por F. Morais Gomes

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Out 10

A Santa Catarina de Ribamar partiu de Goa para o Reino a 17 de Março de 1635, sob o comando de D.Luís de Castanheda de Vasconcelos. Deveria ter levantado ferro em Dezembro, mais propício a passar sem moléstias a monção no Cabo e depois as calmarias da Guiné,mas  o vice-rei insistiu em retardar a partida para que o capitão de Ceilão, D. Jorge de Menezes, de regresso a Lisboa pudesse embarcar nesta carreira, junto com a esposa e filhos, para assumir o governo de S.Paulo de Piratininga, no Brasil. Só a 26 de Fevereiro D.Jorge chegara a Goa, os tratos com a feitoria de Cochim para o embarque da pimenta estavam igualmente atrasados.

Em dia calmo, finalmente embarcaram as 470 almas e escravos, o padre pregador da Ordem de S.Agostinho, o provincial da Companhia de Jesus, capitães e oficiais da Casa do Rei, de regresso, fartos carregamentos. 700 toneladas de poderio comercial português apoiadas por 30 canhões de bronze,  150 soldados,  44 marinheiros, 17 artilheiros, 30 grumetes e 10 pajens sob as velas latinas de Portugal, por essa altura tutelado em Madrid.

A viagem correu de feição até Melinde, panos em cima e velas de gávea, em Sacotorá carregaram víveres e biscoito, águas quentes no Golfo de Ormuz.Naus holandesas nem uma, algum vento forte em Mombaça.

Farta era a carga. Para cima de quatro quintais de pimenta, no corpo da nau, debaixo da ponte e na tolda, caixões de fazendas por todo o lado, junto ao batel e mesmo junto ao cabrestante, tintas de tingir, canela de Damão, de sorte que as velas mal podiam ser mareadas, a cobiça dos homens poderia saír cara.

Passadas as águas austrais, cinco mortos do mal de Luanda, escorbuto purulento, tombaram numa só semana, iam já quatro meses de viagem e mais de quinze a bordo padeciam de moléstias próprias do clima, o provincial dos jesuítas rezava para afastar o enjoo, os tratantes cuidavam pelas suas mercadorias, que chegadas a Lisboa logo seguiriam para Antuérpia e Bruges, passado o crivo dos funcionários régios na Casa da Índia.

Á passagem de Fernando Pó tomaram precauções, pois os holandeses espreitavam, sagazes. D.Luís montou um dispositivo de defesa e nomeou Samuel Saraiva para o convés,Filipe Araújo para a proa e João Afonso de Aguiar para a tolda. Além das trinta peças de bronze, 8 canhões de sessenta quintais que atiravam pelouros de vinte e quatro libras de ferro coado reforçavam a defesa. D.Pedro Hilário de Angra, coadjutor militar, mandou limpar os mosquetes e arcabuzes e fazer turnos de vigia. As águas permaneciam pacíficas, porém, holandeses só mais para as costas do Recife.

Passados eram sete meses e três semanas de viagem, a Mina à vista, logo Mazagão e finalmente mais uma carreira das índias preparava-se para arribar em calmaria a Lisboa.

Entrava Novembro quando avistaram o promontório da Roca, na costa de Sintra, o destino a poucas léguas. Mar alteroso, nortada fria, chuva furiosa para os lados de Alvidrar. D.Luís, inquieto, mandou baixar as velas, percebendo uma revolta anormal naquele mar soez, que nem no Cabo das Tormentas se havia até então sentido, sacudindo a pesada embarcação, carregada das mercadorias que a ganância permitira.

Após forte borrasca, começou a abrir fendas pelas picas e delgados da popa, descosendo-se por vários lados, cuspindo a estopa e calafetado. Vários caíram ao mar, logo se afogando por não saberem nadar, a mulher do capitão de Ceilão Ana Telles, rezando, agarrada aos filhos, alguns ratos fugidos do porão serpenteavam pelo convés.

Em desespero, D.Luís mandou aliviar a carga e caixões de fazendas foram arremessados borda fora, os canhões rolavam desgovernados num baile tétrico, qual castigo de deuses orquestrado pelo Olimpo. A distribuição da carga não ajudava a equilibrar o navio, a quilha apresentava o desgaste de muitas monções e baixos de água nas praias do Índico. O porão, carcomido pelas algas e águas chocas, exibia fragilidade, capturado pelas águas invasoras.

Após duas horas de tormenta, qual frágil cesto de fruta, despedaçou-se o navio almirante contra as rochas. Pouco faltava para o nascer do dia de 2 de Novembro quando a natureza capturou a sua presa, num  cenário de gritos impotentes, corpos a boiar, fazendas despedaçadas, o madeirame a quebrar contra as escarpas alcantiladas da Roca. O mar  estava roxo  e negro o céu.

O capitão-mor, quebrantado, morreu ao passar pelo convés, no arrebento do virador, desandando o cabrestante com tanta fúria que, alcançado por uma barra, logo morreu.Apenas quinze esfarrapados e esbugalhados infelizes arribaram à Adraga e Alvidrar em restos de tábuas flutuantes.

O Santa Catarina de Ribamar repetia o fado do Nuestra Señora de la Concepcion, naufragado na Praia das Maçãs em 1620,retornado de Porto Rico, e do Nuestra Señora de la Encarnacion , que Pedro Rebolo perdera entre a Roca e Cascais em 1611. Aquele Adamastor, que escorria os medos do mar sem fundo, atacava uma vez mais,frio e gélido, nos penhascos de Sintra.

publicado por Fernando Morais Gomes às 00:08

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