por F. Morais Gomes

07
Nov 10

A sala estava engalanada, profusão de flores, orgulho dos jardineiros que todo o mês andaram numa azáfama para o grande momento do ano em Sintra: a noite das Camélias. O visconde de Asseca, o capitão Américo Santos, o presidente da câmara, Joaquim Fontes, Medina Júnior, Rui Cunha, todos compareciam mais as senhoras e as meninas casadoiras.

Nesse ano de 1959, o visconde de Asseca, representante da União Nacional em Sintra ia receber a irmã de Isabel II, a princesa Margarida, pelo que decorriam obras na Quinta de  S.Sebastião, era ano de círio da Senhora do Cabo em S. Miguel onde seria juiz da festa, um ano em cheio.Homem alto e altivo, fora visita em Versailles da rainha D. Amélia nos anos do exílio e sua ligação privilegiada desde que a condessa de Seisal falecera, de provecta idade.

O locutor, Amadeu José de Freitas, convidava os pares para mais um bolero, rumba ou valsa, alguns temas de Frederico Valério, Tavares Belo, e a orquestra excedia-se, ritmada, congas e matracas da moda na festa do ano. Os mais velhos falavam da política,reverentes, exaltando as obras públicas do governo.Fora o ringue novo do hóquei, o matadouro, o apeadeiro da Portela, o bairro económico de Queluz.A política de fomento do ministro Arantes e Oliveira chegava a Sintra a bem da nação.Mais um discurso, uma inauguração, uma lápide, o progresso em ritmo de jantares e homenagens a tantos beneméritos e filantropos.

Olavo Moreira, licenciado em direito, era secretário do visconde e   naquela noite estava particularmente atento a uma corista brasileira que conhecera numa revista do Maria Vitória e que Humberto Madeira lhe havia apresentado no Maxime semanas antes, quando fora a Lisboa a um jantar na Casa do Alentejo.Uma bebida com um procurador da Câmara Corporativa e a noite de Lisboa fez das suas. Letícia, riso malicioso, já conhecia aquelas mãos, e sobretudo a carteira, e disfarçava um trocar de olhares com o promissor advogado num canto da Sociedade União Sintrense, onde era suposta acompanhante do actor Humberto Madeira, estavam os dois na peça de Giuseppe Bastos no Maria Vitória.Madeira, sempre sorridente, contava uma história, um trocadilho, e de soslaio ia-lhes  lançando olhares, ele altivo, olhar de gavião, Letícia, lânguida, com um vestido de chita colorido, maracujá apetitoso na noite fria de Sintra.

Às tantas ,Olavo inventou uma indisposição e saiu em direcção do Hotel Nunes . O gerente do hotel era próximo, amigo do visconde e, cúmplice, logo lhe mandou entregar a suite rosa. Entrou e esperou, pediu uma limonada e girou pelo quarto, mirando o vale fronteiro. Ninguém o vira entrar, uma providencial nota de vinte escudos traria amnésia  ao porteiro do hotel.

Letícia chegou minutos depois. Lançou-se nos braços do pujante Olavo, e lentamente tirou-lhe o casaco, o colete, a cigarreira de prata, um batôn vermelho cereja pintalgava já a face alva do jovem bacharel, ali estava uma doce camélia ao seu dispor.

Já animados se abraçavam quando tocaram à porta, um toque seco e cadenciado:

-Quem é? -perguntou,maçado, mandando que Letícia se não mexesse.

-Um recado urgente, senhor doutor! Está aqui um senhor de Lisboa para falar consigo! -a medo respondeu o porteiro da noite.

-Comigo, aqui? - compôs-se, escondeu Letícia no canto do roupeiro e foi  ver.Era Arménio Raposo,agente da PIDE,colocado em Sintra, a quem a escapadela não passara despercebida.Em Lisboa seguira-o, havia ordens de discrição, o visconde era uma figura destacada do regime, nada de escândalos, castidade e abnegação, chefes de família devem ser exemplos de virtude.

-Sr doutor…Não queria incomodar, mas….Sintra, sabe, é tudo muito pequeno. Ainda se fosse o Estoril…-insinuou a figura, gabardina enxovalhada, chapéu de feltro, bigode farto e bem aparado.

Olavo ficou furibundo.-Você aqui? Como se atreve? -disparou, altivo e desafiador. Quer que o senhor visconde fale com o seu chefe de brigada, e o mande para os Açores fazer guarda aos cachalotes? -ameaçou.

-Eu se fosse a si não fazia isso…-e exibiu uma foto dos pombinhos no Maxime, champanhe purificador ao lado…-O senhor ministro  podia ficar incomodado, e nós não queremos por nada deste mundo que aconteça alguma coisa a quem colabora com uma das famílias mais ilustres de Sintra, pois não?...

A armadilha estava montada. Vestiu-se, irado, despachou Letícia num carro de praça para a capital, e voltou ao baile, a pé. Raposo seguiu-o e discreto  encostou-se ao  bar, onde pediu um copo de vinho. Por essa altura já o álcool fazia das suas entre os convivas, o capitão Américo Santos contava histórias do seu regimento, em Macau, no bar senhoras balzaquianas  já rubras e afogueadas pediam capilés de salsaparrilha.

O visconde, que trocava impressões com duas senhoras do seu grupo de canasta, estranhou a longa ausência  do secretário e procurou-o, curioso.

-Olavo, onde foi numa noite destas? O Provedor da Santa Casa queria dar-me uma palavra, queria que estivesse presente..

-Nada de especial, senhor visconde. Fui atender um telefonema, era o Pavão por causa das obras no apeadeiro da Portela, sabe, os empreiteiros…- e despachando a conversa, pediu um gin, já falando com o prof. Fontes,  o velho presidente a quem elogiou a obra e como magnífico ficara o  novo ringue do Hóquei no Parque da Liberdade depois das obras. O baile continuou, uma hora depois os viscondes tornavam ao remanso de S. Sebastião e Olavo à casa dos pais, abastados comerciantes, fortuna feita com o volfrâmio durante a guerra.

Uns  dias mais tarde, o agente Raposo era alvo de um processo disciplinar.Supostamente tinham desaparecido dum cofre da PIDE os abonos para falhas, o fundo de maneio diário, e o Mesquita e o Roldão, agentes de 2ª classe, juravam tê-lo visto a levar o dinheiro numa mala de couro castanha. A carteira com a valiosa foto havia sumido num aperto de convivas meio ébrios, colegas de curso do dr.Olavo perto do bar na noite do baile das camélias, não dera por nada.Mais tarde  a carteira apareceu, mas sem foto, no fundo da Fonte da Sabuga. Acabou em Elvas, depois duma suspensão de um ano, num rotineiro posto fronteiriço fiscalizando refractários ao serviço militar e contrabandistas da raia.

Um ano depois, no baile de 1960,de novo acompanhando o visconde de Asseca , Olavo Moreira lá compareceu em mais uma noite das Camélias. Desta vez Letícia não foi, tranquilamente aguardava-o numa vivenda na Rinchoa, vinho servido e  velas acesas esperando uma tardia ceia, camélia suplente no baile da vida. Uma foto dos dois no Maxime decorava o psyché do quarto junto à caixinha das jóias que ele, agora  novo administrador do matadouro e membro em ascensão na União Nacional, regularmente  acrescentava com gargantilhas de amor e anéis de paixão...


publicado por Fernando Morais Gomes às 08:45

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