por F. Morais Gomes

31
Mai 11

Eram os trinta anos da greve académica, mais gordos e burgueses, o grupo de amigos encontrou-se na Trindade para um mítico bife, a recordar aqueles dias frenéticos de emoções à flor da pele, com  perigosos fascistas conspirando nos corredores da Aula Magna. O tempo separara-os, advogados de sucesso, políticos do centrão, um, cantor romântico até, deitara as leis às malvas enfrentando outros  júris.

Nos fins de setenta, Direito era território MRPP, iconográficos, os retratos de Ribeiro Santos e Maximino de Sousa pontificavam no átrio, chorados heróis de escaramuças mal sucedidas, a maioria era fauna conservadora, liberal q.b., como após Abril era correcto ser, durante a greve académica os convivas do jantar haviam assegurado a mobilização através da secção sonora e de um zeloso piquete. Alexandre, o da voz mais cromática, entre jingles anunciava pelas colunas a gloriosa luta dos estudantes e à moda do Pão com Manteiga, em voga na época, lançava setas aos instalados professores, achincalhando a obesidade da Magalhães Colaço ou as épicas tiradas de Soares Martinez, sem graça se metera uma vez com Sousa Franco crismando-o de professor mais inteligente, por tudo lhe entrar por um ouvido mas jamais sair pelo outro, cruel gozando com a deficiência na orelha do catedrático de Finanças. Glorinha, agora procuradora em Aveiro era a mais acirrada, armada de pé de cabra e quebrando a vitrina das pautas, duas vezes fora detida por vandalismo, imediatos comunicados desmascaravam a discricionariedade, estudantes unidos jamais seriam vencidos. Pedro Heitor era agora deputado, depois da passagem por uma Câmara, primeiro como assessor e depois vereador, via o jantar como a oportunidade de mostrar que até fora em tempos irreverente, romântico aos vinte, calculista aos quarenta. Do grupo, só Rafael enveredara pelos jornais, investigava uma fuga ao fisco dum político, por sinal do partido de Heitor.

Haviam sido tempos gloriosos. Comunicados policopiados, pichagem de paredes, oportunos e revolucionários “copos” no Bolero ou no Jamaica, para tudo acabar no Cacau da Ribeira, após a tomada do Palácio de Inverno da Aula Magna. Portugal mudara, até há pouco só o Charneca, o eterno contínuo, ainda vendia testes dos exames no átrio da Faculdade, única prova viva de que tudo aquilo existira, afinal. Glorinha  mantinha a beleza de outrora, todo  o 5º ano a disputava nessa altura, qual musa e troféu, Passionária do Campo Grande, voz de arrepio, muitas noites no Caleidoscópio se reuniram cantando os hits do momento, sonhando amanhãs e congeminando protestos. Em 1979 o socialismo caminhava já para a gaveta, inexorável, os avós da troika já cá estavam, mas era quente a luta e com muita alegria. A utópica alegria de rasgar caminhos os unira, hoje apesar de ténue essa recordação sobrevivia ainda, genética, para sempre.

Por esses dias, no velho Audi em segunda mão do pai de Heitor correram Lisboa a rebate, reuniões no Técnico, em Económicas, em Letras, os rapazes ofereciam-se todos para Letras, sempre bem servido de moças com bom aspecto, o plenário na Aula Magna apesar de alguns provocadores, correra bem. Durante dias, fumos negros nos braços e tiras nas paredes decretavam luto pelo ensino, depois de experiências fracassadas e da revisão curricular. Ao lembrar a cena, Rafael comentava como irónico parecia ser o então “exorbitante” preço das propinas, um seco inutilizar de selos no valor duns míseros seiscentos escudos comparado com os tempos de hoje, mais elitistas e excluidores, apesar do ruído com a defesa da escola pública.

Nesse jantar no Trindade, abatidas varias canecas, revisitaram-se mergulhados num passado privativo e fraterno, onde coexistiam Zeca, Letria, Pablo Neruda ou os Fisher-Z, perdidos nos esconsos das garagens onde após lânguidos slows se haviam prometido amores eternos e o nirvana do Shangri-La socialista. Após o jantar,como nos velhos tempos, voltaram ao Jamaica. Antes, um copo no Hot Club, ali Rafael apanhara a primeira cardina, chamando princesa a uma improvável deusa da noite à porta do Fontória. Podiam recordar o passado consoante a fase dos bares: numa primeira fase, o Archote, o Whispers, o Bolero, depois o Jamaica, o Bora-Bora, o Charlie Brown, mais burguês o Ad Lib ou os mais selectos Stones, mais atrevidos  a Cova da Onça e o Pipodrom junto ao Coliseu, onde introduzindo uma moeda de vinte cinco escudos, por um óculo se via  a Olga de Jurídicas fazendo streap-tease para ajudar a pagar os estudos. Todos os rapazes da turma lá foram uma noite, à vez esbugalhando os olhos gulosos ante a visão celeste do corpo da hoje ilustre advogada no Algarve.

No final da noite, à porta do Jamaica e abraçados, uniram os passados, já de si unidos num filme de vida muitas vezes rebobinado. Os anos passaram, a seu modo haviam respondido à chamada do seu tempo, puro sangue na guelra para as causas generosas, razoavelmente exigindo os impossíveis pois só salvando o mundo se poderiam salvar. Salvou-se a memória, a felicidade e o orgulho de ter tentado, a certeza de nunca ter desistido. Deambulando a pé até à Baixa, junto à estátua um grupo de jovens montava tendas, outros dormiam já, passadas que as duas da manhã. Junto ao Nicola, os insubmissos de outrora, em silêncio miravam os ingénuos actores das novas utopias. Atrás de tempo, tempo vem, haviam passado trinta anos, valera a pena. Hoje como ontem, o tempo ainda é feito de mudança.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 03:44

30
Mai 11

O calor do Equador não dava mostras de abrandar, Kuala Lumpur era o Inferno vivo, mal se podia circular entre as duas e as sete da tarde. Cansados de prédios e modernos arranha-céus, Francisco e Sofia partiam para sul, buscando a Malásia dos tigres, mais Sandokan e menos Hard Rock, o tigre asiático só nos livros vivia já.

A viagem à Malásia surgira por mero exotismo: o imaginário da selva e dos tigres em extinção, nem um viram porém, esmagados pelas Petronas e pelo comboio-bala que depressa os cansou daquela cidade estranha, de herança colonial inglesa miríade de neons capitalistas e comidas exóticas, governada à vez por electivos sultões. Para sul, vagamente esperavam encontrar Portugal, naquela Malaca que o Albuquerque terribil domesticara, dali lidando a seu modo com os piratas do sul da China. O lago português em que o navegador tornara o Índico soava como reino perdido, vinte mil quilómetros a leste de Lisboa e sem ligações a ela desde o século XVII.

Partiram de carro, alugado. Deixando o skyline e o cheiro a fritos de Kuala Lumpur, rolaram os trezentos quilómetros que ligavam a Melaka, e aí sim, floresta densa ladeava as modernas auto-estradas, aqui e ali um ou outro animal encavalitado, num moderno resort de beira de estrada um orangotango saudava os turistas. Quatro horas depois chegavam, a placa indicando Melaka provocou-lhes um frémito, ali fora um dia também Portugal. Francisco e Sofia haviam casado há pouco, depois da lua-de-mel em Phuket, impuseram-se aquela romagem a Malaca. Ambos professores de História, haviam recolhido informação sobre a cidade, amigos em Lisboa indicaram um contacto que os guiaria à chegada.

Sob sol abrasador chegaram enfim, o tal contacto, um académico de nome George Alcântara esperava-os junto à Porta de Santiago, o ponto mais visivel da presença portuguesa. Qual Vasco da Gama visitando o Samorim cumprimentaram o velhote, o apelido familiar indicava ascendência portuguesa, vaga talvez, desde o século XVII que Portugal deixara Malaca aos holandeses. O doutor Alcântara, envergando uma camisa colorida, solícito, saudou-os, num português quase límpido:

-Bem vindos a Malaca, terra de Afonso de Albuquerque, amigos!

O casal entreolhou-se, emocionado, como se um velho tio que há muito não viam aparecesse do além. Cumprimentaram, e seguiram com ele. Viera de autocarro recebê-los, no caminho para a casa levaram-no de boleia no carro alugado, Sofia foi metendo conversa:

-Obrigado por nos receber em sua casa, doutor Alcântara. É a nossa primeira vez aqui, temos muita curiosidade em ver tudo.

O velho, de pele queimada pelo sol e traços indianos sorriu, e foi falando:

-Portugal aqui nunca foi esquecido, menina. Aliás, a identidade de Malaca como cristã e europeia é boa para o turismo, o governo da Malásia estimula-a.

Sob indicações de Alcântara seguiram saindo do centro. A dada altura com um sorriso deparou-se-lhes uma placa identificando a chegada ao Portuguese Settlement. Uma fiada de vivendas de ambos os lados da estrada em forma de alameda, uma delas era a casa de Alcântara. Saindo do carro, disse para a mulher umas palavras num patois que  não era o bahasi de Kuala Lumpur, vendo-os admirados o académico explicou:

-Aqui falamos o kristang, amigos, mais uma herança da colonização portuguesa. Vocês partiram há muitos anos, mas partindo os portugueses, nunca partiu Portugal!

Esta frase comoveu o casal, vindo dum rincão flagelado e com a auto-estima em baixo, onde todos andavam às turras, era revigorante o retorno àquele recanto perdido, e, pasme-se, apesar duma presença de apenas cem anos e mais de quatrocentos anos passados, era como se tivesse sido ontem.

A família de Alcântara veio cumprimentar, afável, um rapazito levou as malas para um quarto. Casa remediada, cheia de livros, uns Lusíadas em português saltavam à vista numa grande estante, no quarto do rapaz, filho do anfitrião, algo que logo alegrou Francisco, mais até que os Lusíadas: um poster do Sporting com a equipa campeã quando treinava Boloni. Estavam em casa.

O calor apertava, depois dum banho frio e dum jantar reconfortante, festim de comida picante, saíram a conhecer o bairro. Era 23 de Junho, as ruas estavam engalanadas e cheias de gente, havia festa e carrosséis, um catrapázio pendurado anunciava uma semana de folguedos em honra de San Juang e San Pedro, algo parecido com manjericos era vendido por moças malaias em trajes que logo reconheceram. Uns da Madeira, lembrando o animado bailinho, outros minhotos, eram esquisito aqueles olhos em bico em tais trajes, pareciam  saídos da Senhora da Agonia. O doutor Alcântara explicou de novo:

-Também aqui temos os santos populares, como vocês em Alfama ou no Porto, vem gente de toda a Malásia!. Venham comigo, vou apresentar-vos uns amigos!

No Restoran de Lisbon, o nome não deixava dúvidas, os dois portugueses foram recebidos como espécies raras, portugueses de Portugal, da Europa, esse poderoso país que dominara o Estreito e patrulhara o Andaman, todos à vez queriam tirar fotos para mais tarde recordar. Já cinco ou seis amigos juntos, com nomes familiares, -havia um Fonseka e um Juang- o dono, orgulhoso, trouxe um livro de visitas reservado a clientes ilustres. Francisco e Sofia exultavam, quando mostrassem as fotos aos amigos, invejosos haveriam de pensar ser Photoshop, triunfantes, os novos vice-reis encontravam “desvairadas gentes”, faltava um João de Barros para registar o feito em crónica. No livro, uma assinatura familiar, ali passara em tempos Nuno Abecassis, um antigo presidente da Câmara de Lisboa, e outras individualidades de nomes mais ou menos ilegíveis.Francisco já estivera em Macau, na Colónia de Sacramento, em Goa e em Mazagão. Como fantasma, periodicamente revisitava o império perdido, sempre surpreendido pelos feitos dum país que com um milhão de habitantes se lançara ao mar e conquistara o mundo, inovador marcara o ADN da colonização portuguesa com a miscigenação. Deus fizera o mundo, mas os portugueses fizeram a mulata, já uma vez escutara em Salvador da Baía. Ali estavam os bisnetos do Mundo de Lá, erguido por frágeis velas latinas, com alguma amargura pensava como em quatro azarados séculos Portugal decaíra, em auto-estima e fulgor. Junto ao mar, vários barcos com velas de Cristo preparavam-se para a procissão de San Juang, podia ser na Póvoa ou Nazaré, um sacerdote cristão seguia à frente abençoando as barcaças pedindo mercês para as redes dos pescadores.

Um beijo cúmplice a Sofia marcou o momento único que viviam. O doutor Alcântara, ufano no papel de cicerone, foi aduzindo informações, Sofia pedia um algodão doce numa barraquinha. O cheiro a sardinhas assadas transportava para Lisboa, nesse dia também lá celebrando os santos populares, molhos diferentes mas spicy, dizia um vendedor, servindo três. Junto ao rio, Alcântara, irrepreensível, continuou a explicação enquanto a esposa oferecia à portuguesa um lenço tradicional que percebera a mesma cobiçar:

-Segundo a lenda, Parameswara, um príncipe proveniente de Sumatra, descansava sob uma árvore próximo a um rio, durante uma caçada, quando um cervo-rato empurrou um cão de caça rio adentro. Impressionado com a coragem do animal e com o que considerou um bom presságio, decidiu fundar aqui um império, chamando-o Melaka, que era o nome da árvore sob a qual se havia abrigado. Com a chegada de Afonso de Albuquerque tornou-se uma base para a expansão portuguesa nas Índias Orientais, subordinada ao vice-rei da índia. Amanhã visitaremos o forte, a porta, chamada "A Famosa", ainda existe. S. Francisco Xavier passou vários meses em Malaca. Os portugueses saíram em 1641,quando a Companhia das índias Orientais capturou a cidade com o apoio do sultão de Johore. Mas estes nunca se envolveram, percebem, só negociavam.  Hoje fala-se muito de globalização e encontro de culturas. Olhem é isto a globalização!

Efectivamente era surreal e emocionante ao mesmo tempo: Em 2005,  como turistas, portugueses visitavam um sítio donde Portugal retirara séculos antes e como em qualquer viela da Mouraria ou do Bairro Alto, comiam agora sardinhas olhando familiares barcos de pescadores engalanados com velas de Cristo. No Restoran de Lisbon, um cantor local, um quanto desafinado dando o seu melhor cantava a Casa Portuguesa, Amália Rodrigues lá no Céu acenaria sorrindo pela certa. O fumo das sardinhas unia sem o saber a distante Malaca a Lisboa, dois oceanos separavam, o sangue comum falava mais alto.


publicado por Fernando Morais Gomes às 00:43

29
Mai 11

Eliziário nunca saíra da aldeia, dezanove anos enfiado em Vale da Coelha, pastor de cabras nas fragas do Marão, a chamada para a tropa seria a primeira ida para longe, tirando a vez da inspecção em Vila Real. Elvas, alentejano destino, para lá o mandaram, abúlico e boçal, mudança dum mundo fechado para fechado vir a ficar noutro mundo, o do quartel entre muralhas,  catorze horas de viagem desaconselhavam idas a casa, o feitio taciturno e serrano  isolavam-no na caserna aos fins de semana. Lateiro, devoto da feijoada das quartas feiras, toda a recruta fizera atabalhoada, analfabeto, avesso ao duche, mau para a pele. O alferes Sampaio bem puxara por ele, mas, bicho do mato, nada lhe arrancavam, calado, de côdea sempre num bolso, ainda usava umas ceroulas de linho que a velha mãe lhe cozera. A custo jurara bandeira, sempre só e a um canto nos tempos mortos da recruta. Camaradas da cidade bem o tentaram com uns fumos ou uns copos no bar do quartel, tirando o tinto que bebia dum só trago, limpando a boca à farda sebosa, nada o atraía, sempre a um canto limando varinhas de vime com um canivete, que depois oferecia ao furriel Torres.

Depois do juramento de bandeira, o segundo turno de 85 dispersou, uns para Lamego, outros para Évora, o mais desejado a EPAM, a “peluda” perto de casa, a verdadeira tropa macaca. Eliziário, já pronto, ficou em Elvas, o quartel tinha uns currais, nada como dar recruta às galinhas ou mudar o chiqueiro aos porcos. Quase um quilómetro longe da parada, aí foi colocado como guarda, todas as semanas só uma vez vinha à messe, abastecendo-se para uns dias, ou trazendo os ovos que zelosas poedeiras punham para gáudio da sargentada, por quem eram distribuídos, na porta de armas à sexta feira fazendo continência com uma mão e segurando o saco de ovos com a outra. Só uma vez saiu do buraco, quando o Camboias, sargento-ajudante em pré-reforma pediu ao alferes Sampaio “voluntários” de domingo para lhe adaptarem um autocarro que comprara na sucata para fazer um bar, onde já reformado venderia uns couratos e minis perto do Estádio do Elvas.

Elvas era uma guarnição de província. Sampaio, depois de “arranhar” em Mafra no famigerado “Calhau”, a vetusta Escola Prática de Infantaria (Entrada para o Inferno, como a baptizaram) acabou colocado no RI8, fortaleza raiana dentro da muralha, da parada via-se Badajoz e o tenebroso Forte de Elvas de má memória. Habituado à elite, foi com tranquilidade que se viu naquele ambiente provinciano, de oficiais “chicos” e semianalfabetos, promovidos por bravura em África, ou sargentos lateiros, com proeminentes barrigas denunciando a verdadeira “guerra” a que se dedicavam, em pantagruélicas “jornadas de luta” em Campo Maior ou no monte do sargento Alvito, aviando torresmos. Licenciado, a tropa surgira-lhe já tarde, nem pensara ir, passada que fora a guerra, e com estágio num atelier de arquitectura interrompido. Contrariado em Mafra, foi já com bonomia que encarou as férias em Elvas. Oficial de serviços, a ele cabia redigir as ordens de serviço, minutar os louvores que a corrécios soldados abririam portas na Guarda Fiscal, ou instruir processos contra os menos disciplinados, com culpa geralmente atenuada por acção sobre influência do tinto, que era efectivamente do bom. Seriam seis meses, mesmo assim muitos, mas já bons de passar.

Certa noite, sorteio de escala, calhou-lhe a braçadeira de oficial de dia, pior se fosse a um sábado, que lhe estragaria a ida a Sintra, rotineiramente provou o rancho, inspeccionou as casernas, “com tanto brilho que o chão pareça um espelho”, presidiu à formatura da manhã, ordenando os toques e as escalas de serviço. O pior eram as noites, Elvas em Agosto esturricava, só a pedra fresca dos bancos junto à messe atenuava a febre dos dias e a brisa quente das noites. Como de costume, fez a ronda pelas camaratas, patrulhou as guaritas, no comando, pacato e dolente, viu um filme espanhol com Joselito, a matar o tempo, a troca de serviço seria pelas oito. Excitado pelo calor, decidiu-se a passear um pouco, sem dar por isso viu-se junto ao curral. O cheiro a porco e umas galinhas sem sono despertaram-lhe a curiosidade, a luz  fraquejava, era um sitio onde só uma vez entrara, a caminho da carreira de tiro. Sem grande alarde espreitou, passavam das duas da manhã, pouco se veria por ali. Passada a porta, em silêncio, apenas para um relance de rotina, os olhos quase se  esbugalharam com a cena que se lhe deparou: com ar feliz e arfando, Eliziário aliviava-se sodomizando a porca grande, a qual, com ar seráfico parecia alheia, comendo maçãs podres ao mesmo tempo. Depois do espanto, um grito ao pastor, puxando as calças pareceu até admirado por tanta consideração pelo animal, era uma porca afinal, que mal teria. A novidade da coisa deixou Sampaio sem reacção, mandando-o dormir ordenou que apagasse a luz e que aquilo se não repetisse.

No dia seguinte, passada a braçadeira, a cena grotesca ainda se não apagara da memória, com ar chocado comentou com o comandante na messe:

-Nosso coronel, nem queira saber o que aconteceu ontem, lá em baixo. Imagine que dei com um dos homens, um tal Eliziário, é lá de cima, montado em cima da porca. Isto lá com as cabras na aldeia deve ser mato. O tipo deve ter um parafuso a menos…

-O quê?- o coronel Aparício, até ali em silêncio interrompeu a laranja que descascava, banzado -então e você não lhe fez logo a folha?

-Pois…- o alferes da surpresa não pensara nisso sequer- mas a bem dizer, a porca não se queixou…

Um mês depois, o Eliziário passou à disponibilidade, findo o serviço militar. Hoje, com quarenta e cinco anos, pachorrento guarda cúmplices e traquinas cabras, seu fiel e imenso harém para lá das fragas do Marão.


publicado por Fernando Morais Gomes às 06:24

28
Mai 11

Trovejava. Raul Dias e Domingos Cachado, após opíparo jantar em  S.Pedro volviam a Sintra, a beber um derradeiro copo no Café da Vila. Raul, médico no Centro de Saúde, confraternizava e falava do novo livro de Domingos sobre  a vida de William Beckford, atento aos pormenores  de época e mordaz ao mesmo tempo, depois de um dia stressante havia que relaxar. Já passada a Gandarinha, na descida para Vila, inopinado, um carro preto de vidros fumados fez sinal para encostar à berma, abruptamente travando a passagem. Para sua surpresa, dois encapuzados saindo a correr, apontaram-lhes uma pistola, mandando entrar no carro, deixando o deles na berma. Passava da meia noite, a trovoada não abrandava, deserta a estrada, ninguém presenciara a cena, um deles com um sinal ordenou que não fizessem perguntas, e colocou-lhes uma venda nos olhos, para que não percebessem onde os levavam.

Vinte minutos depois, sem grande ruído exterior e sem que os raptores abrissem a boca, chegaram a um local que se percebia ficar fora de qualquer povoação, um pinhal talvez. Entraram forçados, uma corda tolhendo os movimentos, era uma vivenda, lá dentro um dos mascarados tirou-lhes a venda, enquanto o outro arrancava no carro. Estavam numa sala, ampla, decoração antiga, as janelas estavam corridas. Num sofá de veludo, mal iluminado, jazia o corpo inerte de um indivíduo de cabelos louros e bigode ruço, aparentemente estrangeiro. Sabendo que Raul era médico, os raptores pretendiam verificar se de facto o homem estava morto, tinham-no seguido desde o restaurante. Contrariado, tomando o pulso ao estranho, confirmou, estava efectivamente morto, sem abrir o jogo o embuçado pareceu nervoso. Numa mesa, um copo vazio com uma garrafa do lado indiciava que alguém teria bebido, um cheiro a arsénico não escapou a Domingos, como historiador investigara a morte de D. João VI cuja morte teria ocorrido por excesso de consumo de tal substância.

Foram entretanto surpreendidos pela chegada de um intruso, que possuía chave, ao rodar desta na fechadura o encapuzado virou a  arma na direcção da porta. Mal tinha entrado, um ar de  pânico apossou-se dele quando contemplou a cena, inesperada, via-se pelo ar assustado .Dava pelo nome de João, de mãos no ar depois de coagido, tanto mostrava conhecer a casa e saber quem era a vítima como tudo negava de seguida, atabalhoado. Segundo ele, o falecido era um tal Mike, militar britânico de férias em Portugal de regresso de uma comissão no Iraque, para o dr. Raul aparentemente morrera vítima de uma dose excessiva de arsénico. Mas o que fazia ali, e porque morrera? Que tinha toda aquela gente a ver com o assunto?

O embuçado foi-se familiarizando com Raul, e sem revelar a identidade, explicou-lhe o porquê do interesse no caso. Era primo de uma Teresa que se envolvera com o tal Mike no Algarve um ano antes, e procurando-o a pedido desta para lhe entregar umas fotos, dera com ele morto na sala. Como primo e amigo, era um pau de cabeleira, também estivera no Algarve quando ambos se conheceram, uma amizade de infância predispunha a colaborar e ajudar a ocultar o segredo dos dois, a prima era casada e aquela relação perigosa. Ao encontrar o inglês morto apenas  lhe ocorreu o desvio do médico, conhecia-o de vista, não sendo assim talvez nunca viesse voluntariamente. Intimamente,  esperava que lhe dissesse que só estava drogado ou adormecido, ignorava o que acontecera.

No Algarve, contou, havia um grupo na Oura, alguns amigos de Mike, como Glenda e Steve, à distância acompanhavam o flirt estival entre Mike e Teresa .Ele próprio percebeu que Glenda tinha uma relação esquisita com Mike, não parecia só amizade, silenciosa observava os dois na Praia da Oura ou nos passeios em Vilamoura.

Na vivenda, açoitada pela tempestade, João mantinha-se calado e pensativo. Conhecia Teresa e esta, num momento de desespero, confessara-lhe haver morto Mike, desesperada descobrira que afinal era casado com Glenda, uma relação muito aberta, haviam inclusive participado em experiências de swing, viera à casa a seu pedido para confirmar se ele estava bem, nutria pela amiga um amor abafado, a ideia de um segredo partilhado alentava-o e dava esperanças. Juntando-se o puzzle, em silêncio,aguardava o que fazer num xadrez perigoso.

A certa altura o embuçado achou que tinha de  decidir o que fazer com o inglês, o tempo passava, começava a exalar um odor intenso. Tirando o capuz, sentindo-se seguro, João reconheceu Ricardo Duarte, primo de Teresa, vira-os uma vez juntos em Lisboa num bar.

-Mas tu és o Ricardo! –revelou, atónito. Não te lembras de mim, o amigo da Teresa?

O até ali embuçado reagiu como se tivesse tido um flash. Abrindo o jogo, João contou-lhe o que sucedera, unia-os agora o desejo comum de proteger a prima e amiga. Raul e Domingos, na continuação daquela inenarrável noite e envolvidos na história rocambolesca prometiam silêncio, cada cavadela cada minhoca, que noite aquela.

De novo o restolho de uma chave discreta rodou sobre a porta, a sala ficou em silêncio. Pálida e nervosa, João e Ricardo reconheceram Teresa, olheirenta e assustada. Deparando com o rosto lívido mas ao mesmo tempo sereno de Mike, rebentou num choro incontido. Apenas quisera adormecê-lo o suficiente para confirmar nos seus papéis o casamento com Glenda, exagerara na dose, ele tivera uma paragem cardíaca, ao vê-lo cair, instintivamente fugira. A noite prometia, Domingos Cachado esperava sobreviver para contar tão incrível história ao seu amigo Eça, que se estava a lançar como escritor policial.

Feito um  pacto de silêncio, enterraram o cadáver no quintal e queimaram os documentos na lareira, já no exterior Domingos reconheceu o local, muito perto do Telhal. Uma história como há muito se não via uniria agora para sempre aqueles estranhos, juntos num piedoso segredo. Amanhecia já quando partiram, a trovoada amainara e novo dia raiava azul, deixando para trás uma noite dos diabos.

Três meses depois Teresa partia para S.Tomé, voluntária duma ONG de ajuda no combate da malária, Ricardo e João ficaram amigos, o dr Raul voltou às consultas, jornais ingleses durante algum tempo falaram do desaparecimento dum oficial aparentemente em Portugal.  Domingos, esse, arranjara tema para mais um livro, mas à cautela, não voltou a descer por aquela estrada, sobretudo à noite.

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:19

27
Mai 11

O Rolls-Royce parou no Rodízio, Gloria Swanson, antiga diva de Hollywood, chegava para uma temporada na casa em Portugal.Passara dos setenta, mas mantinha uma pose altiva, arrogante e desafiadora. Pacientemente, Steve, o motorista, descarregou as inúmeras malas e caixas com chapéus. O brilho e visibilidade feneciam já para a antiga vedeta, rival de Mary Pickford e Pola Negri. Brilhara como Norma Desmond no premiado Crepúsculo dos Deuses, que lhe valera um Oscar, o papel de actriz decadente para si criado por Billy Wilder encaixava agora como uma luva, premonitório e siamês.

A casa do Rodízio, ao lado da Praia Grande, era um refúgio estival, tranquilo, agora mais que nunca. O tempo das grandes produções da Paramount passara, já só esporadicamente a chamavam, e para séries de TV. Vinha a Portugal regularmente, o  pequeno chalé, suave, contrastava com a mansão de Beverly Hills, osmose de mar e serra, assentava como local de exílio à personagem solitária de rugas delatoras e cabelo tingido, exorcizando diariamente a imagem que um cruel espelho pela manhã impunha.

Portugal, nesse dealbar de 1965 era um rincão exótico, mais calmo porém que Saint -Tropez ou Acapulco.Steve passava dos sessenta, as parecenças com Eric von Stroheim, que com ela contracenara no Crepúsculo dos Deuses prolongavam fora do plateau uma cumplicidade que fazia Glória refém de Norma e Norma emulação de Glória. Um bacardi à chegada saudou a brisa vinda da Praia Grande, prestes a inaugurar as irritantes piscinas que rápido  atrairiam ruidosos campistas e crianças em colónias de férias.

Os fox terrier, saltando do Rolls, ladravam a um gato indígena  enquanto Mabel e Fiona preparavam os quartos para três semanas de descanso.Uma refeição leve, salmão com alcaparras, um Bordeaux, beaujolais, seguindo o bacardi nas  mãos trémulas, saciaram o corpo dormente  e refém de antidepressivos.

Pela casa jaziam recordações de uma vida cheia: uma foto com Mack Sennett em Los Angeles, em filmagens para a Keystone, uma carta de Chaplin marcando um casting, um vestido que usara em Don’t Change Your Husband, do tirânico Cecil B. de Mille. O vestido, numa vitrina, trouxe-lhe  à memória o dia em que quase foi devorada por um leão, para gáudio deste.Sublime, a casa de banho convidava a banhos de espuma, quem sabe se bebendo champanhe pelo sapato, mítico fetiche incensado pelo mainstream.

Na manhã seguinte, deu um passeio a pé pela Praia Grande sulcando o vasto areal, Fiona passeava os cães, enquanto Steve esperava no carro. Usou um lenço de seda verde que lhe escondia o rosto, óculos escuros garrafais, batôn rouge, vivo, queria aspirar o iodo e o sol ameno. O Fortunato, banheiro de pele tostada do sol de muitos verões, cumprimentou-a, reverente, já conhecia a madame de outras temporadas, entregava diariamente no chalé peixe fresco da Ericeira.Era americana, logo de certeza rica.Nunca vira nenhum dos seus filmes, a maior parte mudos, mas a quem perguntava falava como intimo, eram seus os robalos que a saciavam, afinal. Nada sabia dos tempos em que vaporosa conquistara a América, para inveja de Lillian Gish e Mae West, todas agora no ocaso da carreira, assassinadas pelo sonoro, aviltantemente relegadas para desinteressantes papéis de avós ou matriarcas em seriados da tarde.

Voltava pelo paredão, vendo o Hotel das Arribas quase pronto quando um jovem a abordou, Bernardo, tímido e hesitante, vizinho no Banzão.Se não era a Glória Swanson, o jardineiro era o mesmo de ambos, o velho David. Vira várias vezes o Crepúsculo dos Deuses, e exultava com o trabalho de Glória, estrela de Hollywood agora próxima, ali, palpável. Só de Lawrence Olivier estivera próximo, no Estoril, mas nem se dignara falar-lhe. Glória, inicialmente desinteressada, acabou achando graça ao jovem, de papel e caneta mendigando o sagrado autógrafo. Segurando o papel, desenhou uns riscos, um grande G de Glória, agradecido ele preparou-se para seguir na velha 4L vermelha, eufórico, ela seguiria vagarosa a pé pela marginal.Surpreendentemente, Gloria pediu-lhe boleia para o Rodízio. Bernardo ruborizou, surpreso, o seu velho carro cheio de revistas e com  um rádio a pilhas não estava à altura. Ela achou graça, porém, e  mandou Steve e Fiona seguirem atrás do súbito Rolls-Royce de lata, em que o rato virava cocheiro, como na história.

Chegados, mandou-o entrar.A situação lembrou-a de Escravizada, nos anos vinte, fazia de Tessie McGuire uma empregada de balcão em apuros no metro de Nova Iorque, namoradinha da América ainda, ingénua e promissora. Bernardo sentiu-se intruso num cenário proíbido, a seu lado, a divina Glória representava sem máscara um  derradeiro papel, o seu.

Ligando um velho gramofone, passou uma velha canção, de Irving Berlin.Acendeu a boquilha, ofereceu um martini rosso e brindou com Bernardo, em silêncio, como se fosse uma iniciação. Glória ergueu a taça, virou-se para a parede onde pontificava o seu retrato a óleo, altiva e dominadora, e recuou para a Glória que  Los Angeles anos antes aclamara em carro aberto, ex-mulher de cinco ex-maridos. Sentiu-se transportada para Gone with the Wind e fitando o frágil Bernardo, soltou mágico e diletante: -Frankly, my dear, i don’t give a damn! -bebendo o martini de um trago só.

Sete anos depois, em Lisboa, Bernardo estreava o seu primeiro filme, com um subsídio arrancado a ferros, após meio ano de rodagem intermitente à espera de verbas. Na noite da estreia, rodeado de acólitos dos Cahiers du Cinema, a fauna das premiéres, um inesperado telegrama de Los Angeles desejava boa sorte e sucesso para o seu trabalho. Em letras garrafais, podia ver-se desenhado um G.

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:32

26
Mai 11

A 23 de Março, quando a Primavera chegou, um PEC fez cair o Governo e o Parlamento fechou, antes que uma troika de cobradores entrasse e arrestasse os cadeirões e telas dos Passos Perdidos. Na tasca do Jaime, na tarde seguinte, dois velhos revolucionários entre um bagaço e uma amêndoa amarga, comentavam a crise, lidos que foram os jornais, pois só há opinião pública após se absorver a publicada.Aborrecidos por não poderem armar o povo, Acácio, Heduíno e outros velhos anarquistas, dividiam-se na apreciação, unidos na crença de que havendo governo é para ser logo contra:

-Esta corja só à porrada!- Acácio, cabelos brancos pelo ombro, anarca da velha guarda, saboreava a S. Domingos, a bem dizer, bebia dum trago, havia que matar a sede à cirrose - o Eça é que tinha razão: o Governo não há-de cair, porque não é um prédio; há-de sair com benzina, porque é uma nódoa! -chamando o Jaime, pedia um reforço de dose, aos cinco bagaços faria um comício, aos dez salvaria o mundo, aos quinze em êxtase alcançaria o nirvana, agarrado a quatro amigos que por acaso eram só dois…

Heduíno estivera no Chile, ao tempo de Allende, com a UDP em 75, miliciano depois de Abril, fora um dos barbudos do RALIS no saudoso Verão Quente, fosse mais novo e saberia o que fazer com uma G-3, sabia de umas das “em boas mãos”, a democracia burguesa e capitalista era a culpada da crise:

-Mataram o Marx pela segunda vez depois do muro de Berlim, mas o velho cada vez mais tem  razão. Para quem dizia ter o capitalismo acabado, aí está ele, puro e duro, os “mercados” mais não são que o polvo da Trilateral, do grupo de Bildeberg e dos judeus que dominam a finança mundial! -meio zonzo, tal como Acácio, ajudava à missa na tarefa de enterrar o capitalismo antes da noite, ajustando a boina basca:

-Estes gajos são todos uns lacaios do capital a mamar na teta do Orçamento. Arrotam que são eleitos, mas é tudo uma treta. Um deputado é um empregado de confiança, um moço de recados, só que em vez dum contrato inventaram uns papelinhos chamados votos e o maralhal uns domingos de quando em quando lá lhes vai garantir o tacho enfiando o papel numa caixa de madeira. Aliás, a coisa é tão tenebrosa que a caixa até é preta, e até se chama urna, já viram a ironia? -satisfeito com a chalaça, mais um bagaço vinha já a caminho.

-Os gajos passam a vida aos gritos, gritam sempre, chocados uns com os outros. Mas não têm espelho lá em casa? Se calhar até levam porrada da mulher, mas na rua apregoam que ninguém os cala…- Acácio falava de cor, uma vez candidatara-se à junta e fizera o mesmo, na mesa do café todos são donos da verdade. Vindo das Finanças, chegava entretanto o doutor Almada, homem do contra mas menos anarquista, simpatizava com eles, afinal todos colegas no hóquei nos anos cinquenta. O jornal falava em eleições e  o perigo de bancarrota era real, o Acácio desvalorizou:

-Bancarrota? Na minha algibeira todos os dias há bancarrota, e a dívida externa…olha, o Baptista do talho que diga como está a minha balança de pagamentos…!- ironizava - princípio sagrado, na falta de guito, não deixes para amanhã o que podes deixar para depois de amanhã - uma risada foi o pretexto para mais uma rodada, o spread do bagaço não tardaria a revelar-se em alta.

-Então e quem ganha? -sondou o Almada, a espevitar os amigos, sabedor das convicções contra tudo o que fosse poder. Heduíno  desvalorizou, o grande capital pois então, e os serventuários do costume:

-A Europa já disse tudo o que era para fazer, estes anormais que cá estão só servem para carregar pianos! Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de governar, mas vão ser doze ou quinze indivíduos os que continuarão a dirigir o país. E acreditem numa coisa: quantas mais mostrarem  incapacidade para governar, mais serão recompensados com administrações ou lugares em fundações. É um contabilista mediano? Vai para ministro das Finanças. Distingue um rabanete dum nabo? Grande ministro da agricultura!. E se sabe o nome de três ou quatro capitais de países, são os Negócios Estrangeiros pela certa. Acácio aproveitou a deixa e meteu colherada:

-Olha, e tu nesse estado “delitro” já podes mostrar liquidez total e pagar mais uma rodada....

Heduíno caprichou e levantando-se já ébrio, de copo na mão, ensaiou um discurso, japoneses na Estefânea exultavam com o ar exótico saído de Woodstock e disparavam flashes, era o avô do Che Guevara pela certa. Rodrigo, neto do Acácio, chegou nessa altura, vindo da acampada do Rossio, excitado foi ter com eles, bebendo ofegante o resto do copo que o avô se aprestava a despejar:

-Pessoal! Os bacanos do guito querem sugar-nos o tutano e entregá-lo ao FMI e à Merkel. Há que abrir a pestana, atacá-los à saída das marisqueiras, sabotar-lhes os Mercedes, dinamitar os ginásios, sequestrá-los nas saunas! É preciso escutar a geração à rasca!

Prestava-se a continuar, para gáudio dos cotas, agitadores de outros tempos, quando o avô, cruzando as pernas, com ar aflito,correu para a casa de banho dos homens, Heduíno, endireitando a boina basca de muitas guerras gracejou com Rodrigo:

-A incontinência  e a próstata não perdoam: Rodrigo, chega à nossa idade, e vais ver o que é a verdadeira  geração à rasca! Literalmente!…

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:21

25
Mai 11

-Senhor, vinde depressa! Uma nau entra no Tejo, são velas nossas!- Rodrigo de Castanheda, excitado, corria vereda abaixo, chamando  El-Rei. D. Manuel visitava o convento da Penha e conversava com o superior dos Jerónimos, seis apenas ali viviam eremitas. Esmoler e caridoso, ajudava os anacoretas com dois queijos de quilo e vasilhas de azeite, nada mais aceitariam em atenção aos votos.

-Velas de Cristo? Será D. Vasco da Gama que torna? Manda um escudeiro a saber novas! -ordenou, interessado, tentando avistar ao longe a silhueta das  embarcações no Tejo, ou perto de vilarejo de Cascais, um vulto efectivamente entrava lento a barra de Lisboa, a cruz vermelha sob fundo branco não deixava dúvidas, era gente do Reino.

Apressando-se, El-Rei tornou à alcáçova de Sintra, onde por esses dias veraneava, e no dia seguinte, o décimo de Julho daquele ano de 1499 lhe trouxeram à presença o capitão da misteriosa nau. Era do reino, efectivamente, e seu capitão Nicolau Coelho, que comandara a Bérrio, da frota de Vasco da Gama, e que adiantado da frota, arribava a Lisboa mais cedo. D. Manuel alegrou-se, reconheceu o homem ali presente:

-Nicolau Coelho, boas mercês te tragam de volta ao Reino. Pois voltas só? Acaso alguma desgraça tombou infausta sobre D. Vasco da Gama…?

Saudando com vénia e beijada a mão do rei, Nicolau Coelho sossegou o monarca:

-Senhor, meu coração rejubila de alegria por vos encontrar e por sem maleitas tornar a ver a barra de Lisboa. Não vos sobressalteis. Ventos de feição adiantaram-nos na rota, D. Vasco deteve-se junto às costas de Cabo Verde, mas logo regressará.

-E a viagem…-A presença solitária da Bérrio parecia prenunciar que algo funesto sucedera.

-Alegrai-vos, senhor, todos por vós se cobriram de honra, achado que foi o reino do Samorim e outros de desvairadas gentes, e a passagem do Mar Oceano depois de dois anos de moléstias e fadigas. Vosso nome é nessas águas conhecido agora como o do rei mais poderoso da Cristandade! –relatou, ufano, como quem revela um segredo. D.Manuel sorriu,  um brilho saltou-lhe nos olhos, na sala os cortesãos exultavam, impaciente, queria saber tudo.

Dois anos haviam passado desde aquele já remoto 8 de Julho de 1497, quando na alcáçova do Castelo de S. Jorge se haviam visto a ultima vez, na despedida da armada. Os Gamas, D. Vasco e D. Paulo e ele, capitães da frota que secretamente almejava uma passagem em águas seguras para a tão cobiçada Índia. Calhara-lhe comandar a S. Miguel, mais conhecida por Bérrio, esse o nome do armador de Lagos a quem havia sido comprada, nela com Nicolau embarcaram trinta e cinco dos cento e setenta homens da frota, dos quais agora voltavam quarenta, doze deles na Bérrio, em Lisboa descansavam. Consigo nesse dia havia seguido Gonçalo Alvares, que estivera com Diogo Cão nos penedos de Yelala, Diogo Dias irmão de Bartolomeu, como tesoureiro e Álvaro Braga como escrivão. Pilotara, experiente, Pêro Escobar, cavalgando aguadas e monções, arneiros e enseadas, do açoitante mar à partida fazendo luso lago ao regressar.

-Mas diz-me, Nicolau Coelho, é pois certo haver caminho seguro por mar, como as novas vindas de terras de Preste João nos asseveravam?

-Há, Senhor, certas e sábias eram as novas que em boa hora Pêro da Covilhã vos trouxe. Penosa e temerária é tal empresa, contudo. Ventos de nordeste várias vezes nos atiraram para ilhéus chãos,  traiçoeiras são algumas desalmadas terras de mouros. Num porto chamado Mombaça  a frota de D. Vasco quase  foi massacrada por desleais infiéis, aí se temeu o pior e pelo sucesso de nossas armas.

D.Manuel, entusiasmado pelo relato mandou vir vinho, ofereceu a Nicolau Coelho que recusou. Olhando o Castelo dos Mouros, cerrou os dentes, após beber de um trago:

-Ímpios! Os filhos de Mafoma saberão o que significa ser temente a Deus e quão poderoso é El-Rei de Portugal! Quando D. Vasco salvo chegar se aprontará resposta pronta à maura lança!

-Aliados se podem contar por lá também, Senhor. Numa terra a que chamam Melinde  fizeram-nos a  mercê dum piloto experiente, com ele, mouro também, seguros arribámos ao reino do Samorim, numa costa do Malabar. A El-Rei de Calicut apraz que haja comércio e amizade com o grande rei de Portugal, e seus portos estão abertos a suas empresas. Mas há que cuidar, pois rodeiam-no sagazes catuais e naires que intrigam contra nosso Reino por dele pouco saberem. D.Vasco da Gama melhor vos relatará as iniquidades daquela gente, e do que alguns deles porfiaram, pois parte do tempo fiquei de guarda à armada, num porto em  Pandarane, Senhor!

-Honraste-vos e honraste vosso rei, Nicolau Coelho. Já providenciei alvíssaras para vós e vossa família pela boa nova que hoje alegrou meu coração, o Reino sabe recompensar os seus bravos!

-A lealdade a meu rei e minhas armas tudo ultrapassa, até por eles  morrer se necessário e se for esse o desígnio de Deus! -rematou, a alegria de contar os sucessos da empresa em primeira mão  redobrava à vista da bela maquia com que dois anos de trabalhos eram agora recompensados.

Vasco da Gama apenas chegou a 10 de Setembro. Em Cabo Verde fretou nova nau, em melhor estado, ainda na Terceira soçobrou doente seu irmão Paulo, que assim não voltou ao Reino, junto com os muitos que sem o saberem escreviam das mais belas páginas da História de Portugal e do agora alargado Mundo.

Passados meses, Nicolau Coelho voltou ao mar, a ele estava amarrado pelo destino, com Pedro Álvares Cabral achou as terras do pau-brasil, lobo-do-mar, no seu mar morreu. Naquele dia em Sintra, porém, o mundo de cá ficava a saber quão pequeno era o mar quando grande era a alma.


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:14

24
Mai 11

Depois de se inaugurar o Hotel de Seteais, com a presença de Marcelo Caetano, em de Julho de 1956, com pompa e circunstância abria a monumental piscina da Praia das Maçãs, impulsionada por Diamantino Tojal, Alves Ribeiro e Faria da Costa e solenemente inaugurada por Arantes e Oliveira. Foram muitas as vicissitudes, mas imponente e a bem do turismo, finalmente abria o  moderno equipamento, com alojamentos, bungalows e até um restaurante de luxo, o “Concha”, com esmerada gerência de Agapito Serra e Dias Caeiro, os donos do Tavares Rico. Perto dos Estoris e ao mesmo tempo distante, finalmente a costa de Sintra propiciava verões rivais de Acapulco e Saint-Tropez, enfileirando entre as rivieras europeias com  mar azul  e  esfusiante  serra, bolas de Berlim e batatas fritas Ti-Ti.

Uma semana depois, os Almeidas, habitualmente a banhos para a Costa e de dois em dois anos para as termas, foram experimentar o hotel da moda, até  o almirante Tenreiro estava lá estava alojado, dizia-se. D. Sara tinha bicos de papagaio e gota, para ela pareceu um pouco ventoso, o Dr. Álvaro, convencido, anuíra em ir, mas com a ideia de lá deixar a escalavrada esposa e sempre que possível fugir para Cascais, onde tinha à espera a Dolores, carinhosa amante, casada com um coronel de Cavalaria, felizmente ausente em missão na Índia Portuguesa. Nos primeiros dias passearam pela praia, jantaram no Oceano, a leitura de jornais era entretém junto à piscina novinha em folha, plena de miúdos com bóias e colchões e chapinhando na piscina pequena, enquanto mães  zelosas vigiavam na borda ou nas cadeiras de encosto. Ao terceiro dia, Álvaro, advogado na R. do Ouro, sentindo a falta de Dolores e já entediado da mulher, simulou um telefonema dum cliente e escapuliu até Cascais, a sua Dô-Dô sentia-se só e esperava-o no Santini, ceariam no apartamento dela em S. João depois. Sara refilou, que ficaria sozinha, mas o marido invocou o trabalho, a senhora do Guedes, industrial em Lousada, far-lhe-ia companhia à canasta, seriam poucas horas, logo estaria de volta.

Metendo pela estrada da serra, chegou ao Guincho, dali a Cascais foi um pulo, vinte anos mais nova que ele, umas mãos de fada, a Dolores é que o entendia, relaxante colo, sereno e palpitante refúgio de muitas noites após ruidosas diatribes verbais na barra da  Boa-Hora ou no Tribunal da Relação. Antes de encontro, tempo para um ramo de flores, a Dô-Dô gostaria, flor entre flores.

Três horas depois, já noite cerrada, tresandando a perfume e marcado com batôn, Álvaro,satisfeito, retornou à Praia e à nova piscina, Sara estaria possessa por certo, os rolos na cabeça para armar a permanente da manhã. O cheiro delator era intenso, a correr lavou a cara e as mãos com sabão azul e branco, o vidro aberto do carro faria o resto. Passava já Colares e a Pensão Hermínia quando aflito deu falta da carteira, ficara no psiché de Dolores, diabo, havia que improvisar.Já tarde, o PBX não funcionava, a telefonista dormia, Sara haveria de estranhar, voltou para trás, de manhã ligaria à esposa, a ideia da cama da Dolores ainda quente até nem era má ideia, um providencial pneu furado, mentira piedosa, resolveria o caso.

Manhã cedo, saiu de volta à piscina, a neblina de Sintra contrastava da placidez de Cascais, um cantoneiro de limpeza, meio ébrio obrigava a parar no Vinagre, quanto mais pressa em chegar mais obstáculos se deparavam. Meio ébrio, o varredor nas calmas juntava as folhas assobiando, ar distante, a curá-la da véspera. Com pressa, o dr Álvaro buzinou:

- Ó homem, isso anda ou não anda?

-Há-de andar….- rosnou o cantoneiro, sem levantar os olhos do lixo e do carro de mão, na vassoura e na pá mandava ele, viesse quem viesse.

-Você sabe com quem está a falar? Eu sou o dr. Almeida, advogado!

-E eu sou o Almeida, dos Almeidas da Câmara conhece? Conde da trampa que você faz todos os dias!- atirou, com um esgar e escarrando para o chão.

Álvaro calou, jà  na Praia das Maçãs tratou de pelo espelho do carro ver se tinha restos de batôn, a história vinha ensaiada, o cliente, depois o furo, nem pregara olho, essa noite compensaria levando-a ao cinema ao Carlos Manuel, passava a Rainha Africana, com o Humphrey Bogart, antes lanchariam nas nozes douradas, em Galamares.

Sara, antes de trombas, pela espera, acabou anuindo. No fundo, sabia que ele a enganava, mas não faltando o conforto e as mordomias, uma coisa era certa: à noite depois das zorras de perfume barato, era para ela que voltava. Dengosa, logo perguntou pelo cruzeiro às Canárias que prometera. Era justo: a cama da Dolores bem valia uns visons extra e uma viagens de férias. O que era preciso, era saber viver!...


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:07

23
Mai 11

                                       Eden Hotel, Colares

Manuel Iglésias caprichava, o Eden Hotel ombrearia com o Nunes e o Vitor, como o melhor hotel de Sintra para os lados das praias, a moda dos banhos marítimos trouxera famílias inteiras, longe de Pedrouços e Algés, saturadas. Mandado fazer pelo Inácio Costa, Iglésias assumia a direcção do hotel, terminada a guerra, eram os anos vinte e o tempo dos jantares dançantes ao som do charleston.Lá haviam veraneado já Alfredo Keil, o Conde de Sabugosa, Fidelino Figueiredo, os saraus de piano de Viana da Mota, morador em Colares, ficaram famosos. Na praia abrira o Royal, mas ardera em 1918, as sombras amenas da Estrada Nova da Rainha e as comodidades de Colares eram para muitos, atractivas, mais que a praia, por vezes ventosa. Junho estava à porta, o Verão de 1925 seria de calor. A Sintra-Atlântico anunciara a criação de eléctricos que levariam crianças pobres à Praia das Maçãs, onde depois de vistas pelo dr. Brandão de Vasconcelos fariam tratamentos marítimos. De Colares iriam dez, os dois cachopos da Miquelina, a cozinheira do Eden, estavam inscritos, a mãe receava, mar só para pesca, para banhos já tinham o rio, mas a D. Maria do Carmo insistira que fossem, ia fazer bem.

A Câmara disponibilizara à Associação de Caridade de Sintra três toldos, os banhos seriam um remédio, ministrado aos mais raquíticos, mar, sol, e uma merenda reforçada e ficariam fortes e sãos, dizia.

Efectivamente, pela manhã chegou Maria do Carmo, atarefada, aquele seria o primeiro dia de praia, iriam de eléctrico à Praia das Maçãs, um total de trinta e seis crianças, ela e as senhoras guardariam. Maria do Carmo Mazziotti, esposa do Dr. Carlos França, juntara bolos, agasalhos e medicamentos, a condessa de Mangualde, não demoraria a chegar, vinda do Vinagre. Entusiasta, Manuel Iglésias ofereceu fruta e pães, na dispensa do Éden havia fartura:

-Com que então vai com os pirralhos à praia, D. Maria do Carmo? Veja lá, que ainda os habitua mal, deviam era ajudar os pais na vacaria ou na apanha do morango. Isto são coisas para gente rica…- irónico, Iglésias troçava da excursão, apoiava contudo, lera algures que os banhos de mar apuravam a raça, noutros países também se espalhara a moda.

Maria do Carmo sorriu, lá na Quinta também a Josefa zombara, eram mordomias a mais para pobre de Cristo, antes lhes dessem umas botas e malgas de vinho para enrijar, que Inverno em Sintra é mau para as cruzes e o mato para cortar muito.

Chegados os gaiatos, com as mães e os farnéis, juntaram-se em S. Sebastião, o eléctrico viria em dez minutos, aos mais corrécios, só habituados a pancada, alertaram para não roubar nêsperas das árvores, nem gritar ou bater nos outros, nas barracas trocariam de roupa, e quando ela dissesse iriam ao banho, todos de mão dada e sem se afastar dela. Maria do Carmo era a chefe, com um apito chamaria ao mínimo pisar de risco, na água só com bandeira verde, e sempre à vista dela e da condessa. Os miúdos, envergonhados, nada diziam, o filho da Miquelina temia despir-se em frente da patroa da mãe, Jacinto, já galarote, zombava, com dez anos não tinha nada que ver…

Cantando e aos pares entraram no eléctrico, o Serafim, filho do Bataza Madeireiro, queria ir no estribo, a um olhar de Maria do Carmo sentou-se, na praia se pudesse fugiria com o Valentim da Azóia iriam aos pássaros e armar ao visco.

A praia convidava, o iodo atlântico abria a fome, os da Ulgueira corriam atirando areia, o Zé Cocho que ficara órfão e estava na Casa Pia também já fora à praia, as ondas agrestes rebentando no areal eram pretexto para mal os pés molhados fugiram da água fria, de novo afrontando a seguinte, a ver quem ficava encharcado.

Maria do Carmo exultava. O riso das crianças, quem sabe um dia lenhadores ou à jorna, tudo valia, talvez algum tirasse as primeiras letras, coisa rara, o destino seriam as quintas da serra ou a faina da vinha, em Gouveia ou Fontanelas. Agora porém era aquele o momento, príncipes da areia, navegadores de naus catrinetas que poucos meses depois atracariam nalguma quinta, caseiros de algum doutor, donos de sonhos que pouco durariam. Agora era a vez deles, a um reparou numa unha maior que um gavião, chamando-o, corou como um borracho, só com a vergonha de lhe cortarem a unha, Maria do Carmo sorria, em breve nada disso interessaria.

Todos os anos enquanto pôde, mesmo depois de enviuvar precocemente no ano seguinte, Maria do Carmo Mazziotti e as senhoras de Colares, em torno da obra criada e também do preventório, ritualmente levaram os acanhados rapazes a banhos de mar, anualmente se repetia o desfile do pequeno e ruidoso exército de traquinas criados na horta experimentando pequenas mordomias. O mar queimava a tez, as feições pobres por momentos se rasgavam sorrindo, bondosas senhoras moldavam a índole dos novos descobridores, num país de marinheiros onde poucos sabiam nadar. Ao longe, na tasca do Prego ou na Adega Oceano, pais e avós orgulhavam-se dos seus, haviam ganho o direito de ir com as senhoras à praia, não que lhes mudasse o destino, mas por certo entre os toldos listados e banquinhos de madeira um dia recordassem que haviam tido a parca chance de como os ricos serem felizes.

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:05

1973 é que era, Sintra ia entrar definitivamente na senda do progresso. Depois das vagas de alentejanos a caminho de Mem Martins, a linha de Sintra expandia-se, era a Icosal em Queluz, Manuel Anselmo no Cacem,o J.Pimenta por todo o lado, homens de Tomar erguendo cofragens, plantando betão, pintalgando a paisagem, em Massamá, antes terra de trigo e solos A, os campos eram agora férteis para o crescimento de prédios. Era o progresso, dizia o engenheiro Diogo, chefe dos serviços técnicos da Câmara, até em Casal de Cambra crescia o negócio clandestino  dos avos, quatro estacas e lá estava um lote, chave na mão, loteamento depois. O Carraça da Silva também se lançara à conquista, e até Rio de Mouro estava no mapa, pela mão da promissora Urbanil.

O comboio era fundamental, garantia o engenheiro Alípio, com ele as casas se venderiam, boas, a bom preço, era a hora do proletário proprietário, não mais rendas nem casas com escritos, a cada português o seu andar, a sua marquise, a sua fracção. Com um quintalito nas traseiras, até umas couves se haveriam de plantar, para matar saudades da terra. Alípio Rodrigues, de Tomar, sócio nas urbanizações Andar Modelo arrematara uns lotes num leilão judicial, telefonema amigo garantia que mais ninguém licitaria, o preço era bom, cinco por cento para o homem da leiloeira e um jantar no Chaby e o Algueirão caminhava confiante rumo ao futuro, terra do mel e dos T2 com garagem. O Lúcio, arquitecto amigo, coçava o nariz, eram terrenos inundáveis, em leito de cheia a Câmara não aprovaria, Alípio não hesitava, nada que não se resolvesse.

Executado o projecto, ficou um espanto. Oito prédios de sete andares, em comboio, uma rotunda ao meio para contentar a Câmara, uma cedência aborrecida para um jardim, num declive de mau acesso, enquanto a Câmara apreciasse anúncios nos jornais locais anunciavam a Cidade Modelo, onde pais em paz criariam os filhos e logo supermercados e creches trariam vida e prosperidade. Ainda a licença não saíra, mas dez já estavam  sinalizados, as construções Andar Modelo rasgavam cidade em matagais de silva e calhaus.

Seis meses depois, já todos os andares estavam vendidos, ainda o projecto  não saíra da mesa do arquitecto. Mais alçados, mais uma planta, os afastamentos, a caderneta incompleta, a procissão diária a caminho da Câmara logo pela manhã virou rotina, o arquitecto que sim, por ele era já, mas ainda assim que juntasse elementos. Chegado o Natal, ainda nada de licença, apesar dum peru e duma salva de prata de boas festas ao arquitecto e ao vereador. Impacientes, os clientes procuravam pela escritura, e a obra nem vê-la, avançara a terraplanagem mas fiscal amigo pedira que aguentasse, senão teria de embargar.

Pela Páscoa, qual pacote de amêndoas, lá saiu a licença, as obras começaram, o terreno, em declive ameaçava derrocar, agora percebia porque o preço fora em conta,era solo pantanoso, em cima duma linha de água. Havia que disfarçar, escavar em volta e segurar as terras, pelo sim pelo não, faria mais pisos, da Câmara conselho amigo dizia que depois se legalizariam como surgidas pelo desnível natural, nalgum lado teriam de se amarrar. O que de início parecia fatal e ruinoso, de repente parecia uma ideia luminosa: aprovar os fogos e aumentá-los depois, sempre com a desculpa do desnível natural. Alguns vereadores sugeriam que fossem caves, a oferta de uma para uma creche logo dissuadiu os pouco avisados edis. Era a galinha dos ovos de ouro. Pelo Natal seguinte tinha o projecto executado, mais cinco vinham a caminho, sempre aumentados por culpa do irritante desnível natural…os duzentos fogos do início eram agora para cima de quinhentos.

Muitos deles teria de lotear, mas ceder bife do lombo a pataco não lhe pareceu curial, grande industrial e construtor de futuro. Faria condomínios, num só processo apresentaria construção agrupada, meros telheiros de zinco uniriam fracções e assim evitaria cedências. Com o tempo, ficava perito, onde o obrigassem a lotear promoveria destaques, distraídas certidões passadas por mãos amigas ajudariam ao progresso, afinal mais casas são mais taxas, mais impostos, mais comércio, todos ganhariam.

Certo dia, Américo Godinho, também construtor e também de Tomar travou-se de razões com Alípio, máquinas suas teriam invadido um terreno contíguo, a planta cadastral não oferecia dúvidas, Alípio, esbulhador, teria de sair, a Câmara ou o Tribunal haveriam de julgar, patrícios mas cada um no que é seu, dizia, conforme os almoços,arquitectos na Câmara garantiam apoio aos dois lados. Américo inclusive fotografara os marcos, era um prédio a menos, nada de facilitar. Alípio bem chamou para reuniões, por amigos comuns ofereceu-se para comprar, houvera erro, já vira, mas já vendido, era tarde para reconhecer. Américo, vendo hipótese de esticar ficou na dele, na marra um dia desses compraria, não faria o prédio mas lucraria na mesma, confidenciara no Saraiva a um topógrafo amigo.

Apertado, sem vontade de pagar, Alípio, insuspeito construtor e homem de bem, contrariado lá denunciou o caso à Câmara: Américo, maléfica e despudoradamente construía em leito de cheia, o infractor, tinham que ver, como homem de bem não podia passar em claro, ganhar dinheiro sim, para cumprindo as leis e as normas, que ali não era Veneza e ele também cumpria tudo. Faz o que eu digo, não faças o que eu faço, a vida é dura, interiorizou, pragmático. Derrotado o Américo, os negócios foram em frente. Prédio a prédio, lote a lote, as Construções Andar Modelo lá duraram mais trinta anos.

publicado por Fernando Morais Gomes às 06:34

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