por F. Morais Gomes

09
Nov 10

As tardes desmaiavam invariavelmente nos tons do amarelo  bordejado a branco daquela cerveja redentora que lhe anestesiava os dias intangíveis, iguais,apodrecendo melancólico na mesa do canto do bar do Chico.

Tudo desabava sobre Zé Beto, vinte sete anos, cabelo ondulado. Ficara sem trabalho na oficina de torneiro do Rodrigues, levava seis  rotineiros meses na bicha  matinal do Centro de Emprego em Sintra.Não era exigente, duzentos euros para a renda da casa na Coopalme e as fraldas da miúda de oito meses, fruto da relação com a Filipa, o resto se veria. O Chico do bar no Algueirão Velho ia pendurando as cervejas na conta já amarelecida, o Manel da mercearia dava um jeito, tudo malta da criação, companheiros de copos e de sábados à noite, a malta safava. Invariavelmente mais uma dose de fiambre com ovos, um cachorrão no Vicente com ketchup e batata palha, sobrevivia sem vida. Separara-se da Filipa há dois meses, homem novo na costa, sentia-o pelas evasivas à noite, sempre cansada, querendo dormir.

Chegava o Rui, jogavam um snooker soporífero para distrair, mais umas bejecas para couraçar a alma perdida num pântano de incertezas. O Rui também andava mal, ia para trinta anos, a mãe já não o aguentava em casa sempre bêbedo, derrotado de si próprio, arrastando-se pelos cafés, iludindo a infelicidade com o excesso de álcool. Miúdas, era tudo fortuito. Sem grana um gajo não vai lá, meu!- dizia revoltado para o amigo, alma gémea da malapata. Metera-se nas novas oportunidades, andava entretido, sempre haviam umas tipas para lavar os olhos, iam pintando umas cenas fortuitas.

Um dia o Miranda, trolha lá do bairro desafiou-o para um biscate, pintar uma casa ao fim de semana. O dono era um finório de Lisboa, corrector da Bolsa com vivenda na Beloura. Aceitou. Tudo mudou quando, em cima do andaime, tinta pintalgando a cara e tronco, passou um carro, Carla , ar guloso daquele peito nu empoleirado, carne fresca de vinte e três anos. Uma bica num café do Linhó, troca de palavras sobre o tempo, e logo uma moita cúmplice na Lagoa Azul testemunhava o eterno apelo da derme.

Juntaram-se. Carla arranjou-lhe um emprego como vigilante num banco no subúrbio, trabalho rotineiro, farda ridícula, ritualmente  abrindo portas a clientes enfatuados, só amenizado pela cerveja ao fim da tarde e o snooker com o Rui.

Certa vez chegou uma carrinha com um saco de valores. Como de costume, ajudou a levá-lo para o cofre- forte, bezerro de ouro à mercê dum clique aventureiro, o gerente fora almoçar. Hesitante, naquele dia rodopiou duas ou três vezes à volta do saco, pegou nele ávido, qual Ali-Babá na gruta dos ladrões, podia ser o virar do ciclo, correu com ele para a saída de incêndio. Como num clique, deteve-se, porém, foi pô-lo no lugar.

À tarde, três cervejas no bar do Chico, aquele reflexo amarelo no copo, bordejado a branco. Foi ter com Carla,e sem lhe dar tempo a perguntas beijou-a arrebatadamente.

Vencendo o impulso, turbilhão de dúvidas, preservara o homem que ainda em si habitava. Arruinada a carteira, mas apesar de tudo, ainda não em ruínas.

Nos dias seguintes, a rotina do banco, as imperiais, o snooker.

Até que meses depois, novas oportunidades concluídas, passou para o balcão, ordenado melhorado, a conta paga no Chico. E um olhar sorridente sempre que o novo vigilante transportava um saco de valores para a caixa forte….

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:57

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