por F. Morais Gomes

31
Out 10

Maria Emília tinha sido despedida da fábrica, um marido em cadeira de rodas depois de uma queda da grua e um filho autista, não se pode dizer que a vida houvesse sido generosa consigo. Antes jovem ingénua, esperanças numa carreira de professora de música, terminara numa fábrica de fogões, trabalho rotineiro, sórdido, sempre igual, sempre mal pago, agora fechara, três meses de salário em atraso e as contas acumulando-se na mesinha do corredor.

Morava numa casa em mau estado que o sogro lhes havia deixado em Lourel, aziaga terra encravada entre dois cemitérios, costumava dizer nos dias de maior depressão. Ainda se lhe saísse o Euromilhões!. Fielmente jogava todas as sextas- feiras os seis euros do costume, mas a sorte nunca lhe sorrira, pão de pobre quando cai no chão é com a manteiga para baixo, dizem os brasileiros e com razão, pensava.

Naquela sexta feira como habitualmente jogou os seis costumados euros no café do Baptista, guardado religiosamente o mágico papel seguiu a tratar do jantar e do marido.

No dia seguinte ao sorteio procurava sempre os números e as letras no Correio da Manhã, invariavelmente mais uma semana de decepção, seis euros perdidos , sexta-feira há mais. Procurando o registo não o encontrou.Cartões, facturas para pagar, o passe, nada! Deixá-lo, não ia sair de qualquer maneira. Lembrou-se que por uma vez  tinha jogado tudo com números seguidos 6-7-8-9-10, estrelas 4 e 5.

Foi ao pão e pelo caminho passou pelo quiosque do Silva, dando uma olhada ao jornal a consultar a chave da semana, sempre na última página. Números premiados 6-7-8-9-10, estrelas 4 e 5, a televisão anunciara dois  premiados, um em Portugal outro na Bélgica, cinco milhões para cada um.

Quase caiu de apoplexia! Não podia ser, eram os seus números!!.Perturbada esvaziou a mala vezes sem conta, a carteira, as gavetas, até o contentor do lixo lá da rua. A sorte por uma vez passara à sua porta e nunca iria ver um cêntimo daquele milagroso dinheiro que mudaria a sua vida, financiaria um negócio, a fisioterapia do marido.

No dia seguinte era feriado, Dia de Todos os Santos. Pela manhã, rebanhos de miúdos ruidosos, saco de pano na mão, corriam as casas e cafés do Lourel pedindo Pão-por Deus, ancestral ritual na busca inocente da romã língua de gato ou chocolate que vizinhos bondosos e ainda não massificados pela selva urbana anualmente repetiam de geração para geração. E lá iam porta em porta, os mais velhos guiando os mais novos, tocando as campaínhas , repetindo a cantilena mágica que abria a porta dos presentes naquela espécie de Natal antecipado. Pão por Deus! Pão por Deus!

Filipe e o irmão, Joãozinho, pela mão,lá seguiam, a mãe deixara-os ir sozinhos, apenas  pelas redondezas, vejam lá, ruas com pouco trânsito, ao meio dia em casa.Saco quase cheio, bateram à porta da Maria Emília, mais três casas e já terminariam a jornada, para o Joel seria o último ano, já ia nos treze,  era tempo de passar o testemunho.

-Pão por Deus! -gritaram, quase cantando, os cães da vizinhança ladravam perante a desusada peregrinação porta a porta. Maria Emília, prostrada, ainda em transe pela calamidade do Euromilhões, nada contara a ninguém, quase a entrar em depressão queria era sossego e silêncio.

-O que querem daqui? Julgam que isto é a Mitra? Tomara eu ter para mim quanto mais para vocês estragarem!  .Os vossos pais que vos dêm!-retorquiu mal humorada, roupão e cabelos ainda por pentear.E se não se vão já embora largo-vos o cão, vão ver!

Mulher chata, pensaram.Pronto, minha senhora, já vamos embora!

À saída do quintal da vivenda velha, jardim desprezado, Joãozinho deparou com um papel esbranquiçado ,  um extracto do multibanco como os que vira ao pai, pensou, mal se via, jacente  atrás dum vaso  quebrado com malvas. Na inocência dos seus oito anos não identificou o que seria, mas deu para chamar a Emília ainda à porta ,esperando que saíssem e deixassem o portão fechado.

-Oh minha senhora.Quer que lhe ponha este papel no lixo? -perguntou, inocente

-Qual papel? c’um raio, nunca mais se vão embora!-,arengou.

Isto! -e correu a entregar.

Milagre de todos os santos! Era a premiada chave do Euromilhões, aqueles mágicos números e estrelas que a Europa  procurava, os cinco milhões de felicidade.Maria Emília, olhos esbugalhados, soltou um grito entre a emoção e o espanto.

-Virgem Santíssima!Ai meu Deus, que me dá um enfarte!Alberto!Alberto!

Joãozinho  não entendia aquela algazarra, não só não dava nada como era maluca, pensou ,e já se afastava a ter com Filipe, a ronda do Pão por Deus estava quase completa.

Emília junto à porta abraçava o marido, a quem finalmente contara o sucedido, ria e  chorava num chorrilho de emoções incontroladas. Vendo o pequeno João  já a sumir na esquina , correu em seu encalço.

-Ó meu filho, vem cá,não te vás embora! .Deu-lhe dois, quatro beijos lambuzados e correu à cozinha, onde três pacotes de bolachas, uma tablete Toblerone e o Mikado do filho voavam já para o saco de pano repentinamente pequeno.

-E para a semana vem cá ter comigo ouviste? Já tens uma Playstation?

Maria Emília e o marido moram agora numa vivenda em Colares, jardim bem tratado pelo senhor Isidro.O marido montou um negócio de informática, já foram a Palma de Maiorca de férias. Fizeram uma doação para uma associação de crianças autistas, o pequeno João tem agora uma conta bancária que um dia lhe pagará a universidade. O resto é para assegurar o futuro.

Um pequeno papel branco pode mudar o papel de muitas pequenas vidas. Para o ano, e por alguns anos ainda, lá estará o pequeno João com o saco de pano patrulhando as casas daqueles pais natais sem barba branca, enchendo sorridente o saco de mágicas línguas de gato e coloridos rebuçados, tesouro conquistado proferida a senha mágica. Pão por Deus!

 


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:03

Viva a esperança! Bela história! Estava a precisar de ler uma coisa assim....
Joel Canavilhas a 31 de Outubro de 2010 às 14:38

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