por F. Morais Gomes

30
Abr 11

    

 

Possidónio da Silva era demasiado formal, queria algo diferente, Von Eschwege percebera já o que o rei  pretendia. Arquitecto amador e mineralogista, Eschwege, que nascera em Hessen, deveria conhecer, pelo menos em projecto, as obras que Frederico da Prússia empreendera com o traço de Schinkel nos castelos do Reno. Era isso que Fernando, agora rei de Portugal, procurava reconstruir no convento da Pena, algo diferente, uma miscelânea romântica e exótica.

Os trabalhos decorriam a bom ritmo, segundo o projecto do alemão. A par de arcos ogivais, torres medievais e elementos de inspiração árabe, o rei, entusiasta, mandou reproduzir na fachada norte uma imitação do Capítulo do Convento de Cristo, em Tomar.

Naquele dia, porém,o rei e Eschwege chegavam apressados à Pena, os encarregados reportaram um acidente grave, um dos estucadores caíra dum andaime e morrera. D. Fernando, consternado, acorria a inteirar-se, pagando do seu bolso  o funeral.

 Inconsolável a viúva e dois filhos, aguardavam chorosos, e agora desamparados. A diária  viagem de burro de Gigarós para as obras já era penosa para o malogrado Serafim, deixava agora órfãos dois filhos de tenra idade. D. Fernando, emocionado, beijou as crianças, dois rapazes de nove e cinco anos, e ordenou que o seu secretário providenciasse apoio. Eschwege representá-lo-ia no enterro, em vala comum.

Passada a couraça e a ponte levadiça, o mestre de obras, aproveitando a presença, acercou-se deles, o Pátio dos Arcos, com a parede de arcos mouriscos, estava quase pronto, bem como a zona apalaçada com o baluarte cilíndrico. Eschwege caprichara, pensou, Schinkel não faria melhor. Marcante, contudo, era o tritão, meio peixe, meio homem, saindo de uma concha com a cabeça coberta por cabelos que se transformavam num tronco de videira, lembrando o barbudo da sala do coro do Convento de Cristo, transformado aqui num ser monstruoso. Era aquela era a imagem pretendida:

 -Eis o Pórtico  da criação do mundo, Eschwege!- místico, o rei conseguira condensar em termos simbólicos a teoria dos quatro elementos, fiel aos ritos da sua convicção. Reforçando a relação com Tomar, a janela no lado oposto deste corpo copiava com alguma liberdade o vão manuelino de Diogo de Arruda. Nicolau Pires fora a Tomar desenhá-la, com o prussiano reformulara o conjunto.

Carros de bois iam chegando com materiais e mais homens, recrutados em Sintra e nas várzeas próximas. D. Fernando era generoso com os homens, que inicialmente cépticos com a obra faraónica no alto da fraga, se rendiam agora, à medida que as formas finais ganhavam cor,divinais no topo da serra. Em torno faria um jardim, luxuriante e denso, outros planos tinha ainda  para obras na propriedade. Maria, de novo grávida, apoiava, no futuro seria um esplêndido retiro de Verão, a família estava a crescer.

Passadas três semanas, voltou às obras. Em Évora nesse intervalo descobrira um açougue com vestígios dum templo romano,  entusiasmado ordenara que se pusesse o mesmo à luz do dia. Pasmava como este país tão rico em legados artísticos os tinha em total ruína. Na Batalha, roubavam-se lajes dos túmulos para cantarias das casas, os Jerónimos ameaçavam ruir, a custódia de Gil Vicente jazia abandonada num esconso da Casa da Moeda. Nesse intervalo, os tectos da Pena avançaram, três meses mais e estariam prontos, garantiam os estucadores.

Num barraco junto à ponte levadiça, pela hora do almoço, os homens faziam um intervalo, tempo para um caldo de carne e uma malga de vinho. D. Fernando, visitando-os, a todos cumprimentou, elogiando o trabalho. Falava mal português, mas o povo já o conhecia como justo e simples, preferia a música às armas e tal como o povo, detestava os políticos, com Saldanha à cabeça. Em Sintra estava entre os seus. A um canto, uma mulher de negro, junto a um caldeirão, enchia pratos com sopa, que duas crianças serviam aos homens. Eram a viúva e filhos do defunto Serafim. Aproximando-se, o rei perguntou por eles, poucas semanas haviam passado desde a morte do estucador, com apenas vinte e sete anos.

-Espero que esteja a ter a força suficiente para criar as crianças, fraulein- condoído, D. Fernando pediu da sopa, comeria com Eschwege junto aos homens, meio acanhados com a presença do rei- Andam na escola?

A jovem viúva fez que não com a cabeça. Pobres nasceram e pobres morreriam, era a lei de Deus e a vontade dos homens.

-Terão de trabalhar, senhor. Um dia talvez possam ter sapatos, e tendo uma vaca ou um palmo de terra se criarão tementes a Deus.

D. Fernando calou-se. Em terra profundamente católica, aprendera a entender o conformismo dum povo convicto que tinha o que Deus destinava, tudo o que viesse a mais a Deus  misericordioso deveriam agradecer.

-Claro, claro…-pegando em algumas moedas, deu-as à mulher, afastando-se com Eschwege, tinha de ir. À noite, ao jantar nas Necessidades, contemplando a rainha e os príncipes, da idade dos filhos do estucador, não deixou de reflectir sobre o jogo de sombras que Deus fazia com os humanos, distribuindo-os à nascença em bafejados e desprotegidos.

Uma semana depois, o mestre de obras da Pena chamava a viúva, agora cozinheira dos operários, precisava de falar com ela. Assustada, Elvira, de seu nome, compareceu, com os filhos pela mão. Depois de um breve silêncio que lhes pareceu eterno, o mestre comunicava que o rei a contratava para o  serviço no novo palácio, com cómodo e serventia de águas. As crianças aprenderiam as letras com uma mestra, em Sintra, e depois um ofício, a Pena precisaria de gente mais tarde.

Do cume onde um deles encontrara a morte vinha agora uma réstia de esperança na vida.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:27

29
Abr 11

A cerca ficara mal vedada, bem lhe parecera que a rede estava periclitante, o Seca-Adegas, com a pressa dum tinto no Miranda despachara o assunto em três tempos. Antevia já problemas com o Acúrcio, há mais de vinte anos que as famílias não se falavam por causa dum cavalo, vinha borrasca dali, pela certa.

Na quinta, Virgílio cultivava hortaliças e criação, tudo vendido na praça ao fim de semana e na Malveira à quinta, com os filhos criados, para ele e para a Micas chegava. Pior era a vizinhança. Com o Acúrcio era impossível falar, certa vez por causa dum marco quase se mataram com uma forquilha, não fosse o Zé de Fontanelas e a coisa teria metido sangue. Saloio que se preze é cioso do seu cantinho, e nisso eram muito parecidos, daí as quezílias e os ódios que lhes infernizavam a vida e a das famílias. Café onde fosse um, o outro não entrava, e se um comprava um porco na Malveira o outro tinha de comprar dois, tudo devidamente relatado na tasca do Miranda.

Ambos tinham gado, para consumo dos seus e para venda, criava umas vaquitas, a carne para o Júlio do talho, o leite ele mesmo vendia, mais os queijos que a Micas fazia. Com o Ernesto formado e a viver em Lisboa, para eles bastava. Sem vícios, que a diabetes não perdoava, pachorrento levava os dias da feira para casa e da casa para o Miranda.

A rede da cerca ficara efectivamente solta, quando apanhasse o Seca-Adegas lhe daria a coça. E para mal dos pecados, das cinco vacas, faltava uma, bem a viu na propriedade do Acúrcio, já misturada com as dele. A contra gosto, chamou-o, o ódio era de muitos anos, a reclamar a propriedade:

- Ouve lá, não te chegam as tuas, também tens de pilhar as vacas dos outros, minha anta? Passa para cá a minha vaca, ou tenho de ir buscar a Flaubert?

O Acúrcio, já vermelho só de o ver, veio do celeiro, de mão na anca, a barafustar com o Virgílio:

-O que queres, unhas de fome? Mete-te na tua vida e deixa os outros em paz.Ou queres que te parta a cara….

-Passa mas é para cá a minha vaca, e enquanto estou calmo, se não…

-Qual vaca? Estás mas é doido, as vacas que ali estão são todas minhas, vai mas é apanhar bonés!

Furibundos, já quase em vias de facto, chegou o Ernesto, filho do Virgílio, a pedir calma. Mais ponderado, achando aquelas guerras absurdas, sem desapoiar o pai, chamou-o à parte, para se ver a melhor maneira de recuperar a “Mimosa”:

-Isto com violência não vai lá, pai, depois ainda perde a razão. O melhor é falar com um advogado e arranjarmos maneira de recuperar a vaca.

Rosnando, a caminho do Miranda, onde o Seca Adegas jurava a pés juntos, já sem poder fazer um quatro, que a rede ficara bem posta, lá anuiu, no dia seguinte procuraria o dr. Anselmo, em Sintra, era advogado dos antigos, conceituado, ganhara uma causa ao Domingos por causa dumas partilhas. Iria sozinho, mas a vaca tinha de voltar, a bem ou a mal.

No dia seguinte, pela manhã, lá apareceu no escritório, na Portela de Sintra, o doutor Anselmo, com mais de quarenta anos de tribunal e um escritório de bilros, clássico,tinha  com ele um estagiário, o Afonso, licenciado meses antes e dedicado aos processos, rapaz diligente.

Virgílio lá expôs a situação: a vaca era dele, toda a gente em Bolembre podia atestar, tinha uma mancha preta entre os olhos, e todos sabiam que o Acúrcio só tinha três. O dr. Anselmo, dando umas passas no cachimbo, ouvia, matutando, Afonso tirava notas. No fim lá sossegou o Virgílio:

-Ó homem, isso nem tem discussão. Com as testemunhas e o recibo da compra, não tem de saber. A vaca é sua!

Mais descansado, lá saiu a contar ao Ernesto, o sacripanta do Acúrcio havia de ver, ainda havia de pagar uma indemnização e ser  levado preso, por roubo. Descansado,até pagou uma rodada no Miranda à chegada de Sintra.

No dia seguinte, no escritório do dr. Anselmo, outro cliente marcara consulta. O Acúrcio, aconselhado pelo compadre a ir àquele advogado, queria saber dos direitos sobre a vaca, o tribuno ouvia, dando uma baforada:

-Pois é como lhe digo doutor, apareceu-me uma vaca no meu terreno, não tem identificação do veterinário, que é obrigatório, o meu vizinho anda a dizer que ele é que é o dono, o que é que o doutor acha?

-Não se preocupe, senhor Acúrcio- o dr. Anselmo, seguro do Direito e da razão, sossegava o cliente- sendo assim como diz, isso nem tem dúvidas: a vaca é sua!

-Tirou-me um peso de cima, doutor! Deixe estar que eu sou de boas contas….

-Não se preocupe, não se preocupe…- o advogado acompanhava-o  à porta, contas era com a Cecília lá fora. Voltando ao cadeirão, Afonso, que igualmente assistira à conversa, coçava a cabeça, intrigado, era a mesma história da véspera, do cliente de Bolembre:

-Ó doutor Anselmo, o senhor ontem disse àquele cliente, o sr. Virgílio, que a vaca era dele, hoje diz a este senhor que a mesma vaca é dele. De quem é a vaca, afinal?

Sorrindo, matreiro, o velho causídico deu duas palmadinhas nas costas do colega, ainda verde e ingénuo, e rematou, sacudindo o cachimbo no cinzeiro:

-Oh meu rapaz,mas tu não vês que a vaca é nossa?..


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:25

Foi há três anos que André se decidiu a avançar com o projecto, um filme tendo por tema a  Gafaria de S.Pedro, a mal conhecida  leprosaria no Arrabalde.Lázaros escorraçados  e errantes ali encontraram refúgio até ao sec XVI, sob a protecção do Espitral do Espírito Santo, o assunto era fascinante. Se não arranjasse produtor, faria uma curta. Atraíam-no os filmes grunge, Murnau e Tod Browning,lendo nas sombras e silêncios dessas fitas grandes semelhanças com as angustias do mundo actual.

Da pesquisa que fez para o filme, chamou-lhe a atenção a história de Mabília, uma leprosa que morrera em 1567, tida como feiticeira e de quem se dizia ter contraído lepra como castigo pela prática de bruxaria, que usava para   seduzir os homens e depois os roubar e matar. Morrera no maior sofrimento, jurando vingança.

Falando com pessoas mais velhas de S.Pedro,André verificou que apesar do tempo passado a história ainda era lembrada, notando porém silêncios cúmplices a cada tentativa de saber mais, havendo inclusive  quem jurasse ter assistido a missas negras nos Capuchos  comandadas por Mabília, enquanto velas acesas rodeavam galinhas oferecidas em sacrifício.

Por essa altura alguns casos ocorreram,porém,denunciadores de anormalidade numa terra bucólica e pacata, surgindo notícias nos tablóides relatando o desaparecimento de pessoas que não deixavam pistas ou testemunhas. Um em Ranholas, em Março de 2008, outro no Ramalhão, um mês depois, outro ainda cujo ultimo avistamento fora perto da Mourisca pouco depois de encerrar. Vozes  delirantes, dos que visionavam filmes perturbantes de Sintra no You Tube associavam mesmo o facto à tenebrosa Mabília, séculos após ter morrido,se bem que emprestando um ar trocista aos comentários.

Três pessoas estavam desaparecidas, não havia pistas, uma testemunha que fosse. André, absorvido na concepção do seu filme e com a adrenalina do perigo decidiu investigar  por conta própria. Passadas algumas semanas, contudo,nada descobrira. As pessoas não voltaram a ser vistas e a GNR pensava em arrumar o assunto, para eles a dispensar grandes investigações. Até nem eram pessoas da terra, comentavam, se calhar tinham sumido zangados com  familiares. Importante eram os gangues da linha de Sintra, e fechar os bares a horas por causa das inevitáveis reclamações de sábado à noite.

Uma noite, visivelmente alterado, André irrompeu arfando no posto da GNR de Sintra. Não dormira na noite anterior e assaltava-o uma intuição que se adensava no seu espírito. Visivelmente fora de si, pediu ao cabo de serviço que o acompanhasse com algumas praças a S. Pedro, tinha a certeza de haver descoberto algo aterrador,tendo seguido para o local onde pela sua pesquisa a bruxa Mabília havia dado o último suspiro, uma encosta em frente da igreja de S. Lázaro. Movido por uma força estranha, André começou a escavar e arrancar as pedras da calçada, perante o ar boçal dos agentes, seguros de já lhes terem estragado a noite. Estranhamente, a terra, já no enfiamento com largo de S. Pedro parecia mole e húmida, como se alguém ali tivesse estado recentemente. Perturbadoramente, restos de uma mão  putrefacta começaram a aparecer.

Face à macabra descoberta, o rosto de André transfigurou-se, e começou a gritar palavras incompreensíveis, cabeceando, possesso. Percebia agora o que se passara. Era como se um inquilino invisível e usurpador habitasse o seu corpo, manietando-lhe os movimentos, vexando-o como  presa ocasional para lhe parasitar o espírito e assim concretizar uma ânsia de vingança que de tempos a tempos  se tinha de saciar.O corpo era de um dos desaparecidos, e alienado, André o havia morto, tal como os outros,embora nada recordasse.

Arrancou a camisa e desatou a gritar,possesso, qual marioneta desalmada e impotente capturada por um dono invasivo de quem se queria apartar. Dos seus olhos emanava o olhar de Mabília. Sem o saber, ao tanto querer saber sobre ela na pesquisa para o filme, o seu corpo fora por si possuído,e assim se vingava séculos depois de ter morrido numa enxerga imunda, usando  André como títere do seu plano predador.

André recupera lentamente numa casa de repouso em Mértola, absorto,com os olhos sempre fixos num horizonte invisível. Mabília, dizem, ainda pode ser avistada junto ao Ramalhão, no Túmulo dos Dois Irmãos, esperando infelizes presas em noites de lua cheia.


publicado por Fernando Morais Gomes às 05:12

27
Abr 11

Morreu o professor Vitorino Magalhães Godinho. Referência maior da cultura portuguesa, cidadão como já não se faz, recordo-o nos idos dos anos setenta, quando passei meses embrenhado na Biblioteca Nacional reconstituindo a viagem de Vasco da Gama e com ele tive o privilégio de trocar impressões sobre essa Rota do Cabo que mudou a história do mundo. Era uma personalidade firme e de vigor intelectual marcado, ainda hoje com mais de 90 anos. Fica a obra, a par de Jaime Cortesão, do melhor que se escreveu e publicou sobre as Descobertas.

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:00

Novo paraíso. Terra onde a a Primavera tem seu trono. Hans tinha de conhecer essa Sintra de que tanto falavam, o momento surgiu com o convite para a casa dos O'Neill, entre Julho e Agosto.As  chaminés acopladas do Paço, que mais lhe pareciam garrafas de champanhe, circundadas por aquele êxtase de verde, confirmavam o que lhe haviam dito: Sintra era História feita jardim, perfumada e bucólica, recordava-lhe as florestas de Roskilde e os palácios de Elsinore, onde crescera e aprendera as primeiras letras.

Hans Christian Andersen depressa se afeiçoou aos amigos portugueses. A viscondessa de Reboredo, filha do almirante Zahrtmann, dinamarquesa como ele, recebeu-o com entusiasmo, bem como o conde de Almeida e o marquês da Fronteira.Por cá descobriu igualmente um amigo de Copenhaga, Edward, filho do poeta Lytton-Bulwer, agora segundo secretário da legação britânica em Lisboa. A comida era boa, o ambiente familiar, por Sintra ficaria até o barco para França chegar do Brasil, em escala.

Nesses dias, com Edward e José O’Neill visitou a Pena e Monserrate, verdadeiros palácios de conto de fadas. A igreja românica fronteira à casa dos 0’Neill transportava já por si para eras medievais, sugerindo princesas trancadas em torreões e ogres escondidos na serra, os palácios no alto, porém, eram verdadeiros olimpos de deuses, logo na sua imaginação transformados em histórias magníficas que os seus leitores por certo devorariam, suspensos do desfecho. Era belo  Portugal, e esfuziante a Sintra onde o traziam.

Atento, em Monserrate um episódio lhe chamou a atenção: num lago,um jovem cisne partilhava o ninho com  uma pata e seus rebentos. Órfão, por certo, diferente dos irmãos, apesar de recolhido, era porém perseguido e maltratado pelos outros patos do lago. Hans várias vezes ali se deteve a observá-lo, bastardo, quem sabe se adulto não levantaria asas e deslumbrante dominaria o lago, príncipe da feteira. Como ele, que pobre filho dum sapateiro tivera de se criar em casa de outros, e agora adulto era reconhecido pela aristocracia, ali encontrou uma alma gémea , um patinho feio que um dia viraria esbelto cisne, conquistando a floresta mágica de Sintra.

Carlota, a filha dos 0’Neill simpatizou com ele no primeiro dia, quem escrevia para crianças só podia ter bom coração. Uma noite, depois de jantar quis que ele fosse ao seu quarto. Hans, a maior criança dos adultos foi, de mão dada, intrigado e divertido, ante a advertência da mãe de que não importunasse o amigo. No quarto, uma boneca de porcelana sobre a cama, loura e sorridente, olhava na direcção dos dois. Carlota pegou-lhe e mostrou-a ao escritor:

-Esta é a Bárbara, é a minha melhor amiga. Gosta dela?-perguntou, da inocência dos seus cinco anos.Hans sorriu, pegando na frágil boneca:

-É linda, Carlota. Brincas muito com ela?

-Sim…Mas quando a deixo para ir aprender a tocar piano ela fica muito sozinha. Acho que precisa de um amigo!

-Pois é…tens de lhe arranjar uma companhia. Mas ela se é amiga verdadeira vai esperar por ti sempre que voltes ao quarto, para brincar contigo. E por vezes, devias levá-la à serra ou à vila, acredita que ia ficar contente!

De volta à sala, amigos dos 0’Neill chegavam para jantar, já famoso na Europa, muitos  queriam conhecer Andersen.

Os restantes dias foram de descanso e descoberta. O pequeno cisne lá continuava no lago, ainda trôpego, Hans sorria, antecipando-o adulto meses mais tarde, quando o Inverno chegasse e a Natureza ditasse as suas regras.

No início de Agosto, o navio vindo do Rio  que levaria Hans a Bordéus chegou finalmente, duas semanas haviam passado. Em Sintra, um último jantar foi organizado sua em honra, Carlota, por essa vez assistia, a pedido de Hans. Antes dos brindes, escreveu no álbum dos O’Neill:

Quando, querendo Deus, em breve passear

Nas galerias de faias do meu país natal,

Voará muitas vezes meu pensamento

Para o belo país que é Portugal

Fora uma jornada magnífica. Pela manhã,antes de a carruagem o levar a Lisboa, depois das despedidas, acariciou Carlota e puxando de um embrulho,deu-lho, com voz de mistério:

-Isto é para ti, e para a Bárbara. Mas abre só depois de eu partir. As duas vão gostar muito, vão ver!

Mal a carruagem com  Hans desapareceu na curva de Santa Maria, Carlota, curiosa, correu a abrir o embrulho. Era um soldadinho de chumbo, azul e vermelho, com um chapéu em feltro preto. Doravante, Bárbara não mais ficaria só quando a deixassem na cómoda do quarto. Para ela chegava enfim o Príncipe Encantado.


publicado por Fernando Morais Gomes às 04:22

25
Abr 11

Depois de grandes obras na alcáçova, D. Manuel mandou que mouros forros de Colares zelassem pelas almedinas do castelo e dos eirados das torres. Várias vezes percorrera essas terras e várzeas distribuindo benesses, esmoler em Montelavar, caridoso no Penedo, generoso em Janas. Naquele Outono de 1514 a vila parecia contudo enfadada com El-Rei, novos alvarás régios mandavam cobrar pesados impostos, Damião Nunes, oficial da jugada, frente ao Paço, anunciava a má nova e solene advertia os vizinhos ali reunidos, Gonçalo Anes chegava da entrega de  queijadas  e leite coado em casa do almoxarife:

-Homens bons de Sintra, é mister d’El-Rei em sua avisada governança que quem lavre a terra com junta de bois, na vila ou no termo, pague dezasseis alqueires de pão, oito de trigo e oito de cevada. Quem só tenha um boi pague porém só oito alqueires de pão- anunciava, lendo o edital, apesar de lá veranear, o rei não se mostrava magnânimo com seus súbditos de Sintra.

No terreiro, o povo escutava, desconfiado. Gonçalo Anes e Nuno de Colares, com as suas juntas de bois, torciam o nariz, só na eira de Janas ocupavam quatro bois, tentando contornar essa injusta jugada ainda reclamaram, antes de seguir para os baixos do Arraçario:

-Então e quem lavrar com enxada só e sem alimária?

-Quem só lavrar com enxada, fica isento. Os demais deverão acertar comigo o pagamento em trigo, de 15 de Agosto até ao Natal. O celeiro d’el-rei estará aberto três dias por semana, lá me podem encontrar! -Damião, ufano, exibia o poder do seu cargo, para quatro anos era oficial da jugada, e muito porfiara entretanto em fartas fazendas, umas para el-rei, outras para si, dizia o povo à boca pequena, a fama de Damião já tivera melhores dias. E continuou:

-E dêem-se por bafejados, pois el-rei dispensa os da vila de pagar o mordomado, só os do termo são submetidos ao tributo! - acrescentou, o mordomado era imposto apenas aos habitantes do termo, não aos da vila, a fim de alimentar os mordomos da jugada.

-Vale-me este ano a safra do vinho ser fraca, quarenta almudes, a seca foi muita…-Gonçalo Anes coçava a cabeça, muitas vezes contrariado caminhara para os armazéns reais a enchê-los de trigo, uma injustiça, pensava.

-Já a mim me toca e muito, tenho duzentos almudes, parece que se deve pagar antes do relego…-Nuno de Colares suspirava, tocavam as doze na torre de S. Martinho.

O oficial régio continuava:

-Da colheita havida há também que pagar socos da rainha, sob pena de não poderem aceder aos fornos reais e ser o procurador do concelho punido. De tudo o que for aí moído, de moenda pagarão um quarto!

Mais vizinhos se juntavam agora, era Novembro, mês de relego, o vinho do rei teria primazia na venda, só depois podendo os particulares vender o seu, sob pena de coimas. André Gonçalves, Almoxarife de Sintra e Juiz das Sisas e Coutadas de Colares, com mantimento de ofício pela confortável quantia de 4800 reais, chegou entretanto, a tempo de escutar Nuno de Colares:

-Pois não chegam a El-Rei as fazenda da Índia, e o trato com os marranos de Génova? Com tal canga não pode o povo dar sustento a seus filhos com o pouco que lavra em suas terras e hortas.

-Antes o mar, ao menos para morrer na costa da Guiné não se paga…-Gonçalo Anes, retirando-se, seguia para os baixos de Oliva, magicando forma de ludibriar o oficial da jugada, breve mandaria umas galinhas à sua casa em Cabriz, a lembrar quanto o estimava…

-Pois do mar também há mercê de pagar! –interrompeu André Gonçalves, metendo-se na conversa, e puxando da dignidade de almoxarife: -Se forem apanhadas dez pescadas, que se pague uma, quem não apanhar dez fica isento. Marisco e outros peixes, onze ceitis. Estes impostos pagarão directamente ao alcaide-mor. Para este concelho constituído fica também o dever de portagem aos oficiais régios, sob pena de confisco das mercadorias, e de acordo com o montante e categoria das mesmas. E que não haja maus intentos quem conluiar-se com mercadores para enganar, pode sofrer degredo em Ceuta por dois anos.

-E quem mercadejar boi, porco, cabrito, escravo ou outro animal pague treze reais por cada peça! -rematava, servil, Damião.

Da Pêndoa chegava entretanto Inês Pereira, desde que casada com Pêro Marques se mudara para Sintra, vida boa folgava, marido manso e lerdo, farta bolsa, estava como queria. Alcoviteira, Constança Pires correra a contar-lhe do rebuliço no Paço, com a leitura do edital. Pêro Marques, meio tosco, no meio do povo, não sabia se algo daquilo era com ele, segurando a burra com alfaces que ia vender na alpendrada. Inês, interesseira, insinuou-se a Damião Nunes, realçando o busto, farto e alvo, um oficial de jugada não era de desprezar:

-Senhor oficial da jugada, pois zelais pela fazenda de el-rei? Grande e nobre trabalho tendes, só alguém com vosso saber e fortaleza o poderia fazer!

Ruborizando, Damião agradeceu, sempre derretido na presença de Inês, olhar aquilino, astuta que nem rato. Parando a leitura, saudou:

-Bons olhos vos vejam, senhora D. Inês. Exagerais, por certo….

Chegando-se a ele, Inês roçou-se, dengosa, vendo o almoxarife a afastar-se perguntou em voz baixa:

-Carecia de moer minha farinha. Em vosso moinho, se vos aprouver. Pobre e desvalida que sou tenho também de pagar de moenda um quarto…?

-Ora, ora, por quem sois. D. Inês. A vós, o quarto dou eu…

Resmungando, o povo dispersou, enfadado com Damião Nunes. Na alcáçova do castelo de S. Jorge, el-rei perguntava a Gaspar Gonçalves se todo o vinho de Colares estava já vendido. Maravedis de Malaca, ceitis de Sintra, rendas da Casa da Índia, a sua fama de rei farto e poderoso não poderia os cofres deixar à míngua, fosse com o açafrão de Goa ou com o bom néctar de chão de areia.


publicado por Fernando Morais Gomes às 22:30

Ele deu a cara, o corpo, o ânimo. Na madrugada inicial do resto das nossas vidas foi o rosto descoberto, o povo armado, o primeiro cravo. Nunca na ribalta dos interesses ou nos corredores do poder. Morreu precoce, doente e anónimo. Outros que hoje o incensam e exercem o poder que ele devolveu,negaram uma merecida pensão à viúva, quando, como Zeca, saiu de cena, ambos atrás da gaivota que por esse tempo voava.... Ele, não mais um capitão desse Abril, mas O Capitão de Abril. Para quando a estátua a Salgueiro Maia no Largo do Carmo?

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:00

24
Abr 11

 

 

Era luzidia a embaixada para o tratado de casamento: o Senhor de Roubaix e de Erzelles, Balduíno de Lanoy , Thoulongeon , Gil de Tournay,  e Jan Van Eyck, moço da câmara do Duque e  seu mestre de pintura. Van Eyck, para muitos João de Bruges, o mais notável pintor flamengo do seu tempo,pintava o retábulo da Catedral de Bavon, encomenda do Senhor de Ramela, quando o Duque de Borgonha o encarregou de retratar a noiva, Isabel de Portugal. Interrompendo a obra, que só anos depois retomaria, com os enviados do Duque chegou em Dezembro a Lisboa, logo passando a Estremoz onde a Corte se encontrava.

Para Filipe, o Bom, seria a terceira união. Filipe III de Borgonha, Brabante e Países Baixos, desposara antes Michelle de Valois  e Bonne de Artois,já falecidas, em Portugal buscava nova aliança. Isabel, a filha de D. João I foi a escolhida e a lustrosa embaixada chegava para o pedido formal, era o ano de 1429. A Van Eyck competiria retratá-la, para que Filipe dela tivesse imagem antes dos esponsais em Bruges, mais tarde.

Isabel passava os trinta anos. Única filha mulher de D. João, vivia em Évora desde que a mãe, a doce Filipa de Lencastre se finara ia para mais de catorze anos. Com El-Rei no ocaso da vida e D. Henrique em plena saga africana, novas alianças políticas se impunham em plena Guerra dos Cem Anos, os interesses do Reino aconselhavam. Por sugestão de D. João, o pedido seria em Sintra, no paço que tomara a Henrique Manoel de Vilhena, leal a João de Castela durante a crise da sucessão.

Van Eyck espantava-se com Sintra, mistura de arte mudéjar e mourisca, e com as suas originais e  pantagruélicas chaminés. Uma semana se ocupou retratando a princesa, pouco prendada de feições por sinal. Balduíno de Lanoy ofertara dois cisnes, que muito surpreenderam os locais, pouco familiarizados com tais aves, D. João agradado mandou mesmo soltá-los nos jardins do Paço. Jan, tirado das neblinas de Bruges e das suas sombrias sacristias, sentia familiares as névoas de Sintra, mais serena que o tórrido Alentejo.

Com Giacomo Arnolfini, um genovês na corte de D. João criou mesmo amizade nessas semanas, registando retabulares paisagens em óleos pujantes e incisivos. Jan era um amante do belo, de influência helenística, plena de profundidade e de sombras, escapando das caçadas e torneios, inspirado retratava o Paço, entre pinceladas no retrato da desenxabida princesa.Com o infante D. Pedro, várias vezes hóspede de Filipe e viajante de várias partidas se entretinha em profícuo diálogo, conversando de política e viagens, do longínquo Chipre dos Lusignans ou da Morávia distante. A governança da Flandres era para Pedro exemplar, isso mesmo confessou a Jan, certo dia no Paço:

-Saiba, meu caro Jan, que à distância da Flandres vi claramente os fortes e fracos do nosso povo. Temos nós o vício da basofia, que todos atrai á corte, enjeitando os filhos as profissões dos pais, afidalgando-se, formando uma nuvem de parasitas que enchem o Paço d’El-Rei e atulham as escadas das secretarias na esperança dum lugar de escudeiro. Aqui falta-nos economia privada, e abusa-se da quebra da moeda, expediente para saldar as contas. Não há que mudar a moeda, há que por cobro às despesas do rei e não esmagar o povo com peitas e impostos extenuantes. Avisado iria meu pai se houvesse conselho de quem viu outros Reinos e ouviu outras gentes.

-Príncipe Pedro, bem vejo que vosso Reino tendes em grande empenho. Eu me contento com meus óleos, e o serviço ao senhor meu Duque, e em breve de vossa irmã, pela Graça de Deus.

-Bem sei, e para terras de Flandres e Brabante nosso Reino se devia orientar. Meu irmão Henrique cuida melhor ser a empresa de África, pois por mim melhor será aliança com os reinos europeus. Minha irmã é avisada, e gostará de Bruges, e de Filipe, estou certo.

No Paço, jantares opíparos com tangeres de música e torneios de canas assinalaram por vários dias o acerto dos esponsais, posto o que Van Eyck e os plenipotenciários se retiraram para a Flandres, o retrato estava pronto e o contrato assinado.

Única filha, não foi sem uma lágrima que D. João viu partir Isabel para terras distantes. No dia aprazado, após as vénias, com um sentido beijo  se despediram. Já velho, o de Boa Memória sabia que não mais a tornaria a ver, ao serviço do Reino e da política de alianças.

Após semanas de viagem,Isabel de Portugal finalmente chegou a Bruges, recebida com pompa  e um cerimonioso te deum. Van Eyck, esperando-a em Ostende, recordava D. Pedro, Arnolfini e aquele céu azul a oeste de Castela.

A 10 de Janeiro de 1430, enfim Filipe desposou Isabel. Dela teve três filhos, dois falecidos de tenra idade e Carlos o Temerário, que lhe sucedeu. Para trás, os cisnes no Paço de Sintra. Vendo-os,altivos no lago, neles D. João  muitas vezes recordou Isabel, e também Filipa, precocemente levada.


publicado por Fernando Morais Gomes às 04:03

22
Abr 11

  Para ler escutando o vídeo

 

1-Introitus: Requiem aeternum

Petrificados plátanos saudavam o cortejo, miserere mei, seguia para a eterna noite, oh glórias vãs, poderes etéreos, interrompidas esperanças. Estão Giotto,Guariento,Vitale, a Sacra Via de  crucificados suplicantes à porta dos Céus, impotentes corpos  servidos em tarde pascal, chove nas almas, descansam os corpos, morri no dia em que se morre.

2-Kyrie

Confesso. Confesso que não vivi. Aqui vou, deitado, eu que já não sou, nós que não seremos, a Matilde chora por mim, agora preso neste corpo inerte, ah, um cipreste confortante, logo as almas sairão, fraternos patrulharemos angústias. E Deus, existirá? Ficarei sentado à direita? Faz frio, arrefece. Voltem, não vão já, não me deixem, egoístas, de volta às vossas mortes diárias. É apertada a urna, falta  o ar. Cheira a flores, flores de morte.

3- Diez irae

Inicio a viagem, Anúbis barqueiro em silêncio me leva, Matilde chora, bem vejo, porque levantarão o som, é o Inferno pela certa. E Jesus? Não está, regressou dos mortos, qual filme de Corman. São belos os quadros, perfumados, olha, Brunelleschi, Fra Angelico,Donatello, Masaccio. Renascimento lhe chamam, cenas de mortos porém. Quando parará a barca?

4.Tuba mirum

Chegamos ao cais, miserere mei, misere mei, disformes embuçados carregam meu caixão, será bom sinal? Vejo Matilde, acaricia-me em foto, porque não guiei devagar? É esquisita a morte, cheira a flores e cera. Dois homens riem naquela margem, chegaram agora, novos, discípulos do Cancêr, guerreiro da Morte.

5.Rex tremendae

Ergo-me do caixão, mandam que aguarde, à volta retábulos,dentro mortos, vivos, mortos-vivos, Van Eyck retoca um morto,e madonnas, muitas, florentinas, papais. Há vida também, caminhos para o Paraíso, olha a Vénus, Botticelli, Bellini, Verrochio. Os corpos estão desnudados, a mim desnudam também, pecador corpo suplicando um lugar. Sim, são cicatrizes, muitas, cataterismos, acidentes de mota, não foi por eles que cá estou.

Ei-lo,o Redentor, Altivo, Castigador. Existe! Afinal existe!. É como nos filmes, velho como o mundo. E agora, ajoelho, choro, que faço? Tirem-me daqui, quero jantar, quero os meus amigos, já sei, daqui a pouco vou acordar e rirei a bom rir. Não vejo a Matilde agora, está escuro, toda a luz  cai sobre o Velho.

7.Recordare

Sim, é verdade. Matei rolas, indefesas. Bati no Alcides,coitado. Pequei, pequei, pronto. Pecados mortais? Todos. Bem, todos não, nunca tive inveja  do Antunes, coitado, só do Porsche. E a mulher do Brás, foi ela que quis...

8. Confutatis

Abre-se uma porta ao fundo, estou nu e faz frio. Pronto, pronto, como queiram. Os quadros mais belos passam agora, olha o Bellini, Leonardo. O Leonardo, Deus meu, desculpa, Deus tu, é o paraíso por certo, com Leonardo só pode ser o paraíso, espreito ao fundo, parece Sintra, há castelos, e muitos anjos. Virarei anjo, sem sexo e alado? Quando a Matilde me vir...

9.Lacrimosa

Passa agora um filme. Sou eu, é a minha vida. Olha, a avó Chica, tão frágil, o Zézito, coitado, morreu em África. Olha a Matilde. Chora. O Velho nada diz, mas estuda-me, bem vejo. Deixem-me voltar, não sou daqui, minhas lágrimas nada valem? Onde está a caridade? Afastem de mim este frio, tapem-me, torturem-me mas deixem-me.

10.Domine Jesu

Afinal há mais gente. Jesus, o Nazareno. Como é magro, nos olhos trás o sofrimento do mundo. Olha-me, acaricia-me a cara, segue pela esquerda, sumiu. O Velho hesita, começo a ficar conformado. Sempre há os quadros, Rafael, mais Leonardos. Sublimes, imortais, perenes, serenos, gloriosos. Mandam que avance. É agora. Toca Mozart, ah Wolfgang, estarás cá também, salvo da abjecta vala onde te deitaram? Só pode. Volto a ver a Matilde, está bela, a dor torna as pessoas belas.

11.Hostias

O Velho baixou novo quadro. A avaliação está feita.Tenho medo, mas estou sereno. Oh, não pode, Michelangelo, a Capela Sistina, o camarote da Vida, será para mim?

12.Sanctus

Adão, Noé, Abraão, filhos de Israel, crianças do Darfur, os inocentes, estão cá todos. Vou entrar! Sanctus, Sanctus, acredito agora, desnudado entro, tocam tubas, repicam carrilhões, Matilde, Matilde, é Sexta Feira Santa, não chores, estava escrito. Olá, sou o Alberto, cheguei hoje, estagiário no Paraíso, aleluia! aleluia!

13.Benedictus

A imagem some no ar, entrei! Não eram graves, os pecados, choro e rio, oh catártico quadro onde afinal morto renasço. Oh triunfo de azul, azul de Céu, azul dos teus olhos Matilde, azul do nosso mar, salgado, só nosso. Estás longe, cada vez mais longe, mas posso escutar-te a respiração, clara e próxima.

14.Agnus Dei

Apagam as luzes lá atrás, qual passarola voo agora, criação de Michelangelo, em sistino paraíso sulco os Céus, rodeado de anjos, seráficos e louros, da cor do ouro, como os serafins do antiquário em S.Pedro.

15.Communio: lux eterna

Adeus, Matilde. Ao morrer, vivo para sempre. Fala de mim ao André, é lindo o nosso filho. E quando tiveres saudades, abre o livro grande da sala. Lá estou, celestial sentinela e redimida alma, criatura de Michelangelo.

No cemitério fecham a porta. Adeus, Matilde, até já…


publicado por Fernando Morais Gomes às 19:11

20
Abr 11

Zé Socas chegava para a Páscoa, Lisboa estava já cheia de espanhóis rezando pelo rating, por supuesto, sendo recebido em apoteose no Rato pelos fiéis, gritando hossanas e tocando a música do Gladiador. Vindo de Bruxelas, à última hora conseguira negociar um PEC 5, que reenviava os burocratas da troika para casa mais cedo. Aborrecido com o percalço, um até já tinha uma mariscada combinada no Guincho com o Bagão Félix.

Ufano, ganhando pontos nas sondagens, convidou os mais chegados para um robalo no Gambrinus, era Semana Santa, convinha não abusar de carne. Contudo, antes de chegar, premonitório predisse que seria traído por um dos seus. Todos se entreolharam, admirados. Ao servir o presunto comentou: "Tomai e comei todos, este saiu-me do corpo", logo após, em sinal de brinde, ergueu o Reguengos e disse: "bebei todos, este é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que por vós será emborcado para comemoração dos meus feitos”. À mesa, os doze correligionários celebravam, apenas Teixeira dos Anjos preocupado via a taxa do vinho, 13º, em dez minutos subiria até o juro mais recalcitrante. Falava Socas com Barroso ao telemóvel quando, ruidoso, chegou o Corpo de Intervenção. Mal pousava o telemóvel para ver o que se tratava, logo Teixeira lhe deu um beijo na cara de soslaio, coisa de panila. Surpreendido e sem reacção, olhando ora Teixeira ora os polícias,  foi algemando ante o olhar incrédulo do pessoal do Secretariado. António Vitorino, em bicos de pés bem tentava chegar ao corpulento comandante da força para lhe explicar que cometia um grave erro, aquele era o Primeiro dos Primeiros, Senhor do Rato e Guardião de S. Bento, mas nada, havia ordens expressas. Teixeira, infiltrado combinara a  revelação do local do jantar com Pôncio Cavacus, o Governador de Belém. Em troca iria para embaixador na OCDE, precisava de descanso, nada como Paris, longe da crise e da dívida. “Eis o vosso homem”, apontou Teixeira, com os nervos o sotaque do norte acentuava-se-lhe um pouco. A coisa era séria.

Levado ao Parlamento, reunido de emergência, apesar da Semana Santa, sentado algemado na bancada do governo, vários deputados o cercaram quais chacais. Inquisitorial, Saulo Tortas, com ar sério, abriu o interrogatório:

-Sabemos, Primeiro dos Primeiros que contra nossa vontade negociaste um novo PEC com a Angela Lidl, a valquíria do euro. Quem te mandatou, depois de aqui o termos chumbado, nos idos de Março?

-Sim- rancorosa, Manuela Ferreira Leite, carinhosamente tratada pelos amigos como “a Bruxa Velha” quase lhe enfiava o dedo num olho- eu bem avisei…- e virando-se para Pacheco, o filósofo de serviço, buscou apoio:- avisei, não avisei?….

Socas pasmava com este autêntico golpe de estado. Quisera chamar apoios mas com o fim de semana prolongado  estavam todos no Algarve a discutir os cortes à sombra dum toldo, em Vilamoura. Altivo, manteve-se calado, afinal falar com estes era para ele um frete, um simples telefonema e despacharia a oposição, tonitruante mas inofensiva, já fora assim com o Puto Coelho. Pensava, enganado porém.

Dali, os líderes sublevados levaram-no à presença de Pôncio Cavacus, que se deliciava  em Belém comendo um pedaço de folar. Acusavam-no de trair o país com o PEC5, ainda para mais estando o governo em gestão. Pôncio hesitante ainda pensou enviá-lo de presente a Heródes Alegre, mas este, ouvido ao telefone, devolveu-o a Cavacus. Era de praxe libertar um prisioneiro por ocasião da Páscoa. Cavacus alinhou Socas e um burlão de nome Oliveira e Costa, o “Robin dos Bosques dos ricos” na escadaria do palácio, e pediu à multidão  que escolhesse qual dos dois deveria ser  libertado. A multidão voltou-se contra Socas e escolheu o velho, pelo sim pelo não podia ser que pagasse as dívidas do BPN- Banco de Pagamentos Nocturnos. Então, Cavacus, lavando as mãos entregou-o, para ser crucificado num interrogatório conduzido por Manuela Moura Guedes e Vasco Pulido Valente, o “bêbedo mais lúcido de Portugal”, segundo alguns.

A crucificação às mãos deles era a forma comum de execução em prime time e aos domingos à noite. A Socas, em fato de treino, enfiaram na cabeça orelhas de burro, ao pescoço, pendurado, um avariado Magalhães azul e branco. A seguir, forçaram-no a carregar até aos estúdios e a pé, três caixotes com o projecto do TGV, aí a megera Manuela esfregando as mãos o esperaria no estúdio 1.

Lá chegado, bastante combalido, sentaram-no numa cadeira, e cruéis, negaram-lhe o teleponto e o bom servo Luís. Acesas as luzes, grande plano da presa, Manuela atacou:

-Diz-me, tu a quem chamavam Primeiro dos Primeiros, são ou não verdadeiras todas as acusações que te faço: é verdadeiro o negócio do Freeport? e o cheque do Figo? e o curso ao domingo? e a derrota do Sporting? e aquela vez que o José Eduardo falhou  na cama comigo alegando cansaço? Não vale a pena negar, eu e os espectadores sabemos tudo- os lábios, carnudos, pareciam jorrar sangue, Marcelo, a um canto assistia deleitado, lendo quatro livros de cada vez. Já o pior parecia ter passado, sempre o mandando calar antes que pudesse responder, quando cruel, nova tortura estava preparada: Louçã, sepulcral, de  túnica negra e gadanha na mão, avançava com a sentença do público, votada a 60 cêntimos mais IVA: como castigo por negociar novo PEC sem autorização parlamentar, a demissão, e o exílio no Poceirão, precário e a recibo verde, trabalhando nas obras de reposição da mata já cortada para o agora adiado aeroporto.

Antes de o levarem, levantou os olhos ao Céu e suspirou:

-Angela, Angela, porque me abandonaste!

O Novo Primeiro dos Primeiros, empossado no Domingo de Páscoa foi o finlandês Soini, que depois de apear  as fotos de Socas pôs o país a arenque e instituiu a semana de 166 horas, só duas de descanso para uma pequena sauna. Os do Parlamento e Cavacus ainda reclamaram mas tardava já, Medina Carreira, novo ministro da Salvação Nacional ordenara o fecho do hemiciclo e a abertura em S. Bento de um call-center para atendimento de queixas contra os políticos. Saulo Tortas, indignado, comentou com a Bruxa Velha:

-Acho que errámos nas contas, Manuela. Queríamos amêndoas na Páscoa e saiu-nos  amêndoa amarga….


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:06

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