por F. Morais Gomes

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Nov 10

O dolente e desconcertante exército deslocava-se por entre as areias revoltas, Larache para trás, a pouca distância uma aldeia, algumas cabras alheadas devorando as poucas urtigas. Era 1 de Agosto, a 25 de Julho haviam largado do Reino e até então nem sombras de Abd-Al-Malik.

André Gonçalves, segundo alcaide-mor de Sintra e seu cunhado João de Castro Albuquerque, neto do vice-rei D.João de Castro engrossavam o quixotesco mar de gente arrebanhado para a aventura com que o jovem rei D.Sebastião queria entrar na História, qual Lancelot em busca do seu Avalon. André Gonçalves por morte do pai sucedera não só num juro de cem mil reis que pertencera ao pai como também em toda a Casa e Morgado de Ribafria. Comendador de S. Mamede de Sortes na Ordem de Cristo, Porteiro-Mor de D. Sebastião, era, como o pai, alcaide-mor da Vila e castelo de Sintra. Ía pelos trinta e oito anos, o cunhado pelos dezanove.

Sempre próximos na expedição, partilhavam tenda e criados, em Sintra, com o jovem rei haviam feito passeios a cavalo e entusiasmados com a empresa africana seguiam voluntários naquela babel de guerreiros de várias nacionalidades, onde se juntavam criados rameiras camponeses e carros de bois. Era o anacrónico exército de Portugal.

Largados do Reino a 25 de Junho de 1578, passaram por Tânger, onde se lhes juntou o rei aliado, Abu Abdallah Mohammed II Saadi, e daí todos seguiram para Arzila e Larache por terra.

André Gonçalves e o jovem João seguiam junto com os cavaleiros de Tânger. Adalid, o batedor enviado por Mohammed e mais cem homens patrulhavam as colinas amarelas e ocres onde entre areias apenas cresciam cardos secos, enfrentando aquele suão que aos portugueses castigava o corpo, vestido com roupa pouco adequada, e trazendo os animais sedentos e nervosos.

Na tarde de 2 de Agosto chegaram à margem esquerda do rio Mekhazen, afluente do Loukkes, que contornaram no dia 3, atravessando um vau transitável.Aí já os homens davam sinais de exaustão. André Gonçalves coordenava a distribuição de alimentos, uma vaca e dois sacos de biscoito por cada companhia.

El-Rei hesitava na táctica, quatro a cinco mil inimigos vigiavam já a menos de duas milhas. Tudo aceitaria desde que lhe não fosse retirado o privilégio de ser o primeiro a entrar em combate, era a sua obsessão.

Amanheceu finalmente 4 de Agosto, dia de S.Domingo de Gusmão.O exército de Abd Al-Malik, com o rei moribundo numa liteira estava muito perto do exército de Sebastião e de Mohammed.Morabitinos arrebatados na colina ao fundo exibiam gritando símbolos do crescente e prometiam o céu aos soldados.

André Gonçalves, pela alvorada rezou, recolhido.Menos arrebatado, preocupado observava o terreno, campo demasiado exposto com a retirada dificultada pelo rio, o alferes-mor D.Duarte iluminaria o jovem rei na decisão a tomar, pensou. João a seu lado mostrava um ar determinado, ansioso pelo dia de glória e honra para o Reino fronteiro da cristandade na Terra.

O rei, depois de envergar uma armadura de tons azulados e debruada a ouro, de elmo na mão dirigiu-se aos homens, alinhados. Seria aquele o momento da decisão.

Posto o discurso de incitamento, o padre Alexandre da companhia de Jesus levantou um crucifixo ao alto e todos ajoelharam. Era chegada a hora.Ao mesmo tempo, lá longe, em Velilla, Aragão, sinos tocavam a rebate anunciando a derrota do exército português. Fatídica premonição…

A batalha estava em marcha: no campo português todos gritaram o nome do rei, qual celebração de vitória antecipada. André Gonçalves, resoluto, integrou o terço de Vasco da Silveira.Do lado dos de Abd Al-Malik, formados em meia-lua, Mulei Ahmed, irmão do moribundo rei comandava, à frente os atabales davam o sinal para a batalha. Quinze mil cavaleiros sob o comando do alcaide de Alcácer Quibir Abraham Suffin formaram num semí- circulo, qual lâmina de foice pronta para envolver aquele temerário exército chefiado por uma criança que ainda de cueiros ousava intrometer-se numa guerra de família.

Um arrepio na espinha atravessou André Gonçalves ao tocarem as trombetas. Eram oito da manhã. Duas horas depois os mouros tomavam a iniciativa com tiros de artilharia. Os portugueses vacilavam, ignoravam que possuíssem armas pesadas.Logo dois cavaleiros caíam mortos, os soldados, labregos mais familiarizados com arados e enxadas entraram em pânico, da surpresa. Depois de alguma hesitação na voz de comando, os aventureiros, cabeça do exército, avançaram mesmo sem ordem de combate.João de Castro juntou-se-lhes com maça e espada, era a hora de tremer o solo africano, mas logo tombaram todos, varados por setas. André Gonçalves não mais viu o jovem cunhado, que espezinhado sumiu na poeira.

Sem que ninguém se apercebesse, Abd El-Malik morria entretanto na liteira, o que os seus ocultaram, na frente a sorte balançava.

D.Sebastião trocou de cavalo e bramia a espada desfigurado e temerário, Mohammed, o aliado de ocasião, cobarde, pouco se expôs, o exército cada vez mais parecia um barco à deriva com um comandante alucinado. O alferes-mór D.Luís de Meneses pediu ao rei que se resguardasse, era preciso a sua salvação pessoal para segurança do Reino, mas ele repeliu-o, cerrando os dentes, febril por glória.

Pouco passava do meio-dia, André Gonçalves foi atingido por uma flecha no rosto, tão funda que só deixava ver as penas. Vendo o fim próximo resistiu com as forças que lhe sobravam até cair junto ao rio. Os terços mais adiantados do exército rendiam-se, impotentes, varados pelas setas e arcabuzes matraqueando sendo depois selvaticamente massacrados e despojados, naquela açougue exterminador da juventude e sangue de Portugal.

Pelas duas da tarde, só quase D.Sebastião resistia, frenético, alienado, cinco mouros cercando o seu cavalo. Muhamad fugiu, atravessando o Mekhazen logo morrendo afogado. Breve, nas ardentes areias de Alcácer- Quibir o vulto alvo do jovem rei de Portugal sumia também na voragem dos corpos e artilharia tombada. Eram três da tarde do último dia de Portugal.


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:17

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