por F. Morais Gomes

31
Out 10

Maria Emília tinha sido despedida da fábrica, um marido em cadeira de rodas depois de uma queda da grua e um filho autista, não se pode dizer que a vida houvesse sido generosa consigo. Antes jovem ingénua, esperanças numa carreira de professora de música, terminara numa fábrica de fogões, trabalho rotineiro, sórdido, sempre igual, sempre mal pago, agora fechara, três meses de salário em atraso e as contas acumulando-se na mesinha do corredor.

Morava numa casa em mau estado que o sogro lhes havia deixado em Lourel, aziaga terra encravada entre dois cemitérios, costumava dizer nos dias de maior depressão. Ainda se lhe saísse o Euromilhões!. Fielmente jogava todas as sextas- feiras os seis euros do costume, mas a sorte nunca lhe sorrira, pão de pobre quando cai no chão é com a manteiga para baixo, dizem os brasileiros e com razão, pensava.

Naquela sexta feira como habitualmente jogou os seis costumados euros no café do Baptista, guardado religiosamente o mágico papel seguiu a tratar do jantar e do marido.

No dia seguinte ao sorteio procurava sempre os números e as letras no Correio da Manhã, invariavelmente mais uma semana de decepção, seis euros perdidos , sexta-feira há mais. Procurando o registo não o encontrou.Cartões, facturas para pagar, o passe, nada! Deixá-lo, não ia sair de qualquer maneira. Lembrou-se que por uma vez  tinha jogado tudo com números seguidos 6-7-8-9-10, estrelas 4 e 5.

Foi ao pão e pelo caminho passou pelo quiosque do Silva, dando uma olhada ao jornal a consultar a chave da semana, sempre na última página. Números premiados 6-7-8-9-10, estrelas 4 e 5, a televisão anunciara dois  premiados, um em Portugal outro na Bélgica, cinco milhões para cada um.

Quase caiu de apoplexia! Não podia ser, eram os seus números!!.Perturbada esvaziou a mala vezes sem conta, a carteira, as gavetas, até o contentor do lixo lá da rua. A sorte por uma vez passara à sua porta e nunca iria ver um cêntimo daquele milagroso dinheiro que mudaria a sua vida, financiaria um negócio, a fisioterapia do marido.

No dia seguinte era feriado, Dia de Todos os Santos. Pela manhã, rebanhos de miúdos ruidosos, saco de pano na mão, corriam as casas e cafés do Lourel pedindo Pão-por Deus, ancestral ritual na busca inocente da romã língua de gato ou chocolate que vizinhos bondosos e ainda não massificados pela selva urbana anualmente repetiam de geração para geração. E lá iam porta em porta, os mais velhos guiando os mais novos, tocando as campaínhas , repetindo a cantilena mágica que abria a porta dos presentes naquela espécie de Natal antecipado. Pão por Deus! Pão por Deus!

Filipe e o irmão, Joãozinho, pela mão,lá seguiam, a mãe deixara-os ir sozinhos, apenas  pelas redondezas, vejam lá, ruas com pouco trânsito, ao meio dia em casa.Saco quase cheio, bateram à porta da Maria Emília, mais três casas e já terminariam a jornada, para o Joel seria o último ano, já ia nos treze,  era tempo de passar o testemunho.

-Pão por Deus! -gritaram, quase cantando, os cães da vizinhança ladravam perante a desusada peregrinação porta a porta. Maria Emília, prostrada, ainda em transe pela calamidade do Euromilhões, nada contara a ninguém, quase a entrar em depressão queria era sossego e silêncio.

-O que querem daqui? Julgam que isto é a Mitra? Tomara eu ter para mim quanto mais para vocês estragarem!  .Os vossos pais que vos dêm!-retorquiu mal humorada, roupão e cabelos ainda por pentear.E se não se vão já embora largo-vos o cão, vão ver!

Mulher chata, pensaram.Pronto, minha senhora, já vamos embora!

À saída do quintal da vivenda velha, jardim desprezado, Joãozinho deparou com um papel esbranquiçado ,  um extracto do multibanco como os que vira ao pai, pensou, mal se via, jacente  atrás dum vaso  quebrado com malvas. Na inocência dos seus oito anos não identificou o que seria, mas deu para chamar a Emília ainda à porta ,esperando que saíssem e deixassem o portão fechado.

-Oh minha senhora.Quer que lhe ponha este papel no lixo? -perguntou, inocente

-Qual papel? c’um raio, nunca mais se vão embora!-,arengou.

Isto! -e correu a entregar.

Milagre de todos os santos! Era a premiada chave do Euromilhões, aqueles mágicos números e estrelas que a Europa  procurava, os cinco milhões de felicidade.Maria Emília, olhos esbugalhados, soltou um grito entre a emoção e o espanto.

-Virgem Santíssima!Ai meu Deus, que me dá um enfarte!Alberto!Alberto!

Joãozinho  não entendia aquela algazarra, não só não dava nada como era maluca, pensou ,e já se afastava a ter com Filipe, a ronda do Pão por Deus estava quase completa.

Emília junto à porta abraçava o marido, a quem finalmente contara o sucedido, ria e  chorava num chorrilho de emoções incontroladas. Vendo o pequeno João  já a sumir na esquina , correu em seu encalço.

-Ó meu filho, vem cá,não te vás embora! .Deu-lhe dois, quatro beijos lambuzados e correu à cozinha, onde três pacotes de bolachas, uma tablete Toblerone e o Mikado do filho voavam já para o saco de pano repentinamente pequeno.

-E para a semana vem cá ter comigo ouviste? Já tens uma Playstation?

Maria Emília e o marido moram agora numa vivenda em Colares, jardim bem tratado pelo senhor Isidro.O marido montou um negócio de informática, já foram a Palma de Maiorca de férias. Fizeram uma doação para uma associação de crianças autistas, o pequeno João tem agora uma conta bancária que um dia lhe pagará a universidade. O resto é para assegurar o futuro.

Um pequeno papel branco pode mudar o papel de muitas pequenas vidas. Para o ano, e por alguns anos ainda, lá estará o pequeno João com o saco de pano patrulhando as casas daqueles pais natais sem barba branca, enchendo sorridente o saco de mágicas línguas de gato e coloridos rebuçados, tesouro conquistado proferida a senha mágica. Pão por Deus!

 


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:03

30
Out 10

O roupeiro-mor fechou-lhe os olhos, confirmando assim que El-Rei havia partido deste mundo, no mesmo quarto e na mesma alcova onde nascera quarenta e nove anos antes. Já há cinco anos afastado dos negócios do Reino, entregues ao príncipe herdeiro D.João, depois dum  retiro amargurado no cárcere do Varatojo D.Afonso V  deixava esta vida no Paço Real de Sintra naquele 22 de Agosto de 1481.Corrida a cortina do dossel, logo se mandou tocar os sinos.O escrivão da puridade, e os filhos do rei assistiram aos últimos momentos, breve se iria juntar na cripta da Batalha a seu pai e seu avô.

Aos vinte seis anos, chegara a hora de D.João, o segundo do nome. Os meandros da corte não lhe eram estranhos, fora regente nas ausências do pai em França e Castela. Armado cavaleiro em Arzila junto ao corpo morto do conde de Marialva, estivera igualmente nos confrontos de Toro, tinha noção de quem lhe era  leal e quem contra ele  intrigava.

Dias depois, a vila de Sintra assistia ao levantamento do novo monarca. Vestido de burel, com uma opa de pano de ouro, pela manhã assistira à missa. Num palanque fronteiro ao Paço com dossel debruado a ouro e dois degraus elevada, uma cadeira destacada, de pano de brocado com uma almofada em cima e outra aos pés.Aí receberia o novo rei o ceptro simbólico do seu trono.

Iniciada a cerimónia,à direita do novo rei um alferes  segurava enrolada uma bandeira com as armas reais,à esquerda ficava uma cadeira mais pequena, com um missal em cima.Atrás, os prelados, oficiais, fidalgos, o escrivão da puridade, D.João da Silveira, destacado.

Vasco Fernandes, à esquerda, abriu a arenga, opa de veludo preta vestida:

-Bem sabeis todos como a Nosso Senhor aprouve levar para si da vida deste mundo o muito alto e excelente Príncipe de muita esclarecida memória El-Rei Dom Afonso, nosso senhor que Deus haja, por cujo falecimento o muito excelente príncipe e muito poderoso senhor Dom João seu filho, nosso senhor natural e primogénito herdeiro de seus Reinos herda e sucede os ditos reinos e senhorios deles,e  ora está aqui  para tomar título de nosso rei e destes Reinos.Assim vos encomendamos que o queirais fazer, e com a graça de deus reger e governar, e ministrar a justiça, graças e mercês que vos foram dados pelo  senhor rei vosso pai e por outros reis seus predecessores.

Posto isto, o bispo de Lisboa alcançou-lhe o missal e leu o juramento, que repetiu, voz segura, olhando a todos e cada um como novo senhor da grei.Já investido, tomou juramento de lealdade de todos os dignitários presentes, começando pelo escrivão da puridade, o mais importante dignitário a seguir à família real, posto o que o alferes despregou a bandeira com as armas reais e gritou na direcção da multidão:

-Real, Real, pelo muito poderoso El-Rei Dom João nosso senhor!

E descendo do palanque, correu a cavalo, a proclamar iguais palavras por todo o arrabalde, para que o mundo soubesse que um novo rei se aclamava nos reinos de Portugal, no fim volvendo a bandeira ao Paço para solenemente ser guardada.

Posta a cerimónia, D.João recolheu a seus aposentos, onde vestiu o manto e capelo preto, paramentos azuis, barba crescida enquanto durasse o luto por seu pai, três meses.A rainha D.Leonor saudou-o aí, formalmente.D.João esperara por aquele momento, sentia-se predestinado ao mando sem contemplações. Avesso a intrigas, bem vira o que acontecera com seu pai, e antes ainda com seu tio-avô D.Pedro, caído em cilada fratricida, vinha resoluto.

-Senhora, um novo tempo vai nascer no Reino que foi de meu pai e de meus avós.Temente, a Deus só, que os homens só respeito guardam a quem temem !-afirmou, perante a rainha que tanto o estimava mas também lhe tinha medo. Quando furioso chispavam-lhe os olhos, num transe de quase possuído.

-Porque D.Diogo, vosso irmão não veio prestar juramento a seu novo Rei? -perguntou, não esperando pela resposta. O Duque de Viseu faltara , não mais esqueceria, era generoso mas igualmente rancoroso.

Nesse dia, por toda a vila e pelo Reino se jogaram canas com galhardas quadrilhas a cavalo e promoveram justas. O povo celebrava um novo reinado que viria a tornar o grande Mar Oceano num lago português. Em menos de uma semana, Sintra chorosa via partir um rei e ufana celebrava a chegada de outro.


publicado por Fernando Morais Gomes às 15:29

29
Out 10

A musica arrancou, às ordens de Gildemeester.O velho cônsul, fortuna feita com os diamantes, inaugurava com brilho o novo palacete, aforado em de Seteais,  fronteiro ao largo terreiro onde a artilharia real com frequência realizava manobras.

Para tanto convidara familias da aristocracia e o corpo diplomático. Representante do rei holandês, sessenta e cinco anos, alguns já em Portugal, havia casado com uma elegante senhora bem mais nova, a quem nesse dia ofertara um cintilante colar com um  diamante lapidado em Antuérpia para a  feérica festa.

Os convidados, creme de la creme , rodopiavam entre  canapés e  bebidas lautamente servidas por criados a rigor :o ministro da França, Laffite, o da Espanha, marquês de Sória e esposa, D.Diogo, Marquês de Marialva, estribeiro-mor  do Reino, acompanhado dos filhos, Henriqueta e Pedro,Madame Street Arriaga, vizinha dona do Ramalhão, pares do reino, autoridades. O inglês Beckford, que chegara a Portugal naquele ano de 1787, com reputação de sodomita  que o forçara a uma saída airosa de Inglaterra  chamava as atenções e bruá entre as senhoras mais velhas, divididas entre o espanto pela sua distinção e o choque pelos alegados desvios. Contudo, o dinheiro tudo paga e Beckford exalava distinção, caíra nas graças dos Marialvas e visita frequente da casa de S.Pedro de Canaferrim.

André de Gildemeester, divertido, mostrava aos convidados a  deslumbrante vista sobre a várzea verdejante, mar azul em fundo, o convento da Penha no seu presépio. As pinturas e lustres eram recentes, nem todas as salas estavam ainda mobiladas, mas a ânsia de ostentar e exibir a  esbelta esposa, decidiram-no a uma festa que ficasse na memória.

O ministro da Inglaterra, Walpole, sabendo da presença de Beckford declinara o convite, constrangido. Mais fácil tinha sido a aceitação em Sintra do  escandaloso filho do mayor de Londres que na corte inglesa, onde era tido como pária e ocioso, depois duma vida dividida  entre um casamento de conveniência e os amores por um  tal William Courtenay.Saíra de Inglaterra invocando um súbito  desejo de conhecer a Europa…

Marialva, calculista, comentava com o Duque de Lafões a vontade de ver o jovem Beckford, viúvo e com vinte e seis anos , recomeçar a sua vida entre nós, talvez com Henriqueta, quinze  prendados anos de lavores e piano. Beckford, contudo, mostrava mais inclinação pelo irmão,o esbelto Pedro, caracóis louros, corpo tenro de treze anos, já cadete, e sua  lasciva presa  nos salões dos Marialvas. Este, que trazia à recepção o amigo e cadete de cavalaria Álvaro de Albuquerque,  escapava-lhe  sempre que podia, incomodado.

 Aberto o baile, um Gildemeester meio calvo e gordo, rodopiou com a vistosa  esposa no colorido  salão, ela deslumbrante, vestido debruado a seda, colar de diamantes reluzindo, minuete logo acompanhado pelos  mais jovens, desafiando as envergonhadas donzelas, pouco dadas a grandes festas. A corte de Lisboa era frugal, a rainha Maria  austera, morando com simplicidade na real barraca que seu pai erguera na Ajuda depois do cataclismo em 1755.Tal recepção era pois o acontecimento do ano.Beckford, cínico e provocador comentava mesmo com Gildemeester que rivalizava com o melhor de Paris, o que fez o velho cônsul, delirante,reforçar o champanhe para todos.

Festa em alta, o anfitrião fez um súbito sinal à orquestra para um intervalo, taça de cristal  na mão, meio cheia. Já ruborizado perorava num português arrevesado, quando o grosso candelabro que iluminava o salão tombou, levando  ao pânico na sala e incómodo ao anfitrião, que de imediato mandou criados reacender as velas e renovar as bebidas. Já ordenava que  de novo a música arrancasse quando a consulesa largou um grito, entre  espanto e  pânico. O colar de diamantes sumira-lhe  do frágil pescoço na confusão do candelabro.

Ruído geral, quem entre tantos distintos aristocratas e senhoras de bem teria a ousadia de tal acto próprio de salteadores.Muitos nesses tempos atribulados roubavam pelas azinhagas de Sintra, mas ali, gente de linhagem….

Os criados entreolharam-se, Beckford ria e escarnecia com Marialva, o cônsul, vermelho e suando, procurava manter a normalidade. Não era nada, talvez tivesse caído, no dia seguinte o encontrariam, dizia, entre um sorriso encenado e a apreensão com a fortuna que lhe sumia.A festa continuou, e já tarde se dispersou a parafernália, todos ainda comentando o sumiço do colar, que porém não mais apareceu.

Gildemeester ainda lá morou oito anos mais, tendo Marialva adquirido o mesmo após a sua morte. Beckford regressou a Londres, voltando a Portugal mais duas vezes, para Monserrate, contrariada, a jovem Henriqueta acabou casando com o idoso Duque de Lafões.

Vinte e sete anos depois, ia o ano de 1814,D.Pedro Vito,o jovem dos caracóis louros, agora 6º Marquês de Marialva, chegava a Paris como embaixador junto do rei Luís  XVIII. Escondia o segredo duma aventura secreta com a princesa Carlota Joaquina, agora ausente no Brasil. O filho desta, Miguel, nascera seis meses depois de se apartarem e o Príncipe Regente confessara a seu físico para mais de dois anos não visitar os aposentos da princesa a quando da gravidez...

Desempenhado da função, por lá ficou, adquirindo para si e para um velho amigo,o coronel D.Álvaro de Albuquerque um valioso palácio em Besançon. O  Reino ocupado e a Corte no Brasil desaconselhavam um regresso apressado a Lisboa.

Um valioso colar de diamantes, cobiça de joalheiros boquiabertos com peça de tal quilate pagava a tranquila e abastada vida que desde  então levou até final dos seus dias…

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:10

28
Out 10

Máximo José dos Reis deambulava pela Quinta dos Pisões apreciando as suas laranjeiras e limoeiros, vendia para a cidade e até para Inglaterra. As suas propriedades estendiam-se de Seteais ao Rio do Porto, alugara às irlandesas Lawrence a estalagem quase vizinha e a partir daí como capitão -mor de Sintra administrava o concelho havia já 15 anos. Abastado, nada devia aos políticos desavindos em torno dos senhores D.Pedro e D.Miguel, sendo frequente ser ele a ajudar o erário público do seu  bolso, a troco de apólices da dívida pública.

A vida já o havia marcado. Enviuvara havia 12 anos, D.Maria Rosa não resistira ao quarto parto e falecera no paço da vila, sobreviveram-lhe dois varões e duas raparigas. Nesse ano de 1828, o filho mais velho pusera termo à vida, inexplicavelmente ,no tanque dos Pisões, assistira a tudo impotente, uma dor profunda marcava-o desde então.Evitava sair, prisioneiro da dor e da solidão intervalada pela administração dos negócios da Vila.

Dos lados do Paço chegou esbaforido um cavalo a trote interrompendo os seus pensamentos. Estevão Mateus, escrivão do concelho trazia notícias, uma mensagem escrita e lacrada.

-Senhor Capitão- Mor!Correio de Lisboa!É urgente!

Segurando um papel branco lacrado, entregou-lho. Máximo rasgou o lacre, curioso ,leu e descaiu sobre um banco de pedra do jardim:

-Será que a desventura veio para me acompanhar no resto dos meus dias?....-desabafou, pressionando as pálpebras com os dedos, ar cansado e envelhecido apesar de apenas contar cinquenta e nove anos.

-Alguma desgraça,senhor capitão?-sondou Estevão, preocupado.

-Meu filho Domingos,que estuda em Coimbra...

-Pois de saúde é a maleita?

-Pior. Antes fosse . Foi preso. Dizem que participou no assalto a uma carruagem com lentes de Coimbra que vinham ao beija- mão ao senhor D.Miguel…

-Pois será possível? O menino Domingos apenas se preocupa com os estudos, deve ser engano!

-Aparelha-me um cavalo, Estevão.Vou a Lisboa!

Quatro horas volvidas, na Intendência, conseguiu falar com Domingos, arrojado numa enxerga, a palha servia de colchão, ao fundo duas ratazanas circundavam uma côdea dura já bolorenta.

-Meu pai! Viestes!Vossa bênção, senhor!-súbito se ergueu o detido,olhos brilhando da surpresa.

-Meu filho!Diz-me que é falso o que dizem neste documento infame.Acaso atentaste contra teus mestres da forma ignominiosa que aqui relatam?-perguntou, abraçando o filho,a  barba era de vários dias e as olheiras profundas.

-Meu pai…-hesitou Domingos.-Sim, é verdade!Em nome da honra matámos os biltres,apressavam-se a servir ao bastardo D.Miguel, nada fizemos senão justiça!

-Mas quem? Com quem andas envolvido?

-Pai, eles vinham pedir a expulsão dos lentes adeptos de D.Pedro. Os Divodignos apenas fizeram justiça.

-Divodignos?

-Sim.Lembrai-vos de Francisco Cesário  Moacho, que uma vez levei aos Pisões?Em Coimbra  ele nos inspirou e uniu, a Sociedade dos Divodignos  não podia deixar que o  filho da adúltera Carlota Joaquina entregasse o reino a frades e inimigos da liberdade.

-Liberdade? Chamais liberdade a assassínio a tiro,de rosto coberto como  reles salteadores de estrada?

-O tempo é de acção, eles fariam o mesmo…-reagiu, seguro do seu acto.

-Cinco pessoas estão feridas, dois lentes morreram…-Meu filho, o senhor D.Miguel foi jurado Rei de Portugal,  D.Pedro seu irmão assim o quis, não pode a fúria de alguns homens querendo substituir-se  a Deus  impedir o curso dos reinos. Mal andaste, dilacerado está meu coração!

-Mas senhor meu pai, podeis ajudar-me a sair daqui, não podeis? Sois o capitão-mor de Sintra, os juízes da Relação são vossos amigos…

Máximo José dos Reis fechou os olhos, e afastou-se. Uma luz mortiça penetrava no calabouço imundo por uma nesga, um guarda vigiava. A mulher precocemente partira, um filho lhe morrera afogado nos Pisões….

-Não meu filho. Há que ser temente a Deus e ao Rei.Com  teus devaneios de juventude manchaste o nosso nome, enfrenta agora como um Reis as leis dos homens. Quem assim procede desonra a seu pai e com isso mortalmente o fere!

-Senhor!

-O Estevão fará com que te não falte uma malga de sopa e pão fresco.Adeus!

-Pai! Pai!Assim abandonas a carne da tua carne?-gritava Domingos, quase em lágrimas. Máximo dos Reis, sem olhar para trás, envergou o capote e o chapéu, e dilacerado tomou a estrada de Sintra para não mais voltar a ver aquele filho,  interrompida promessa de bacharel incendiado por um idealismo exacerbado.

Dos treze divodignos, a maioria acabou tristemente, na forca, outros  fugidos e emigrados. Um foi mais tarde encontrado no Algarve em estado miserável, caldeireiro ambulante. Tempos depois, outros fundaram o que viria a ser a Carbonária. Nos anos seguintes, foram riscados da matrícula outros estudantes, centenas expulsos, assim se extinguindo sem contemplação a Sociedade dos Divodignos.

Domingos acabou enforcado. Máximo José dos Reis, homem honrado,  ultimo capitão-mor de Sintra e seu primeiro presidente da Câmara depois das reformas de Mouzinho da Silveira, preferira a honra ao  chamamento do sangue.

Os Pisões cumpriam o  seu fadário de trágico palco de vidas perdidas. Depois de um anterior proprietário, D.José de Mascarenhas, ter sido condenado e morto por aí conspirar com os Távoras pela cilada ao rei, caía agora sobre o actual o ferrolho da desgraça: dois filhos mortos no mesmo ano, viúvo prematuro, arrastava na penumbra daquele casarão  um pesado e triste grilhão. O mesmo com o dono seguinte William Galway, que acabou seus dias num manicómio na América. A  suave e tranquila valsa  dos Pisões e suas fontes cristalinas  cedo ou tarde acaba em fatídico requiem  pelos seus incautos inquilinos…

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:43

27
Out 10

A peleja durava já há várias horas naquele Janeiro frio de 1659.O nevoeiro dissipara-se,Elvas há três meses que sofria o cerco dos homens de Don Luís Mendes de Haro, primeiro -ministro espanhol, mas naquele dia 14 os acontecimentos precipitaram-se e o chamamento do sangue soou mais alto.

Havia 19 anos que os Braganças haviam reconquistado o trono português, mas nunca no terreno o ocupante espanhol o havia reconhecido,o Alentejo   batalhava pelo Reino sob o comando do conde de Cantanhede .Na frente, mil homens escolhidos levando, além das suas armas faxinas  para cegarem os fossos, comandados pelo general Diogo de Figueiredo.Três mil infantes  eram comandados pelo conde de Mesquitela e André de Albuquerque Ribafria e outros dois mil pelo sargento-mor Manuel Mendes Leitão. De reserva, outros dois mil, às ordens de Pedro de Lalande.

 

A artilharia, comandada por Afonso Furtado de Mendonça, ocupara posições perto de Amoreira, donde batia eficazmente o campo de batalha. Oito mil bravos, ao todo, decidiam pelas armas a independência dum reino há várias décadas amesquinhado.A sorte das armas cedo virou para o lado dos portugueses, cortando os homens de  Diogo de Figueiredo as linhas auxiliados pelos terços do conde de Mesquitela. Um dos fortins já estava tomado, e pela brecha foram entrando forças que tomaram posição no interior, pressionando as s tropas espanholas  sobretudo nos fortins.

 André Albuquerque de Ribafria, 4º alcaide de Sintra sobressaía no campo de batalha. Compleição rija, barba afiada em forma de sabre, hábil manejador das armas, era uma lenda no lado do inimigo,qual  Nuno Álvares, respeitado pelos pares, idolatrado pela soldadesca, histórias a roçar a lenda corriam pelos botequins e tabernas .Orfão aos 13 anos, criado pelo conjurado D.Antão Vaz de Almada, treinara-se na arte das armas naquela familiar serra de Sintra, desconhecedor do perigo, desafiador, caçando com seu irmão Pedro, sob o olhar venerável do pai,Gaspar Gonçalves da Ribafria, terceiro na lista de alcaides de Sintra iniciada em 1556.Com 17 anos combatera os holandeses no Brasil, aos 18 ascendera por herança à alcaidaria que fora de seu pai e seu avô.General aos trinta anos, com muitos anos de serviço no Alentejo, em transe cavalgava, raiva entre dentes, coração puro de português. Com o conde de Mesquitela comandava a mais enérgica linha de homens:

-A eles, soldados!É Elvas ou o céu!-gritava, bramindo a espada, o cavalo rodopiando num bailado bélico.

Ribafria, corpo marcado por sequelas do tropel, tinha sofrido ferimentos na cara em Arronches, pisado no chão de batalha por duas cargas de cavalaria e quase dado como morto.

-O Forte da Graça já é nosso,vamos em apoio de Lalande, general!-sugeria  o conde de Mesquitela, mais estratega e cerebral.

Os soldados agigantavam-se sob o comando inspirador de Ribafria, um chefe natural, que sabia recompensar os seus homens, mas também castigar os que se lhe opunham.

Adiantando-se, exposto numa zona mais alta da planície, ficou alvo fácil dos de Espanha. Don Luís de Haro, que do cavalo comandava na retaguarda , ordenou o abate de tão valiosa presa cintilando no horizonte.

Levantando um braço para repelir um peão, depois de ter posto termo a outros dois, uma  bala assassina entrou-lhe pelo sovaco, não protegido pela couraça. Os olhos ficaram turvos, o corpo mole, logo tombou desgovernado do cavalo. Em seu encalço foi Jorge da Franca, que lhe seguia na peugada, e que arrastou o corpo ainda vivo do herói de Arronches para junto de um sobreiro.

-General,está ferido?

-Não é nada, Jorge-sorriu, passando a mão pelo braço estilhaçado, logo poça de sangue alastrando-Nossa e livre será Elvas ainda esta noite, bom amigo!

-Vou chamar um físico, há que tratar esse braço sem delongas, general!

-Não, deixa- retorquiu, já empalidecendo.-Diz a Afonso Furtado de Mendonça que finda a batalha envie um homem a meus domínios de Sintra, e diga a meu feitor que um português que nunca temeu nenhuma espada, senão a da justiça, tombou em honra esta tarde.

E cerrando os olhos deixou-se partir lentamente. O cavalo, nervoso, relinchou, cúmplice, agora órfão do companheiro de muitas planícies naquele Alentejo restaurado.

Caída a noite, o cheiro a morte atravessava os ares. Elvas estava liberta, os espanhóis recuavam, dos dezoito mil, menos de um terço sobrevivera e humilhados recuavam para Badajoz. Pouco tempo mais haveriam de durar as correrias entre os exércitos rivais, os Filipes dobravam perante a rebeldia dum povo orgulhoso.

O cadáver de André de Albuquerque foi levado para Elvas onde esteve exposto na Igreja de S. Maria de Alcáçova, e daí, com pompa militar, foi levado a sepultar na Igreja de S.Francisco dos Capuchos, no dia 16 de Janeiro. Morria o Homem, nascia a lenda do mais bravo dos Ribafrias.


publicado por Fernando Morais Gomes às 21:00

24
Out 10

Salomão Ben Crespe, cinquenta e cinco anos, esguio e parco de carnes, diariamente cumpria o rotineiro trajecto entre a sinagoga de Sintra, de que era rabino, e a R. da Pendoa, onde tinha casa e seu irmão ofício de sapateiro.

A comunidade era pequena, a sinagoga apenas permitida após carta de aforamento em 1407. Tentativas houvera de alargar a judiaria para lá da urbe, porém El-Rei D.Afonso V  ordenara que todo o judeu só pudesse utilizar a porta da judiaria como local de comércio, para lá da mesma estando vedado mercadejar.

A tolerância era parca, cristãos-velhos denunciavam com frequência às autoridades, por esses idos de 1496 que crianças judias brincavam junto à igreja de S.Pedro de Canaferrim, num claro desrespeito por tal solo sagrado.Em Espanha havia ocorrido a expulsão dos irmãos, sangues turvados originavam comportamentos sanguinários, valera na altura a tolerância de D.João, que montara acampamentos junto à raia para receber os sefarditas deserdados do reino vizinho.No entanto, só podiam permanecer oito meses e pagando taxas incomportáveis a El-Rei. Famílias judaicas eram já algumas, sapateiros, alfaiates, ferreiros, Jacob de Baiona ou Abraão Ruivo, haviam sido anciãos respeitados e laboriosos. Salomão Palaegno era por essa época um dos principais mercadores da Vila Velha.

Salomão ia amenizando a vida com as leituras dos Livros Sagrados na sinagoga, duas ménorahs em prata oferta da comunidade local como único adorno, local de refúgio dos filhos de Israel .Alguns vindos de Espanha instalaram-se em sua casa, maldizendo a sorte, acossados pela maldição de um sangue dito impuro e pela infelicidade de ser felizes nos negócios.

Um dia, um édito real acordou transtornado o sábio rabino. El-Rei D.Manuel, no encalço do cristão rei de Espanha decretava a conversão forçada, promessa de casamento para com sua católica noiva, os impuros que buscassem a purificação pelo baptismo, assim seria  grandioso senhor da Cristandade, temente à Santa Madre Igreja.

Salomão reuniu as principais famílias, assustadas, chingadas nas ruas pela plebe, pedia-se sangue, pela usura haviam porfiado, pois que pagassem, semíticos herdeiros de Caifás, que matara Nosso Senhor Jesus Cristo. Na igreja de S.Martinho, frei Gonçalo do Rosário acicatava á conversão em homilias incendiadas, marranos para bem longe, juntos aos infelizes gafos de S.Pedro, exigia-se.

A vila passava por seca prolongada, logo nas igrejas  justificada pela má influência dos judeus, o Senhor castigava o convívio com os pecadores, o inferno estava exangue dessa justiça cristã que apaziguaria os elementos encolerizados com Sintra. As pestes dos anos anteriores eram o sinal da ira divina e  incendiavam os clérigos.

Nas semanas subsequentes, oficiais do Paço correram as ruas e casas curando de saber quem se mostrava temente a Deus e ao Santo Padre, labaredas purificadoras se encarregariam dos que resistissem.

Salomão Bem Crespe juntou a comunidade.Velhos recitando salmos, filhos assustados pegando as saias de chorosas mães a medo entoaram os cânticos que os filhos de Moisés, David e Salomão cantavam desde que a terra do leite e do mel fora alcançada, essa Terra Prometida bem longe desta, agora  madrasta e castigadora.

Com o tempo, alguns converteram-se, era o fogo ou a sobrevivência. Frei Gonçalo do Rosário somava os baptismos salvíficos.No momento da água cair, cristalina, muitos fechavam os olhos e interiormente rezavam pela redenção do povo de Israel. Várias famílias de Sintra ainda tentaram fugir, mas o rei,alertado, fechou os portos. Os filhos de Rute de Córdova foram levados á mãe para serem educados como cristãos, a comunidade que restou passou a ser um espectro silencioso, arrastando uma lepra disfarçada, onde só os corações reprimidos podiam em sofrimento ser livres.

Salomão Ben Crespe, amargurado, acabou abandonando Sintra e retirou-se para Lisboa, onde nos  anos seguintes subsistiu como alfaiate no Rossio, em casa dum primo converso junto ao Hospital de Todos os Santos.

1506 entrara flagelado pela peste, os cristãos velhos celebravam a Semana Santa, Pesach hebraico,as  igrejas enchiam pedindo pelo fim da praga e pela redenção das almas, inflamados frades vendiam indulgências, muitos amancebados e com vidas dissolutas.

Na igreja de S.Domingos, ia o 19 de Abril, dominicanos assanhados peroravam contra os males do reino e seus pérfidos causadores, a turba cega e colerizada pedia sangue. Olhos turvados viam já sinais divinos num crucifixo junto a uma capela milagre, anunciava-se, muitos rezavam já, em fervor.Um cristão-novo mais sereno arrefecia os ânimos, seria apenas uma candeia acesa ao lado do crucifixo,parecia-lhe. Reconhecido como marrano, logo a plebe  matou o descrente, e acossada pelos dominicanos perseguiu nas ruas a eito todos os desnaturados e incautos às leis de Deus.

Salomão Ben Crespe passava nessa altura a caminho do Paço da Ribeira,absorto, vergado pela idade e desgostos da vida.Virando-se para o lado da igreja de S.Domingos viu vir em direcção a si um grupo de exacerbados populares, acicatando: Mata!Mata! Ainda se virou pensando ser outro o alvo de tal raiva,quando agarrado pelos longos cabelos o arrastaram pela terra pejada de excremento de cavalo, golpeando e pontapeando, como se a cada pontapé uma chaga de Cristo fosse curada e o reino dos Céus ficasse mais próximo.

Atordoado, junto a si espancavam mais três infelizes crianças arrancadas a suas mães e jorradas para um monte de lenha que logo se armou numa guincharia própria de açougue, como o bezerro sentindo o cutelo justiceiro.

Salomão fechou os olhos, olhou o céu, sorriu,e deixou que o calor libertador daquele madeiro  tomasse sua carne e chamuscasse as entranhas. A alma  preservada para a eternidade, descansaria agora ,o Deus de Israel não o abandonaria.Até 21 de Abril duraria a sanha, sanguinária e atroz.Nesses dias do ano de 1506 da era de nosso senhor D.Manuel, venturoso rei de Portugal, o fumo negro da perfídia, e o esturricado cheiro da justiça dos homens enegrecia a capital dum Império onde o Sol nunca se punha, mas as trevas não largavam.

publicado por Fernando Morais Gomes às 19:55

23
Out 10

O homem da gabardina branca chegava a Sintra, entardecia. Walter Schellenberg, oficial de Ligação da polícia alemã e elemento da Gestapo, ia encontrar-se no Hotel Nunes com o  capitão Fritz Kramer, chefe da III secção de contra-espionagem da Abwehr. Depois da proposta de Ribbentrop para que o Duque de Windsor, que havia abdicado para casar com a americana Wallis Simpson, fosse sondado para reocupar o trono de Inglaterra após a previsível vitória das forças do Reich, este, chegado a Portugal na Primavera, abordado num jantar no hotel Avis mostrara-se reticente. O Führer, furioso, mandara então raptá-lo em Portugal, onde se encontrava naquele Verão de 1940.

Primeiro pensara-se na remoção do casal  para um país neutro, sob controlo dos alemães, o que deveria ocorrer durante uma partida de caça, na fronteira luso-espanhola, onde o duque mostrara interesse em participar, mas, quando se soube que ele não ia e que provavelmente não estaria na disposição de seguir, Ribbentrop ordenou o seu rapto, pela força, se necessário, operação a que agora os dois germânicos davam andamento na pacatez daquela Sintra a viver mais um Verão.

Schellemberg e Kramer não passavam despercebidos ao groom do hotel Nunes, na Vila.Ar teutónico, cabelo louro e olhos azuis, supostamente turistas de visita aos palácios. No encontro de ambos foi transmitida a ordem de o raptar e transferir para a Alemanha.

-Heil,Hitler!-saudou discretamente Schellemberg, desde há semanas colocado em Lisboa,  logo tomando lugar num cadeirão da sala de chá.

-Heil, herr Schellemberg.- saudou marcial o capitão, cicatriz na cara, um estilhaço durante a ocupação de Danzig, um ano antes.O Reich tem planos para si. Sabe que o ex-rei Eduardo VIII está neste país?

-Ya, Hauptmann Kramer, todos sabem, temos inclusive dois homens infiltrados como  mordomos na casa do banqueiro onde está alojado!- informou, profissional nunca apanhado desprevenido, o duque estava alojado na casa de Ricardo Espírito Santo, no Estoril, todas as secretas vigiavam, o capitão Agostinho Lourenço, chefe da portuguesa PVDE ,instruído pelo Presidente do Conselho, tinha sempre seis homens seguindo os passos dos duques.

-Pois é preciso levá-lo em segredo para a Alemanha!-e passou a expor:O plano é o seguinte: no dia 29 de Julho os duques estão convidados para um jantar aqui perto de Sintra, em casa do  dono duma transportadora marítima, Mário Conceição Silva, que é da nossa confiança. Cecil Nassenstein, e Volbrecht, dos nossos serviços aqui em Lisboa levarão o duque após o jantar, num carro igual ao que o trará, mas  sem regressarem ao Estoril , seguem para um avião do Reich estacionado em Tires ,directo a Hamburgo. Compreendido?

-Ya wohl! Vou providenciar os detalhes!-

Despediram-se, ordens recebidas, disciplina teutónica a funcionar, seguindo em direcções opostas.Na Vila,colarejas ofereciam peras pérolas a preços convidativos, caía a noite.

Nassenstein e Volbrecht  tinham chegado recentemente a Portugal e trabalhavam a partir do Hotel Avenida Palace, que  no 4.º andar tinha  um corredor  ligado  directamente ao cais internacional da estação do Rossio.Com a conivência da PVDE ali chegavam incógnitos e sem controlo policial  personalidades importantes e espiões do Reich. Em Sintra ficava acertada a coberto de uma visita de lazer, a operação, a 29 de Julho, data do jantar.Na véspera, todos discretamente se encontrariam no lounge do Casino Estoril para os últimos detalhes, dois courpiers eram da confiança da Gestapo.Entre um bacará e um poker de dados seguiriam os passos dos ingleses, instalados em hotéis da linha do Estoril, jogo de gato e rato na roleta da espionagem internacional.

Eduardo VIII, ex-rei de Inglaterra, sucedera ao pai, Jorge V, em Janeiro de 1936. O seu reinado, contudo, iria ser muito breve, oficialmente devido ao romance com Wallis W. Simpson, uma americana divorciada. O anúncio da sua intenção de casar-se com ela obrigara Eduardo a abdicar em Dezembro a favor do irmão Jorge VI, mantendo  o título de Duque de Windsor. As suas simpatias pela Alemanha nazi , já conhecidas,começaram então a manifestar-se mais abertamente, canalizando para aí o despeito que sentia contra os britânicos por não ser concedido à senhora Simpson o tratamento de Alteza Real. Ainda  rei, realizara uma viagem à Alemanha, onde fora calorosamente recebido por Hitler, e ao estalar a guerra pronunciara vários discursos criticando a atitude britânica e defendendo os nazis. Era um trunfo importante  e útil para o pós armistício, um rei sem poder que Hitler colocaria no trono inglês como fantoche manobrável.

Ricardo Espírito Santo, anfitrião do duque, banqueiro, homem de confiança do regime de Lisboa, trabalhava para ingleses e alemães, num jogo duplo, que era do conhecimento dos serviços secretos ingleses, que o designavam pelo nome de código de holy ghost. Comunicações directas com Ribbentrop haviam sido detectadas por Kim Philby, agente inglês enviado para espiar o duque a mando de Churchill. Na noite do jantar em Sintra, a que não comparecia, despediu-se dos seus hóspedes, ia a um encontro com o Ministro do Interior, o rapto gizado não lhe era totalmente desconhecido, mas  havia que dissimular.

Já á saída, seis da tarde, o motorista posto ao serviço dos duques, o Silveira, foi abordado por um inglês, seria ele o chauffeur nesse dia, ordens da embaixada, frisou, o dr.Ricardo estaria a par. Coisas da política, pensou, acatando a ordem, aliviado, iria ter com o Porfírio aos fados na Rua da Rosa.

Os duques eram afáveis, porém pouco faladores. Notava-se uma certa amargura em Eduardo, o rei que o mundo via como protagonista duma história de cinderela, dividido entre a angústia pela sua Inglaterra bombardeada e o apreço pela extraordinária obra do senhor Hitler, que tirara a Alemanha da crise que nos anos vinte a levaram quase à irrelevância. Afinal a dinastia britânica tinha origens alemãs, dos Hannovers, sangue prussiano corria-lhes nas veias.

Pelas dezanove horas, viagem rotineira, quarenta minutos  de carro, o duque lendo um jornal inglês, Wallis Simpson olhar absorto e cansado, lá seguiram para o jantar.O motorista substituto falava inglês e era conterrâneo, o que agradou a Eduardo, saudando o mesmo com cortesia, formal.

Chegados ao Alcoitão, o carro  guinou para a esquerda, noutra direcção, para uma quinta em Ranholas. Eduardo estranhou, já tinha estado em Sintra antes, nunca por aquele caminho, o condutor pediu-lhe  que não fizesse perguntas, chegando tudo lhe seria explicado.O motorista era Dusko Popov, agente duplo britânico, de ascendência sérvia, conhecido como o “Triciclo”.Os ingleses já haviam descoberto por comunicações cifradas os planos alemães e uma operação havia sido montada para pôr os duques a salvo. Popov apressou-se a inteirá-los do plano alemão, ora desmantelado, com a coordenação do MI5 e a acção de retaguarda de Philby e Donald Darling, espião britânico estacionado no posto de Lisboa, conhecido como Didi, todos envolvidos na designada “Operação Willi”.

Em S. Pedro, entretanto, senhoras de lantejoulas e membros da comunidade britânica esperavam e estranhavam a demora. Mário Conceição Silva olhava o relógio, entreolhando Kramer, que saboreava um Porto, Volbrecht, inquieto, disfarçado de motorista  aguardava junto ao carro.Os duques não apareciam nem apareceriam nessa noite, uma indisposição súbita de Walis foi alegada, com delicadeza se desculpavam, de volta ao Estoril, goravam-se os planos.

A espionagem europeia ensaiava manobras de diversão na spyland que era Portugal nos anos da Grande Guerra, ele próprio num jogo similar piscando o olho às potências em conflito consoante os tacticismos do Presidente do Conselho.

A  2 de Agosto de 1940, três dias depois , o duque de Windsor e Wallis Simpson partiam no «Excalibur», rumo às Bahamas, onde, longe do vespeiro europeu Eduardo assumiria o tranquilo posto de Governador. Por esta vez, os ingleses levavam a melhor.


publicado por Fernando Morais Gomes às 15:02

22
Out 10

Em tempos de vacas magras, a Cultura volta a ser o parente pobre do OGE. Unindo serviços  à pressa, cortando a eito, nas actividades criativas,que não na burocracia, a Cultura em Portugal vai ao fundo como o novo submarino, tudo a reboque de duas agências de rating e meia dúzia de cinzentos burocratas em Bruxelas que são quem efectivamente gere o rectângulo. E depois fala-se no reforço dos centros nacionais de decisão…

Também a nível local é  este o momento em que  se prepara o orçamento para o próximo ano, e na cultura o quadro da intermitência e precariedade dos agentes  culturais vai perpetuar-se, o que é já endémico. Tempo para reforçar a sugestão de que os quadros de tomada de decisões passem pela implementação dum Orçamento Participativo ,onde as verbas da Cultura e protecção do património sejam contratualizadas com os parceiros culturais aprofundando a democracia na tomada das decisões. Mas como estamos agrilhoados pelas tais agências big brother, tal procedimento é luxo a que não nos podemos dar, aliás pouco faltará para o acto de ler ou ir ao teatro pagar imposto ou as festas populares serem proibidas por falta de licença de ruído. Para enquadrar esse Orçamento participativo ,curial seria um Conselho Consultivo Cultural que  se pronunciasse sobre os instrumentos estruturantes da política cultural local e apreciasse os investimentos nessa área ,como seria normal numa democracia adulta de cidadãos, e não de vassalos.Mais ligação com as associações , a sociedade civil e o tecido empresarial, envolvendo  tal Conselho em contratos programa, cooperação internacional e mecenato, apoiados num Plano de Cultura e Conhecimento publicamente discutido e sufragado.Mas, infelizmente, também quem um dia disse I have a dream morreu logo de seguida...

É a triste condição de fazer parte do grupo dos PIGS,os feios porcos e maus desta Europa sem rumo, nas mãos de um chauvinista francês pinga-amor e uma governanta alemã mais perita em apfelstrüddel que em visão estratégica, querendo agora  erguer um novo muro de Berlim  separando os cumpridores obedientes dos despesistas rebeldes.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:16

Arnaldo raramente ia à praia, vivia enfiado naquele sótão da casa na Rinchoa onde escrevia  poemas que ninguém lia, tesouro da sua gaveta, confessionário dum ser torpedeado de inseguranças e fantasmas. Existia sem viver. Naquele dia, depois da consulta no hospital e a notícia de um fim próximo, tabaco fazendo das suas, sentiu a necessidade de estar perto da água salgada, sentir o cheiro límpido do iodo. Aterrara naquela esplanada da Praia Grande num turbilhão de whiskies duplos. Ninguém nos ensina a morrer, mas a verdade é que todos os dias da vida são intervalos que a morte nos concede.

Um cancro no pulmão intrometia-se, convidado indesejável. No início a surpresa, a hipótese do engano, a segunda opinião. Depois o desespero, presença insuportável, lágrimas, mágoa, as dores como companheiras mais chegadas. Estava só, naquela morte de viver, os livros que nunca editara, tudo comprometido por um corpo frágil e tangível, qual anjo caído, pecador, mergulhado em culpas secretas a quem iam faltando asas para voar. Exaurido do mundo, exaurido de si, talvez finalmente descansasse.

Antevia já a campa inerte onde poucas flores lhe iriam levar, uma lápide burocrática e igual a todas as outras, ninguém para lembrar a obra desconhecida por editar, só aquele solitário funcionário do registo civil a escrevinhar em guardanapos de papel na mesa do canto da leitaria do bairro as obras- primas da sua gaveta secreta,fumando os religiosos três maços de cigarros diários. Agora acendia mentalmente o cigarro e fumava com a imaginação, comprara um isqueiro de plástico. A quimioterapia fazia das suas, os cabelos cada vez mais agarrados ao pente, tosse purulenta, olhos inchados.

Uma vez mais pegava na caneta e no guardanapo de papel e ensaiava um testamento, requiem dos bens que não tinha para uma família que não existia. Quando tudo acaba não sabemos ao certo o que devemos pensar, há a tentação de escrever para imortalidade. Redigiu umas linhas, levantou-se, passeando no areal, um trilho de pegadas na areia molhada.Ignorou o médico, e fumou um dos cigarros assassinos, o mal estava feito.

No dia seguinte, a roupa foi encontrada numa rocha, o corpo nunca apareceu. Um empregado da esplanada, limpando as mesas, deu com um pequeno papel amarrotado dentro de um cinzeiro. Curioso, foi ler.”Hoje começa o dia de amanhã”.


publicado por Fernando Morais Gomes às 00:45

21
Out 10

Pergunta de Cultura Geral.Onde foi tirada esta foto?

a)Em Bagdad, depois de mais um mártir se ter imolado junto a um Ministério

b)Em Port-au-Prince,Haiti,uma semana depois do sismo

c)Na Praia das Maçãs,Sintra,Património da Humanidade

publicado por Fernando Morais Gomes às 17:06

Outubro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


19

25
26



subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO