por F. Morais Gomes

21
Jan 11

Arredores de Zamora, 3 de Outubro de 1143.A comitiva do  enviado papal,seis pessoas em liteiras e mulas vagarosas,  enfrentava dificuldade em chegar à cidade, o cardeal Guido de Vico acometido de tosse maldizia a missão que o Santo Padre lhe confiara,  mediar em Leão o conflito entre o Imperador das Hespanhas, Afonso VII e o insurgente terra tenente portucalense, o impulsivo Afonso Henriques, seu primo. A noite caía, acolher-se-iam na  vila de Toro, um vinho reconfortante e uma lebre com feijão alimentariam o corpo, que a alma já o estava pela entrega a Deus.

Perto da estalagem, um grupo de três cavaleiros aguardava a embaixada, não pareciam homens do Imperador , comentara Giacomo Alighieri, chefe da guarda do cardeal-diácono, as  montadas estavam agitadas e ofegantes, sinal de uma viagem porventura longa e recente. Giacomo adiantou-se e depois de troca de palavras com os forasteiros voltou a informar o velho cardeal:

-Eminência, são cavaleiros portucalenses, alegam ter urgência em falar-vos antes que vos encontreis com o Imperador amanhã.

O cardeal , agastado,anuiu, que esperassem na estalagem, depois de se refrescar e do descanso lhes falaria.

Três horas mais tarde, devidamente paramentado, o cardeal  enfim recebeu os estranhos visitantes, beija -mão respeitoso com genuflexão em silêncio.

-Dominus Vobiscum, o Senhor esteja convosco!- abençoou-Pois diz-me o meu chefe da guarda que sois portucalenses. Que mister vos trás ao meu caminho?Amanhã mesmo estarei em Zamora, não poderíeis esperar até lá?- ralhou paternal, logo sacando duma taça de vinho de La Rioja, o cardeal  Diego de Molina, da Cúria, recomendara-lho antes de partir de Roma.

-Eminência, deixai que nos apresentemos - adiantou-se o mais velho -o meu nome é Egas Moniz, senhor de Ribadouro, nas terras de Sousa e vosso criado, comigo viajam Gonçalo e Soeiro Mendes da Maia, da casa dos Baiões- apontou, logo todos saudando o prelado - Traz-nos até vós a necessidade de que antes que o vosso sábio juízo se debruce sobre os conflitos que trazem em agrura nosso senhor D.Afonso e o Imperador estejais de posse de factos secretos que  podem ajudar a entender a rebeldia de D.Afonso, não produto de imprudência viril ou teimosa, mas assente em factos terríveis até hoje mantidos em segredo - concluiu, teatral, o cardeal intrigado bebendo mais um cálice.

-Pois que factos tão misteriosos são esses, cavaleiros? Dizei ao que vindes!

-Eminência, escutai com atenção: há setenta e dois anos, o falecido avô do Imperador, El-Rei Afonso VI e  D. Sancho, seu irmão, lutavam em disputa pelo Reino de seu pai Fernando Magno . Mas , corria o ano do Senhor de 1071 D.Sancho foi misteriosamente  assassinado e alegadamente sem deixar herdeiro , o que permitiu ao  irmão, o Senhor D.Afonso VI ocupar o trono que hoje é de seu neto.

-Sim, sim, todos sabemos disso, D.Egas, se são histórias que me vindes contar…..

-Não, Eminência. É aqui que a verdade se deve sobrepor, e assim compreender porque D.Afonso Henriques não aceita seu primo como rei e senhor- adiantou, os outros com ar grave, anuíam com a cabeça - É que D.Sancho não foi assassinado por um nobre de Castela, como se fez soar, antes morreu às ordens de seu avô,D. Afonso, bem como o seu filho varão  D. Pelayo,cujo nascimento agora se nega, pelo que El-Rei Afonso VI  foi  sagaz usurpador aos olhos de  Deus , assim o sendo também o Imperador , maculado pela desonra do avô!

O cardeal pasmava, logo clamando por provas de tão graves acusações:

-Medis bem o que dizeis, cavaleiros? O que tendes para me provar tão torpe acusação?

Egas Moniz sacou um pergaminho dum bornal que trazia a tiracolo, e exibiu um texto escrito  a sangue pelo  malogrado  D.Sancho, que à hora da morte, envenenado, ainda teve forças para acusar o irmão da sua perdição e de seu filho. A chancela e armas de Leão não deixavam dúvidas sobre a autenticidade do documento, levado para Guimarães por um aio fiel,Beltan Gutierrez, e entregue para mais de cinquenta anos ao arcebispo de Braga.

O cardeal pareceu transtornado e questionou os cavaleiros sobre as suas intenções.

-Eminência- salientou Egas Moniz- sabemos que a vossa missão é apartar os reais primos de querelas em torno de seus domínios. Pois bem: convencei com a vossa palavra avisada o Imperador de que deve reconhecer os direitos de seu primo  D.Afonso e este documento sumirá para sempre nas águas do Duero, assim se sossegando os reinos vizinhos e em paz.

Guido de Vico nada disse e recolheu-se, taciturno. No dia seguinte pela manhã, depois de celebrar missa em Zamora, reuniu a sós com o Imperador Afonso VII. Da reunião na catedral nada transpirou, serviçais apenas notaram que o Imperador estava possesso, tendo mesmo quebrado uma mesa praguejando em voz alta quando voltou ao castelo. Pela tarde, à hora das vésperas o pretendente português, Afonso Henriques e seus partidários chegavam ruidosamente a Zamora, acompanhados do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, juntando-se-lhes então Egas Moniz e os Mendes da Maia. A presença dos portucalenses causava   estranheza na cidade sobre os propósitos da viagem, temendo-se por escaramuças durante o torneio que ia começar nesse dia, o vinho e a cidra correndo em abundância  nas tabernas com a chegada de cavaleiros para os jogos.

Na tarde de 5 de Outubro, visivelmente incomodado, e na presença silenciosa do cardeal, Afonso VII e o primo acordavam que o Condado Portucalense se chamasse reino e Afonso Henriques rex, deixando os cortesãos intrigados com a rapidez com que o Imperador anuíra às pretensões do primo depois de anos de bravatas.

Dias mais tarde, e com a promessa de uma tença para o Santo Padre , fiel depositário de um segredo  soturno que só a ele transmitiria, o cardeal Guido de Vico volvia a Roma, não sem antes mandar carregar uma pipa de vinho de La Rioja que o cardeal Molina tanto elogiara. No Duero, diluíam-se já corrente abaixo as cinzas dum  velho pergaminho.


publicado por Fernando Morais Gomes às 21:20

O grupo de sindicalistas aguardava no exterior da residência oficial do primeiro-ministro, os cortes salariais na função pública e nos direitos sociais no cerne dos protestos. Duarte Madureira, do Sindicato da Administração Local e delegado sindical em Sintra integrava a comitiva, dois plenários haviam reunido mais de duzentos participantes, o maior em vários anos, a explosão social latente com o apertar do cinto criava terreno fértil ao descontentamento.

Em Sintra, Duarte trabalhava no  núcleo de fiscalização dos SMAS. Cinquenta e dois anos, um percurso político coerente desde que aos dezasseis anos e aluno de liceu participara nas primeiras reuniões gerais de alunos que culminaram na federação de Lisboa de estudantes do ensino secundário. Passara pelas vigílias no Ministério da Educação, guardadas por militares do COPCON em 75, as greves estudantis, conheceu a primeira companheira  numa manif na 5 de Outubro, juntos entraram em Letras depois, o empenho na associação académica levou a que nunca concluísse o curso. Mais tarde passou pela Sorefame, como escriturário e delegado sindical, desde 1993 que trabalhava nos SMAS de Sintra, sindicalista militante. Os cabelos desalinhados e a barba hirsuta dos generosos anos setenta foram entretanto dando lugar a uma coroa grisalha tapando a careca, um segundo casamento com uma camarada de Almada acalmara sem matar a rebeldia da juventude. Os tempos eram outros, Abril cada vez mais distante, os cravos ,simbólicos, apenas nos rituais 25 de Abril.

Na antecâmara de S.Bento juntavam-se agora vários dirigentes, todos com anos de sindicalismo, o grosso nas fileiras da CGTP, os técnicos superiores penalizados também associados contra o funeral da classe média, reiterava Ramiro Simeão, jurista do Ministério da Agricultura com um corte de 10% a acicatar o protesto.

Como o primeiro -ministro não estava, foram encaminhados para uma sala onde dois assessores engravatados os receberam, ar protocolar e formal, telemóvel na mão sempre a tocar. O documento foi entregue com promessas de encaminhamento e  não durou mais de sete minutos, cumprimentos um a um na despedida junto à escadaria, para as televisões.Quando chegou a vez de Duarte, cumprimentado o chefe de gabinete, já apaticamente estendia a mão sem entusiasmo ao outro assessor, quando sentiu a mão deste apertar a sua com força e com um olhar subitamente vivo e expressivo chamá-lo pelo nome:

-Duarte! Há quantos anos! - o assessor engravatado e até ali circunspecto saía do pedestal cerimonioso,com os demais olhando desconfiados para aquela inesperada cumplicidade com o poder.

Duarte fixou os olhos no interlocutor, e por trás do fato Armani e dos óculos reconheceu Pedro Lavrador, colega dos anos de Letras, ele próprio compagnon de route das reuniões inter-associações no fim dos anos setenta. Surpreso e agradado pelo reencontro, mas receoso dos comentários sobre aquele conluio com a burguesia, cumprimentou-o com um leve sorriso, logo um convite dele para um café ali perto de S.Bento para matar saudades.

Mais de trinta anos haviam passado, de repente o som distante das marchas revolucionárias e dos amanhãs que cantam que os fizeram cúmplices nos anos da revolução sentava-os em torno duma mesa, aparentemente em barricadas diferentes. Portugal mudara muito e agora ,no fio da navalha da crise, esbracejava acossado pelos mercados.

-Mas conta-me, Duarte, que é feito de ti? E a Susana?

-Já não estou com ela, separámo-nos em 86, agora tenho outra companheira. Estou em Sintra, nos SMAS, sou lá delegado sindical. E tu? Que  fazes aqui neste ninho de lacraus?

-É uma longa história, velho amigo. Quando tu desististe de Letras, conclui o curso e dei aulas em Alverca, casei. Tenho um filho com 26 anos, já arquitecto, sabias?- explicou entusiasmado, sacando de uma foto de família, junto à piscina em Vilamoura -Depois quando foi da adesão à CEE concorri para um lugar de tradutor e fui para Bruxelas, dez anos cá  e lá…

Apesar do fato e da pose tecnocrática, Duarte por trás da fachada reconhecia ainda o velho Pedro, grande cantor nas sessões de canto livre com o Adriano , sacola a tiracolo e cabelos compridos  pastosos por falta de lavagem que a água enfraquecia a pele, dizia na altura, um  cachecol cinza  grosso feito pela avó, outra encarnação, fantasma do tempo.

-Há sete anos passei a integrar um núcleo de apoio diplomático, e agora estou aqui destacado. É um trabalho exigente, mas gosto do que faço!- explicou, o passado  sépia abafado pelos toques do Blackberry.

-E ainda és de esquerda? -lançou Duarte, curioso, muitas desilusões mas fiel aos velhos ideais, apesar do  desprendimento dos mais novos que no serviço até gostavam do cota esquerdista.

Pedro sorriu, pediu mais um café, Duarte recusou, a diabetes desaconselhava, e cúmplice abriu-se com o velho amigo:

-Meu velho, esquerda e direita são coisas que já não contam nos dias de hoje. O mundo mudou , até a surda muda… gracejou, pagando as bicas com o cartão do Gabinete -E sabes: quem não é revolucionário aos vinte anos, é porque não tem coração. Quem é revolucionário aos quarenta é porque não tem cabeça…- e levantou-se apressado, o chefe de gabinete chamava por ele, tinha havido uns desacatos com polícias à saída da delegação dos sindicatos.

Depois da troca de números de telefone, Duarte a sós desceu a D.Carlos I e deteve-se junto ao Tejo ,a Lisnave ao fundo lembrando lutas de outros tempos. Na televisão dum bar junto ao rio, um ministro de ar grave garantia que o Estado Social nunca seria destruído…


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:50

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