por F. Morais Gomes

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Out 10

Arnaldo raramente ia à praia, vivia enfiado naquele sótão da casa na Rinchoa onde escrevia  poemas que ninguém lia, tesouro da sua gaveta, confessionário dum ser torpedeado de inseguranças e fantasmas. Existia sem viver. Naquele dia, depois da consulta no hospital e a notícia de um fim próximo, tabaco fazendo das suas, sentiu a necessidade de estar perto da água salgada, sentir o cheiro límpido do iodo. Aterrara naquela esplanada da Praia Grande num turbilhão de whiskies duplos. Ninguém nos ensina a morrer, mas a verdade é que todos os dias da vida são intervalos que a morte nos concede.

Um cancro no pulmão intrometia-se, convidado indesejável. No início a surpresa, a hipótese do engano, a segunda opinião. Depois o desespero, presença insuportável, lágrimas, mágoa, as dores como companheiras mais chegadas. Estava só, naquela morte de viver, os livros que nunca editara, tudo comprometido por um corpo frágil e tangível, qual anjo caído, pecador, mergulhado em culpas secretas a quem iam faltando asas para voar. Exaurido do mundo, exaurido de si, talvez finalmente descansasse.

Antevia já a campa inerte onde poucas flores lhe iriam levar, uma lápide burocrática e igual a todas as outras, ninguém para lembrar a obra desconhecida por editar, só aquele solitário funcionário do registo civil a escrevinhar em guardanapos de papel na mesa do canto da leitaria do bairro as obras- primas da sua gaveta secreta,fumando os religiosos três maços de cigarros diários. Agora acendia mentalmente o cigarro e fumava com a imaginação, comprara um isqueiro de plástico. A quimioterapia fazia das suas, os cabelos cada vez mais agarrados ao pente, tosse purulenta, olhos inchados.

Uma vez mais pegava na caneta e no guardanapo de papel e ensaiava um testamento, requiem dos bens que não tinha para uma família que não existia. Quando tudo acaba não sabemos ao certo o que devemos pensar, há a tentação de escrever para imortalidade. Redigiu umas linhas, levantou-se, passeando no areal, um trilho de pegadas na areia molhada.Ignorou o médico, e fumou um dos cigarros assassinos, o mal estava feito.

No dia seguinte, a roupa foi encontrada numa rocha, o corpo nunca apareceu. Um empregado da esplanada, limpando as mesas, deu com um pequeno papel amarrotado dentro de um cinzeiro. Curioso, foi ler.”Hoje começa o dia de amanhã”.


publicado por Fernando Morais Gomes às 00:45

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