por F. Morais Gomes

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Out 10

A peleja durava já há várias horas naquele Janeiro frio de 1659.O nevoeiro dissipara-se,Elvas há três meses que sofria o cerco dos homens de Don Luís Mendes de Haro, primeiro -ministro espanhol, mas naquele dia 14 os acontecimentos precipitaram-se e o chamamento do sangue soou mais alto.

Havia 19 anos que os Braganças haviam reconquistado o trono português, mas nunca no terreno o ocupante espanhol o havia reconhecido,o Alentejo   batalhava pelo Reino sob o comando do conde de Cantanhede .Na frente, mil homens escolhidos levando, além das suas armas faxinas  para cegarem os fossos, comandados pelo general Diogo de Figueiredo.Três mil infantes  eram comandados pelo conde de Mesquitela e André de Albuquerque Ribafria e outros dois mil pelo sargento-mor Manuel Mendes Leitão. De reserva, outros dois mil, às ordens de Pedro de Lalande.

 

A artilharia, comandada por Afonso Furtado de Mendonça, ocupara posições perto de Amoreira, donde batia eficazmente o campo de batalha. Oito mil bravos, ao todo, decidiam pelas armas a independência dum reino há várias décadas amesquinhado.A sorte das armas cedo virou para o lado dos portugueses, cortando os homens de  Diogo de Figueiredo as linhas auxiliados pelos terços do conde de Mesquitela. Um dos fortins já estava tomado, e pela brecha foram entrando forças que tomaram posição no interior, pressionando as s tropas espanholas  sobretudo nos fortins.

 André Albuquerque de Ribafria, 4º alcaide de Sintra sobressaía no campo de batalha. Compleição rija, barba afiada em forma de sabre, hábil manejador das armas, era uma lenda no lado do inimigo,qual  Nuno Álvares, respeitado pelos pares, idolatrado pela soldadesca, histórias a roçar a lenda corriam pelos botequins e tabernas .Orfão aos 13 anos, criado pelo conjurado D.Antão Vaz de Almada, treinara-se na arte das armas naquela familiar serra de Sintra, desconhecedor do perigo, desafiador, caçando com seu irmão Pedro, sob o olhar venerável do pai,Gaspar Gonçalves da Ribafria, terceiro na lista de alcaides de Sintra iniciada em 1556.Com 17 anos combatera os holandeses no Brasil, aos 18 ascendera por herança à alcaidaria que fora de seu pai e seu avô.General aos trinta anos, com muitos anos de serviço no Alentejo, em transe cavalgava, raiva entre dentes, coração puro de português. Com o conde de Mesquitela comandava a mais enérgica linha de homens:

-A eles, soldados!É Elvas ou o céu!-gritava, bramindo a espada, o cavalo rodopiando num bailado bélico.

Ribafria, corpo marcado por sequelas do tropel, tinha sofrido ferimentos na cara em Arronches, pisado no chão de batalha por duas cargas de cavalaria e quase dado como morto.

-O Forte da Graça já é nosso,vamos em apoio de Lalande, general!-sugeria  o conde de Mesquitela, mais estratega e cerebral.

Os soldados agigantavam-se sob o comando inspirador de Ribafria, um chefe natural, que sabia recompensar os seus homens, mas também castigar os que se lhe opunham.

Adiantando-se, exposto numa zona mais alta da planície, ficou alvo fácil dos de Espanha. Don Luís de Haro, que do cavalo comandava na retaguarda , ordenou o abate de tão valiosa presa cintilando no horizonte.

Levantando um braço para repelir um peão, depois de ter posto termo a outros dois, uma  bala assassina entrou-lhe pelo sovaco, não protegido pela couraça. Os olhos ficaram turvos, o corpo mole, logo tombou desgovernado do cavalo. Em seu encalço foi Jorge da Franca, que lhe seguia na peugada, e que arrastou o corpo ainda vivo do herói de Arronches para junto de um sobreiro.

-General,está ferido?

-Não é nada, Jorge-sorriu, passando a mão pelo braço estilhaçado, logo poça de sangue alastrando-Nossa e livre será Elvas ainda esta noite, bom amigo!

-Vou chamar um físico, há que tratar esse braço sem delongas, general!

-Não, deixa- retorquiu, já empalidecendo.-Diz a Afonso Furtado de Mendonça que finda a batalha envie um homem a meus domínios de Sintra, e diga a meu feitor que um português que nunca temeu nenhuma espada, senão a da justiça, tombou em honra esta tarde.

E cerrando os olhos deixou-se partir lentamente. O cavalo, nervoso, relinchou, cúmplice, agora órfão do companheiro de muitas planícies naquele Alentejo restaurado.

Caída a noite, o cheiro a morte atravessava os ares. Elvas estava liberta, os espanhóis recuavam, dos dezoito mil, menos de um terço sobrevivera e humilhados recuavam para Badajoz. Pouco tempo mais haveriam de durar as correrias entre os exércitos rivais, os Filipes dobravam perante a rebeldia dum povo orgulhoso.

O cadáver de André de Albuquerque foi levado para Elvas onde esteve exposto na Igreja de S. Maria de Alcáçova, e daí, com pompa militar, foi levado a sepultar na Igreja de S.Francisco dos Capuchos, no dia 16 de Janeiro. Morria o Homem, nascia a lenda do mais bravo dos Ribafrias.


publicado por Fernando Morais Gomes às 21:00

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