por F. Morais Gomes

05
Jan 11

Na conservatória ainda ia na senha 8, eles seriam a 13, era finalmente o dia do divórcio, amigável, quiseram, quatro burocráticos papéis pelos quais iam pôr uma pedra em cima de quatro anos de casamento. A sala de espera do registo civil estava cheia, entre duas certidões de óbito e um passaporte a sua vida iria dissolver-se burocrática, banal, desperdiçada.

Conheceram-se cinco anos antes, numa festa em Letras, umas trocas de telefonemas e duas idas ao cinema e já Mónica e Frederico eram namorados, saídas às sextas com os amigos, deambulações e carinhos promissores na sombra dos salgueiros do jardim da Gulbenkian. Acabaram o curso no mesmo ano, ela depois professora em Rio de Mouro, ele um doutoramento em Literatura Inglesa. O casamento veio a seguir, linda festa em Colares, uma tenda branca e todas as amigas invejosas do seu Frederico, bem parecido, másculo, inteligente, a Glórinha apanhara o bouquet no fim da noite.

Um T-2 na Tapada das Mercês, o nascimento do Pedrito, tudo corria sobre rodas ao fim de ano e meio de casamento, amadurecido, discutido, casal moderno e dialogante, os amigos invejavam aquela cumplicidade tão exasperantemente classe média, tal racional e apaixonada ao mesmo tempo.

Um dia Frederico teve de ir a Londres, um seminário, oito dias sem ele, os primeiros em dois anos, só livros e livrarias, prometeu, eram todos sexagenários e Londres é uma cidade circunspecta, falariam todas as noites. No regresso, a novidade de umas saídas semanais para trabalho de pesquisa até tarde, logo regular todos os dias.

Certa tarde fêmea instintiva, seguiu-o, o ciúme acicata o direito de propriedade, a posse louca, não foi para a Biblioteca Nacional como dissera, o carro seguiu para o Príncipe Real. Ao longe e já apeado, viu-o esperar um pouco à porta do Pavilhão Chinês, minutos depois uma loura, quarentona, balzaquiana, chegava com uma pasta, beijo cúmplice, bem que suspeitara. Deixou passar uns minutos que entrassem e foi-lhes na peugada de longe. Lá estavam sentados numa mesa do fundo, mão enlaçada, dois martinis na mesa. Frederico sentindo-se observado virou-se e num ápice largou a mão e correu para ela, que o evitou, saindo a correr e em choro.

Agora estavam ali, tudo terminado, não conseguira ouvir-lhe as desculpas, mentiras arrevesadas, os homens são todos iguais, a traição ainda fresca. Nem dois meses tinham passado, ele saíra de casa, agora o Pedrito ficaria com a mãe, a casa também, iria para casa dos pais temporariamente. Frederico, silencioso, fumava um cigarro à porta, ela ia entretendo a espera com as mensagens de telemóvel, ilusões desfeitas ainda à flor da pele, convidada para o próprio velório, congeminava. Dez minutos depois, uma funcionária empedernida, voz de varina chamou a senha 13.

Na sala fria, uma bandeira nacional, um homem magrinho, o  conservador, distraído, a  acabar um panado no pão, ainda mastigando foi lendo as formalidades, até que perguntou pela vontade definitiva de se separarem. Sim, olhar distante, interiorizada a inevitabilidade, Mónica sentiu um aperto na garganta, mais cinco minutos e tudo estaria terminado, pagar na secretaria faz favor, duas certidões para alterar o cartão de cidadão, felicidades para o futuro.

Na porta da saída, entreolharam-se, Frederico, balbuciou umas palavras.

-Eu…bem….tens boleia?

-Deixa estar, o meu pai vem buscar-me -replicou, desviando o olhar, entre a mágoa e o rancor.

-Ah…ouve, eu….

-Não é preciso dizer nada, as coisas são assim mesmo -ensaiava um discurso civilizado, casal moderno, como via nas séries da televisão, ao mesmo tempo vontade de ser só mulher, traída, irracional, epidérmica.

-Ouve, nada daquilo era como parecia. A Mafalda era minha orientadora do doutoramento e….

-E estavam a ensaiar relações humanas? -ironizou, elevando um pouco a voz.

-Nunca houve nada entre nós, ela estava a sair dum divórcio e eu estava só a confortá-la, juro-te! -ainda avançou, papel do divórcio na mão.

Mónica olhou o horizonte, e começou a andar pela rua fora, na verdade sem saber para onde ir, ele seguiu-a uns instantes.

-Mónica! As palavras valem o que valem mas eu amo-te muito! Ainda! Sempre!- lançou ao vento, qual grito de libertação, a mão na direcção do rosto dela, ainda impassível mas já a desarmar a couraça de dor e despeito, a ténue separação que vai da paixão ao ódio cabe por vezes num olhar mágico e hipnótico, revelador. Subitamente, nem cem metros estavam afastados da conservatória, caíram nos braços um do outro, beijo apaixonado e envolvente, a certidão do divórcio logo voando rua abaixo, o amor e as razões que a razão desconhece, só ama quem se cansa de estar só. Uma hora depois, no quarto onde há dois meses não sublimavam os corpos quentes na adrenalina do desejo, deixando falar a emoção, celebravam reconciliados e tresloucadamente o dia do seu divórcio.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:18

Ser presidente da República em Portugal hoje é algo que só a pessoa e personalidade do inquilino de Belém pode moldar, face ao mitigado e  equívoco catálogo de poderes, reais e fácticos, que os nossos sucessivos deputados sempre que tiveram poderes de revisão lhe quiseram adaptar.

Depois de 25 de Abril, o medo da concentração exagerada de poderes conduziu á figura do presidencialismo bicéfalo, inspirado no conceito de Duverger dos checks and balances, presidente e parlamento concorrenciais, vários ovos, vários ninhos. Facto que é lógico, se pensarmos que a legitimidade electiva derivada do sufrágio universal de ambos lhes augura que desempenhem o papel apelando às respectivas maiorias e lógicas políticas.

A partir de 1982, depois da experiência com Eanes, todas as revisões foram apertando o território do presidente, até que hoje se chega ao absurdo de ter um dispendioso sistema de eleição directa, radicalizada, para depois os poderes efectivos serem resumidos no “garante do regular funcionamento das instituições democráticas”.O que é pouco, mas pode ser muito, consoante a personalidade que estiver no lugar. Muito com Soares, algo com Sampaio, hermético com Cavaco.

Na Irlanda, Alemanha ou Itália os presidentes são, como o nosso, largamente cerimoniais, e são eleitos no Parlamento. Não consta que o sistema seja frágil, são todos eles democracias adultas. É tempo de deixar de querer misturar a V República do general De Gaulle com a rainha de Inglaterra e deixar de querer ter ao mesmo tempo situação e oposição nos diferentes órgãos do Estado. A teoria de não meter todos os ovos no mesmo cesto resulta de desconfiança e é uma doença infantil duma democracia com mecanismos de fiscalização amadurecidos.

Se vier a haver revisão constitucional, será um tema a colocar de certeza. Mas parece-me que a existência de eleição para o cargo em Janeiro desaconselha que seja este o momento adequado, para que não se invoque a deslealdade de mudar as regras a meio do jogo.

publicado por Fernando Morais Gomes às 07:01

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