por F. Morais Gomes

31
Mar 11

O terreiro estava repleto de corpos e os presos da colónia agrícola não tinham mãos a medir em enterros, o doutor Barreiros desdobrava-se em atestados de óbito. A escola primária de S. Pedro de Penaferrim transformada em hospital improvisado testemunhava a ceifa de vidas levadas pela maldita pneumónica, nunca tal vira em S. Pedro.

Desde  Maio que a gripe espanhola chegara a Portugal, o Agosto quente e ameno nem por isso afastava o surto epidémico, trazido por rurais vindos do Alentejo, dizia-se, e aí contagiados por espanhóis, os primeiros casos haviam ocorrido em Vila Viçosa. O mais recente fora o filho do Porfírio, rapaz de quinze anos com um arcaboiço de toiro, a maleita não escolhia idades, só em S.Pedro foram sete nessa semana. O rapaz, o Zé Grande aparecera no início da semana com dificuldade respiratória aguda, o contágio viria de visitantes da feira, no domingo anterior. Parando para um café no tasco do Tibúrcio, Alfredo Barreiros limpava a testa suada, mal crendo na mortandade que esse mês já levava.

-Tal está a molenga, doutor Barreiros.Isto até zomba dos médicos como o senhor!- Tibúrcio, aviando um tinto, lamentava as mortes recentes, ele mesmo já tinha medo de abrir a porta, dizia-se muita coisa e muito boato também.

- Nunca vi uma coisa destas, Tibúrcio! Em Lisboa no Convento das Trinas e no liceu Camões tiveram de improvisar hospitais de campanha, e está em curso a criação de uma comissão de socorro cá para Sintra. Até médicos retirados tiveram de ser chamados, imagine!

Do outro lado da rua, trinta e duas enxergas recolhiam os febris pacientes, todos os dias morriam dois a três, o padre Felício e as senhoras da igreja bem rezavam pelo debelar a epidemia, já não bastavam os mortos da Grande Guerra, era o fim do mundo, dizia fatalista a Perpétua, modista na Rua do Roseiral.

- Mas que grande tragédia!- o Tibúrcio não se conformava, bebendo um segundo copo a acompanhar o doutor Barreiros- ouvi dizer que a Câmara vai mandar lavar as ruas com cal e tirar da circulação as notas de tostão, há quem diga que se pega por aí!

O padre Felício chegava entretanto vindo de Lisboa e trazia notícias recentes, logo teria mais uma extrema-unção, o desgraçado não teria mais de umas horas, com sorte passaria a noite.

-Deus esteja convosco! -saudou, vergado nos seus setenta e oito anos- ó Tibúrcio, arranja-me aí um copo de água que sufoco!

-O senhor padre sente-se bem? Aconselho que se afaste da enfermaria, não é bom estar em contacto com os contagiados - Barreiros bem vira a celeridade com que a peçonha atacava.

-Eu já sou velho, doutor, quanto mais depressa for para a casa do senhor mais rápido terei descanso.

-Amén!- concluiu o Tibúrcio, em S. Maria o relógio dava agora as badaladas das seis.

-Parece que o Ricardo Jorge já propôs ao Governo que fechassem as escolas para evitar o contágio, olhe está aqui, no “ Século”- adiantou o clérigo, mostrando a capa do jornal.

-Espero que as coisas não piorem padre, as nossas reservas de quinino e  salicilato de sódio estão a rarear. Lá na Vila o Dr. Gregório de Almeida já teve de pedir ao Sintrense que o deixassem montar uma enfermaria lá na Sociedade.

-Até na sede do Benfica está montado um dispensário, disse-me o Castro, que joga lá nas reservas. Isto foi praga dos monárquicos! - Tibúrcio, republicano convicto blasfemava contra o Paiva Couceiro, aquilo era gente que só queria o mal do país - é a política de terra queimada, essa é que é essa! - perorava, paroquial.

De mãos à cabeça, chegava do precário dispensário a D. Adosinda, professora primária e agora enfermeira improvisada, os armários dos cadernos eram agora poiso para algodão e pachos para álcool, incerta a abertura da escola em Outubro, tal a gravidade da coisa:

-Doutor, venha comigo, por favor!- chamava, interrompendo os minutos de descanso do médico, olheiras fundas denunciavam vários dias sem ir à cama.

-Novidades, D. Adosinda?

-Temos de falar ao delegado sanitário, doutor. Mandámos buscar reforço de quinino, imagine que já o vendem a trezentos escudos! Ainda a semana passada estava a setenta. Isto há gente que enriquece com a desgraça dos outros, Virgem Santa!

O padre Felício aí deitou água na fervura:

-Mas olhe, minha boa amiga, no meio da desgraça ainda há gente boa. Ouvi dizer que nos Armazéns do Grandela fazem descontos nas roupas para luto, nunca se viu tanta gente de negro…

Dois presos circunspectos levavam enrolado numa sarapilheira rua acima o corpo de mais uma vítima. À porta do café,Adosinda e o padre faziam o sinal da cruz à passagem, o malogrado era o irmão do Duarte, o carteiro, em quatro dias as febres e o muco apossaram-se-lhe do corpo e desde manhã que delirava, o quinino tardava a fazer efeito, impotente. Duas carretas esperavam no cemitério desde as quatro com os corpos em fila a vez do enterro, antes da noite teriam de os sepultar, bem atolados em baldes de cal por causa do contágio.

Conformado, o doutor Barreiros voltou para o dispensário, Sanches Baena, filantropo de S. Pedro oferecera-se para o que fosse preciso, restava rezar e esperar, as badaladas das sete soavam na igreja e a morte bailava desatinada no arrabalde naquele desgraçado ano de 1918.


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:57

30
Mar 11

No pequeno laboratório da Calçada das Necessidades, o professor Guimarães e o seu assistente Guilherme ultimavam a experiência que finalmente demonstraria a possibilidade de viajar no tempo, a máquina, criada a partir de um aparelho de tomografia axial computorizada transformado, permitiria, segundo ele, o transporte ao passado, a experiência decisiva estava marcada para essa noite:

-Caro Guilherme, de acordo com Einstein, o tempo passa mais lento à medida que um objecto se aproxima da velocidade da luz, logo viajar mais rápido que a luz abrirá a possibilidade de viajar no tempo. A ideia é entrar num buraco negro e penetrar numa estrela em fim de vida que ao colapsar entrará num anel de neutrões rotativo. Este produzirá uma força centrífuga suficiente para impedir a formação de uma singularidade. Como o buraco negro não tem uma singularidade, vamos penetrá-lo usando este aparelho,  sem ser esmagados pela força gravitacional do seu centro! - o professor chegava agora ao ponto alto da sua vida, a experiência que até ali só o cinema e a ficção científica tentaram, Guilherme acompanhava o entusiasmo do mestre, professor de Física da Universidade de Lisboa. - Ao atravessarmos vamos sair num buraco "branco" que em vez de atrair tudo que estiver ao alcance de sua força gravitacional para dentro de si vai empurrar tudo para fora e para longe. Esse buraco branco criará a possibilidade de viajarmos no tempo!

Preparados os fatos térmicos, programaram a máquina e experimentaram uma primeira viagem, curta: Lisboa, aquele mesmo local, o ano: 1835.

Depois de náuseas e duma sensação de vertigem incontrolável, que durou pouco mais de trinta segundos, aterraram desgovernados num celeiro onde dois cavalos relinchavam com a chegada do inesperado volume. Ainda tontos, saindo do mesmo, os olhos esbugalhados confirmavam o sucesso da experiência: mesmo em frente, de construção recente, o Palácio das Necessidades, guardas reais montavam protecção, um padre, absorto, saia do palácio. O professor dirigiu-se a um taberneiro, num esconso que ladeava o palácio e perguntou o que se passava:

-Vossas mercês são de fora? Então não sabem que o marido da rainha está à morte? Pobre homem, ainda agora chegou a Portugal…

Guilherme recapitulou os seus conhecimentos de História e pelas suas contas o doente só poderia ser o príncipe D. Augusto de Leuchtenberg, marido recente de D. Maria II, chegara a Portugal em Janeiro desse ano, mas morreria de difteria dois meses depois. O jovem assistente de Física teve uma ideia:

-Professor, podíamos ajudar a resolver este problema. Sabe que o príncipe morreu de difteria? Podíamos usar os conhecimentos da medicina que já possuímos e tentar salvá-lo!

-Boa ideia, Guilherme. Vamos ao palácio, tentaremos apresentar-nos como físicos experimentados, a ver o que sucede! Temos é de ser discretos, e arranjar roupas da época!

Com facilidade o professor conseguiu acesso ao palácio, a rainha chorosa antevia já a viuvez ao fim de dois meses de casada, desesperada, qualquer conselho que ajudasse seria bem vindo. Efectivamente as amígdalas e a faringe do doente desenvolviam uma membrana de pus no fundo da boca, a produção da toxina e a sua libertação no sangue poderiam levam à morte cerebral. Sacando duma mala que haviam trazido do futuro, o professor administrou ao doente perante o pasmo e incredulidade dos médicos presentes uma vacina que actuaria sobre o  seu sistema imunológico, bem como doses de penicilina e eritromicina, para destruir as bactérias nocivas. Dois dias depois a febre baixou, o príncipe deu enfim sinais de melhoras e missas de júbilo foram rezadas por toda a cidade, o pior parecia ter passado. Os dois estranhos, a par de acompanharem a convalescença do real paciente viam a Lisboa da época, tirando notas, sempre se apresentando aos mais desconfiados como académicos vindos da corte da Prússia, os resultados na recuperação do marido da rainha afastavam quaisquer suspeitas mais graves.

Três dias depois, sem avisar, voltaram ao presente, a registar a experiência e preparar novas viagens. O professor Adérito, colega com casa em Sintra ligou entretanto, queria trocar ideias sobre um acelerador de partículas, mal suspeitava da experiência do arrojado colega, tentara ligar mas ninguém atendera.

Desinteressado e com outras preocupações, lá foi, porém, era um velho amigo. Para seu espanto, à saída de Lisboa apenas árvores e quintas de trigo se vislumbravam, a estrada de Sintra era um mero acesso em macadame, imensas hortas povoavam a paisagem, sem vestígio de comboio, IC-19 ou aquela selva de betão a que estava habituado. Em Sintra, para seu espanto, desaparecera o Palácio da Pena, e só o castelo dos Mouros e o Paço da Vila subsistiam, num marasmo e silêncio seculares. Abordando um camponês que passeava na Vila, sondou-o sobre o que sucedera:

-Palácio da Pena? Ó amigo, ali nunca houve Palácio nenhum. Quando muito está lá uma ruína dum convento antigo, daqui até lá acima é só mato e pedras. Isto Sintra nunca ninguém fez cá nada! - suspirou, ao torno do Paço apenas um pequeno relvado, vinte a trinta casas, nada estava como dias antes. Num arremedo luminoso percebeu o que acontecera, e sem ter chegado a falar com o colega voltou para Lisboa, acelerando,  precisava de falar com Guilherme com urgência:

-Gulherme, temos de voltar ao passado de novo, aconteceu uma coisa terrível!

-O que foi professor? Baixaram o rating do país de novo? Isso já não é novidade…

-Pior!  Ao salvarmos a vida do príncipe Augusto alterámos o futuro!

-Como assim?

-D. Maria II depois de enviuvar casou em segundas núpcias em 1836. Ora ao salvarmos a vida do primeiro marido, o segundo, D. Fernando Saxe-Coburgo não chegou a ser rei de Portugal, e como tal nunca o Palácio da Pena nem tudo o que veio por arrasto foi construído. Mudámos a História de Portugal!

-Oh diabo, não nos lembrámos disso…- o assistente coçava a cabeça, fora ele que de boa fé sugerira salvar o aflito príncipe com difteria.

-Temos de voltar lá e deixar a História cumprir o seu destino!

Nessa noite de novo accionaram a máquina do tempo, lá deixando falecer, no meio do choro geral, o marido da rainha de Portugal. Detiveram-se porém alguns meses desta vez, a estudar os costumes da época, sempre cuidando de nada contribuir para alterar o futuro. Quando os esponsais de D. Maria II e D. Fernando finalmente se realizaram, disfarçado no banquete, e exercitando os seu três anos de alemão no Goethe Institute de Lisboa, Félix Guimarães ainda se aproximou do novo rei, louro e de cabelos desalinhados, acabado de chegar:

-Majestade, vai gostar muito desta sua nova pátria. Olhe, sugiro que vá até Sintra, é um sítio maravilhoso e com um clima ameno e prazenteiro, semelhante ao do seu país. Poderia até edificar lá uma casa de Verão, a rainha iria adorar….


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:20

28
Mar 11

A avó voltava do supermercado, na solidez dos seus sessenta e quatro anos trazia pizzas e pato, faria aquele espectacular pato com laranja que só ela sabia, arroz tostado e seco e pele crocante, mau para a dieta, retemperador para o estômago. O avô, menos dado à comida apostava antes no peixe, grelhado sobretudo.

Francisco e Teresa desde quase a nascença sempre viveram com os avós, a morte precoce do pai e uma mãe funcionária pública em Lisboa fizera deles os pais de substituição, até gostavam, agora que a filha Sofia  crescera e pouco tinham com que se ocupar, reformados.

Francisco nos seus catorze anos deambulava entre a escola a playstation e a banda larga, sempre enfiado no quarto, a avó certeira todos os dias invariavelmente  às cinco lá lhe levava o lanche favorito, baguette com pasta de frango e uma cola light, era uma querida, até acompanhava os Morangos e sabia quem era a Lady Gaga, o som vindo do My Space de Francisco já a familiarizara, a Teresa até lhe seleccionou a música como toque de telemóvel, embora preferisse o Frank Sinatra, mais soft. Sorriso rasgado, jovialidade de mulher urbana, reformada dos CTT, educava os netos na responsabilidade, apaparicando nas comidas mas exigindo método e ordem lá em casa, desde o  avô aos netos todos tinham de trazer sempre as coisas arrumadas, com horas para comer, quem chegasse atrasado teria de tratar do seu prato e lavar a loiça. Á noite, quando iam dormir não dispensava porém aconchegar-lhes a roupa e o edredon com um terno beijo na testa,enquanto na secretária do quarto, já adormecidos, os bips do Messenger continuavam a debitar chamadas de amigos menos dorminhocos.

Naquele sábado, Sofia tivera de fazer horas extra, a ida ao McDonalds com os filhos ficou adiada para domingo, aborrecidos reclamaram por ter de ficar em casa sem nada para fazer, a casa fora do centro obrigava a deslocações de carro ou transporte, a promessa de um dia de sorna para os dois, saltando entre o Facebook e a MTV, Francisco antevia já um dia a dormir até ao meio dia. O avô, que viera com o carro da revisão entrou de rompante na cozinha pelas oito da manhã e, como Pai Natal em vinte e quatro de Dezembro, bateu com as mãos e chamou a reunir:

-Vá ,vá, todos fora da cama! Vistam-se, que vamos dar uma volta!

-Volta? Onde? - Francisco estremunhado e ainda deitado suspeitava das ideias do avô, alguma ida ao café do Vasco a aturar os amigos do snooker, por certo -Oh avô, que ideia. Ir aonde? Fogo! -virando-se na cama, com a almofada a tapar a cabeça.

-Vamos passear ao Badoca Park, não querem? E almoçamos lá. Vá, vá, que a vossa avó tem de sair também um pouco, toca a vestir! Hoje vamos ver a bicharada, Margarida! - o avô Alcino era um pachola, sempre a contar anedotas, pai de substituição, a chegada da Primavera despertava o prazer do ar livre, iriam por Tróia a ver o novo empreendimento, pela auto-estrada em duas horas estariam lá.

-Tu…- a avó simulava repreendê-lo, mas ficara contente, quando novos faziam isso muito, escapadelas de fim de semana e piqueniques  com os amigos, agora todos já avós, também, mas divertidos.

Meia hora depois, lá rolavam, estrada fora. O avô tirava retratos com a Canon de modelo já ultrapassado, a avó levara umas sandes e torta de coco, o cheiro a pinhal e as emoções do passeio, perigando na visita com a aproximação ao atrelado duma avestruz alucinada querendo bicar, fizeram daquele um dia bem passado, eram uma família, apesar de Sofia mais ocupada estar por vezes ausente, mas compensava quando podia. Naquela noite, ao chegar a casa Francisco ia extenuado mas  feliz no fundo, até editou as fotos do passeio no Facebook , adormeceu sorrindo a recordar a cena da avestruz .

No dia seguinte, atrasado para o pequeno-almoço que a avó servia na sala, ovos mexidos com bacon e compota de cereja com torradas, Francisco abriu-se com a avó, o cheiro a café fresco já adiantara o avô Alcino com uma chávena, folheando o Expresso do dia:

-Sabes uma coisa, avó? Esta noite tive um sonho esquisito. Imagina que sonhei que tinhas morrido?- Francisco estava um quanto impressionado, a avó sorria:

-Ai sim? Deixa lá, é sinal de vida, quando se sonha com mortos é sinal de viver muitos anos!- rematou, a sabedoria popular nunca falha- Então e como é que eu morria?

-Não sei. Era uma coisa esquisita, eu estava de pijama numa gruta, com archotes nas paredes, e ao centro havia três caixões. Num, esticada, estava uma avestruz. No do meio, um esqueleto, de criança, parecia. E no outro estavas tu. A rir, com esse vestido que trazes hoje.

-Isso foi a digestão mal feita. Eu também já sonhei que me saía o Euromilhões mas nunca saiu. Se se sonha é porque é para acontecer o contrário!- o avô, em pé na cozinha, tirava mais uns ovos mexidos.

Francisco foi vestir-se e saiu para o quintal, a Merkel, a cadela basset seguia-o, brincalhona, ladrando e abanando o rabo. A mãe, pela tarde, em dia de folga levou-os finalmente ao shopping, a avó prometia bolo de bolacha e profiteroles com chocolate quente para a sobremesa do jantar quando voltassem.

Pelas seis, estavam já a caminhar para o carro no estacionamento do centro comercial, o telemóvel de Sofia tocou, era o avô Alcino:

-Sim, pai, diga… estou a sair….eu… o quê? Oh meu Deus! Vou já para aí, pai- Sofia parecia em pânico, um choro incontrolável saltou-lhe dos olhos sem controlo.

-Aconteceu alguma coisa mãe?- Francisco ficara assustado, nunca vira a mãe assim.

-Abraça a mãe, Chico. A avó….

-A avó o quê?

-A avó morreu. Teve um ataque fulminante e caiu na mesa da cozinha, estava a fazer o bolo de chocolate. Porquê, porquê?

Francisco ficou estarrecido, na véspera sonhara com aquela morte, como seria possível, ainda de manhã se haviam divertido com a situação.

No velório, a avó sorria deitada naquela caixa escura rodeada de flores, exactamente como a havia visto no sonho. Não parecia morta, antes adormecida, um sorriso sereno denunciava que tinha partido em paz, de bem com a vida, agora para ele com a certeza de não ser eterna nem feliz para sempre. E talvez aborrecida por não ter acabado o bolo de chocolate.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:44

27
Mar 11

Silvério era um tipo de poucas falas, cinquentão carcomido pela vida, dono de um café na Portela de Sintra, um único hobby conhecido,coleccionar canivetes, vinha-os juntando há vinte anos, de vários tamanhos e proveniências, todos com uma história, dizia,sem entrar em detalhes. Odiava os miúdos do liceu, principalmente aqueles que apenas entravam a pedir copos de água ou usar a casa de banho e fazer sala e detestava dar informações, dizendo “Sou novo aqui, acabei de me mudar”, a despachar. Não tinha amigos, não tinha animais de estimação, não tinha parentes vivos, solteirão, nunca tivera uma mulher pela qual não tivesse tido que pagar. Todos o viam como um homem pacífico e comedido, embora pouco falasse de si, exceptuando a arenga contras os políticos e as saudades do tempo de Salazar. Embora estivesse na Portela há mais de vinte anos, poucas pessoas dali podiam dizer que haviam conversado com ele mais de cinco minutos, mas isso não o incomodava nem um pouco, estava ali para trabalhar não para fazer sala.

Renata era uma brasileira que se tinha mudado para a Portela havia apenas dois meses. Perto dos trinta, era uma mulher e peras, olhos verdes, cabelos castanhos, unhas pintadas de vermelho vivo. Sempre que voltava da academia onde trabalhava como personal trainer passava no café do Silvério, roupa justa, formas definidas, sempre sorrindo e exalando um aroma a sabonete de lavanda, misturado com o suor seco dos aparelhos de ginástica, cheiro sensual que não escapava ao olfacto do Silvério.

Um dia de manhã Silvério viu-a pela vidraça da varanda do primeiro andar da casa onde morava, do outro lado da rua a despedir-se do marido que saia para o emprego, vigilante numa empresa de segurança. Usava apenas uma camisa de seda, as pernas descobertas, cara de quem acabara de acordar, com os cabelos um quanto desalinhados. Ainda assim, linda. Linda, angelical e boa demais para ser verdade, aqueles olhos verdes...

No dia seguinte ele acordou um pouco mais cedo, fez o caminho de sempre e quando ia se aproximando da casa de Renata, parou e encostou-se na parede de um prédio próximo, acendendo um cigarro, esperando que ela se despedisse do marido e a carrinha da escola levasse os filhos, de sete e cinco anos respectivamente. Terminou o cigarro e foi para o café.

Todos os dias passou a recostar-se naquela parede, fumando um cigarro e observando de soslaio. Cada dia usava uma lingerie diferente e por vezes trocava de roupa ali mesmo, mal suspeitando que ele a observava, predador.

-São lindas as suas crianças - Silvério tomou coragem e meteu conversa, numa das vezes em que ela entrou para tomar café, depois do ginásio.

 -Ai, brigada- respondeu, esboçando um sorriso que ele nunca tinha visto assim tão de perto - Mas elas dão um trabalho... O siô também tem filhos?

-Não. Não sou casado. Mas já fui. A minha mulher morreu. Embolia cerebral- mentiu, simulando um passado enternecedor e triste, ar pesaroso.

-Sinto muito...- E realmente parecia sentir, via naqueles olhos que revelavam bondade e volúpia ao mesmo tempo.

-Tudo bem, o que passou, passou. Não é?

-É verdade. Não podemos viver do passado - rematou, voltando a abrir um sorriso que denunciava uns dentes brancos e perfeitos.

Daquele dia em diante, todas as vezes que passava em frente ao café, Renata cumprimentava, dando um tchau e abrindo um sorriso sincero, às vezes soltava mesmo algum comentário do tipo “Nossa, como tá calor!” ou “Olha, Seu Silvério, acho que vai chover hein. Melhor abrir esse toldo...”.

Um dia Silvério comprou um bouquet de rosas na Odete Florista, e num pronto a vestir da Estefânea uma camisa em seda, de marca, e  na manhã seguinte envergando a camisa nova e trazendo o bouquet  consigo postou-se junto à parede, acendeu um cigarro e observou Renata despedindo-se dos filhos e depois do marido. Apagou o cigarro, ajeitou a gola da camisa e, com as flores escondidas atrás das costas, foi bater à porta da casa dela.

Ela veio atender, de pijama, curtinho e de seda bordeaux, aquele ele nunca tinha visto. Estava descalça e tinha as unhas dos pés pintadas de vermelho.

-Oi, Seu Silvério. Tudo bem com o senhor? - simpática, atendeu, embora parecesse surpreendida.

-Bom dia Dona Renata, tu... tu...tudo - Silvério gaguejava quando ficava nervoso, e naquela manhã estava particularmente excitado.

-O senhor não está se sentindo bem?

-Está tá tu tudo bem, Dona..na Renata.. ta.

-O senhor está pálido, Seu Silvério!

-Sã são pa..para si - disse, sacando de rompante o bouquet de rosas que tinha escondido atrás das costas.

-Oh... muito obrigado Seu Silvério...

-Nã… não gostaria de… de tomar… mar um ca… café comigo… go?

-Não estou entendendo...

-Um ca… café… fé.

-Não posso aceitar, Seu Silvério, desculpe... O senhor sabe que eu sou casada, não?

-Sim, eu se sei. Mas pe.. pensei que.. que...

-Desculpe, acho que devo ter passado uma imagem errada pro siô. Toma aqui o seu buquê de flores.

-São ro…rosas- rectificou, como se fizesse grande diferença.

-Sinto muito. Não posso aceitar, com licença...- ela começava a sentir-se incomodada.

 Quando chegou ao café, Silvério encheu um jarro de água pôs as rosas dentro, e ficou a tarde inteira esperando Renata passar de volta do ginásio. Mas ela não passou, nessa tarde, nem tornou a tomar café. Guardando as rosas, já murchas, encontrou um certo tipo de prazer em despedaçar-lhes as pétalas uma por uma, como se a acariciasse a cada desfolhar.

Uns dias depois, à hora habitual, esperou que ela se despedisse do marido e dos filhos, atravessou a rua e bateu à porta:

 -Quem é? –perguntou, de dentro, o barulho da água correndo no duche denunciava um banho a ser preparado, acelerando-lhe o bater da pulsação.

-É dos Censos! -disse, sem gaguejar, fazendo uma voz diferente.

Ela abriu e vendo que era ele ia a despachá-lo quando Silvério forçou a porta, metendo um pé a trava-la e entrou.

-Se gritar eu mato-a! -ameaçou, sacando de um canivete da sua colecção, um que parecia ter sido fabricado exactamente para perfurar o estômago a alguém.

-Não, por favor, não faça isso! Está louco? - Renata começou a desesperar.

-Cale a boca! -mandou, já possesso.

Ela ainda tentou fugir, mas foi impedida nas escadas que davam para a  rua, trancando-se com ela por dentro. Com a lâmina do canivete pressionada contra o pescoço, teve de se entregar à vontade de um homem que em nada lembrava o comedido, pacífico e tímido dono do café da frente, no duche a água corria já a ferver, enevoando o espelho da casa de banho. Cada canivete da colecção tinha associada uma história de vida no fio da navalha…


publicado por Fernando Morais Gomes às 15:08

25
Mar 11

Alberto acordava invariavelmente aos primeiros raios da manhã, o seu despertador era o noticiário da televisão e o ruído do motor da camioneta do lixo lá fora. Levantou-se atirando o lençol como querendo livrar-se dele, ergueu-se de um salto e precipitou-se para a casa de banho. A água do duche jorrada em cima do rosto enrugado e envelhecido era revigorante,bebera uns copos na véspera. Ajeitou os cabelos brancos e mal cuidados e foi aquecer um café. Tinha de se despachar, logo o Nicolau passaria a apanhá-lo para mais uma viagem até Bordéus, três dias conduzindo o TIR com mercadoria, todas as semanas queimando quilómetros Europa fora há mais de vinte e cinco anos. Desta feita uma entrega de moldes industriais, um dia até Barcelona, o retorno na 6 feira a tempo do snooker com o pessoal da Abrunheira.

Fantasmas do passado povoavam a sua mente atormentada, dividida entre o vaivém com o camião e o álcool. Leonor nunca gostara daquela vida, diversas vezes propusera que fossem em busca de vida nova e mais estável, ele só ao volante se sentia solto, estrada fora, alguns colegas habituais nos vários restaurantes de beira de estrada já familiares de anos de transitário. Um dia frio de Inverno partiu, um inverno frio e chuvoso que parecia não ter fim, só com o filho de quatro anos, partiu enquanto ele viajava para a Alemanha a fazer mais uma entrega. Alberto nem se despediu do filho, Pedro, apenas encontrou a casa vazia quando voltou, um bilhete seco acusava o cansaço de viúva de vivo capturada numa vida de solidão e rotina.

Vinte anos passaram, nesse tempo não viu o filho mais que três vezes. A primeira foi ao fim de doze anos, o Casimiro fora visitar uma filha que morava em Almada, voltou dizendo que vira uma mulher muito parecida com Leonor, Alberto foi-lhe no encalço, só pensava em reencontrar o filho. O reencontro foi péssimo, uma discussão horrível, de ressentimento, ela reorganizara a vida com um agente de seguros, Pedro chegou no momento mais delicado, com os ânimos acirrados entre os dois. Entrou e instintivamente, vendo a gritaria,empurrou o pai, que caiu sobre uma cadeira. Alberto demorou alguns segundos a levantar-se, quando o fez, saiu da casa sem olhar para a ex-mulher e o filho, humilhado, os olhos marejados de lágrimas, logo afogadas em bagaços na tasca do Silvino. As outras duas vezes em que viu o filho, foi disfarçado e de longe. Uma no dia da sua licenciatura em gestão de empresas, estava ele com 23 anos,telefonou-lhe a medo e enviou-lhe o relógio do avô, sem resposta, dois anos depois no seu casamento, não foi convidado, no lado oposto da igreja observara a sua felicidade angustiado atrás de uma árvore, Leonor sempre vendera ao filho a imagem dum pai ausente e egoísta, crescera sem ele, mal se falaram nesses vinte anos. Em cada uma das vezes chorou, e saiu a beber até cair, trancando-se depois em casa, na modesta vivenda que erigira clandestina  num subúrbio, os vizinhos queriam legalizar o bairro, para ele era indiferente.

Agora voltava de mais um serviço,a tempo do snooker no café do Esteves, cara enrugada, dentes cariados, a geografia da dor traçada no rosto carcomido, vida ao vento na estrada solitária,Barcelona regelava, nem ao centro fora. Ao chegar a casa, percebeu que algo havia acontecido, pelo semblante da vizinha, a Perpétua,que logo viu quando encostava o camião, o filho esperava-o, absorto, encostado ao muro, fumava um cigarro nervoso.

Pedro e a mulher haviam-se separado ao fim de um ano, ela ficara com a guarda do filho, de três meses, fora morar para Lisboa, ele estava destroçado, a cada dia que passava a desolação aumentava. Pensou no pai. Sofrera o que ele estava sofrendo agora, apesar de só ter uma vaga lembrança dele, achou que só ele lhe poderia dar uma palavra de conforto naquele momento, de repente irmanado no mesmo sentimento, remorso de nunca o ter procurado esses anos, influenciado pelo ressentimento da mãe.

Sem qualquer palavra, depois de uma hesitação, pai e filho abraçaram-se, os olhos emaranhados em lágrimas e abraçados entraram em casa, aí conversaram horas sobre tudo, vinte anos atrasados para o encontro sempre evitado. Riram, choraram, beberam, noite dentro meteram-se no camião e saíram sem destino, a primeira viagem dos dois em muitos anos. Nunca é tarde.


publicado por Fernando Morais Gomes às 04:17

24
Mar 11

 

 

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:45

O meu desejo é ver-me entre quatro serras, dispondo de algumas leiras próprias, umas botas grosseiras e um chapéu de Braga - a situação apanhara-o em plena fase de negação política, com  o desejo de retirar-se definitivamente para Vale de Lobos, ancorado no porto tranquilo e feliz do silêncio e da tranquilidade. Dono de grande energia e carácter, Alexandre Herculano, na semana antes eleito deputado por Sintra naquelas eleições de 1858 aconselhava-se com o amigo José Estevão, orador acirrado e eterno deputado por Aveiro:

-Isto dá vontade de morrer, meu caro! - exclamava ele, passeando por Gigarós na companhia do correligionário, recém-casado já tardiamente - A política entre nós está podre. O Garrett é que tinha razão ao dizer, foge cão, que te fazem barão!

-Reflicta bem, Herculano, o partido precisa de si, se eles acharam por bem candidatá-lo quem melhor que o meu amigo para representar o círculo nas Cortes. Reconsidere homem!

-Mas eu nunca vivi em Sintra, não é razoável representar um círculo onde não vivo nem os eleitores me conhecem. Isso vai contra tudo o que tenho lutado. Não, não vou assumir o lugar de deputado! Já em comícios e na imprensa manifestei a minha íntima convicção de que nenhum círculo eleitoral deve escolher para representante um indivíduo que lhe não pertença e não conheça as suas necessidades e misérias, os seus recursos e esperanças. Isso, eu reputo sobretudo importante pelo seu alcance, pelos seus resultados em relação ao futuro. É, no meu modo de ver!

- Mas você para defender os interesses de Sintra basta metê-la na alma, puxar pelos projectos, falar com as gentes…

-É por isso que a instrução está como está, a agricultura definha, todos esperam tudo do governo central, como se fosse a Providência, mas para se dizer o que há a fazer é preciso conhecer, falar, estar no local. Aceitar outra coisa, caro Estevão, é uma abdicação tremenda da consciência de cidadão.

Os burros alugados em Sintra seguiam puxados pelos arreios, os dois caminhavam a pé e a seu lado já na direcção dos Capuchos. José Estevão acusava a estrada íngreme, Herculano, seco de carnes deleitava-se com aqueles passeios pela serra, a reflexão sobre a sua renúncia ao mandato ocupava-lhe o íntimo, os seus alfarrábios e pergaminhos eram agora a sua vida, desfeitas as ilusões que um dia, jovem voluntário, tivera de mudar o país ao desembarcar com os liberais no Mindelo. Como iam longe esses dias generosos, mais de trinta anos.

-É entre filhos da terra que os círculos deveriam escolher os seus representantes, com a redução dos grandes círculos a círculos de eleição singular, que um dia possam servir à restauração da vida municipal, da expressão verdadeira da vida pública do país, e de garantia da descentralização administrativa, como a descentralização administrativa é a garantia da liberdade real! -pedagogo insistia no estoicismo dos seus princípios, o amigo, já bafejado com sinecuras anuía que sim, mas nem sempre assim procedera, já chamuscado nos governos de facção e na política da Carta, artífice do verbo fácil e inflamado.

 -É honroso merecer a confiança dos nossos concidadãos, mas é mais honroso viver e morrer honrado! Só a eleição de campanário é o sintoma e o preâmbulo de uma reacção descentralizadora, é a condição impreterível da administração do país pelo país, e esta é a realização material, palpável, efectiva da liberdade na sua plenitude, sem anarquia nem revoluções, de que não vem quase nunca senão mal. Para obter este resultado, é necessário que a vida pública renasça. Os partidos, sejam quais forem as suas opiniões ou os seus interesses, ganham sempre com a centralização. É preciso que o país da realidade, o país dos casais, das aldeias, das vilas, das cidades, das províncias acabe com o país inventado nas secretarias, nos quartéis, nos clubes, nos jornais, e constituído pelas diversas camadas do funcionalismo. Dantes, os frutos que dá o predomínio da centralização, supunha-se colhê-los o rei: hoje colhem-nos seis ou sete homens chamados ministros.

-Ninguém está acima das paixões, dos preconceitos, das fórmulas, da índole da sua época, Herculano. A carne é fraca. Sejam quais forem as nossas aspirações quanto ao futuro, vivemos no presente, e quando não nos abstemos da política, enfileiramo-nos nos partidos, às vezes, até, sem o querermos e sem o sabermos!

Os dois detinham-se agora numa fonte na estrada da serra, camponeses saudavam servis, sem reconhecer os forasteiros.

-Está a ver Estevão? Eu deveria representar este pobre homem, mas ele nunca me viu nem tão pouco sabe quem sou….E eu nem sei o nome das localidades onde moram, os rios que atravessam as suas terras. Outros amigos do Ministério há-de haver por aí que façam melhor o lugar! Olhe, já tinha ouvido falar num sítio chamado Galamares? Ou num chamado Morelinho? De igual modo eles nunca ouviram falar de mim, não faço compra de votos aliás, nem nunca poderiam ouvir….

Anoitecia e voltavam ao Arrabalde pela mesma estrada, salteadores frequentes aconselhavam a que não desafiassem o breu da noite, José Estêvão iria entreter-se a escrever um pouco mais do seu discurso contra o imposto sobre a vinha, quando falava, o Governo tremia.

Herculano só pensava em Vale de Lobos e nos seus catálogos de documentos, só do Lorvão trouxera um baú, iam deitar fora, em boa hora chegara. Definitivamente, decidiu-se e escreveu aos eleitores a renunciar ao seu mandato de deputado por Sintra. O seu apreço por ela impunha-o, outros fariam diferente, ele não sabia fazer doutra, eleito para representar a sua consciência, uma última malga de água na Sabuga, onde também as burras se refrescaram, não seria procurador por Sintra mas seria regente da sua consciência.

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:54

23
Mar 11

Portugal, 1891. Uma única estrada decente unia Lisboa ao Porto, a maioria da população era analfabeta, a dívida absorvia 75 % do PIB. Os juros levavam metade das receitas e a economia sofria deflações contínuas para recuperar o equilíbrio. Subiam as taxas de juro e apertava-se as contas públicas. Tudo como de costume no Portugal do rotativismo, dançando entre Hintze Ribeiro e Luciano de Castro num patético vira do Minho, que nem os manguitos do Bordalo conseguiam evitar.

O Baring Brothers, banco inglês que colocava a divida pública de vários  países nos mercados francês e inglês abanou com a insolvência da Argentina e do Uruguai que gerou o pânico internacional e os mercados fecharam-se. Em Portugal, a solução foi mais uma vez a austeridade. Tornaram-se patentes as más aplicações da banca, o governo, pressionado, viu-se obrigado a negociar uma receita extraordinária ao conceder o monopólio dos tabacos ao conde de Burnay, por três milhões de libras.

Corria o mês de Outubro. D. Carlos caçava em Vila Viçosa, alheado ao vexame que o governo do primo Eddie lhe impusera com o humilhante mapa cor-de-rosa, os republicanos repelidos no Porto a 31 de Janeiro conspiravam em cafés e nos centros cívicos, o Governo de João Crisóstomo debatia-se com a dívida e os adiantamentos à casa real.

Em Sintra, pintada de castanhos outonais, alheia a Lisboa engalfinhada e claustrofóbica, Henry Burnay, recente conde pela mão de D. Luís e agora magnata dos tabacos, visitava o amigo Santos e Viana, a sua fortuna dera uma folga financeira ao governo regenerador. A viagem   de carruagem desde as Laranjeiras, onde cedera terrenos para o novo Jardim Zoológico fora tranquila e solarenga, no final  aproveitaria para uma  visita de cortesia à condessa d’Edla na casa do Regalo, a pobre viúva acusava alguma solidão depois da morte de D. Fernando, encerrada no chalé de cortiça.

A  casa Henry Burnay & C.ª  não descurava qualquer boa oportunidade de negócio, a partir dela Henry Burnay tornara-se uma figura  sempre presente nos empreendimentos económicos e financeiros nacionais, mais de um milhão e quatrocentos mil réis só em dinheiro. Metalurgia,  lanifícios, papel, vidros, sabão, o mercado colonial, as exportações,nenhum grande negócio se fazia sem que Burnay tivesse uma palavra a dizer. O recente negócio dos tabacos era puxado por Santos e Viana, um charuto na biblioteca de S. Pedro desenleava a conversa:

-Você, Henry, sempre me saiu melhor que a encomenda! Então lá conseguiu que o João Crisóstomo lhe viesse comer à mão!..

-É como lhe digo, Anselmo, estes tipos por dinheiro até a mãe vendiam. Eu limito-me a aproveitar as oportunidades! - Burnay, tycoon da finança, desfrutava, a vista sobre a Pena enevoada era sublime, pena o governo a ter comprado à condessa d’Edla, chegara tarde para o negócio.

-Então este ano não foi até à Granja? -Burnay veraneava em Gaia, mas esse ano por causa do negócio do tabaco ficara-se por Lisboa.

-Não, não deu. Sabe que tive de arranjar trinta e seis mil contos para adiantar ao Ministério da Fazenda? O João Crisóstomo estava em pânico: ou isso ou a bancarrota! Este país não tem tino nenhum! Ainda lhe sugeri que aligeirasse a contribuição predial e industrial, assim não arranjam amigos em lado nenhum…

-Você é que devia estar no Governo, Henry! Só quem sabe o que custa o dinheiro é que sabe como o administrar!- Santos e Viana, também banqueiro, bem sabia o que haviam despendido para abrir o banco, ministros a sacarem benesses, criando dificuldades e mendigando lugares na administração do Burnay, Santos e Viana.

-E parece que mesmo assim não chega! O Baring está com dificuldades em emprestar, parece que tem de se apresentar uma garantia em ouro! Ainda há dias disse ao Oliveira Martins que suspender a conversão das notas nos bancos por 90 dias era errado, criava pânico nas pessoas, mas há uns iluminados lá que o aconselham. Mal, como sempre! O que está a aguentar isto é a pauta aduaneira!  E nós, claro… Bom,meu caro, tenho de ir, fiquei de passar a visitar a condessa, o José Luciano ficou-lhe com a propriedade mas deram-lhe um monte de papéis do tesouro sem valor nenhum, parece que está de aflitos. É uma jóia de pessoa, coitada!

-Então não fica para almoçar? Tenho aí um Colares…

-Não,não, obrigado. Fica para depois. A ver se falamos da compra da vidreira, na Marinha Grande, passe lá nas Laranjeiras…

Apressado, saiu, mandando seguir para a Pena, a condessa d’Edla, víuva recente, passava problemas de tesouraria, uma livrança de dez mil réis estava já preparada para a ajudar, embora poupada a boa senhora tinha de acorrer às despesas nas várias casas de que ficara herdeira, D. Fernando deixara-lhe bens mas pouco dinheiro em moeda.

Passados uns dias, apesar do empréstimo, o Governo pela mão de Oliveira Martins, ministro da Fazenda declarou a bancarrota parcial. O país saiu do padrão-ouro, reescalonou a dívida externa e passou a financiar-se através de recursos internos pela emissão de moeda e só em 1902 se deu a situação como controlada. O país definhava, Henry Burnay, cavalheiro da indústria, apesar de tudo enriquecia. O segredo está em agarrar as oportunidades, pensava, enquanto a carruagem deslizava pela Volta do Duche.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:03

21
Mar 11

O inspector Lacerda chegou à cena do crime pouco tempo depois de o Meireles da brigada de homicídios ter ligado para ele, ainda terminava a meia de leite no café do Jacinto.

-Vem para Colares, depressa, um tipo foi encontrado morto, assassínio!

Aquele crime iria dar muito que falar, antevia. No local, uma moradia no Banzão, em cima da cama, estava morto e seminu um homem moreno, cerca de trinta anos, sangue escorrendo da testa para cima de um lençol branco, um tiro de pistola na nuca, parecia, à primeira impressão

-Há algum relatório?

-Dra Helena! -gritou o Meireles – traga a papelada para o inspector, por favor!

Uma jovem médica legista trouxe um relatório preliminar e entregou-o ao polícia que se deteve um pouco apreciando os olhos verdes da jovem, ainda estagiária, nunca a vira lá na sede.

-Filipe Rabaçal . –Lacerda  parou um minuto e olhou para Meireles – não  é aquele antigo futebolista que  agora escrevia para o “Record”? – refrescando a memória lembrava agora a figura do falecido, fazia comentários por vezes para a Sport TV - Não foi ele que andou aí nos jornais por causa de um divórcio  complicado?

-Foi sim, era casado com uma top model, uma Sofia …. –Meireles tentava juntar os dados disponíveis.

-Sofia Leão Bandeira –adiantou Helena, bem informada –ainda recentemente desfilou na Moda Lisboa.

Os policias olharam para a médica legista, admirados, ela foi  explicando:

-Eles eram casados já há algum tempo, mas andavam meio brigados, ela ameaçava dar uma entrevista onde ia revelar que ele era homossexual e lavar um pouco a roupa suja, sabe como são estes meios…

Lacerda ficou olhando para a médica, alem de vistosa era observadora:

-Meireles manda sair toda a gente quero ver bem a cena do crime, com certeza que deixaram passar alguma coisa. Isto é, se não tiverem estragado tudo já!

A sós com o defunto, puxou dum cigarro e ficou mirando aquela cena macabra, ajuste de contas por certo, por momentos fitou o morto, já esbranquiçado falando com ele:

-Tinhas tudo e limparam-te o sebo, não é? Quem será que te matou, grande safardana?

Lacerda calçou umas luvas de plástico, o olho clínico fixou-se na busca de uma pista que ajudasse a fazer luz. No quarto, com vista para a serra, havia uma cama redonda, um guarda fato em teka e um plasma gigante na parede, um computador portátil fechado estava em cima duma escrivaninha. Abriu-o, um ficheiro continha inacabado um texto intitulado “ Toda a verdade sobre o futebol português”, seguido de apreciações sobre a corrupção e estratagemas nos clubes e jogos de poder nos bastidores, nada que não se suspeitasse, pensou. No chão, um porta-chaves, com umas iniciais.

-Isto está fácil demais!- comentou, mirando, era em pele e tinha umas iniciais SLB-

-Sofia Leão Bandeira! Claro, é óbvio! -pensou, apertando as chaves na mão – Meireles! -chamou, para a sala ao lado - arranja um mandato. Vamos prender a mulher do gajo para averiguações! No chão, vestígios de cigarro, a criminosa ainda tivera tempo para fumar. Helena, também chamada recolheu o porta-chaves e as cinzas da beata em sacos de plástico. Antes de sair, ele ainda se meteu à graça:

-Olhe, eu…sabe… Já viu o”O Discurso do Rei”? Se não tiver muito que fazer logo…. Podíamos discutir o caso depois….

-Tudo bem, inspector –sorrindo, Helena anuiu, o inspector Lacerda era divorciado, as semelhanças com o George Clooney já tinham chamado a atenção para ele lá na PJ.

Um homem esbaforido entrou na sala naquele momento, fato de marca mas em desalinho, a gravata à banda. Lacerda e Helena estranharam:

-Ei amigo, o que é que você está a fazer aqui? -ralhou Lacerda. -Isto é a cena de um crime. Quem o deixou entrar?

-Desculpem, sou o Eduardo Sepúlveda, era muito amigo do Filipe, meu Deus, que coisa horrível!

-Você não é jornalista desportivo? –observou Meireles, já o vira a relatar um Sporting-Benfica para a Sport TV.

-Sou sim, eu e o Filipe estávamos a escrever uma biografia do Figo juntos, mas agora infelizmente…Que tragédia!

-Qual é mesmo o seu nome? –questionou Lacerda.

-Eduardo Sepúlveda. Escrevo para o “Record” e também colaboro com a Sport TV- nervoso, puxou dum cigarro, oferecendo antes. Lacerda primeiro recusou, mas depois mudou de ideias:

-Na verdade quero, sim -disse esticando a mão.

Ele sacou do maço e deu-lhe um cigarro, acendendo-o com um isqueiro amarelo. O inspector discretamente examinou-o e reparou que a marca  era diferente da beata que tinha achado no chão, o jornalista  deveria ser chique, andava bem vestido, embora demonstrasse um certo desleixo.

Naquela noite, Lacerda e Helena foram ao cinema e depois jantaram no Cascaishopping. Helena quis saber coisas acerca de Lacerda.

-Então e nas horas vagas? Que costuma fazer?

-Trata-me por tu -criava clima, o polícia - Bem eu gosto de futebol,    torço pelo Sporting, também pratico karatê. E tu?

-Eu gosto muito de ler e viajar, ah, mas sou do Benfica…

-Ninguém é perfeito! –sorriu, complacente — Sabes, aquele crime, ainda não me saiu da cabeça.

- Sim, mas as iniciais SLB, são uma prova forte, não?

-Não sei, SLB pode querer dizer muitas coisas. Sport Lisboa e Benfica, por exemplo…ele não era jornalista desportivo?

Lacerda arriscou segurar-lhe a mão e foi correspondido. Saíram da zona dos restaurantes de mãos dadas e passearam no primeiro piso. Depois, foram sentar-se em frente a uma loja, conversando. Quando Lacerda levantou a cabeça viu que estava em frente da Bertrand, no escaparate um livro acabado de editar, de Eduardo Sepúlveda, a “História do Futebol Português” .Levantou-se, curioso e foi ver de perto, folheando-o, capa simples, branca, com o nome dele a preto.

-Este não é aquele amigo do Rabaçal que apareceu no Banzão hoje de manhã? Raciocinando rápido, Lacerda comentou com a legista:

-Acho que prendemos a pessoa errada! – comentou, enquanto sacava o telemóvel- Meireles, arranja-me  um mandato e prende o Eduardo Sepúlveda para interrogatório!

Na manhã seguinte, na Judiciária, Lacerda apertava com o jornalista:

-Por que matou o Filipe Rabaçal? Confesse e será melhor para si, por quê?

-Como podem provar que fui eu?- Sepúlveda suava em bica, nervoso.

-Você descobriu que o Filipe andava a escrever um livro que questionava tudo o que você escreveu sobre o futebol português. E o novo livro dele fala em si e de que maneira! -exibindo uma pen, Lacerda sacara o texto incompleto do novo livro, onde conluios eram revelados questionando directamente a participação de Sepúlveda na compra de resultados desportivos. O livro sobre Luís Figo nunca existira, o próprio Figo atestara-lhe pelo telefone minutos antes que conhecia os dois, mas que até se andavam a dar mal ultimamente.

-Isso é tudo circunstancial! Quero um advogado! Chamem o João Nabais!

-Ainda não terminei, senhor Sepúlveda. Está a ver este porta chaves?- Lacerda sacou da prova recolhida no quarto no dia anterior - Aqui em números muito pequenos tem um número de telemóvel. Acho que é o seu, correcto?

Sepúlveda empalideceu, mais tarde em verificação directa uma das chaves era a do seu carro, daí o ter chegado à casa de Filipe de fato mas desarranjado, depois de ter disparado sobre ele andara pelo pinhal à procura das chaves desaparecidas, no retorno ao local do crime à busca delas deu já com a polícia em acção, alertada por uma vizinha que ouvira o tiro, havia que fingir surpresa.

No domingo seguinte, Helena e Lacerda voltaram ao cinema, passando pela Bertrand os escaparates publicitavam agora uma nova biografia não autorizada de Jorge Nuno Pinto da Costa, prometia revelações escabrosas. Ou se enganava muito ou teria mais trabalho pela frente, daí em diante….


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:11

20
Mar 11

Estava a chegar, mesmo para os que não tinham jardim nem viviam nos campos, despertadas, as Criaturas da Mata anunciavam a sua presença, sinos do submundo tocavam arautos da cor e clorofila, despertando perfume nas flores, tonitruante, toda a nação dos pássaros tocava a rebate comandada por zelosas andorinhas voltadas do Grande Sul. Depois do Branco Inverno partir a dormir por várias luas na gruta- ventre, exércitos de borboletas invadiam libertinas os ares em  sagração poisando em pétalas redentoras bafejadas por confortáveis raios de sol. Poetas estremunhados saiam agora dos seus invernosos esconsos, bebendo Luz e respirando  alfazema e jasmim  esperando a  Grande Iniciação Multicolor.

Ostara chamava a reunir, gamos e colibris, crisântemos e girinos, libelinhas e até lagartos, todo o mundo do silêncio era convocado pelas forças da Criação, em noite de Equinócio.

No bosque da Cynthia Imortal, lá onde entre Oceano e terráqueas fortalezas homens ergueram templos à Floresta Mãe, reunia a Grande Assembleia de elfos e centauros, como sempre desde a noite dos tempos, a desenhar o anel de luz e em prece às chuvas, sémen da vida e seiva da renovação. No silêncio cúmplice da noite a sagrada chama crepitava no altar adorando Ostara, ao lado, a vigorante poção do druídico caldeirão saciava ressequidos lábios, bafejados por novo renascimento, toda a Floresta comparecia absorvendo o anel dourado na única vez do ano em que   dia e noite se faziam iguais. Os dias escuros iam-se agora, a terra  pronta a de novo ser plantada, a viagem para longe do mundo das trevas  pronta a recomeçar. No altar sagrado, grinaldas e ovos, grãos e raízes, o Coelho Pontífice guardava sentinela na noite, atento às entranhas de Cynthia, perturbada e perturbante. De mãos dadas,os convocados, exorcizados em adoração à deusa agora libertada da longa noite de  Inverno, entregavam-se ao ritual das fragrâncias viajando por ramos e folhas, orvalho vitamínico e puro.

Toda a Floresta desvairadamente absorta celebrava, um festim de castanhas,pinheiros,verduras folhosas e límpidos verdes tinha início, solene e etéreo.

Terráqueos da montanha colocavam flores no altar, em círculo e no chão, no caldeirão água pura e flores esperavam o momento da oferta, enquanto na clareira junto ao palácio mourisco, iluminado pela argêntea Lua, incensos e brancas velas se acendiam em acordo com os elementos. Rasteiros, vindos de Cynthia, à sombra-mãe de Ostara, terráqueos  ainda assustados tocavam as plantas em busca do milagre da vida, prometendo amizade e cumprindo o círculo, para, uma vez cumprido o ciclo partirem por algumas luas, ao encontro de Beltane primeiro,mais tarde Litha celebraria o apogeu de Ostara mas também o seu declínio, para os entes da floresta e desde a noite dos tempos sinal sabido da chegada próxima de Samhein e Yule, e com eles as trevas da gruta e o apagar das fogueiras, fugidas ao vento do Norte e à escuridão da tundra uivante.

Nas aldeias dos terráqueos as terras pediam sementes e as árvores folhagens, chilreios em beirados cumpriam promessas de fertilidade, logo partiriam sulcando céus e mares, noites e dias, até que rodado sobre si o grande astro de novo os trouxesse. Ostara, como sempre, protegia os prados e bosques de Cynthia, antes a fizera rude e pedregosa, agora apoteose do verde.

Toda a noite o fogo redentor aqueceu os terráqueos, bebendo do caldeirão, Pã do alto do carvalho chilreando uma flauta logo em melódico coro acompanhado por rouxinóis e toutinegras. Ao amanhecer, cristalina e espelhada nos frescos lagos a Primavera reinava enfim esplendorosa, com o seu ceptro de azevinho e assustadiços coelhos saltitando em seu torno. Os dias antes avaros do longo Inverno, logo cresceriam, generosos, frutos e plantas brotariam suculentos e em abundância, cardumes cruzariam os rios e serpenteantes patos se banhariam nos riachos perseguindo irrequietas rãs.

No ano seguinte e em todos os seguintes assim seria até ao fim dos tempos ou até que Odin na Valhalha  juntasse finalmente os guerreiros no  esperado advento do Ragnarok, Cynthia veria choros, risos, lutos, borrascas, milagres, sagrado e eterno templo dos deuses da floresta, e sempre no assinalado tempo em que o dia seria igual à noite Ostara regressaria, fugaz e pitonisa, a espalhar a  redentora Luz.

 


publicado por Fernando Morais Gomes às 08:57

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