por F. Morais Gomes

17
Jan 11

Fechadas as urnas após a votação para a Presidência da República, nos estúdios de televisão as primeiras previsões apontavam para um cenário semelhante a um terramoto e que já algumas reportagens da tarde deixavam antever: a par da enorme abstenção,as projecções vaticinavam  a surpreendente eleição do madeirense José Manuel Coelho como 19º Presidente da República Portuguesa. No silêncio da cabine de voto, o povo português desagradado com os políticos optara pelo voto de protesto, e o que poderia não passar de uma contestação  de franjas descontentes, empurrado pela abstenção massiva (no Nordeste a roçar os 90%) conduzia  a um imbróglio político difícil de desatar. O povo português escolhia o seu Tiririca com sotaque, 54% dos votos expressos.

Na primeira ronda televisiva pelas sedes de candidatura desvalorizava-se a projecção, era cedo, Manuel Alegre jantava  nessa altura na Trindade com apoiantes e Cavaco em casa via "Nós, os Ricos" na RTP Memória, mais tarde com mais resultados fariam comentários. O putativo presidente eleito, apanhado a comer um prego numa roulotte  do Campo das  Cebolas , já rodeado de televisões, mini na mão, apreciava o momento e lá ia dizendo que o povo português não era parvo e que nessa noite iria dar uma lição aos políticos corruptos do continente e ao tiranete das ilhas, alguns populares desdentados acenavam para a televisão com o Emplastro  em destaque atrás.Na SIC, Mário Crespo ia pondo  o ar  grave de quem anuncia o início da III Guerra Mundial, a excelência da informação atrás da notícia do ano, quiçá do século, as sedes de candidatura em polvorosa.Os resultados que chegavam eram esmagadores, só a Madeira respeitara as ordens do chefe  votando em Cavaco, que o respeitinho é muito bonito.

Pelas 21h,contadas quase todas as freguesias,confirmava-se a eleição à primeira volta. Manuel Alegre no Ritz, reconhecia a derrota e cumprimentava o novo presidente, algum alívio até por aquele frete ter chegado ao fim, o novo romance podia agora ser acabado e voltar a atacar o Zé Sócrates por estar a acabar com o Estado Social, Nobre anunciava a partida para Teresópolis com a AMI em apoio aos desalojados das cheias, Defensor Moura ria a bandeiras despregadas, chegara aos 3% e ganhara a aposta ao Francisco Assis, um jantar no Gambrinus. Na Soeiro Pereira Gomes o candidato do PC enfatizava os extraordinários 8% de Francisco Lopes e a histórica  derrota da reacção, seu principal objectivo, o novo presidente até fora militante do PC, amenizava Jerónimo de Sousa aos camaradas .

Mais dramática foi a reacção do agora presidente cessante. Cavaco Silva, semblante carregado, a Maria com ar de   enterro, netos ao lado, lá dizia ter sido uma honra servir os portugueses, que poderiam contar sempre com ele para ajudar o país, iria retirar-se para a Praia da Coelha e escrever sobre  o futuro do euro, o staff cabisbaixo  e  agora desempregado logo rompendo em gritos de Cavaco! Cavaco!. Era o sair de cena definitivo ,na SIC Mário Crespo já usara oito vezes a palavra “histórico”antes do directo.

Na Baixa de Lisboa, carros de recentes apoiantes buzinavam  em apoio do novo presidente, já a caminho dum  restaurante para a declaração de vitória ,com as motas de reportagem das televisões a segui-lo no táxi dum amigo madeirense. O Protocolo de Estado enviara um BMW  de vidros fumados e dois seguranças ao Campo das Cebolas mas dispensara-os, o slogan “Coelho ao Poleiro” vingara, de sorriso rasgado acenava aos populares que o saudavam no Rossio. Alguns, entrevistados para a televisão logo diziam ser um político brilhante, erudito até, o madeirense sem medo com eles no sítio,até pagara um courato. Do Funchal, as notícias menos agradáveis: Alberto João Jardim recentemente saído do hospital tivera uma recaída e estava nos cuidados intensivos, com a fúria partira uma cadeira contra a parede na Quinta da Vigia antes de lhe dar uma apoplexia.

Pelas dez da noite, José Sócrates, meio surpreso meio preocupado, apareceu em S.Bento a saudar o novo presidente, ar circunspecto, já lhe ligara a dar os parabéns pela eleição e prometia cooperação institucional , necessária para acalmar os mercados, até lhe enviara um Magalhães pelo chefe de gabinete. Curiosamente, em Nova Iorque as cotações das empresas portuguesas até valorizaram, a expectativa era positiva pela mudança de rostos, a CNN e a Al-Jazeera reportavam o acontecimento em rodapé nas breaking news com títulos como Maverick takes over in Portugal ou Political tsunami in Lisbon.

Finalmente o novo presidente com dois amigos e o taxista,o seu staff  durante a campanha eleitoral ,falou aos jornalistas em conferência de imprensa no Madeirense das Amoreiras,pejado de repórteres nacionais e estrangeiros, um apetitoso cheiro a carne  e semelha no ar. Agradeceu ao povo português, e  anunciou que já tinha mandar servir uma rodada de ponchas aos presentes por sua conta ,com ele seria o povo em Belém, fazia questão de no futuro só andar de táxi e referiu orgulhoso já ter recebido um telefonema de Berlusconi, que o tratou por Giuseppe e se disponibilizou para o aconselhar sobre como lidar com a comunicação social  incómoda. No fim, sacou um coelho branco dum cesto, e de braços no ar deixou-se fotografar, o coelho numa mão, o V de victória com a outra, ao fundo apetitosas espetadas passando para as mesas.

Ao fim  da noite, já as agências noticiosas profusamente tinham difundido a notícia e o perfil do novo presidente, procurando no Google as escassas informações sobre o novo incumbente lusitano. Depois de um dia memóravel na História do Portugal moderno, um carro oficial precedido de batedores enviado pela Casa Civil da Presidência deixava o novo  Chefe de Estado numa  velha pensão na Almirante Reis onde se instalara desde que viera fazer campanha  no continente, e onde no dia seguinte receberia o primeiro-ministro em audiência na sala de jantar da Mariette. Ufano, já a sós no quarto, mirou-se ao espelho, endireitou a gravata azul e com os seus botões reconheceu satisfeito, Portugal afinal ainda não era uma República das Bananas…


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:09

João Carlos, 25 anos, era o típico chico esperto, vivendo rodeado de mulheres e de dívidas, arrastando-se ébrio pelos bares de Sintra. Inteligente, sempre envolvido com mulheres duvidosas, o Fernando da Junta já o tentara convencer a mudar de vida, mas estava-lhe na massa do sangue. Tal originava-lhe frequentes dissabores, por vezes dormia nos baixos do café Paris, embriagado e cravando cigarros aos passantes. Até que um dia, depois de uma zaragata mais violenta na Tasca do Manel o levar ao hospital decidiu que era tempo de mudar de vida.

A oportunidade surgiu quase por acaso, o tio Albertino, solteirão,    antiquário na Vila Velha morreu de repente, deixando metade do negócio a ele e a outra sobrinha, a Salomé, sua prima, quase da mesma idade, morava em Lisboa, eram os sobrinhos favoritos do velho. Mas havia uma observação enigmática no testamento dirigida a João, em voz grave lida pelo Dr. Celso, o notário no dia da abertura do testamento: ”Tudo está escrito, respeita tudo o que escrito estiver”. Loja herdada e reaberta, era a nova vida que precisava, deixou de beber e aos poucos pagou as dívidas do poker, fato e gravata novos, ar respeitável de antiquário.

Salomé era linda, cabelos castanho-claros, olhos esverdeados, corpo esculpido. Morava em Lisboa com a tia Júlia, o negócio a meias fez por aproximar os dois e mudar-se para Sintra e durante muito tempo deram-se bem, aliados. Os problemas começaram depois que um armário adquirido a um português natural de Goa chegou à loja. Era um móvel grande, negro, com baixos-relevos orientais, e  com ele vinha um misterioso bilhete que alertava para que a porta da direita nunca fosse aberta. João Carlos achou piada, coisa de hindu supersticioso, pensou, e em desafio diletante enfiou o bilhete na porta dita proibida. Coincidência ou não, naquele mesmo dia, uma conta não paga logo azedou o clima entre ele e Salomé.

O tempo ia passando e ninguém comprava o dito móvel, primeiro na montra, depois num canto, acabou nos fundos, poeirento. Os desentendimentos por causa dos negócios que começaram a fraquejar passaram a ser constantes, e João Carlos sentia-se mortificado, sem prazer no que fazia.

Já com a relação com a prima degradada, ao entrar certa vez na Piriquita deu com ela a tomar café com um estranho, bem parecido demais para ser só amigo, um namorado oportunista, pensou. Apesar de os ver, ignorou-os e na manhã seguinte mal falou com a prima, amuado. Estavam meio desencontrados, mas era um palmo de cara e ainda tinha esperanças que um dia as coisas resultassem entre eles.

O tempo ia passando, ia ficando cada vez mais triste e desalentado, pouco a pouco voltava à vida que levava antes de pegar no negócio herdado do tio. Jogo, álcool, prostitutas, a prima junta com o manguelas do Renato. Na loja, o armário indiano, silencioso, lá continuava há mais de um ano. Passara tanto tempo desde a compra que desistiu de vendê-lo e passou a usá-lo para guardar papéis relativos ao negócio. Encheu as gavetas, abrindo a porta onde guardara o bilhete que aconselhava a não usá-la, este havia sumido, o interior vazio. Imaginou que Salomé o tivesse jogado fora e colocou lá os livros de cheques da firma.

Dias mais tarde a prima veio perguntar pelos cheques, ao abrir a porta do armário, nada dentro, tal como o bilhete, nada de cheques, deixando Salomé furibunda e suspeitando de desvios e a ligar ao Renato para ele se travar de razões com João, queria contas. Renato, no dia seguinte e a sós com João entrou a matar com ironias, o móvel não havia de ter engolido os papéis. Aí, João, boa pessoa há tempo demais para o seu gosto, instintivamente pegou num Santo António em pau-santo, maciço, e certeiro atingiu a cabeça do garanhão da Vila Velha. O corpo caiu no chão, esperneando e acabando por morrer. Estava ainda quente no chão, turistas japoneses fotografando querubins na montra, quando Salomé chegou, vinda do Bristol. Enrascado, abriu a porta direita do móvel indiano, e empurrou o corpo lá para dentro, enchouriçado. Mal  a fechava  quando a prima entrou pela porta da frente:

- Viste por aqui o Renato?  Ele disse que vinha para cá!

- Não, não vi, porquê, hoje é dia de marmelada? - insinuou, invejoso, ao mesmo tempo sabendo o outro lastro para saco de batatas, valha isso.

- Deixa-te de brincadeiras. Se ele aparecer diz-lhe que estou no Arneiro! -a voz não era de brincadeiras, continuava bonita zangada, aquele narizinho…

Assim que a prima saiu, abriu a porta do armário, mas o morto havia desaparecido por completo, coisa anormal. Foram os cheques, agora o corpo, estranho mistério, nos dias seguintes a polícia em verdadeira caça ao homem em Sintra, o sumiço era o tema na Vila Velha, com fotos de Renato espalhadas na Junta de S. Martinho e nos bares e lojas de artesanato das redondezas .Com o tempo, nada se apurou, as buscas foram reduzidas e os primos até se reaproximaram, mas um mistério atormentando João, ao mesmo tempo aliviado por não haver um corpo que o denunciasse.

Três meses depois, ao entrar na loja, Salomé, com João ausente, tropeçou numa cadeira e caiu desgovernada no chão, mesmo em cima de uma mancha avermelhada no tapete, era sangue seco e ressequido, como logo apurou. Tomada duma consciência dos factos que rapidamente lhe avassalaram a memória, arrastou as peças expostas e enrolou-o, levando-o com ela, agora juntava dois mais dois.

João Carlos chegou mais tarde, estranhou a loja ainda fechada e entrando notou a falta do tapete velho mas não ligou. Já se sentava na escrivaninha do canto quando sirenes da polícia soaram vindas do lado do posto da GNR na estação parando junto á loja, o vulto da Salomé no banco de trás. Uma súbita palpitação levou-o a crer que teria a ver com o desaparecimento de Renato, e assustado tentou escapar-se, mas a prima antes de sair trancara todas as saídas das traseiras, não tinha como sumir. Fixando o móvel indiano à sua frente, abriu a porta proibida e escondeu-se lá dentro. A GNR entrou no local, arma em riste, Salomé a acompanhar, mas nada, tudo foi vasculhado, o móvel aberto, João Carlos não mais apareceu. Até hoje.

No cartório notarial, meses mais tarde, arquivava o Dr. Celso um testamento recentemente aberto quando lhe surgiram manuscritas as últimas vontades do velho Albertino. Pausadamente releu a misteriosa frase dirigida a João Carlos, infelizmente desaparecido, toda a Vila lamentara, e sorriu, patetices de velhos perturbados pela idade.


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:22

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