por F. Morais Gomes

11
Nov 10

— Está lá? – disse António, esfregando os  olhos, tentando acordar. — Está sim? – repetiu, já pronto para desligar o telemóvel, uma voz respondeu do outro lado:

— Sim... António? Sou, eu o Marco

— Marco! Que se passa, já vistes  que horas são?

— António, tinhas razão.Nunca  me devia ter metido com eles…

— De que estás a falar? Metido com quem?

—  Vieram  buscar-me, eu sei... Está lá fora desde que anoiteceu.

— Marco– começou António, tentando manter a calma – andaste a beber? Quem está lá fora?

— Melanie….

A ligação caiu. António levantou-se, misto de raiva e preocupação. Não era a primeira vez que Marco o acordava no meio da noite mas havia algo diferente naquele telefonema, ainda mal tinha digerido o magusto do S.Martinho da véspera na casa do Sérgio. Marco parecia assustado. Pegou no telemóvel e ligou para o amigo mas a ligação foi parar à caixa das mensagens.

— Ah, que se lixe! – resmungou, apagando a luz do candeeiro, provavelmente estava bêbado, nem sequer se iria lembrar da ligação no dia seguinte. No entanto não conseguiu dormir, tinha uma sensação de que alguma coisa havia acontecido. Olhou para o relógio na cabeceira, 4:30h da manhã. Se pegasse no carro chegaria à casa de Marco quando já estivesse a amanhecer. “Isto é de loucos”, pensava enquanto se vestia. “Bolas, Marco, se te encontro a  dormir e a curá-la vais ter de levar comigo!

Saiu da casa na Praia das Maçãs em direcção a S.Julião. Marco tinha-se mudado para lá há menos de um mês, era escritor, estava a trabalhar num policial inspirado nos Piçarra, uma família abastada da Ericeira. José Luís Piçarra fizera fortuna no Brasil, negócios no Algarve, um hotel na Ericeira, morrera 3 meses antes, lembrava-se de ter lido no jornal. Tentou lembrar-se do que ele falara, algo sobre alguém que tinha ido buscá-lo...Melanie. Quem seria essa Melanie? Talvez um familiar descontente com a história, Marco tinha um talento especial para se meter onde não devia.

O sol despontava no horizonte quando chegou ao casarão, vista magnífica sobre o mar. A porta da frente estava aberta, empurrou-a, lá dentro tudo em silêncio. Chamou, ninguém respondeu. Vasculhou a casa, nenhum sinal de violência ou arrombamento. Talvez  nem estivesse em casa quando telefonou para ele. De qualquer forma, estava decidido a esperá-lo, queria saber como ia o livro e  quem era Melanie. No escritório, uma enorme janela envidraçada com vista para o oceano e uma escrivaninha com um computador portátil.Na parede, um enorme quadro retratava a mesma  paisagem da janela excepto que, na pintura um iate navegava ao longe. Nem sinal de Marco. Sentou-se diante do computador, estava ligado, uma mensagem de e-mail:“ “Caro Marco. Seguem em anexo cópias dos documentos que me pediu. Um abraço. Fernando ”.Anexados ,três documentos.

A curiosidade começava a mordê-lo.Abriu um documento, era a certidão de casamento de José Luís Piçarra  e Melanie Fergusson, uma inglesa vinte anos mais nova que conhecera ainda no Brasil e onde haviam casado. Outro documento  revelava a petição para o divórcio do casal, ela preparara um pedido dois anos antes mas o processo não teve andamento pois entretanto morrera afogada na Praia da Aguda, lembrava-se de ler no jornal. Noutro arquivo, a ficha clínica de Melanie, um histórico de lesões, um aborto espontâneo, depressão. Havia ainda uma pasta chamada Piçarra com uma série de artigos de jornal. Num  deles, uma notícia antiga de um jornal brasileiro:“Portuguesa morre afogada em Búzios”, falava sobre a bizarra morte no Brasil de Piedade, primeira esposa do empresário, afogada na piscina  da casa de Búzios vinte e cinco anos antes, suicídio, dissera a polícia na época.

António recostou-se na cadeira, pensativo. Então Melanie preparava-se para pedir o divórcio antes de morrer, havia uma série de reportagens sobre os Piçarra desde a morte da primeira mulher Piedade, em revistas cor-de-rosa.

Abriu outro arquivo. Uma grande foto de José Luís, sorrindo, num veleiro branco. Em baixo “Empresário diverte-se em Capri”.Observou-a com atenção,  virou o olhar para o quadro atrás de si, era com certeza o mesmo barco: casco comprido, uma faixa azul circundante. António desaparecera em alto mar seis meses antes quando navegava sozinho, jamais fora encontrado o corpo, aí estava a inspiração de Marco para o livro.

Havia um breve relato sobre a vida do empresário e uma entrevista antiga deste a uma revista, já dos anos noventa, junto a  Melanie e ao iate, felizes: “Melanie adora o mar, todos os anos viajamos pelo Mediterrâneo. Quando comprámos o barco fiz questão de baptizá-lo com o seu nome. Velejar é das coisas que nos fazem felizes “.Na foto via-se nitidamente o nome da embarcação: Melanie.

Começou a abrir mais arquivos, à procura do livro em que Marco estava a trabalhar, já envolvido com aquela história intrigante. Todos mortos, e afogados, de uma forma ou de outra. E por que Marco lhe  falara de Melanie ao telefone? O rascunho do livro levantava suspeitas sobre os acidentes e sobre as mortes, não só insinuava que José Luís seria o responsável pelo desaparecimento da esposa como também sugeria os motivos: a fortuna deste e o pedido de divórcio, uma inconveniente partilha dos bens. Só se deu conta  de que o tempo havia passado quando o sol alaranjado começou a enfraquecer. Pela janela  pôde ver os últimos raios do sol sobre o mar e o contorno negro de um barco já próximo  da praia. Levantou-se, preocupado, pensando se não deveria ligar para a polícia, afinal o amigo continuava desaparecido. Olhando a parede, o quadro já não era igual. A visão do mar continuava a mesma mas o iate branco era agora negro, com ar de abandono, no convés viam-se tenuemente as sombras de três pessoas. Saiu correndo do escritório e quando chegou à rua, frente à praia, a visão do barco foi nítida, era exactamente como  o vira no quadro segundos antes. O Melanie havia voltado. Quem teria vindo buscar desta vez?


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:23

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