por F. Morais Gomes

19
Nov 10

Honório Carneiro,professor de História, vinte e cinco anos, filho de um industrial de Águeda, com o advento da guerra decidiu, em 1940, que deveria fazer alguma coisa naquela Europa em armas, e colaborar com os ingleses, único adversário real dos nazis, parecia-lhe o mais adequado, os bombardeamentos em Londres emocionaram-no, era um democrata num país sem democracia, oficialmente neutral.

Colocado no Liceu Pedro Nunes, alheado dum regime que se elogiava realizando a operática Exposição do Mundo Português, certo dia decidiu-se a oferecer os seus serviços à embaixada britânica, Churchill era inspirador, Portugal velho aliado, mas não o levaram muito a sério, com um sorriso o despacharam. Teve então, maniqueísta, a ideia de fazer a mesma proposta aos alemães, visando, atrair posteriormente o interesse dos britânicos, mente tortuosa funcionando.

Aos alemães interessava sobretudo quem pudesse sem levantar suspeitas entrar no Reino Unido. E assim, fez um acordo discreto com os nazis, de que conseguindo em Portugal um visto para ir para Inglaterra, aí secretamente trabalharia para eles. Um  pai salazarista convencia os alemães da alegada admiração do jovem Carneiro pela obra do III Reich.

Congeminando na forma de levar o seu plano por diante, pensava na forma de obter o tal visto, só com parecer favorável da PVDE o poderia obter, não tinha interesses reais que pudesse demonstrar para ir a Inglaterra.

Certo dia, no Hotel Netto, em Sintra, onde fora passar um fim-de-semana, conheceu Patrício da Nóvoa, tenente-coronel do serviço de Informações e antigo segundo comandante em Mafra, apaixonado por história militar com quem fez amizade, a história era o gosto comum das duas personalidades , distintas e de gerações diferentes. Passaram a ver-se frequentemente, ao fim de semana o  ponto de encontro era o bar do Hotel Netto.

Um dia, o coronel Nóvoa confidenciou-lhe que estava de partida para Inglaterra em missão oficial e mostrou-lhe mesmo o visto diplomático e um documento com o carimbo do Ministério dos Negócios Estrangeiros.Era a oportunidade.Convidou  Nóvoa para uma ceia no Netto, a desfrutar da frescura da Vila, e a meio do jantar, fingindo estar com dores de cabeça ausentou-se para o quarto, a tomar comprimidos, altura em que se introduziu nos aposentos do coronel, fotografou todos os seus documentos, passaporte e visto sobretudo , e, deixando tudo no seu  lugar, voltou ao jantar.

De volta a Lisboa, apresentando-se como funcionário do Ministério, conseguiu que uma firma em Pedrouços reproduzisse o brazão numa chapa metálica e numa empresa de tipografia imprimiu um documento estampado com o escudo, forjando um carimbo idêntico ao original. Acrescentou, posteriormente o seu nome e fotografia e voltou à legação alemã com o almejado visto, logrando convencer os desconfiados alemães a utilizarem os seus serviços com o compromisso de se instalar no Reino Unido.

Devidamente treinado pelo Abwehr de Lisboa, instalou-se então em segredo numa vivenda na Rinchoa de onde começou a enviar relatórios, simulando que estava em Londres. Buscando freneticamente obter informações em jornais estrangeiros ou quaisquer outras fontes que fossem úteis, com habilidade incomum para filtrá-las e grande imaginação para inventar factos, enviava  mensagens para a embaixada, que, julgando-o em Londres, as encaminhava para Berlim.

Contudo, era aos aliados que efectivamente queria ajudar. A situação era precária, e seria uma questão de tempo até que a farsa fosse descoberta, um erro que cometesse, fosse por uma confirmação de informações que passara, ou ainda qualquer  algum outro motivo que o denunciasse e ao seu plano. A habilidade de inventar factos de forma genérica e de chegar aos detalhes somente quando realmente os conhecia aliado a uma certa displicência da embaixada contribuíram para que a sua situação no seu bunker de Ranholas se sustentasse por alguns meses. A verdade é que os  relatórios pareciam credíveis, e surtiam efeitos.Uma vez conseguiu que a Alemanha deslocasse navios de guerra para afundar uma inexistente esquadra que saíria de Portsmouth com destino a  Gibraltar. Como essa esquadra nunca chegou ao destino, atribuiu o erro à ineficácia da aviação alemã, que não fora capaz de localizá-la.Os alemães desconfiavam,mas iam mantendo a colaboração.

Este episódio porém foi do conhecimento dos ingleses que rapidamente através do MI5 localizaram Honório sem que o posto da Abwehr em Lisboa suspeitasse.Era o momento de convencê-los a aceitar os seus serviços como agente duplo, afinal o que sempre desejara. Desconfiados, os ingleses pediram-lhe que enviasse uma mensagem aos alemães como teste de comparação entre essa mensagem e outras por eles interceptadas. Não restaram dúvidas: eram da mesma proveniência,Honório era o falso agente alemão,a sagacidade levou os ingleses a  finalmente incorporá-lo na rede de agentes duplos do MI5.

Não tinha acesso à sede central do serviço secreto nem contacto com outros agentes duplo nem conhecia a identidade verdadeira da maioria dos agentes do MI5, trabalhando num escritório em Paço de Arcos sob a fachada de tradutor da BBC, na companhia de Steve Miller, suposto jornalista mas este na verdade do MI5 e de uma secretária, que lhe fazia  traduções.

Daí em diante, a estratégia acertada com os ingleses passou a ser a de   convencer os alemães de que Lisboa estava limpa de ingleses, dispensando a vinda de mais agentes alemães.

Acabada a guerra, Honório abriu uma agência de publicidade, e nas horas vagas dedicou-se a escrever romances policiais, muito elogiados pelos amigos que se espantavam de onde vinha tanta imaginação…

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:15

Acabei há dias de ler o "Enquanto Salazar Dormia", de Domingos Freitas do Amaral, que adquiri nos Correios, por 7.5€ (!), e que se passa exactamente nesta altura, tendo algumas cenas em Sintra e falando também de uma vivenda na Rinchoa.
Provavelmente também terá lido esse livro, embora esta personagem não seja referida.
Aqui fica um link com informações: http://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=3886

De resto, esta época e a atmosfera que se vivia em Lisboa e no resto do país durante a Segunda Guerra fascinam-me particularmente. Lembro-me de 2 livros fantásticos que li, passados neste período: "Uma noite em Lisboa", de Erich Maria Remarque e "A companhia de estranhos", de Robert Wilson. Recomendo vivamente.
Obrigado pelo seu blog.
Zé Maria a 19 de Novembro de 2010 às 10:47

Caro Zé Maria,não li esse livro, e esta história é ficcionada, mas havia uma vivenda na Rinchoa, que pertenceu a um director da PIDE, onde sempre ouvi dizer que tinha sido o local onde desmantelaram o carro de Humberto Delgado depois do assassinato em Badajoz.Isso e o facto de ser na altura uma zona isolada e já com casas nos anos 40 levaram-me a localizar ali o refúgio do nosso agente.
Nos anos 40 muitos espiões famosos estiveram em Portugal, entre eles Kim Philby e o pai do actor Peter Ustinov, que ao nosso país se referem nas memórias.
Cumprimentos
Fernando Morais Gomes
Fernando Morais Gomes a 19 de Novembro de 2010 às 13:29

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