dois ocupantes jantaram, falando baixo e num tom zangado, viu pelo esbracejar dum deles. Com o telemóvel, tirou umas fotos e mandou averiguar as identidades, todos tinham mais de quarenta anos e um usava um laço preto, como se fosse um maestro. Dali seguiram para um hotel, onde outro homem os aguardava no lobby, detendo-se a conversar um pouco e subindo para os quartos depois. Mal se retiraram, Tomás ligou a Eduardo, seu colaborador na PJ, que chegou em dez minutos e identificando-se pediu os nomes dos três. Eram os donos do hotel, informou acabrunhado o recepcionista. Daquele e de muitos outros, o Flamingo de Vilamoura também. Havia gato ali, mas por enquanto nada tinha de concreto.
Colhidas informações na Assembleia, ficou a saber que o discreto deputado Carneiro integrava a comissão de inquérito ao BPN, como vogal, Felício Borges, correligionário de bancada, lembrava-se de o ter ouvido certa vez ao telefone a falar com um tal Loureiro, e a garantir que ou viria um flamingo ou seria pior para ele. Requisitado o historial de chamadas, efectivamente havia entre os contactos um tal Abel Loureiro, a residir em S.Tomé desde o Natal. Perspicaz, teve uma ideia: adicionou sob nome falso o Libertador no Facebook e escreveu, sob o pseudónimo Albatroz: “Libertador, tenho o Flamingo comigo”. Do outro lado, ao fim de uns minutos, alguém entrou no chat: “Quem és tu, Albatroz?”, a que se seguiu “O dono do milho. O pobre do Milhafre ficou pelo caminho mas o voo do Albatroz há-de prosseguir…”. Continuando a dar conversa, o Libertador perguntou: “E onde é o poleiro do Albatroz?”. Aí, Tomás lançou o isco: “Na casa do Flamingo para uma bebida. Às cinco.
Às cinco da tarde, no bar do Hotel Flamingo, Tomás, de fato e gravata, simulando ser um empresário, aguardava com um gin tonic. Minutos depois, um, que reconheceu do hotel e do funeral apareceu. Desconfiado, cumprimentou, e mandou vir uma garrafa de whisky e cajus. Era Macário Teles, industrial hoteleiro. O inspector Tomás inventou uma narrativa: queria investir no Algarve, e o grupo do Flamingo pareceu-lhe de referência. O nome da cadeia fora-lhe sugerido pelo deputado Carneiro, que grande perda fora para o país. A invocação do nome do falecido deixou o Teles desconfiado e a tirar nabos da púcara:
-Conhecia o deputado Carneiro, senhor….
-Almeida. Almeida da Câmara. Sim, era amigo da família e tivemos negócios no passado. Grande fatalidade! Quem terá cometido um crime tão hediondo? E no sítio que foi…
-Pois é, ainda custa a crer. Ele foi meu sócio há uns anos, em Armação de Pêra, nuns prédios de apartamentos, depois meteu-se na política e só acompanhei de longe...
O telefone de Tomás tocou nesse instante, era o Eduardo, da sede, com informações frescas. Sorrindo, Tomás foi dando goles no gin enquanto Teles fumava um charuto. Terminado o telefonema, e mais incisivo, Tomás voltou à conversa com o seu interlocutor, desta feita mais incisivo:
-Diga-me, os senhores não fizeram esses apartamentos com dinheiro oriundo do tráfico de droga? E quando a sociedade se desfez não lhe ficou a dever dinheiro?
O outro ruboresceu, e antes que dissesse algo, Tomás sacou da pistola e identificou-se:
-Tomás de Oliveira. PJ!
Sem reacção o outro deixou-se estar, retorquindo com alguma calma aparente:
-Não sei do que fala, inspector. Não via o Carneiro há anos, e se quer saber, até dei dinheiro para a campanha dele por Faro, através do partido. Quanto ao resto, são especulações, quero um advogado, se não se importa.
Tomás chamou a brigada, levando Macário para a PJ. Somados dois e dois, chamadas telefónicas comprovavam um conluio entre Teles e Loureiro, a partir de S.Tomé, para se verem livre de carneiro. Aproveitando-se do novo posto, este chantageara Macário com uma queixa por fuga ao fisco, com documentos que provavam negociatas nos anos oitenta e das quais não recebera a sua parte. Na comissão do BPN, implicaria Loureiro, pois todo o projecto do Flamingo fora financiado pelo banco com dinheiro sujo duma off-shore em Gibraltar. Ao meter-se com quem não devia, pagava com a vida, o autor material fora um pistoleiro contratado, um brasileiro, disfarçado de administrativo, que o alvejou já só ele restava no hemiciclo. Acabou sendo preso no Meco, enquanto tomava uma caipirinha. Era Teles o Libertador.
Presos os responsáveis, Tomás, regressando ao local do crime, a dar conta das conclusões, viu no lugar do defunto o deputado que o substituíra: Porfírio Lopes, antigo negociante de carnes, ali para dar o corpo pelo partido, e se possível, por algum bife do lombo… Info-excluído, porém, não sabia usar o computador, nem tinha amigos no Facebook

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:15

02
Fev 12


1-Introitus: Requiem aeternum
Petrificados plátanos saudavam o cortejo, miserere mei, seguia para a eterna noite, oh glórias vãs, poderes etéreos, interrompidas esperanças. Estão Giotto, Guariento, Vitale, a Sacra Via de  suplicantes à porta dos Céus, impotentes corpos  servidos em tarde pascal. Chove nas almas, descansam os corpos, morri no dia em que se morre.
2-Kyrie
Confesso. Confesso, não vivi. Aqui vou, deitado, eu que já não sou, nós que não seremos, a Matilde chora por mim, preso neste corpo inerte, ah, um cipreste confortante, logo as almas sairão, fraternos patrulharemos angústias. E Deus, existirá? Ficarei à sua direita? Faz frio, arrefece. Voltem, não vão já, não me deixem, egoístas, de volta às vossas mortes diárias. É apertada a urna, falta  o ar. Cheira a flores, flores de morte.
3- Diez irae
Inicia-se a viagem, Anúbis barqueiro em silêncio maneja o remo, Matilde chora, bem vejo, porque levantarão o som, é o Inferno pela certa. E Jesus? Não está, regressou dos mortos, qual filme de Corman. São belos os quadros aqui, perfumados, olha, Brunelleschi, Fra Angelico, Donatello, Masaccio. Renascimento, lhe chamam, todos mortos, porém. Quando parará a barca?
4.Tuba mirum
Chegamos ao cais, miserere mei, misere mei, disformes embuçados carregam-me o caixão, será bom sinal? Vejo Matilde ao longe, acaricia-me em foto, porque não guiei devagar? É esquisita a morte, cheira a flores e cera. Dois homens riem naquela margem, chegaram agora, novos, discípulos do Cancêr, guerreiro da Morte.
5.Rex tremendae
Mandam-me erguer do caixão, que aguarde, à volta retábulos e dentro deles mortos, vivos, mortos-vivos, Van Eyck retoca um morto, e madonnas, muitas, florentinas, papais. Há vida também, caminhos para o Paraíso, olha a Vénus, Botticelli, Bellini, Verrochio. Os corpos estão desnudados, a mim desnudam também, pecador corpo suplicando por um lugar. Sim, são cicatrizes, muitas, cataterismos, acidentes de mota, não foi por eles que cá estou.

Ei-lo, o Redentor, Altivo, Castigador. Existe! Afinal existe! É como nos filmes, velho como o mundo. E agora, ajoelho, choro, que faço? Tirem-me daqui, quero comer, quero os meus amigos, já sei, daqui a pouco vou acordar e rirei a bom rir. Não vejo a Matilde agora, está escuro, toda a luz  recai sobre o Velho.
6.Recordare
Sim, é verdade. Matei rolas, indefesas. Bati no Alcides, coitado. Pequei, pequei, pronto. Pecados mortais? Todos. Bem, todos não, nunca tive inveja  do Antunes, coitado, só do Porsche. E a mulher do Brás, foi ela que quis...
7. Confutatis
Abre-se uma porta, estou nu e faz frio. Pronto, pronto, como queiram. Os quadros mais belos passam agora, olha o Bellini, Leonardo. O Leonardo, Deus meu, desculpa, Deus tu, é o paraíso por certo, com Leonardo só pode ser o paraíso, espreito ao fundo, parece Sintra, há castelos, e muitos anjos. Virarei anjo, sem sexo e com asas? Quando a Matilde me vir...
8.Lacrimosa
Passa um filme. Sou eu, é a minha vida. Olha, a avó Chica, tão frágil, o Zézito, coitado, morreu em África. Olha a Matilde, chora. O Velho nada diz, estuda-me, bem vejo. Deixem-me voltar, não sou daqui, as minhas lágrimas nada valem? Onde está a caridade? Afastem de mim este frio, tapem-me, torturem-me, mas deixem-me.
9.Domine Jesu
Afinal há mais gente. Jesus, o Nazareno. Como é magro, nos olhos o sofrimento do mundo. Olha-me, acaricia-me a cara, segue pela esquerda, sumiu. O Velho hesita, começo a ficar conformado. Sempre há os quadros, Rafael, mais Leonardos. Sublimes, imortais, perenes, serenos, gloriosos. Mandam que avance. É agora. Toca Mozart, ah Wolfgang, estarás cá também, salvo da abjecta vala onde te deitaram? Só pode. Volto a ver a Matilde, está bela, a dor torna as pessoas belas.
10.Hostias
O Velho baixou novo quadro. A avaliação está feita.Tenho medo, mas estou sereno. Oh, não pode, Michelangelo, a Capela Sistina, o camarote da Vida, será para mim?
11.Sanctus
Adão, Noé, Abraão, filhos de Israel, crianças do Darfur, os inocentes, estão cá todos. Vou entrar! Sanctus, Sanctus, acredito agora, desnudado entro, tocam tubas, repicam carrilhões, Matilde, Matilde, é Sexta Feira Santa, não chores, estava escrito. Olá, sou o Alberto, cheguei hoje, estagiário no Paraíso, aleluia! aleluia!
12.Benedictus
A imagem some no ar, entrei! Não eram graves os pecados, choro e rio, oh catártico quadro onde afinal morto revivo. Oh triunfo de azul, azul de Céu, azul dos teus olhos, Matilde, azul do nosso mar, salgado, só nosso. Estás longe, cada vez mais longe, mas posso escutar-te a respiração, clara e próxima.
13.Agnus Dei
Apagam as luzes lá atrás, qual passarola voo agora, criação de Michelangelo, em sistino paraíso sulco os Céus, rodeado de anjos, seráficos e louros da cor do ouro, como os serafins do antiquário em S.Pedro.
14.Communio: lux eterna
Adeus, Matilde. Ao morrer, vivo para sempre. Fala de mim ao André, é lindo o nosso filho. E quando tiveres saudades, abre o livro grande da sala. Lá estou, celestial sentinela e redimida alma, criatura de Michelangelo.
Fecham a porta do cemitério. Adeus, Matilde, até já…

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:58

30
Jan 12

Pedro Alcobia era um filho de Sintra, pároco de Colares em 2013 e bispo em 2017, em 2021 ascendeu a cardeal-patriarca de Lisboa, com página no Facebook e homilias no You Tube, a Igreja ao clique de um rato. Controverso, defendia que Deus é mãe e não pai, convicto de não se dever combater os cataclismos, a vontade divina poder nenhum deveria deter. Crente nas alterações climáticas como sinal do fim dos tempos, intransigente com o celibato e o preservativo, publicou mesmo um livro contra o antigo Papa Ratzinger, que apesar de doutrinador rigoroso, havia cedido ao agnosticismo.
Estava pois à medida do Vaticano. Avesso aos políticos portugueses, as suas homilias  na Sé eram gongórico pedaço de retórica, elogiadas no Osservatore Romano e em Lisboa atacadas pelo Partido Radical, que reunia antigos comunistas e bloquistas, fundidos em 2016, sob a liderança de Ana Drago.Foi assim que depois da morte de João XXIV, o ruandês Joseph Kizomba, vitimado pelo HIV, o seu nome começou a circular nos corredores da Cúria como papabile, o cardeal Pescatore, de Milão, apostava mesmo nele em SMS  e mails mandados aos membros do Colégio Cardinalício, que lhe respondiam com enigmáticos smileys.
Passadas as exéquias por Kizomba, começaram reuniões conspiratórias, os chineses queriam um Papa asiático mas os americanos apostavam em  John Scottdale, cardeal do Texas e director do Banco do Vaticano. Com ele o rating da Santa Sé subira e Deus ajudava, abençoando as acções do Nasdaq, principal receita da Cúria. Mas europeus e latinos preferiam o português, paladino dos princípios e punidor dos desvios.
No dia da abertura do conclave, o cardeal Alcobia levantou-se às sete, orou e leu os mails, antigos paroquianos  de Colares enviavam twits para que o seu pastor se sentasse na cadeira de Pedro. De seguida, juntou-se aos eleitores na missa Pro Eligendo Papa, em S. Pedro, para em procissão, se dirigirem à Capela Sistina e dar início à eleição, o Espírito Santo iluminaria os cardeais.Interiormente, Alcobia ambicionava o lugar, místico, queria devolver Deus a um mundo profano, assolado pelo hedonismo e secularizado. Adepto da selecção natural, para si, o deus da paz também o seria da guerra aos inimigos da Igreja, descrentes que  conduziam o mundo a partir de Pequim, a potência mundial desde que a União Europeia acabara em 2015. Já na Capela Sistina, olhou Deus criando o mundo no azul celeste do fresco de Miguel Ângelo, e viu-se a si no topo, o anel do Pescador no dedo, a Nova Cruzada em embrião. Todos sentados, o camerlengo proferiu o ritual extra omnes, momento para os estranhos abandonarem a Capela Sistina. Vítor Godinho, o secretário do cardeal, aguardaria no gabinete, Alcobia dera instruções.
Depois dos rituais, votaram os cardeais mais idosos e depois os demais. O primeiro escrutínio deu 45 votos para o cardeal de Xangai, 35 para o de Lisboa, 7 para o de Palermo. O chinês sorriu, simulando surpresa com o resultado, o lobby asiático funcionava. Como não foi concludente, os votos foram queimados, foi negro o primeiro fumo na Capela Sistina. Nas três votações seguintes, o mesmo se repetiu, e o primeiro dia terminou sem que Roma conhecesse um novo Papa. Nesse período, entretanto, misteriosas mensagens surgiram nos aposentos dos eleitores, referindo “ É Pedro o herdeiro de Pedro, Peregrino da Cruzada”.
Ao quarto dia, em silêncio, repetiam-se os procedimentos sem fumo branco. Já havendo conversado entre si sob pseudónimo no Facebook, os cardeais decidiam finalmente. Lidos e contados os votos, Pedro Mendes Alcobia, antigo pároco de Colares e Cardeal-Patriarca de Lisboa, recolhia os dois terços necessários, o Espírito Santo finalmente iluminara o coração dos eleitores. Alcobia, de olhos cerrados, rezava, perante o facies amarelecido  do cardeal chinês. O Cardeal Diácono foi até ele e perguntou-lhe, solene:
-Reverendo Cardeal, aceitas a tua eleição canónica como Sumo Pontífice?
-Aceito, em nome do Senhor - respondeu, simulando indecisão e sacrifício.
-Como queres que te chamemos?
-Pedro. Pedro II -anunciou, sem hesitações.
A escolha do nome provocou um arrepio na sala, seguido do silencioso acto de obediência, com os cardeais prostrando-se e osculando-lhe o pé direito. Fumo branco saíu finalmente da chaminé, para gáudio dos fiéis em S. Pedro. Meia hora depois, o filho de um desenhador da Câmara de Sintra e de uma operadora de call center tornava-se o 268º Chefe da Igreja Católica e Vigário de Cristo na Terra. Em S. Pedro, apinhado de gente, urbi et orbi, o cardeal de Varsóvia proclamou o novo Papa:
-Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam! Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum Petrus, Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem qui sibi nomen imposuit Petrus Secundo.
Pedro Alcobia olhou a multidão e abençoou-a, solene. Uma trovoada, súbita e molhada, tombou tonitruante nos céus de Roma. Em Colares, onde a população eufórica se juntara frente a um ecrã gigante na Adega Regional, Virgílio Penaguião, blogger de temas esotéricos, interrompendo um post sobre o abate dos plátanos  e aumentando o volume da televisão, correu a buscar um livro na estante. Uma antiga profecia atribuída a S.Malaquias, bispo irlandês do século XII, falava de Petrus Romanus, o último dos Papas, que iria "alimentar suas ovelhas em muitas tribulações" e no "dia da perseguição final ".
Enquanto em Roma debaixo de borrasca diluviana Pedro Alcobia era aclamado pela multidão, os telejornais abriam emissões especiais  noticiando o lançamento de mísseis balísticos a partir de Pyongyang, um destruíra já o USS Obama, porta-aviões americano estacionado no Índico. Os dias do fim iam começar.



publicado por Fernando Morais Gomes às 19:54

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