por F. Morais Gomes

23
Mai 11

                                       Eden Hotel, Colares

Manuel Iglésias caprichava, o Eden Hotel ombrearia com o Nunes e o Vitor, como o melhor hotel de Sintra para os lados das praias, a moda dos banhos marítimos trouxera famílias inteiras, longe de Pedrouços e Algés, saturadas. Mandado fazer pelo Inácio Costa, Iglésias assumia a direcção do hotel, terminada a guerra, eram os anos vinte e o tempo dos jantares dançantes ao som do charleston.Lá haviam veraneado já Alfredo Keil, o Conde de Sabugosa, Fidelino Figueiredo, os saraus de piano de Viana da Mota, morador em Colares, ficaram famosos. Na praia abrira o Royal, mas ardera em 1918, as sombras amenas da Estrada Nova da Rainha e as comodidades de Colares eram para muitos, atractivas, mais que a praia, por vezes ventosa. Junho estava à porta, o Verão de 1925 seria de calor. A Sintra-Atlântico anunciara a criação de eléctricos que levariam crianças pobres à Praia das Maçãs, onde depois de vistas pelo dr. Brandão de Vasconcelos fariam tratamentos marítimos. De Colares iriam dez, os dois cachopos da Miquelina, a cozinheira do Eden, estavam inscritos, a mãe receava, mar só para pesca, para banhos já tinham o rio, mas a D. Maria do Carmo insistira que fossem, ia fazer bem.

A Câmara disponibilizara à Associação de Caridade de Sintra três toldos, os banhos seriam um remédio, ministrado aos mais raquíticos, mar, sol, e uma merenda reforçada e ficariam fortes e sãos, dizia.

Efectivamente, pela manhã chegou Maria do Carmo, atarefada, aquele seria o primeiro dia de praia, iriam de eléctrico à Praia das Maçãs, um total de trinta e seis crianças, ela e as senhoras guardariam. Maria do Carmo Mazziotti, esposa do Dr. Carlos França, juntara bolos, agasalhos e medicamentos, a condessa de Mangualde, não demoraria a chegar, vinda do Vinagre. Entusiasta, Manuel Iglésias ofereceu fruta e pães, na dispensa do Éden havia fartura:

-Com que então vai com os pirralhos à praia, D. Maria do Carmo? Veja lá, que ainda os habitua mal, deviam era ajudar os pais na vacaria ou na apanha do morango. Isto são coisas para gente rica…- irónico, Iglésias troçava da excursão, apoiava contudo, lera algures que os banhos de mar apuravam a raça, noutros países também se espalhara a moda.

Maria do Carmo sorriu, lá na Quinta também a Josefa zombara, eram mordomias a mais para pobre de Cristo, antes lhes dessem umas botas e malgas de vinho para enrijar, que Inverno em Sintra é mau para as cruzes e o mato para cortar muito.

Chegados os gaiatos, com as mães e os farnéis, juntaram-se em S. Sebastião, o eléctrico viria em dez minutos, aos mais corrécios, só habituados a pancada, alertaram para não roubar nêsperas das árvores, nem gritar ou bater nos outros, nas barracas trocariam de roupa, e quando ela dissesse iriam ao banho, todos de mão dada e sem se afastar dela. Maria do Carmo era a chefe, com um apito chamaria ao mínimo pisar de risco, na água só com bandeira verde, e sempre à vista dela e da condessa. Os miúdos, envergonhados, nada diziam, o filho da Miquelina temia despir-se em frente da patroa da mãe, Jacinto, já galarote, zombava, com dez anos não tinha nada que ver…

Cantando e aos pares entraram no eléctrico, o Serafim, filho do Bataza Madeireiro, queria ir no estribo, a um olhar de Maria do Carmo sentou-se, na praia se pudesse fugiria com o Valentim da Azóia iriam aos pássaros e armar ao visco.

A praia convidava, o iodo atlântico abria a fome, os da Ulgueira corriam atirando areia, o Zé Cocho que ficara órfão e estava na Casa Pia também já fora à praia, as ondas agrestes rebentando no areal eram pretexto para mal os pés molhados fugiram da água fria, de novo afrontando a seguinte, a ver quem ficava encharcado.

Maria do Carmo exultava. O riso das crianças, quem sabe um dia lenhadores ou à jorna, tudo valia, talvez algum tirasse as primeiras letras, coisa rara, o destino seriam as quintas da serra ou a faina da vinha, em Gouveia ou Fontanelas. Agora porém era aquele o momento, príncipes da areia, navegadores de naus catrinetas que poucos meses depois atracariam nalguma quinta, caseiros de algum doutor, donos de sonhos que pouco durariam. Agora era a vez deles, a um reparou numa unha maior que um gavião, chamando-o, corou como um borracho, só com a vergonha de lhe cortarem a unha, Maria do Carmo sorria, em breve nada disso interessaria.

Todos os anos enquanto pôde, mesmo depois de enviuvar precocemente no ano seguinte, Maria do Carmo Mazziotti e as senhoras de Colares, em torno da obra criada e também do preventório, ritualmente levaram os acanhados rapazes a banhos de mar, anualmente se repetia o desfile do pequeno e ruidoso exército de traquinas criados na horta experimentando pequenas mordomias. O mar queimava a tez, as feições pobres por momentos se rasgavam sorrindo, bondosas senhoras moldavam a índole dos novos descobridores, num país de marinheiros onde poucos sabiam nadar. Ao longe, na tasca do Prego ou na Adega Oceano, pais e avós orgulhavam-se dos seus, haviam ganho o direito de ir com as senhoras à praia, não que lhes mudasse o destino, mas por certo entre os toldos listados e banquinhos de madeira um dia recordassem que haviam tido a parca chance de como os ricos serem felizes.

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:05

1973 é que era, Sintra ia entrar definitivamente na senda do progresso. Depois das vagas de alentejanos a caminho de Mem Martins, a linha de Sintra expandia-se, era a Icosal em Queluz, Manuel Anselmo no Cacem,o J.Pimenta por todo o lado, homens de Tomar erguendo cofragens, plantando betão, pintalgando a paisagem, em Massamá, antes terra de trigo e solos A, os campos eram agora férteis para o crescimento de prédios. Era o progresso, dizia o engenheiro Diogo, chefe dos serviços técnicos da Câmara, até em Casal de Cambra crescia o negócio clandestino  dos avos, quatro estacas e lá estava um lote, chave na mão, loteamento depois. O Carraça da Silva também se lançara à conquista, e até Rio de Mouro estava no mapa, pela mão da promissora Urbanil.

O comboio era fundamental, garantia o engenheiro Alípio, com ele as casas se venderiam, boas, a bom preço, era a hora do proletário proprietário, não mais rendas nem casas com escritos, a cada português o seu andar, a sua marquise, a sua fracção. Com um quintalito nas traseiras, até umas couves se haveriam de plantar, para matar saudades da terra. Alípio Rodrigues, de Tomar, sócio nas urbanizações Andar Modelo arrematara uns lotes num leilão judicial, telefonema amigo garantia que mais ninguém licitaria, o preço era bom, cinco por cento para o homem da leiloeira e um jantar no Chaby e o Algueirão caminhava confiante rumo ao futuro, terra do mel e dos T2 com garagem. O Lúcio, arquitecto amigo, coçava o nariz, eram terrenos inundáveis, em leito de cheia a Câmara não aprovaria, Alípio não hesitava, nada que não se resolvesse.

Executado o projecto, ficou um espanto. Oito prédios de sete andares, em comboio, uma rotunda ao meio para contentar a Câmara, uma cedência aborrecida para um jardim, num declive de mau acesso, enquanto a Câmara apreciasse anúncios nos jornais locais anunciavam a Cidade Modelo, onde pais em paz criariam os filhos e logo supermercados e creches trariam vida e prosperidade. Ainda a licença não saíra, mas dez já estavam  sinalizados, as construções Andar Modelo rasgavam cidade em matagais de silva e calhaus.

Seis meses depois, já todos os andares estavam vendidos, ainda o projecto  não saíra da mesa do arquitecto. Mais alçados, mais uma planta, os afastamentos, a caderneta incompleta, a procissão diária a caminho da Câmara logo pela manhã virou rotina, o arquitecto que sim, por ele era já, mas ainda assim que juntasse elementos. Chegado o Natal, ainda nada de licença, apesar dum peru e duma salva de prata de boas festas ao arquitecto e ao vereador. Impacientes, os clientes procuravam pela escritura, e a obra nem vê-la, avançara a terraplanagem mas fiscal amigo pedira que aguentasse, senão teria de embargar.

Pela Páscoa, qual pacote de amêndoas, lá saiu a licença, as obras começaram, o terreno, em declive ameaçava derrocar, agora percebia porque o preço fora em conta,era solo pantanoso, em cima duma linha de água. Havia que disfarçar, escavar em volta e segurar as terras, pelo sim pelo não, faria mais pisos, da Câmara conselho amigo dizia que depois se legalizariam como surgidas pelo desnível natural, nalgum lado teriam de se amarrar. O que de início parecia fatal e ruinoso, de repente parecia uma ideia luminosa: aprovar os fogos e aumentá-los depois, sempre com a desculpa do desnível natural. Alguns vereadores sugeriam que fossem caves, a oferta de uma para uma creche logo dissuadiu os pouco avisados edis. Era a galinha dos ovos de ouro. Pelo Natal seguinte tinha o projecto executado, mais cinco vinham a caminho, sempre aumentados por culpa do irritante desnível natural…os duzentos fogos do início eram agora para cima de quinhentos.

Muitos deles teria de lotear, mas ceder bife do lombo a pataco não lhe pareceu curial, grande industrial e construtor de futuro. Faria condomínios, num só processo apresentaria construção agrupada, meros telheiros de zinco uniriam fracções e assim evitaria cedências. Com o tempo, ficava perito, onde o obrigassem a lotear promoveria destaques, distraídas certidões passadas por mãos amigas ajudariam ao progresso, afinal mais casas são mais taxas, mais impostos, mais comércio, todos ganhariam.

Certo dia, Américo Godinho, também construtor e também de Tomar travou-se de razões com Alípio, máquinas suas teriam invadido um terreno contíguo, a planta cadastral não oferecia dúvidas, Alípio, esbulhador, teria de sair, a Câmara ou o Tribunal haveriam de julgar, patrícios mas cada um no que é seu, dizia, conforme os almoços,arquitectos na Câmara garantiam apoio aos dois lados. Américo inclusive fotografara os marcos, era um prédio a menos, nada de facilitar. Alípio bem chamou para reuniões, por amigos comuns ofereceu-se para comprar, houvera erro, já vira, mas já vendido, era tarde para reconhecer. Américo, vendo hipótese de esticar ficou na dele, na marra um dia desses compraria, não faria o prédio mas lucraria na mesma, confidenciara no Saraiva a um topógrafo amigo.

Apertado, sem vontade de pagar, Alípio, insuspeito construtor e homem de bem, contrariado lá denunciou o caso à Câmara: Américo, maléfica e despudoradamente construía em leito de cheia, o infractor, tinham que ver, como homem de bem não podia passar em claro, ganhar dinheiro sim, para cumprindo as leis e as normas, que ali não era Veneza e ele também cumpria tudo. Faz o que eu digo, não faças o que eu faço, a vida é dura, interiorizou, pragmático. Derrotado o Américo, os negócios foram em frente. Prédio a prédio, lote a lote, as Construções Andar Modelo lá duraram mais trinta anos.

publicado por Fernando Morais Gomes às 06:34

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