por F. Morais Gomes

29
Dez 10

Dia 1 de Janeiro, comidas as passas, bebido o champanhe(nada abaixo deMoet et Chandon, faz favor, se vamos entrar em ano de crise ao menos que seja com elegância…)depois dos abraços e beijos, quando a ressaca passar será manhã e já lá estaremos. Não vai doer nada vão ver, tirando o IVA do croissant e da primeira bica de Janeiro, (mas são só mais 2%, não sejam chatos) há que preparar o ano com normas para chegar sãos e talvez salvos a 2012.

Para tanto algumas dicas: a começar por deixar de ler todos os jornais que tenham a palavra crise na primeira página, a única crise admitida é a de 1385 mas aí eram umas agências de rating castelhanas que nos queriam fazer a folha e demos a volta graças a uma padeira que nem tinha sido vistoriada pela ASAE nem nada. Também convém deixar de ver todos os programas do Prós e Contras que convidam aqueles ex-ministros das finanças que contribuíram para o estado a que isto chegou e falam sempre em cortes para os outros e nunca para as suas pensões douradas sem fazer nada (aliás, em países a sério muitos já tinham sido condenados por gestão danosa e estavam a partir pedra no Alentejo ao sol). Convém também deixar no lar de onde nunca devia ter saído o Dr.Medina Carreira, o velho do Restelo do regime, com um olho para cada lado arrisca-se a ser acusado de falta de visão.

Alem do mais comprem sempre produtos nacionais e biológicos se possível voltem aos mercados e feirinhas e deixem as grandes superfícies para os viciados em McDonalds  e nas nouguettes do KFK, se tiverem um pouco de terra façam uma horta biológica a ver se os vossos filhos finalmente descobrem como é uma batata sem ser frita ou um frango sem ser já no prato e assado. Reciclem o lixo e comprem por unidades e não por paletes, usem mais transportes públicos, contribuem para diminuir os CFC para a atmosfera e até podem socializar mais com os vossos vizinhos e tomar o pulso ao que sentem as pessoas sem ser a praguejar na fila do IC 19 porque a “bicha” não anda.

Sempre que lhe oferecerem promoções no banco ou nos telemóveis desconfie e aconselhe-se primeiro, há muitos gatos para poucas lebres, e faça o que faziam os seus avós: compre um porquinho mealheiro e ponha pelo menos 1 euro de parte todos os dias, é menos uma bica ou um cigarro e reaviva algo que se perdeu  há muito tempo: a poupança.Fuja dos cartões de crédito e traga na carteira apenas o dinheiro necessário para as despesas previstas,e sempre em notas pequenas(também muitas vezes não haverá assim tantas “grandes”…)

Se o seu clube perdeu um jogo não culpe o árbitro, se calhar é porque merecia mesmo perder, e em vez de praticar desporto de zapping entre os canais desportivos na TV Cabo faça passeios a pé e vida de ar livre. Recomenda-se que não veja programas de comentário político mais que 15m por semana, para manter a sanidade mental, e não exagere nas doses da Casa dos Segredos ou do Preço Certo se além de teso não quer ser considerado boçal. Leia autores portugueses e deixe de lado os Dan Brown e Paulo Coelho, oiça música portuguesa boa e esqueça todos os artistas que enchem a Praça da Alegria só para bater palminhas.

Confira as facturas e os códigos de barra nos supermercados, se batem certo com os preços afixados, e faça voluntariado junto de quem mais precisa em vez de engordar as operadoras com as chamadas de valor acrescentado. Reclame sempre que não lhe expliquem os seus direitos e seja exigente com o cumprimento dos prazos, somos uma sociedade de cidadãos e não de vassalos. A Administração está para servir e não para se servir. Reclame quando o seu autocarro vier atrasado e não lhe derem sequer uma satisfação, exija obras de conservação nas estradas oneradas por portagens ilegítimas (e em todas), reúna mais com os seus amigos em vez de passar horas no Facebook. E sobretudo, seja optimista, só você tem na mão a chave para dar a volta às coisas.


publicado por Fernando Morais Gomes às 09:29

28
Dez 10

Pela manhã daquele frio 28 de Dezembro Jorge na solidão dos seus dias vazios e sem esperança passeava no areal da Aguda, duas gaivotas pairando sobre o azul encrespado daquela mar atlântico e viril. Concluíra há mais de dois anos um mestrado em Antropologia, iludira-se com uma carreira de investigação na Universidade, duas experiências num call center da Vodafone e como guia turístico a recibo verde fora tudo o que conseguira, o pai e o avô iam ajudando.

Acabara com Mariana, aqueles arrufos que noutras circunstâncias de menor pressão logo se resolveriam mas que um mau estar depressivo amplificara, estava arrependido mas não conseguia dar o braço a torcer.O Filipe prometera ver o que se arranjava lá no armazém do pai, em Queluz, com a crise também por lá as coisas não estavam fáceis, dos vinte empregados sete foram despedidos, os restantes estavam à peça a receber pelo desemprego.

A Aguda estava particularmente spleen, só, naquele dia de semana, intervalo entre o Natal cada vez mais de disfarce e consumista, apesar da crise, e o novo ano, esse 2011 de que todos parecem querer fugir, como se de uma via sacra para a forca se tratasse. Enquanto um pescador solitário apanhava tiagem para a noite seguinte, ia desfolhando o seu passado recente, os amigos arrastando-se pelos cafés afogando em imperiais uma vida a marcar passo, os pais desavindos por causa dos empréstimos por pagar, a pequena Joaninha, irmã caçula brincando com a Barbie que, alheia ao mundo dos grandes ainda conseguira oferecer, o tempo esgotando-se entre as trivialidades do Facebook, onde tinham 500 “amigos” dos quais só conhecia 10, e o download de música dos blues favoritos.

Enquanto pensativo deambulava pela praia, desenhando círculos na areia molhada que logo ondas irritantes desfaziam, a repetida dolência das marés exibia a força da natureza pujante, por momentos lembrou-lhe um poema de António Nobre, e  o tsunami da Ásia, faz agora anos,  pela memória passou-lhe a imagem dantesca do que seria uma onda igual a consumir a praia, pouco provável, dadas as arribas alcantiladas da  costa armadilhada de recifes e fósseis.

Inseguro, de quando em quando puxava do telemóvel, ensaiava premir o número da Mariana, mas desistia sempre, entre o orgulho e a mágoa, se calhar era melhor assim, as coisas estavam a degradar-se de qualquer maneira, já não havia osmose nem química, só o conforto egoísta daquela pele macia e frágil, porto de abrigo de muitos dias de solidão e de planos de futuro oníricos e reconfortantes onde em pose fetal se acolhia protector depois de noites de entrega. Mas depois, cruel, a frieza da cama pela manhã, o quarto húmido onde fixamente olhava o tecto, a melancolia companheira da tristeza, a vontade de resistir, até quando?

Ao longe na areia, uma mulher, quarenta e tal anos, um cão de água português correndo ofegante, mais alguém no passeio matinal sorvendo aquele iodo terapêutico e vigorante, um cigarro na mão, olhar impassível e fechado. Por momentos, cruzaram-se já uma onda ousada molhava os sapatos de ambos, o cão feliz, solto ladrando atrás duma gaivota mais incauta.

A mulher tinha uma expressão serena, tal e qual a Angelina Jolie, pensou com os seus botões, ela colocou uns óculos escuros, apesar de não haver sol, inevitavelmente ele meteu conversa, o cão- há sempre um cão-como pretexto.

-Estes cães gostam muito de água, quantos anos tem?- avançou, uma atracção por aquele ar seráfico e impenetrável tornava interessante e desafiadora aquela desconhecida passeando na praia num dia de semana invernoso.

-Três meses, é cachorro ainda!- respondeu, leve sorriso não muito expansivo, o cabelo ao vento levado por uma leve brisa da nortada.

-É bonito.Como se chama?

-Fausto.O meu ex-marido só gostava de ter animais com nomes clássicos.

Bom, já sabia que havia um marido. Mas ex, a coisa não era assim tão desagradável. Ela logo o questionou:

-Vem aqui muitas vezes?Nunca o vi por cá!

-É raro, mas o ar frio é tónico, quando posso venho, moro aqui perto.

-As praias são locais onde muitas coisas se perdem e outras se ganham, as ondas trazem e levam muitos segredos, não são só botas velhas.-enigmática, as palavras soavam-lhe a filme de Manuel de Oliveira, com a cabeça assentava que sim, só para agradar e continuar a conversa.

-O meu avô dizia-me, quando quiseres que algo de novo aconteça, levanta uma pedra e surpreende-te pois aquilo que procuras pode lá estar.As praias são cofres de segredos a desvendar, para logo se desfazerem na espuma dos dias!-

Bonitas palavras, pensou, ela logo se despediu, já o cão sumia na direcção de Magoito, vasto areal nos baixios da manhã, o vento gélido na balada fria e misteriosa.

De novo só, o pescador à tiagem já vulto ao longe, continuou vagaroso desenhando círculos com o tronco seco que uma onda trouxera. Numa rocha repleta de percebes e mexilhões vestida de algas verdes e salgadas, deteve-se minutos a ver o mar, um súbito ruído de algo a bater na rocha chamou-lhe a atenção, coisa sólida e rija. Curioso, deitou o olhar sobre uma poça que o mar escavara, uma garrafa esverdeada e sem rótulo, fechada, deixava-se levar pelo ondulante bailado da água fria. Algo no interior logo o alertou.

A garrafa continha um papel dentro, logo a imaginação a trabalhar, quiçá alguém na Nova Zelândia mandando mensagem a um namorado de vinte anos antes, coisa de filme, ele também náufrago da vida com uma garrafa na praia, ao menos se fosse de gin reconfortante…

Desdobrado o papel, não muito antigo como erradamente imaginara, umas palavras enigmáticas, manuscritas:

Segunda feira 3 de Janeiro, está pelas 10 horas à porta da Universidade Nova. Um assistente de Antropologia vai ser convidado a dar aulas com entrada imediata. O destino baralha as cartas.Nós jogamos” .

Como assinatura, um sol risonho, amarelo, ingénuo. Atónito, releu a mensagem, e repetidamente a agarrou contra a mão firme como se por azar fosse escapar. Ao longe, um vulto de mulher, uma forma de peixe disforme no lugar das pernas lançava-se ao mar, uma gaivota por escolta. Ainda tentou ir no seu encalço, mas desaparecera, qual visão sonâmbula e irreal. Só o cão de água ladrando e abanando o rabo o rodeava agora, sozinho, traquina e brincalhão.


publicado por Fernando Morais Gomes às 12:47

27
Dez 10

Aí está a chegar o famigerado 2011, Ano Internacional das Florestas ,e do Coelho ,no zodíaco chinês.Não se pode passar já para 2012?Seja como for alguns desejos colectivos para o ano que vem:

O desejo que as medidas de austeridade sirvam efectivamente para resolver o défice sem surpresas de mais PEC.

O  desejo que os direitos do homem sejam respeitados em zonas como a China, Coreia do Norte,  Birmânia,  Bielorrússia, Irão ou Zimbabwe entre outros.

O desejo que  Portugal se consiga qualificar para o Euro 2012.

O desejo que o Sporting ganhe a Liga Europa.(desculpem lá….)

O desejo que a inauguração do Chalé da Condessa seja uma realidade.

O desejo que uma Escola Profissional de Protecção do Património Natural seja criada na serra de Sintra.

O desejo de mais auscultação à sociedade civil antes de se tomarem decisões que bulhem com a colectividade (abates de árvores, elaboração de planos,localização de equipamentos etc).

O desejo de ver a cúpula do Café Paris  no Centro Histórico de Sintra recolocada.

O desejo de ver os estacionamentos na serra de Sintra regulados

O desejo de mais apoio aos agentes culturais locais, por uma vida cultural de qualidade e envolvente.

O desejo de ver a justiça a funcionar melhor e a tempo e horas.

O  desejo de ver mais e melhor programação cultural, e sobretudo teatro, na televisão pública.

O desejo que o ordenado mínimo efectivamente chegue aos 500 euros.

O desejo de  ver os mamarrachos ao abandono no centro de Sintra em obras de recuperação.

O desejo  de ver esperança e futuro melhor para os jovens de Portugal  20% dos quais no desemprego.

De resto não há que ter medo senão do próprio medo.Um pessimista não é mais que um optimista mal informado.

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:03

25
Dez 10

Mais um Natal os três, Baltasar, Gaspar e Melchior, sócios na ourivesaria ,solteirões inveterados, à meia-noite trocaram presentes e comeram azevias e  bolo-rei, agora sem brinde já não tem piada, comentava o Gaspar.

Baltasar, 51, era o mais velho e gerente da loja, muitas alianças de casamento vendidas,nunca  a dele, a olho nu distinguia um fio de ouro de um pechisbeque com banho dourado.Com Gaspar iniciaram o negócio  há oito anos,chegaram a correr o país em feiras e mercados antes de finalmente se estabelecerem numa zona elegante, até hoje nem um assalto, felizmente. Melchior retornara de África com a descolonização, era mestiço, após um casamento falhado conheceram-se os três numa viagem à Turquia , durante um tour de camelo em Ismir,acabou  partilhando o negócio e a casa no Banzão.

Na véspera de Natal haviam tido algum movimento na loja, apesar da crise, uns brincos, quatro relógios, uma salva em prata, dava para ir mexendo, à noite em paz jantaram e foram à missa do galo em Colares.

Pela manhã de 25 de Dezembro coube a Melchior despejar o lixo, tarefa rotativa de acordo com as regras  lá  de casa, papeis de embrulho,a caixa do bolo rei e uns restos dos camarões tigre da ceia de Natal, bacalhau lá em casa não era tradição. Tinham uma empregada duas vezes por semana, a Maria ,por ser feriado não  foi trabalhar, eles mesmo acomodavam a sala e cozinha, iriam almoçar mais tarde à Ericeira, apesar do tempo chuvoso sempre dava para arejar e desentorpecer as pernas.

Já Melchior voltava para casa quando ouviu um restolhar  junto ao contentor, algum cão buscando sobras de peru, pensou. Curioso, aproximou-se, uma alcofa de estopa atada com um fio de nylon estava encostada mesmo ao lado do contentor, parecia conter algo, agitava-se ligeiramente. Espreitando de soslaio, assombrado se lhe deparou um bebé, ainda com sangue no corpo, não teria mais que umas horas de vida, ali abandonado na manhã fria do dia de Natal.

Olhou em redor,ainda  atónito, tentando descortinar alguém na redondeza, algum carro, quem poderia ter cometido uma barbaridade daquelas, e a medo, de quem nunca pegou num recém-nascido antes, agasalhou-o com o casaco de lã que vestia e levou-o para casa.

Baltasar fazia a barba, enquanto Gaspar dolente fazia zapping com o comando, todos os canais na bênção do Papa, comentou entediado, o passo ofegante de Melchior com um volume nos braços assustou-os.

-Depressa! Vejam só o que estava no lixo! Não há direito! - exibiu Melchior um ensanguentado e roxo nascituro, um rapaz ,segundo vira logo.

Baltasar e Gaspar miraram-no atarantados, Baltasar ainda com creme da barba na cara, o pequeno dormitava inocente e porém já órfão.

-Tem de se avisar a polícia.Mas esperem, vamos dar-lhe banho primeiro-sugeriu Gaspar, logo correndo a buscar um alguidar com água quente.

-E comida? Há algum biberão?-

Melchior, mete-te no carro e vê qual a farmácia de serviço.Traz fraldas e um biberão. Ah e pergunta o que é que se dá de comer nestas idades!-logo destinou Baltazar, o ourives improvável baby-sitter sem experiência  com crianças.

O bebé com o barulho acordou, desfazendo-se num pranto. Enquanto Melchior não voltava, vinte minutos que mais pareciam vinte horas, foram deitando leite morno nos lábios daquela criaturinha inocente que ela logo sugava instintiva,e dizendo aquelas patetices que se dizem aos bebés como se fossem bonecos.

Regressado Melchior os três dividiram as tarefas daquela original manhã de dia de Natal, e uma hora depois já dormitava na cama do Baltazar, protegido por almofadas dos lados para não cair, o trio embevecido adorando aquela cena que só pensavam acontecer nos filmes. Sócrates, o gato siamês, assistia a tudo espantado e miava sem saber o que se estava a passar, comida não era.

Entretanto chegou a Maria, apesar do feriado passara a saber se era preciso alguma coisa.Maria, vinte e dois anos, separada de fresco do Zé Luís, entretanto despedido da secção de móveis do Ikea, ficou abismada com a história e, maternal, logo ficou a tomar conta do pequeno anjo,nascido não em manjedoura mas num caixote da câmara de Sintra. Ela própria recentemente passara por um traumatizante aborto involuntário e agora ali um bebé, poderia ter sido o seu,salvo  numa chuvosa mas radiante manhã de vida no presépio do Banzão.

Chegada a autoridade, todos se deslocaram para a GNR de Colares, onde dois guardas de serviço o colocaram ternurentos, também eles pais de filhos,em cima de uma secretária junto à árvore de Natal da esquadra,ao fundo num televisor um coro alemão cantava o Adeste Fidelis. Seguiria para uma instituição de acolhimento, por certo, formalidades,mas logo Baltasar e os outros quiseram seguir o caso, se pudessem estavam interessados em criá-lo, Gaspar, mais crente, associava aquele acontecimento a mais que uma coincidência e logo na data que fora.

Reluzindo às cores com o reflexo das luzes de Natal no rosto minúsculo, o pequeno a quem algum drama pessoal  conduzira ao abandono atroz, parecia sorrir na alcofa com todos em volta mirando, silenciosos mas de coração grande.

No rio de Colares, duas pombas brancas esvoaçavam soltas e livres, chaminés fumegantes anunciavam o lento acordar duma manhã de Natal, a vida se renovava e o que por certo seria mais um drama da vida madrasta de famélicos de 2010  prenunciava agora novos começos nesta vida sempre a recomeçar.

-Há-de chamar-se Salvador! -profetizou Maria, uma lágrima no olho adoçando o sorriso  de esperança, maternidade reencontrada junto  com três  tios  emprestados para o que der e vier.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:27

24
Dez 10

A Vida é composta de três partes:na primeira acreditas no Pai Natal, na segunda não acreditas, na terceira tu és o Pai Natal.Feliz Natal para quem é de Natal com paz e amizade.


 

A título de curiosidade  foi Clement Clark Moore,autor do poema"The visit of St Nicholas"de 1822 o criador do Pai Natal que distribui presentes às crianças montado num trenó conduzido por 8 renas voadoras.
Em 1932 a Coca-Cola adoptou a figura na sua campanha de Inverno,e desde então passou a ter as cores dessa marca, vermelho e branco. Aqui ficam os nomes das renas:Comet, Cupid, Donder, Blitze, Vixen, Dancer, Desher e Precer

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:12

23
Dez 10

Portugal depois da chegada do FMI? Não, é só o vulcão islandês...

 

O ano de 2010 está a terminar e também aqui gostaria de fazer um pequeno balanço dum ano dito de luta contra a pobreza e a exclusão social e onde mais pessoas caíram nessa triste realidade, com a dita crise a arrastar-se e infectar países da zona euro sob o fio da navalha dos ditos “mercados”(leia-se capital financeiro especulativo).

Portugal continuou no pântano, e não consigo destacar um facto positivo, com uma imprensa a preferir os fait divers e a justiça sempre a marcar a agenda mediática -Casa Pia, Face Oculta, Rei dos Gnomos, Duarte Lima, BPN, Freeport, submarinos, enfim arguidos para todos os gostos e de todos os tons partidários como convém. E ainda a novela PT-Telefónica. Os cem anos da República parece que foram só os 16 da I República, e os gays já podem casar numa altura em que a percentagem de divórcios ultrapassa a de uniões nesta era de família  disfuncionais e monoparentais. Mas a expressão mais matraqueada foi PEC, PEC, Conselho Europeu em Bruxelas, um PEC, reunião do Ecofin, outro, três já ninguém tira, para o ano há mais, só Deus e a sra Merkel é que sabem…

No mundo dos outros -e nossa também -foi um ano de adversidades meteorológicas, os elementos não estão mesmo de feição -os terramotos no Haiti e no Chile, a tromba de água da Madeira, as inundações no Paquistão, a maré negra no golfo do México, o vulcão islandês Eyajaffallajokull. De positivo só a salvação dos mineiros chilenos que num mundo onde tudo vai ao fundo foram os únicos a querer vir acima. A China vai fazendo o cerco, mesmo com a provocação do Nobel a Xiabao, a Europa (que é isso?) dissolve-se na inépcia sob a batuta cinzenta do sr.Rompoy e do inefável Barroso, Obama já teve melhores dias.

Na África do Sul nuestros hermanos lá levaram a taça (mas só porque o polvo Paul quis) enquanto os franceses com Anelka ganharam o prémio em pugilismo e Carlos Queiroz fez que era uma espécie de seleccionador. O Papa concordou com o preservativo (que mania  certas pessoas falarem de coisas que não conhecem) e os pedófilos começaram a ser tirados do armário(neste caso, da sacristia).Mas o ano não podia acabar sem alguém para fazer queixinhas e aí está o Big Brother Wikileaks versão novelesca do filme Vícios Privados, Públicas Virtudes, onde ninguém falou, viu ou ouviu e nem certeza tem da sua identidade. Pois é…Na era do IPAD e do Facebook o governo será virtual e nada que um delete não resolva um dia destes.

Por fim, assinalar os que partiram, uns que deixarão saudades(António Feio,Carlos Pinto Coelho, Mariana Rey Monteiro,José Torres,Rosa Lobato Faria,Ernâni Lopes,Dias Lourenço,Vergílio Teixeira,o Senhor do Adeus )outros que deixarão obra(José Saramago,Matilde Rosa Araújo,Jaime Salazar Sampaio,Lena Horne, Louise Bourgeois, Saldanha Sanches, Dennis Hopper, Blake Edwards,Nestor Kirchner,Tony Curtis,Eric Rohmer,Leslie Nielsen,Claude Chabrol) outros, enfim...(Lech Kaczynski,Rosa Coutinho).

Uma nota final positiva para a campanha Limpar Portugal e as causas da Popota e da Leopoldina.Mas solidariedade não são só chamadas de valor acrescentado.

E  agora, respirem fundo, ponham os escafandros, tomem o Valium 10 e entremos sem medos em 2011!Não, não é essa porta, essa diz FMI...

O Senhor do Adeus:"o sonho é que comanda a vida"

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:32

21
Dez 10

Na árvore de Natal de Janas todos os anos desde 1995 aparece sempre pendurado um envelope vermelho, singelo, sem remetente ou destinatário. Tudo começou por causa do tio Álvaro, o velho e espartano solteirão detestava o Natal, não porque não estimasse a família, mas porque sempre tivera aversão ao comércio natalício que para ele massificava  emoções e fazia da fraternidade algo a que se acresce lucro  e iva. Era contra as compras supérfluas,as comezainas pantagruélicas, o ridículo fato de Pai Natal que o Alfredo vestia logo soltando uns oh! oh! oh! mais próprios de tísico terminal  distribuindo o inócuo par de meias  com ursinhos ou  a agenda embrulhada com fitas cintilantes, confissão desesperada de quem não tinha conseguido pensar em nada mais original para oferecer. Até o tal do pai Natal fora inventado pela Coca-Cola, alegava reticente.

Sabedora daquele feitio torto, naquele Natal  Sofia decidiu deixar de lado as peúgas e gravatas às bolas e foi à procura de algo diferente que ele apreciasse, e a ideia surgiu um pouco por acaso: Tiago, o filho de 10 anos, jogava futebol no colégio, e em meados de Dezembro  a sua equipa foi disputar uma partida contra outra de Monte Abraão. Em contraste com os equipamentos limpos e de boas marcas da equipa de Tiago, os deles eram usados e sujos, sapatilhas esfarrapadas, o mundo de Lá, cruel e real. Nesse dia levou o tio Álvaro  ao jogo do filho, e sentiu claramente a diferença entre  os que têm e os que anseiam,outros mundos deste mundo. Os de Monte Abraão perderam o jogo, em silêncio e com o orgulho ferido digeriram a derrota, não eram só as sapatilhas a única coisa esfarrapada por ali.

O tio Álvaro, velho adepto de futebol e do Sporting- nasci para sofrer ,dizia- no fim do jogo encolheu os ombros taciturno:

-Os miúdos da outra equipa têm potencial ,é pena, têm poucas condições, é assim que depois desistem. Apesar de torcer pelo nosso Tiago hoje gostava que tivessem ganho eles! -desabafou, pouco expansivo era contudo um coração de ouro.

Nos anos sessenta Álvaro Camacho fora treinador de equipas juniores no Seixal,a alguns viu mesmo singrar nas divisões intermédias, amigos para o resto da vida. Ainda agora, na mesa do café do Fernando com muitos dos putos já veteranos comentava regularmente as partidas e as carreiras difíceis.

O desabafo inspirou a Sofia uma ideia para um presente de Natal que por certo o levaria a mudar de ideias quanto à hipocrisia da data. Divorciada, dona de um pronto a vestir, alguma folga financeira que permitira a moradia nova no pinhal de Janas, tinha  um coração generoso.Dias mais tarde entrou numa loja de desporto, comprou onze pares de sapatilhas e enviou-as à escola de Monte Abraão. Na véspera de Natal, discretamente pendurou na árvore cintilante  um envelope vermelho com um bilhete dentro para o tio Álvaro, a oferta  aos miúdos era o presente dela para ele. O até ali contrafeito tio ,surpreendido, esboçou um sorriso discreto mas luminoso e  naquele ano,depois da ceia, até comeu filhoses e bebeu dois copos de Porto.

Nos anos seguintes,a árvore de Natal passou a contar com o singelo envelope vermelho  pelo qual um inesperado grupo de crianças ou pessoas carentes beneficiava, sem o saber, dum tio que recriminava o Natal, virando mesmo tradição:  foi um cheque para uma família com um filho paralímpico e sem meios; outro ano a oferta do peru de Natal ao lar de idosos onde  morava a Ercília, a velha criada lá de casa, o envelope surpresa passou a ser o momento alto dos Natais em Janas pelo qual o tio Álvaro agora aguardava ,sem grandes demonstrações exteriores de ansiedade mas feliz interiormente. Religiosamente era sempre o último presente a ser aberto  e lido na noite de Natal, e com os anos até o Tiago e os irmãos mais novos deixavam de lado os brinquedos e jogos que já sabiam ir receber, à espera do momento em que, qual entrega dos Óscares se revelaria o nome dos contemplados no envelope mistério desse ano.

O tempo foi passando, as crianças crescendo,os brinquedos substituídos por presentes mais adequados, mas o inevitável envelope vermelho nunca perdeu o seu lugar e encanto.

Um dia,um cancro de pulmão fez das suas e o tio Álvaro partiu , levando o homem que detestava o Natal mas  involuntariamente fora a causa de vários Natais felizes.

O ano passado, ainda chorosos pela perda do carismático idoso, Sofia e Tiago , já adulto,como sempre enfeitaram a árvore junto  a uma  lareira onde pontificam os retratos de familiares sorridentes, mortos e vivos, o tio Álvaro em destaque com o seu bigode russo e nariz aquilino.No meio das bolas, das luzes, do  velho presépio da avó Chica,de novo um envelope vermelho ao centro.Era Tiago quem agora cúmplice o colocava entreolhando a mãe. Perto da hora do almoço da véspera de Natal, um segundo envelope adornava outra ramagem da árvore, à noite, antes da ceia, mais três se lhe juntavam.Também os irmãos mais novos de Tiago, sem o dizerem, haviam colocado envelopes e sorridentes disfarçavam surpresa, alegando ser coisa do pai Natal.
Á meia noite, depois da ceia e dos presentes, todas à vez foram buscar um envelope e leram a prenda que em memória do tio Álvaro haviam doado: a Joaninha, duas bonecas para o ATL dos meninos  da escola de Morelinho; o Sérgio uma bola de futebol para os filhos do Etelvino, desempregado em dificuldades, a beneficiar da ajuda do Banco Alimentar; até o Marquitos na ingenuidade dos seus cinco anos ofereceu um pijama e um desenho daquele vago tio Álvaro, que mal conhecera, com dois meninos a jogar futebol , para o infantário onde andava.

Nos natais da casa de Janas, o espírito de Natal passou a ser o sagrado momento da homenagem àquele velho tio avesso ao consumismo e às aparências, e a ser  mais importante o dar que o receber.

É Dezembro de Natal e chove,na rádio toca Rudolph the Red Nosed Reindeer, e fico por aqui que tenho envelopes para ir comprar…


publicado por Fernando Morais Gomes às 06:35

20
Dez 10

Formigando vêm e vão, a medo torneando o Grande Fosso onde banhos purificadores  hoje fantasmas espreitam,miram estátuas, casas, o verde esmagador, frémito da natureza na aproximação ao burgo encantado.Anárquicos tiram fotos, com palácios, com árvores, com eles, registo furtivo do dia em que bafejados vieram contemplar a eternidade, de carro, de trem, a pé, de mão dada, olhar em torno, plantas sorrindo garbosas e ternas, loquazes  a manjar os apetitosos doces.Pigmeus privaram com os duendes e secretas sentinelas da Floresta Feitiçeira:a sacerdotisa Llansol e o Grande Maior,o Zeus das árvores encimado pelo céu, logo um asténico Cruges , pena de pato aflita e trepidante, Herculano taciturno, sempre,Nunes Claro jardineiro de almas com o seu regador da palavra, todos  guardados pelo velho mestre Carvalho fleumático Merlin da Pena vigiando do alto da alameda.

Sigurd, Camões, Beckford, Byron, Zé Alfredo, M.S.Lourenço, mortos condenados à Vida Eterna já prestes se alinham no vetusto Paço para o Banquete das Almas, Viana da Mota orquestrando, os  vivos a medo invadindo o Templo bafejados pela mercê dum  breve e fugaz usufruto do condomínio da natureza generosa, onde só os Iniciados da Beleza e Noviços da Vida têm entrada relâmpago e com retorno para fora da Caverna.

Cai a noite, um derradeiro ressoar de cascos dum cavalo branco tornejando o Parque da Liberdade quebra o torpor, logo  grifos e  gárgulas já impacientes ganharão vida para a milenar patrulha dos cumes  pedregosos e das chaminés fumegantes. O vendedor de castanhas recolhe a tenda, o cheiro a Natal invade narinas possuídas de bálsamo revigorante qual poderoso estupefaciente. Ao longe e já perto, as duas chaminés, esfíngicos elmos da lauta cozinha acenam num lento despedir para a noite e para a chegada de novos companheiros, esvoaçantes, aflitos, finitos, temporais, tangíveis.

Um último relance e partir, distante uma harpa sequestrada numa velha casa onde uma luz mortiça quebra o negro da noite despede-se do dia lacrimejando melodias de torpor,capturando em silêncio o cavalo inerte, logo o regresso aos trens, aos carros, à finitude, à vida sem viver, sobrevivente de sonhos, órfã de destinos, carente de Ser.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:19

18
Dez 10

Se há militante das causas da cultura e das ideias que nunca deixou de ver nos promontórios de Sintra pontos de partida para a missão da escrita e do questionar do pensamento português contemporâneo é este autor e crítico literário cada vez mais incontornável na paisagem cultural portuguesa. Prémio Revelação de Ficção da APE/IPLB em 1979 (O Outro e o Mesmo), Prémio Revelação de Ensaio Literário da APE/IPLB em 1995 (Portugal – Ser e Representação), Prémio LER/Círculo de Leitores em 2000 (A Visão de Túndalo por Eça de Queirós) Prémio Literário Fernando Namora em 2006 (A Voz da Terra), vai ser agraciado no dia 18 com a Medalha de Mérito Municipal da Câmara Municipal de Sintra, na Quinta da Regaleira.Português-Sintrense com a idiossincrasia própria de tal condição, há que aplaudir esse gesto simbólico que só enaltece quem o promove, incentivando-o para  o muito que ainda dele há que esperar, já com saudades desse futuro próximo e estimulante.Uns começaram, todos, temos de continuar.

publicado por Fernando Morais Gomes às 05:07

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Dez 10

A forma anémica e mortiça como a comunidade local reage a situações de ofensas ao património ,como o recente caso dos plátanos de Colares o demonstra,é paradigmática do que o português médio e urbano nos dias de hoje tende a ser. Nesse caso, não estando em causa os tratamentos fitossanitários que se imponham e que respeitem estritamente os relatórios técnicos produzidos (depois duma serra na mão é difícil ver até onde pode ir o entusiasmo do funcionário…) está em questão que património é também  direito à imagem, aos som e aos cheiros, aos silêncios até, toda uma panóplia por vezes imaterial que estudos da UNESCO hoje já consagram. Colares são também os seus plátanos, há uma usucapião moral e emocional naquela imagem e naquele espaço cénico. Quando se está constipado não se corta a cabeça ao doente, trata-se,opera-se, não se marca a autópsia. Para já ,a Estradas de Portugal,com a assistência ao jogo distraída,marcou de penaltí.Só que não houve nenhuma falta…

A forma como a comunidade se comporta, casuisticamente e através de vozes que nem sempre se conseguem ouvir ou o fazem ingloriamente, quais gauleses rodeados de legiões romanas (mas sem poção mágica, infelizmente…) trás a terreiro a imagem daquilo em que se está a tornar a nossa sociedade urbana e descentrada (e para mais flagelada pela famigerada crise)

Para alguns Trendsetters (especialistas em novas tendências) esta caracterizar-se-á cada vez mais por se preferir o Skype ao telefone, fazer escapadelas de fim-de-semana ao estrangeiro, apostar num disco rígido ligado à TV, não gostar de fumar e tomar o associativismo ou vida partidária como coisas fora de moda.

Segundo os autores de um estudo de que o PÚBLICO recentemente se fez eco, o português no futuro preferirá cada vez mais causas e acções de protesto pontuais, e procurará amigos temáticos fruto de diversidade cultural. As pessoas estarão menos disponíveis para aderir por períodos muito longos a organizações fixas e preferirão actuar por impulso, vincando um individualismo em que é mais estimulante o que se passa na vida de cada um ou do seu núcleo de amigos do que o que se passa na sociedade. Isto coincide com o incremento da Internet e o fim do televisor único em casa, com vários aparelhos por habitação e a possibilidade de pré-escolher os programas e as horas a que passam, fazendo de cada um um programador de televisão.
Neste quadro, a oferta cultural tenderá para ser feita á medida, com um quadro social fragmentado e de nichos, onde a visão de bloco, anterior, tenderá a desaparecer. É a idade do indivíduo em rede, onde partilhar um projecto ou uma mensagem no YouTube ou no MySpace é mais apetecível que as tradicionais reuniões ou rituais da cultura de massas anteriores. O paradigma mudou, e o futuro já não é como era. Há pois que estar atento e saber passar a mensagem neste novo universo fragmentado.


Colares arborizado:cada vez mais passado....

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:14

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