por F. Morais Gomes

20
Out 10

2h30 da manhã, urgência do Amadora-Sintra, sala branca e sem graça, cadeiras desconfortáveis, pessoas provisoriamente sentadas à espera da romagem para o balcão seguinte, burocratas da doença, mangas de alpaca da água oxigenada, sempre sempre ao lado da vinheta e da credencial.

O segurança vai dizendo que só pode entrar um familiar, enfermeiras assargentadas olham os doentes como bife do acém em matadouro. Sangra? Gabinete nº 2 porta esquerda, a doutora vem já, tenha as análises à mão. É da ADSE? Cartão, por favor. Não, este não, que já caducou. E sempre o cheiro a álcool etílico e as macas de tinta raspada, velhos seminus deitados em impessoais marquesas esperando o milagre duma aspirina ou duma atenção.

3h30m, alguém vem tirar a febre, siga para a  sala de tratamentos, o enfermeiro fuma um cigarro e faz gracinhas com a colega,ausente, soslaio sobranceiro sobre o utente, deve ser mais um que  gosta de vir chatear à noite, a família não o quer em casa. Muda o turno dos enfermeiros, o meu colega não me disse nada, não, é melhor ir tirar a febre de novo, sala 3,  senha 19.

Espera de novo na sala branca com cheiro a água oxigenada. Na TV passa o Dr.House, aqui não há médicos desses, resmunga um careca desdentado,passou um parecido coxo ,mas velho e feio,o doente da série morre, e eu? As dores não passam, o ar sofrido de quando se vai aos hospitais ,espera-se, trânsito cadenciado dos que entram com a dor na cara e saem com um papel na mão.

4h30m,sala de espera, uma senhora de meia idade e um filho  adulto esperam novas do marido e pai, caíra na sala, talvez AVC, tinha a tensão alta, disseram, a fábrica ia fechar e os descontos não dão para viver, há a  prestação do carro para pagar. Uma hora lá para dentro, nada de notícias.A máquina das águas está avariada, comeu a moeda.

Finalmente um médico, barba de três dias, desfraldado, mais um, é a rotina.

-Familiares de João Silvestre?-olhar agastado, burocrático, duas noites de banco seguidas.

-Sim, sou a esposa.O meu João está melhor sôtor?

-Tenho más notícias. O seu marido infelizmente não aguentou, os meus sentimentos.Despacha célere, um acidentado no IC-19 jorra sangue e tripas na cirurgia.

Choro tonitruante, o filho agarra a mãe, o hospital solidário, nós a seguir se calhar, calha a todos, isto quando começam a mexer.

Um copo de água com açúcar, um calmante depois,respirava saúde, notícias, há autópsia?, choro convulsivo, mundo a desabar.

O filho aborda a enfermeira no guichet, outra já, mudara o turno.

-Quando pode vir a família levantar o corpo?-arrisca, dor contida, o  filho-homem agora chefe de família.

Um olhar  seco,em silêncio. Nome completo?

-João Almeida Silvestre

Computador, consulta rápida ao armazém de pacientes feitos números.

-Esse senhor está na radiologia à espera de ser visto, ainda leva uma meia hora.

Estupefacção,surpresa, alegria,ao menos um final feliz. Que não, o falecido era o João Gomes Silvestre, acontece, trabalhar em stress, agora com os 5% a menos nos ordenados, acontece, anda tudo com com a cabeça fora do sítio, ai ,ai…

Abraço ao Lázaro ressuscitado em Queluz,parece impossível,isto só cá, emoções fortes na noite, uns analgésicos, quinze dias de baixa, depressão nervosa, repouso absoluto.

Á saída, já táxi chamado para a Abrunheira, uma enfermeira correndo atrás até junto da porta

-Senhor João Silvestre! Por favor!

-Sim,aconteceu alguma coisa?- os três detendo-se, noite de surpresas.

-Faltam os dois euros e quarenta e cinco da taxa moderadora. Está coberto pela ADSE?

publicado por Fernando Morais Gomes às 08:39

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