por F. Morais Gomes

29
Jun 11


-Não sou desertor nem refractário, sou um exilado político- declarou o russo às autoridades que o chamavam ao Governo Civil logo após a sua chegada a Lisboa. Vladimir Ilitch Lenine, com a mulher Nadia Krupskaya visitava Portugal pela primeira vez naquele Maio de 1915, depois de anos de desterro na Sibéria, para onde fora enviado pelos esbirros do czar. Morava agora em Berna, na Suíça e em Portugal procurava contactos para combater o regime de Nicolau II, apelar à unidade proletária e  à revolta contra o capitalismo. No final de 1910, a instauração da República neste país permitira que organizações de trabalhadores se afirmassem, e após um período de lutas e de agitação social, sindicalistas reformistas e anarquistas haviam criado a União Operária Nacional, organização sindical em ruptura com o governo republicano, no seguimento da dura repressão que se abateu depois da recusa do governo em discutir as reivindicações operárias. A União Operária Nacional, fiel às orientações tomadas pela Internacional Socialista em Zimmerwald, posicionara-se contra a intervenção na Grande Guerra, tumultos revolucionários republicanos em Lisboa haviam provocado centenas de mortos e feridos. Apesar de o Governo ter  reduzido o horário dos operários para  8 horas,ocorriam  assaltos a padarias e tumultos um pouco por todo o país devido ao aumento do pão. Lenine, impedido de voltar à Rússia viajava pela Europa, este país que cinco anos antes ousara derrubar a monarquia era-lhe estranho, mas inspirador na sua luta contra os Romanov e o capitalismo mundial.

No Governo Civil, mais preocupado com os protestos do pão, o russo foi olhado com desinteresse, deixaram seguir, mais um lunático, pensou o funcionário. O contacto de Vladimir em Lisboa era Eudóxio Batalha, velho encadernador e tipógrafo e antigo companheiro de Azedo Gneco, grande figura do socialismo e já falecido. Semianalfabeto, era um autodidacta, com Lenine comunicava num francês pirrónico, lera Proudhon e Bakunine e a Comuna de Paris era o seu modelo, avesso aos republicanos burgueses que haviam substituído os monárquicos sem olhar a sério para o povo faminto. Com Gneco, iniciara-se no Centro Promotor de Melhoramentos das Classes Laboriosas e fizera parte do Grupo da Democracia Socialista, bakuninista e libertária. Lenine era um cerebral, só a organização do proletariado sob a direcção duma vanguarda levaria ao sucesso, Eudóxio escutava com interesse, mas no seu mau francês sempre dizia preferir a acção directa,  com o apoio dos arsenalistas do Alfeite  mais eficaz em resultados.

Eudóxio iria pelos sessenta anos, um tal Marx de que Lenine lhe falou de forma acalorada deveria ser um prussiano a quem Azedo Gneco escrevera anos antes, quando secretário da Associação Internacional de Trabalhadores. Lenine alojou-se com Nadia num hotel da Praça da Figueira, a reunião com o núcleo socialista seria em Sintra, no Centro Republicano e estariam presentes sindicalistas da União Operária Nacional e jornalistas, afectos sobretudo ao pequeno Partido Socialista Português.

Em Sintra, local que achou parecido com Salzburg, dez correligionários convocados por Eudóxio reuniram-se naquele domingo, uma camioneta recolhera-os a todos que pouco dinheiro havia para passeios, Vladimir depois de cumprimentar, em francês, explicou ao que ia:

-Tovarich, Camaradas, trago até vós uma fraterna saudação do oprimido povo da Rússia. Os trabalhadores portugueses já se libertaram do rei opressor e da oligarquia, e serão países como os nossos, de industrialização débil e fracos elos na luta internacionalista dos operários quem fará cair as forças do capital e o imperialismo mundial que lhe dá cobro. Há que unir.Os capitalistas não são capazes de sacrifícios, está-lhes no sangue explorar! Há que lutar!  A morte de uma organização acontece quando os de baixo já não querem e os de cima já não podem! Operários portugueses, peço-vos juntemo-nos para a revolução mundial, organizemo-nos em comités operários, e o futuro esperançoso do socialismo recompensará a secular luta dos trabalhadores e explorados e trará o Homem Novo!

O russo falava num francês por vezes incompreensível, mas pelo tom arrebatado logo o apelo a uma meta comum galvanizou a sala, Ribeiro de Carvalho, um jornalista presente, explicava aos menos familiarizados que já há dez anos que as coisas andavam tremidas na Rússia e este Lenine era uma figura grada, o czar não gostava dele, mas era um crânio, advogado até. José Domingues, jovem anarquista levantou-se e saudou o estrangeiro:

-Em Portugal, infelizmente, o povo ainda não tomou o destino em suas mãos. E a mensagem que deixamos é só uma: a luta armada! Só a força da bomba pode liquidar os ricos que pagam jornas de miséria. Queremos que o povo pegue em armas, e como já matámos o rei, que se refastelava à conta do povo, também os que hoje em todo o lado exercem ilegitimamente o mando assim serão apeados!

Os demais aplaudiram, Lenine cerrando o punho, depois de lhe traduzirem as palavras, aprovou, rematando:

-Um dia não muito distante surgirá uma vanguarda dos povos que estabelecerá o governo mundial dos oprimidos e famélicos, camaradas! Nas fábricas de Manchester, nas estepes de Kazan ou nas oficinas de Portugal! Obrigado, camaradas! Há que vigiar e lutar e o Sol será dos operários e camponeses, soldados e marinheiros, dos deserdados será o futuro risonho! Ontem em França, amanhã em Lisboa e S.Petersburgo!

A reunião terminou com promessas de acção concertada, um jantar regado a Colares na casa dum primo de Eudóxio na Rinchoa encerrou com vivas à revolução o auspicioso encontro, até Leal da Câmara, jornalista vizinho do primo participou no encontro, desenhando Vladimir numa caricatura que este emocionado agradeceu.

Passados uns dias, Lenine voltou para a Suiça, a missão estava cumprida e a semente lançada,por cá o movimento operário, mais ou menos anarquista iria fazendo mossa, promovendo greves selvagens e ruidosos atentados bombistas.

Dois anos depois, numa noite fria, nevava copiosamente nas ruas de Zurique, um comboio especial  saía da estação da cidade, atravessando a Europa a caminho de S.Petersburgo e transportando um incógnito e misterioso passageiro. Por uns anos, ventos de mudança iriam soprar a Leste, cantando irreversíveis amanhãs rumo à Grande Utopia.

publicado por Fernando Morais Gomes às 17:51

28
Jun 11

Luísa preferia Cabo Verde, a proximidade e a língua empurravam-na para essa opção, Silvério porém insistia com a ida à Venezuela, as fotos do Gonçalves com as quedas de água pujantes galgando os tepuyis e a fauna exótica e fértil não deixavam dúvidas. Seria esse o destino de Verão, as roupas recentemente adquiridas no Coronel Tapioca e a nova Samsonite com rodas iriam fazer rodagem a sul das Caraíbas entre macacos e indígenas.

A viagem serviria também para sarar feridas. O stress do trabalho de Silvério na imobiliária e a mastectomia recente de Luísa traziam-lhes o casamento no fio da navalha, nada como um destino de sonho para renovar baterias e continuar a luta. Simão, já com 16 anos, iria para o Algarve com uns amigos e até agradecia que os pais bazassem, desde que lhe deixassem  guito para uns dias.

No dia marcado, após sete horas de avião desembarcaram pois em Caracas, cidade poluída e tensa, bairros de lata estendendo-se entre o aeroporto e a cidade plantada num vale e muito desorganizada, sul-americana. Os venezuelanos dum modo geral tinham todos feições ameríndias, como o Chávez, narizes achatados e grandes orelhas,Luísa pasmava onde estariam escondidas as famosas louras que amiúde ganhavam concursos de Miss Universo. Três dias depois, a bordo dom DC-10 a hélice, lá partiram para o destino desejado, Canaima, o maior parque nacional da Venezuela, maior que a Bélgica e a perder de vista, depois de uma escala em Ciudad Bolivar, poeirenta cidade do interior já a caminho das florestas de Roraima. Visto do céu, o cenário era luxuriante, rios serpenteando, vegetação esmagadora, ao longe, o famoso Salto Ángel, a mais alta queda de água do mundo, acima dos mil metros, com a água generosa perdendo-se  em vapor antes de chegar ao solo. Era ali o Paraíso, e com tudo incluído.

O improvisado aeroporto era uma pista de terra batida no meio da selva ladeado por umas cabanas com telhado de colmo, os próprios passageiros tinham de retirar as malas e levá-las. O cheiro intenso da vegetação e o calor pegajoso eram excitantes, a viagem prometia e Luísa por uns momentos retomava o brilho nos olhos de antes da operação. Silvério, turista encartado, correu a colocar um chapéu de palha, novel explorador de Mem-Martins, Livingstone da linha de Sintra, esperando sinuosas onças ou assustados tatus e sacando do milagroso repelente, do qual, avisado pelo Gonçalves, trouxera paletes.

Um guia nativo e bem disposto levou-os e a mais oito num jipe tipo unimog para uma cabana, num resort com  umas doze casas de colmo, uma bebida à base de rum deu as boas vindas ao grupo. Água quente e electricidade só uma hora por dia, de manhã, todos os passeios de barco e excursões às cascatas a começar sempre às cinco da manhã, avisaram, ainda na recepção. A recruta ia começar.

Depois de arrumada a bagagem e equipar a preceito com colete de vários bolsos e binóculos, à Indiana Jones, Silvério sentou-se à beira-rio frente à cabana, a paisagem era deslumbrante e vasta, duma cabana vizinha chegava contagiante o som dum merengue, voltou ao bungalow onde Luísa arrumava as roupas e agarrou-a por trás, beijando-lhe o pescoço, não resistindo ao cliché de novela:

-Me Tarzan, you Jane. Vamos caçar para o nosso almoço?

Luísa sorriu, ainda um tanto fugidia soltou-lhe a mão do colo:

-Sr.Tarzan da linha de Sintra, vá mas é por a sua roupa na gaveta. E a propósito, esquecemo-nos da pasta de dentes…

-Mas quem vai precisar disso aqui, amor?. Comeremos à mão e secaremos a boca com frutos que nós mesmo colheremos. Está ali um palmito mesmo a pedi-las…

-Deixa-te de invenções, Silvério,isso deve ser venenoso, pareces um adolescente!.

Silvério estava contente, aquela viagem traria um fôlego renovado ao seu casamento, esperava ele, Luísa, antes relutante,vestia agora roupa fresca e adequada, uns novos óculos de sol da Moschino realçavam os cabelos castanhos alongados e sedosos.

Nos dias seguintes desceram o Caroni de piroga, as águas castanhas da folhagem serpenteavam e davam lastro á barcaça à aproximação das cascatas, pujantes ejaculando Natureza bruta e límpida. Uma chilena quarentona do  grupo caiu mesmo à água, tenso mas resoluto,Silvério, repentino Popeye de serviço, saltou para a água e salvou a infausta turista e nesse dia à noite, herói da jornada, foi efusivamente saudado e afogado em runs com cola no arejado bar do resort. Excitados, atravessaram uma cascata atados com cordas, o silêncio à noite, só interrompido pelas térmitas na floresta ou algum turista mais adepto do rum na tranquilidade luarada dos bungalows traziam àqueles dias de paz o bálsamo para retemperadas as forças voltarem à rotina da crise, dos telejornais-choque e da empresa em dificuldades.

Na tarde do último dia prescindiram do passeio programado, à noite haveria um luau de despedida com um churrasco assado pelos nativos, e perderam-se no matagal bordejado pelos imponentes tepuyis, quadradas mesetas onde, diziam os índios, viviam deuses que quando zangados enviavam coléricas trovoadas tropicais, enfurecendo as águas e revoltando as quedas de água. Em silêncio, sentaram-se, de mão dada, Luísa, acariciou-lhe a face, já madura dos quarenta e cinco anos de vida esforçada, e enfiou-lhe a mão nos cabelos:

-Silvério…..

-Sim?....

-És um pateta….

-Eu sei, meu amor….

-Obrigado. Nunca casaria com outro pateta que não tu. Obrigado por me recordares que há mais que um caminho para a felicidade…

Silvério sorriu, interiormente satisfeito, e gracejando, beijou-a, enquanto lhe oferecia uma flor selvagem colhida à beira-rio:

-D.Luísa Marques, prepare-se, que isto não fica por aqui.Para o ano vamos à Grande Barreira de Coral!. Tenho de usar todos os chapéus de explorador  que comprei no Coronel Tapioca,não temos tempo a perder!

Mais uma trovoada tropical, das que várias vezes ao dia caíam na Gran Sabana abateu-se ruidosa do lado do grande tepuyi, algum dos deuses, contente, saudava a felicidade de Silvério e Luísa. Arremessando para longe o chapéu de safari, Silvério e Luísa deixaram-se ficar, encharcados mas felizes, num prolongado beijo de despedida daquelas férias inesquecíveis mas ao reencontro duma vida que sabiam só com os dois poder ser feliz.

 


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:24

27
Jun 11

Naquele Verão de 1935, Poirot e Hastings decidiram-se a umas férias exóticas: longe da verde mas fria Cornualha, tentariam Portugal, Mrs Catherine Nightingale, uma coleccionadora de arte sua admiradora vivia no país e convidara para duas semanas no Continente. A viagem desde Madrid foi no Lusitânia Express, nada das comodidades do Expresso do Oriente, mas mais tranquilo à chegada, contudo.

Na Estação do Rossio esperava-os o motorista de Mrs Nightingale, um português já com alguma idade, careca e fardado a rigor, de nome Pacheco. Poirot reparou que era de tom de pele escura, não negro mas com sangue africano, por certo, mirando a cidade pareceu-lhe agradável, um estranho troar de vozes sugeriu-lhe desacatos, eram  varinas com cabaças à cabeça apregoando peixe na Baixa de Lisboa. Colorido, pensou, colocando as luvas brancas e ajeitando o monóculo, o bigode escuro retorcido não o distinguia muito dos portugueses, tal como ele maioritariamente de cabelo escuro e estatura mediana.

Em Sintra, Catherine preparara dois quartos, e um almoço farto com frutas e geleia de maçã à sobremesa. A casa era uma soberba mannor na estrada da Pena, a Hastings lembrou a placidez do Lake District, o mar ficava a duas milhas. A casa havia sido antes propriedade dum negreiro que fizera fortuna com a venda de escravos para os engenhos de açúcar no Brasil, e tinha uma traça muito particular e em dois pisos, no salão grande pontificava um retrato do primitivo proprietário, de chicote e com uma sanzala em fundo, armas do major na parede, um harmonioso jardim italiano no exterior. Caherine enviuvara recentemente do major Nightingale, que estivera com Allenby no Cairo nos anos vinte, apaixonada pela tranquilidade de Sintra, que conhecera durante uma missão do major a Lisboa, por cá ficara, pintava e esporadicamente enviava artigos sobre o país para o Daily Chronicle, de Londres.

Poirot não saía muito de Whitehaven Mansions por esses dias, na Alemanha o chanceler Hitler havia anexado a Áustria e sentia-se uma tensão latente nas chancelarias. Portugal seguia alheio a isso, sob a batuta de Salazar. Em Sintra, agradado com o clima, familiar ao das ilhas, dedicou-se ao seu hobby mais recente: coleccionar borboletas, as matas de Monserrate e da Pena eram fartas em exemplares, armado dum camaroeiro a tal dedicou as manhãs, enquanto Hastings de eléctrico ia até às praias tomar um refresco e ler na esplanada do Grego.

Cinco dias depois, ao descer para o pequeno-almoço, encontrou Catherine particularmente agitada: o quadro do negreiro no salão grande sumira. As janelas e portas estavam fechadas e não havia sinais de arrombamento. Poirot, agastado por atrasar o pequeno-almoço mirou o salão mas tudo parecia no lugar, apenas o quadro sumira. Após um exame detalhado, perguntou quem mais tinha acesso à casa, mas além de Mrs Nightingale apenas uma empregada portuguesa, Alice, e esporadicamente o Pacheco, o motorista morava numa casa da serra, e só fazia serviço quando chamado. Alice nada vira, dormia com as galinhas, pois manhã cedo tinha de ir ao mercado buscar queijo e frutas para o pequeno almoço dos senhores e Pacheco não voltara lá desde que fora a Lisboa buscar os visitantes. Hastings, esse, cansado dos ares do mar, toda a noite roncara, que Poirot incomodado bem ouvira,  o quarto era ao lado do seu e a parede de madeira. Poirot tomado o pequeno- almoço saiu até à Vila, para um passeio demorado e apenas voltou pelo almoço. À tarde, sem nada dizer, voltou a sair, a visitar o palácio da vila, disse, Hastings estranhou o amigo, aparentemente desinteressado do roubo do quadro, a polícia fora entretanto avisada e o cabo Esteves da GNR de Sintra tomara conta da ocorrência na casa da “madame”.

Um pouco antes de jantar Poirot pediu a mrs Nightingale que reunisse Alice e Pacheco na sala, tinha uma revelação a fazer. Hastings, conhecedor do amigo e seus segredos antecipou que seria sobre o roubo. Poirot, em pé, impecável no seu fato escuro rematado com umas polainas brancas passou a explicar :

-Messieurs, merci por terem vindo. Como é sabido um valioso quadro de mrs Catherine foi furtado desta casa pela calada da noite. Neste momento creio saber quem terá abusivamente levado o quadro do primitivo dono desta casa,  o senhor Gouveia de Ornelas!

-Sabe? E quem foi, mr.Poirot?- perguntou Catherine, arregalando os olhos.

-O dinheiro motiva muitas vezes o crime e o quadro, da autoria de um português do século passado,Vieira Portuense, e até tem valor económico. E o dinheiro é sempre um bom motivo para o crime, não é miss Alice?- sublinhou, virando-se para a empregada, de famílias modestas e apenas há 3 meses ao serviço da inglesa.

-O que é que está a insinuar sr.Poirot? Sou pobre mas honrada, meus pais já serviram o sr. Carvalho Monteiro e o conde de Sucena, nunca seria capaz de fazer mal à senhora Nightingale, que tão boa tem sido comigo!- replicou quase chorando, Catherine aguardava expectante o desfecho da história.

-Eu sei, miss Alice, eu sei. Mas o criminoso foi outro, e não foi por dinheiro, creio. Virando-se para o motorista Pacheco, até ali sorumbático e em silêncio, Hercule sondou:

-Tem ido muito à Camélia, senhor Pacheco?

-Como diz? A Camélia? Porquê?- surpreso, o motorista ignorava que o belga conhecesse a papelaria na Vila onde cavaqueava por vezes, nessa tarde a pretexto de adquirir o Times,  Poirot estivera lá à conversa:

-Parece que costuma lá ir muito. Aliás, a entrada está um pouco desagradável há muita areia por causa de umas obras. Como aquela que trás nos seus sapatos, não acha?

Os sapatos de Pacheco tinham vestígios de areia, amarelada e grossa, antes que dissesse algo mais, Poirot continuou:

-Igual a esta que está aqui junto à lareira, estão a ver?- com um pedaço de papel branco, Poirot recolhia areia junto a uma cadeira por baixo do local onde antes estivera o quadro. Todos olharam para Pacheco, que ruborizado contrariou o belga impertinente:

-E isso que prova? Qualquer pessoa desta casa pode ter passado pela Camélia e pisado a areia. O senhor é o primeiro a dizer que esteve lá esta tarde, quem garante que a areia não seja sua?

-Duas questões, messieur Pacheco. Na papelaria, o senhor Mourão, antiquário local falou que o senhor lhe prometera vender antiguidades que teria herdado duma tia falecida. Mas o senhor Cunha, da casa das queijadas garantiu-me que o senhor não tem família. E mais: que a sua avó terá sido uma escrava trazida para cá por Gouveia de Ornelas. Grávida. É verdade, n’est-ce pas?

A argúcia de Poirot deixou o mulato estarrecido, olhando Alice e Catherine decidiu entregar o jogo:

-Sim, fui eu quem tirou o quadro. Mas não foi por dinheiro! Desde que minha mãe me contou que esse patife era o meu pai, que abusou de minha avó e renegou a minha família, jurei que havia de vingar a sua memória. E para mim isso passava por destruir a única imagem que dele resta ainda hoje, aquele quadro. Não tencionava vendê-lo, mas destruí-lo apenas!

Catherine, sensibilizada, aproximou-se de Pacheco, e colocando-lhe a mão no ombro, tranquilizou-o:

-I understand you, António, really, I do! E como prova faremos o seguinte: traga o quadro, que vamos queimá-lo no jardim, e assim afastar desta casa o espírito do Ornelas!

Poirot ufano, sorriu e torceu o bigode fino:

-Trés bien, assim sendo, se não se importam, comeria um pouco da esplêndida  galinha que miss Alice tem no forno, que já lhe senti o cheiro. E amanhã, bientôt, serra, que as borboletas aguardam!....

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:32

25
Jun 11

Alberto Cantino chegara em Setembro de 1502, um agente genovês em Lisboa assegurara-lhe um contacto na corte portuguesa pelo que urgia agir,o duque de Ferrara, que o enviara, esperava resultados concretos e céleres.

O contacto em Lisboa era Estevão de Alenquer, antigo vedor da Fazenda, com ele em segredo acertara a obtenção de uma cópia da carta secreta com o registo das navegações portuguesas, pergaminho de grandes dimensões guardado na sala das cartas da Casa da Guiné e da Mina, aí se registavam as secretas viagens dos portugueses e os territórios efectivamente visitados. Cantino subornara um falsário para que lhe fizesse uma cópia e Estevão,traiçoeiro, facilitaria o acesso à sala das cartas, a troco de doze ducados de ouro. A 19 de Novembro a cópia finalmente ficou pronta e Cantino corria a expedi-la para Ferrara por um estafeta, solicitando ao duque Hercule os prometidos vinte ducados em ouro. A carta continha preciosas anotações, a mais recente era a menção ao desaparecimento de Gaspar Corte-Real, reportado em Outubro de 1501, bem como preciosos detalhes recolhidos após o  regresso da Índia da terceira frota de João da Nova, em Setembro desse ano.

Cantino exultava com o achado: pela carta copiada, com dois metros por um, se dava conhecimento da existência até ali desconhecida do litoral do Brasil e de uma parcela expressiva do litoral atlântico da América do Sul com uma antecipação bastante grande sobre as demais nações europeias. Na inscrição, secreta, escreveu "Carta da navigar per le Isole nouam tr[ovate] in le parte de l'India: dono Alberto Cantino al S. Duca Hercole" . Era um belo documento, e mais valioso ainda: o sigiloso mare clausum dos portugueses a que os pontífices romanos davam desde há mais de vinte anos cobertura, ali estava exposto e desvendado, num documento único e essencial. Os continentes e as grandes ilhas eram representados a verde e as ilhas pequenas a vermelho ou azul. Bandeiras assinalavam a soberania dos territórios, observando-se uma bandeira espanhola na vizinhança de Maracaibo. O Equador estava representado por uma espessa linha dourada, e a linha do tratado de Tordesilhas por uma azul. Já os trópicos e o Círculo Polar Ártico, estavam assinalados por finas linhas a vermelho.

A Cantino chamou-lhe a atenção sobretudo o trecho da costa brasileira, descoberto em Abril de 1500 pela armada de Cabral. A região estava representada por grandes árvores verdes e douradas, arbustos azuis e papagaios vermelhos predominando. Esta costa fora contudo retocada no mapa original, tendo-lhe sida aposta uma tira de pergaminho, que modificava os contornos do território de Vera Cruz, a terra do pau-brasil. A América do Norte encontrava-se indicada em várias partes, mas a ausência de uma linha costeira a norte da carta sugeria a possibilidade de uma passagem marítima para a China.A costa leste da Terra Nova encontrava-se contudo desenhada a leste da linha do Tratado de Tordesilhas, com grandes árvores verdes e douradas de longos troncos, e a inscrição "Terra del Rey de Portuguall".  Figuravam ainda umas ilhas com a menção "has antilhas del Rey de castella".Era um achado. O duque de Ferrara, de posse de tal carta logo mobilizaria dinheiros e armadas para alcançar as terras agora dos portugueses, onde ele poderia aspirar a uma capitania, como Cristoforo Colombo, seu conterrâneo, que bons proveitos lograra com o jogo duplo feito com o rei de Portugal e os Reis Católicos.

Em Ferrara, o planisfério enviado por Cantino fez exultar o duque. Alberto, pago o combinado a Estevão logo se pôs em marcha de volta a casa a cobrar alvíssaras e ajustar negócios, a missão fora cumprida.Num fim de Dezembro,Estevão de Alenquer  acompanhou Cantino à nau que o levou até Génova. Mal a embarcação sumiu na barra do Tejo, contudo,correu à alcáçova do Castelo de S.Jorge e pediu audiência urgente a D.Manuel. O rei refastelava-se em volta dum prato de viandas de borrego e sem parar a refeição recebeu Estevão nos aposentos:

-Então, D. Estevão, que notícias trazeis?

-Está tudo como previsto, Majestade. O genovês queria mercadejar e soez devassar nossos segredos. Pois partiu já, levando o que julga ser o verdadeiro mapa do Mar-Oceano …- Estevão não disfarçava o contentamento, os espiões de D.Manuel sabendo da vinda dum espião a Lisboa, congeminaram uma falsa cooperação entre Estevão de Alenquer e o homem de Ferrara, e sem o suspeitar Cantino enviava um planisfério enganado, avisado, D.Manuel enganava o espião e dava a conhecer um mundo novo mas…não exactamente onde se julgava ser novo e por vezes onde nem sequer mundo havia.

D.Manuel sorriu com ar traquina, bebeu a malga de vinho e da barbacã da alcáçova mirou o Tejo. Só ele, Venturoso Senhor da Conquista e Navegação sabia o segredo das rotas que Deus sabiamente entregara em mão lusitana e cristã. E assim continuaria por muitos anos ainda.

As informações geográficas disponibilizadas pelo planisfério de Cantino foram incluídas num  planisfério desenhado por Cavério logo após o retorno de Alberto Cantino à Itália e serviu como referência para a elaboração do Planisfério de Waldseemuller em 1507, graças ao mecenato de René, Duque da Lorena. Mais tarde, o mapa perdeu-se até que, em um dia, em 1859, Giuseppe Boni, director da Biblioteca Estense em Modena enquanto aguardava ser atendido numa salsicharia aí viu numa parede o antigo pergaminho, que lhe chamou a atenção, acabando por adquiri-lo. Um exame mais cuidadoso revelou o que suspeitara; era o famoso planisfério de Cantino  onde figurava confusa e deslocada a costa do Brasil e a linha de Tordesilhas. Inglório, o trabalho de Cantino ia acabando os dias entre chouriços e carne de vaca. Aos portugueses, decididos, nada obstaculizara e nessa época  por muitos anos ainda continuaram senhores dos mares e  silenciosos mestres do sigilo.

 

 

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:12

23
Jun 11

Oiço passos no corredor, é a enfermeira Dulce. Grande rabo, ali dava eu uma injecção com ela toda enrolada num colete de forças. Vão fechar as luzes, ficam só as de presença, momento de acordar do sono diurno, chupando beatas do chão e levando com o Gaspar e as suas bananas e pães-de-ló. O tipo já lá não vai com pão-de-ló.

Há  38 anos que moro neste Grande Hotel do Telhal. Está-se bem, quatro Napoleões, uma Madame Pompadour de mamas caídas, aqui estou salvo, os verdadeiros loucos estão lá fora, loucos com uma lucidez idiota e patética.

O jantar foi guisado. Uma trampa, nem um vinho decente.

Chamo-me António, António Gancho e sou o hóspede mais antigo deste covil, mordomo impenitente, cicerone de sombras. Ali na cama do fundo está o Medina, algaliado, o imbecil, chegou há dois anos e só fala para dizer que tem fome. Veio para uma cura alcoólica mas ficou pior. Ficam sempre piores da cura.

Não sei quanto tempo me resta, mas não sairei daqui. O Sade também morreu no hospício, esta é a virtuosa prisão que liberta, aqui ganhei o poder de ser livre sem ninguém nos levar a sério e isso, isso é muito, muito sério. Quero morrer à noite, morre-se sempre melhor à noite, a noite é escura como a morte, e ao morrer à noite sempre chateio um pouco mais a Odete, tirando-a do sono, talvez morra com a mão no rabo dela.

Sou um grão de bico para a morte debicar, a morte essa galinha desvairada, aposto que é a Odete com asas e penas. Hei-de comer a morte de fricassé!.

Dizem uns maluquinhos para aí que sou um grande poeta. O Herberto  foi sempre assim, diz que é muito bom o que escrevo, escapou de vir para cá, o cara de pau, ele e a seita dele, esconderam-se todos em bibliotecas, intelectuais, ratos com óculos, deixá-los com o seu queijo bolorento. Não há melhor inimigo dum poeta que outro poeta. Poeta grande é poeta maldito. Maldito e amaldiçoado. Disse-o ao Medina no outro dia, o imbecil ficou calado a olhar para mim e a comer uma banana e perguntou se havia pudim para a sobremesa. É um ponto o Medina,  poesia  para ele só com arroz. Ao fim de semana veste o ridículo pijama às riscas e faz a ronda das enfermarias, diz que é dia de inspecção.

A noite está luarenta, sangrenta, noite de Alentejo, de grilos.

Nesta enfermaria invento a geografia das coisas. Escrevo Sintra e nasce Sintra, porque o nome de Sintra escrevi. Falo Odete e ela vem, mesmo que não venha fico a devorar-lhe  o nome na dobra da língua. É esse o poder de escrever. Amarram-se coisas a papeis, conquistadas, inventam-se futuros, assassinam-se passados. Escrevo lua e é minha a lua, luarenta, luarita, luarosa, tudo o que quiser com ela, amarela, azul, posso até meter lá o Medina, coitado, com o pijama às riscas. Esse o meu poder, absoluto, cruel. Eis-me imperador do caderno, rei da caneta preta, guardião da mesa de cabeceira, comissário da arrastadeira e do soro.

Lua.

Sintra

Imbecil.

Escrevo palavras e aprisiono-as, como o pirilampo que guardo na gaveta dos remédios, escravo da minha Luz, luminoso e pirilampo. Ali ponho um til, é uma onda sobre o a, os ás devem ser ondulados, as palavras fluem, escrevo-as, no fim nada dirão, o  segredo, cínico, fica sempre nas letras não escritas. O verdadeiro poema é aquele que nunca escrevemos mas todos julgam descobrir num qualquer tropeço nocturno de papel branco depois dum bacalhau à Brás ou dum tinto.

Escrever é gerir línguas mortas, aramaicos de lucidez que muitos ousarão profanar. Deixá-los tentar, no seu hospício de ignorância.

Senhores, esta é a suposta casa da loucura, de mentes brilhantes, fígados cansados, onde se derramam histórias sobre histórias derramadas, médicos e loucos, loucos da medicina e médicos do silêncio. Confundem-se. Ah, os loucos estão de branco! E as enfermeiras. E os médicos. O deles é branco sujo, o nosso é branco anjo, alvo, do Éden.

Tenho aqui um mapa, nesta folha ainda branca. Eis oceanos de ilusões, montanhas de desespero, ilhas de luminosidade, vulcões de Cesarinys. O sacana não quis este hotel, queria um com mini-bar e enfermeiras de bigode. E marujos. Brancos.

Passaram trinta e oito anos, o colchão é o mesmo, três percevejos são primos já. Deixo-lhes a almofada em testamento. O SG Filtro fica para o Medina, para o passeio de domingo com o pijama às riscas.

Vejo Usquarth da janela. Dizem que é Sintra mas não é, Sintra foi destruída há muito, é o lago do monstro Ness, por certo.  A Odete encolhe os ombros quando faz a ronda e lhe falo de Usquarth. Camões tinha ninfas eu tenho a Odete, valquíria da seringa, profanadora da nalga com a assassina injecção, nova Florence Nightingale da Terrugem.

Está ali ao fundo uma tenda, com índios. Dentro, dançando fazem sinais em torno da fogueira. Chamam. Eu? Aí? Vou. Devo partir. Ah, vou escrever Liberdade na folha branca.

Está escrito. Sou livre agora.

“Põe-se-lhe a data

e o poema nasce

rubicundo

como a ponta de um lápis

que escrevesse no registo

o nome macho dum bebé.

I achieve

I finalize

eu acabo

eu finalizo.

É o poema terminado.”(*)

António Gancho

 

(*)A itálico, excerto do poema de António Gancho “Ilustrazione”

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:04

21
Jun 11

Litha, chegara 21 de Junho, o primeiro do verão, entre Erelitha e Afterlitha no antigo contar dos dias, um dos oito sabaths. Alexandre, no jardim da velha casa mirava as flores já pujantes, era o momento em que o confortante Sol chegaria ao zénite e o mundo das flores, folhagens e pastagens se encontraria abundantemente florido e verde. Retido em Sintra, este ano não poderia ir a Stonehenge, lá, eterno, o círculo de pedra milenarmente continuaria alinhado com o nascer do Sol. Estava escrito, explicara à filha, a pequena Débora: após a união da Deusa em Beltane, o Deus adulto, virará pai dos grãos e trará o calor do verão e a promessa de fertilidade com o sucesso do enlace. E sendo o seu auge, também prenunciará o seu declínio, após cumprir a sua função de fertilizador, dará um último beijo na amada e caminhará para o país do Verão utilizando o Barco da Morte e serenamente morrer em Samhain. É a partida do Deus do Carvalho e a chegada do reinado do Deus do Azevinho que durará até ao branco e natalício Yule. Alexandre muitos verões partilhara esse festim, também a pequena Débora fruto do enlace com Ana nascera num início de estio promissor e risonho, festa da Vida, num solstício de amor e dádiva. Ana partira, precoce, também a Barca da Morte a ela colhera aos trinta, agora, com Débora e mais Irmãos da Floresta na clareira da Peninha nessa tarde esperariam o Solstício, vigilantes e agradecidos. Pela tarde, depois do burocrático emprego no banco, pegaria Débora e com Letícia, Álvaro e a Mila partiriam para a serra. Alexandre aproveitaria para colher ervas medicinais, nelas a força do Verão curaria maleitas de corpo e de espírito, druida incógnito na selva urbana, colheria cura para enfermidades, no balsâmico visco e no fértil basílico, neles preservaria a energia nos tempos frios em encantamentos e sortilégios.
Chegaram pela tarde, para muitos mais um dia, alguns almanaques de jornal relembravam a data, em Avebury, Stonehenge ou mesmo no Alvão, anónimos irmãos da Floresta reuniriam. Na Serra Sagrada, junto ao lago, aprontavam-se os preparativos para um banho purificador, em noite de Litha, acreditavam, tudo aquilo que for sonhado, desejado ou pedido tornar-se-á realidade. Ana não voltaria este ano, era certo, mas a crença em dias felizes e o futuro da pequena Débora eram suficiente para o redobrado fervor de Alexandre, o maluquinho das ervas, como colegas do banco o tratavam, a Susana do departamento de crédito, de olho nele, carinhosamente baptizara-o até de Panoramix. Como os antigos povos da Europa, todos acreditavam que, nessa noite, criaturas mágicas correriam pelos campos e florestas e poderiam facilmente ser vistos e contactados. Para início de ritual, os amuletos do ano anterior foram queimados e novos talismãs de protecção, poções para sonhos proféticos e filtros que só eles conheciam foram feitos para aproveitar o momento de confraternização. Alexandre e Álvaro prepararam uma fogueira, a grande fogueira de Beltane, por ela mais tarde pulariam para se livrarem dos infortúnios e da negatividade, um S. João da floresta, sem sardinha nem alho porro, alguns gravetos de carvalho foram recolhidos na clareira. No final desse dia, dia maior, a Grande Roda Solar do Ano alteraria o seu curso, e de novo os dias voltariam a encurtar, cíclicos e promissores, dando lugar a Azevinho rei, Álvaro aproveitava mesmo para esculpir nova varinhas de madeira até ao ano seguinte. Uma mesa foi improvisada na clareira: vegetais frescos, frutas do verão, pão de centeio integral, cerveja e hidromel seriam o cobiçado banquete. Fragrantes, limão, mirra, pinho, rosa e glicínia foram libertos pelo ar já perfumado do eucalipto, com velas azuis e verdes adornaram o altar de oferendas: camomila, sabugueiro, cânhamo, lavanda, tomilho selvagem, glicínia e verbena.
Tudo preparado, Alexandre agarrou-se a Débora, com uma coroa de trigo adornando a pequena cabeça loira e alva, e todos partiram a recolher pedras para formar um grande círculo com cerca de 3m de diâmetro e iniciar a cerimónia. Com uma longa vareta de madeira Alexandre traçou no chão uma estrela de cinco pontas dentro de um círculo de pedras, enquanto os demais acendiam cinco velas verdes colocando uma em cada ponta do pentagrama, começando pelo leste. Colocada uma pedra grande e achatada no centro do pentagrama voltada para o norte, como um altar, e, sobre ela, uma estátua representando a Deusa, em cada lado dela acenderam uma vela branca. No ponto cardeal correspondente ao Ar, um sino de latão, consagrado, e um incensório com incenso de mirra. No ponto cardeal correspondente à Água um cálice com vinho, um prato com sal e uma tigela com água da chuva. Caía a noite agora, lá longe na Cidade Grande apressada, aflitos humanos corriam para casa findos os empregos, um novo governo tomara posse, no Parlamento os eleitos da Nação distribuíam sinecuras. Na Floresta Límpida, um punhado de sábios da Mundo Oculto celebravam o Novo Ciclo, à sombra da Serra testemunha de muitas lithas e muitos yules, ciosa dos seus segredos insondáveis e milenares.Abençoando o vinho, coberto o cálice com as palmas das mãos, Alexandre consagrou-o à Deusa e salpicou um pouco de sal e gotas de água sobre o sino de latão,a abençoá-lo. Acesa a mirra, levantando os braços para o céu, fechou os olhos e deixou que pensamentos e visões agradáveis lhe invadissem a mente, a pequena Débora, de olhos igualmente cerrados, sorria à lembrança da Mãe, na sua primeira Lithia, todos em silêncio repetiam o ritual, tombava uma última réstia de sol dos lados do mar. Colocado o sino no altar de pedra e levados os cálices de vinho aos lábios, os adultos beberam e derramaram o resto no centro do pentagrama, em devoção à Deusa. Depois, colocado o cálice vazio no altar, novamente soou o sino três vezes e ajoelhando, ofereceram mais incenso e continuaram o banquete de alegria com o canto de músicas mágicas. Estava celebrado o Solstício, podia agora o Verão pujante invadir os ares e as terras.
No dia seguinte, Débora, na inocência dos seus cinco anos foi até à praia, com os colegas do infantário. Ainda enebriado da véspera, Alexandre, de volta ao trabalho, acolheu com um sorriso cúmplice o Sol que benigno lhe entrava pela janela do gabinete no banco. Talvez a Susana do crédito quisesse almoçar com ele, partilhar uma salada com o Panoramix das cobranças, faunos na Serra apreciariam contentes por certo.Esperançoso, talvez o solstício do ano seguinte tivesse mais um risonho participante.
publicado por Fernando Morais Gomes às 04:00

19
Jun 11

 

Deitadas as cartas da nossa taróloga Tatiana, são as seguintes as previsões para a semana de 19 a 25 de Junho que ela nos enviou hoje por pombo-correio:

“Caros Amigos do Café com Adoçante. Contra o envio dos 300 euros ajustados, aqui envio as previsões da semana:

AQUÁRIO -21 de Janeiro a 19 de Março.O MUNDO

Excelente conjuntura para os nativos de Aquário, sobretudo linguados, pescadas e mariscos começados por L. A sardinha anda pequena, com um bocado de sorte pode chegar a sarda. O Mundo vai ver-se grego e lá para quinta-feira abre a caça ao coelho em Bruxelas. A bactéria E.colli vai ser detectada em 7 tomates italianos, paella provinda de Espanha e restos de alfaces do mega piquenique do Continente expostas às radiações do Tony Carreira. Nenhum dirigente do FMI vai ser preso por assédio sexual esta semana e só quatro vulcões islandeses entrarão em actividade

CARNEIRO-21 de Março a 20 de Abril. A MORTE

No plano afectivo será bom para relacionamentos novos, o amor estará no ar: Francisco Louçã e o primo ministro das Finanças, Seguro e Assis mo Portugal do Coração, Kadaffi divertido a brincar às escondidas com a NATO. Saúde: Fernando Nobre verá agravado o seu Alzheimer, Luciana Abreu vai ver tudo muito negro e Manoel de Oliveira participará numa prova de pentatlo, após um electrocardiograma que o declarará mais saudável que Fernando Póvoas. Plano material: aproveite o último subsídio de férias que verá nos anos mais próximos.

TOURO-21 de Abril a 21 de Maio.O LOUCO

Saúde: risco de Parkinson, se começar a tremer não se assuste, é o novo governo a começar a trabalhar. Loucuras da semana: Jerónimo de Sousa fará um dueto com Mónica Sintra em Baleizão, Isaltino Morais fugirá para o Brasil, ajudado pelo Padre Frederico, anormalmente Alberto João Jardim nada dirá, afónico depois de tanto gritar a celebrar a saída de Sócrates. Em Paris, Platão, Aristóteles e Pacheco Pereira receberão em Pigalle o novo estudante de Filosofia.

GÉMEOS-22 de Maio a 21 de Junho. O MAGO

Nativos deste signo terão bons resultados: Fábio Coentrão assinará pelo Real Madrid , Pinto da Costa após negociações em Canal Caveira obterá ajuda externa de árbitros para a Champions de 2011, José Castelo Branco vai revelar que afinal é uma impala transmutada por transgénicos administrados na Cova da Onça nos anos 90. Não exagere no trabalho, ultrapassando os habituais 25m diários.

CARANGUEJO-22 de Junho a 23 de Julho.O AMOROSO

Boa carta para os nativos de Caranguejo. O amor estará no ar para Assunção Cristas, Miguel Macedo, Marinho Pinto, Batatinha e Medina Carreira, que bafejado por bons humores adiará a previsão da falência nacional de 2012 para 2017. Plano material: boa para empresários com a redução da TSU em 25%. Perspectivas de férias sem justa causa por muitos anos para funcionários públicos, privados, reformados, a banda da CARRIS e setenta e sete figurantes da Praça da Alegria.

LEÃO-24 de Junho a 23 de Agosto. A IMPERATRIZ

Pois é… volta, Liedson, está tudo perdoado. Será contratado o melhor jogador argentino da actualidade,(não, não será Messi) a sair do plantel do Benfica onde já estão os 416 melhores apanhados à porta do Boca Juniores, 23 em preparadores físicos. A sereia Soraia Chaves capturada, recolherá ao Oceanário onde será transformada em lascas de Bom Petisco. Da Alemanha, a imperatriz Merkel decretará interdição sobre os frangos de Roberto por 5 anos.

VIRGEM-24 de Agosto a 23 de Setembro. O JULGAMENTO

Vários julgamentos chegarão ao fim: Face Oculta, submarinos, Rei Ghob, Isaltino, Moderna… pronto, pronto, esta era a brincar. Strauss-Kahn será libertado após provar-se que o alegado assédio não passava da terceira “tranche” acordada para o auxílio do FMI à Guiné-Conakri. Plano material: a gasolina vai baixar…nos depósitos!.

BALANÇA-24 de Setembro a 22 de Outubro. A LUA

Este arcano está um pouco turvo, pelo sim pelo não, mostre-se flexível, depois da venda dos balcões do BPN para lojas dos 300, altura boa para compras, o Terreiro do Paço está mais barato que uma roulotte. A 24 de Junho, uma coroa parece desfigurar o calendário, mas visto melhor é a coroação de Goucha no principado de Queluz de Baixo. Para os lados da Luz, Jesus caminhará para o jardim dos Oliveiras, vejo um dos romanos  com as letras PJ gravadas no dolmen.

ESCORPIÃO-23 de Outubro a 22 de Novembro. O DIABO

Cruzes! Plano material- O FMI arrolará os últimos quadros de S. Bento para a hasta pública em Washington. Plano sentimental: Passos Coelho irá reforçar a relação com Laura com uma muamba na marquise de Massamá. Plano político: Fernando Nobre depois de 7 negas para ministro, secretário e contínuo do Ministério da Saúde, por desinteresse e amor à Pátria aceitará ser jurado na nova série da Operação Triunfo.

SAGITÁRIO-23 de Novembro a 21 de Dezembro. A JUSTIÇA

Saúde: nada de fritos ou assados (já estamos fritos e assados...). Num plano de reconciliação Carlos Queirós fará as pazes com Amândio de Carvalho, Cavaco com a obra de Saramago, Alberto João com o Continente, o Jumbo e o Modelo e Sócrates- c’est l’amour!- com Manuela Moura Guedes, depois de um jantar no Boulevard des Italiens. Bom período para investir, use bem os seus últimos 20 euros.

CAPRICÓRNIO-22 de Dezembro a 20 de Janeiro. A JUSTIÇA

Carta repetida, o mesmo que SAGITÁRIO, mas só  os nativos deste signo já só terão 5 euros para investir.

PEIXES-20 de Março a 20 de Abril. A TEMPERANÇA

Se chegar a 26 de Junho e sobreviver a Passos Coelho, à troika, ao Goucha, à sra Merkel, a Tony Carreira, ao prof. Pinto da Costa, ao Prós e Contras com ex-ministros  e aos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa aplaudindo o novo Governo na TVI, lamento, mas… você está definitivamente morto, e aí recomendo uma medíum muito boa de Santa Iria da Azóia para falar do Além!

Boa tarde, que agora vou ali deitar cartas para o Sr. Barack Obama, coitado, as coisas estão negras para ele em 2012. Boa semana!

Tatiana “

publicado por Fernando Morais Gomes às 17:05

16
Jun 11

O Grupo dos 14  fora fundado em 1895 por catorze elegantes cavalheiros de Sintra. Durante algum tempo sem sede, promovia de tempos a tempos soirées dançantes, sobretudo no restaurante Lisbonense, em pouco tempo famosas pelo brilho e animação. A acção desenvolvida teve tal adesão que muitos sintrenses mostraram-se interessados em fazer parte, pelo que, entusiasmados, os seus fundadores resolveram criar formalmente uma instituição de instrução e beneficência, a que chamaram Grupo dos 14. Em Janeiro de 1896,  contavam já com 300 sócios e ano e meio depois aquele número subiria para 400, entre os quais, como referia o Correio de Cintra de 16 de Junho de 1897 “individualidades distinctas como o dr. Carlos Guimarães, António Mazziotti, José Antunes dos Santos, José Sequeira de Castello Branco, dr. Cornélio da Silva, A. Madureira e outros". Definitivamente,a Sintra que contava. Entusiasmados, os fundadores resolveram então arrendar um  espaçoso salão no edifício do Mercado da Vila, pelo que na noite de  22 de Janeiro de 1896 a sede era finalmente inaugurada com uma grande festa e a apresentação da estudantina, constituída por 16 ruidosos sócios  tocando instrumentos de corda.

João Moreira, o presidente, era o mais eufórico nessa noite, a vida local ganhava em brilho, rivalizando com os melhores salões da capital, até Sua Majestade a Senhora D. Amélia mandara entregar um donativo generoso  para as obras do auspicioso teatro que ali se pensava erigir. Eleito presidente da direcção pouco tempo antes, fizera equipa com a nata local: José Caetano dos Santos, José Faria da Costa, Chaves Mazziotti e outros. Solene, perorava com selectos cavalheiros sobre o novo clube, queria-se ao nível do melhor da Europa, organizado e brilhante:

 -Boa malha, Faria, Sintra finalmente vai saber o que é elegância e Europa. Olhe, até o nosso cônsul em Paris, o Eça me mandou um bilhete, desejando auspiciosos momentos, quando vier cá promete uma visita. Aqui  cheira a Europa, meus caros, cheira a Europa!- o copo de Colares esvaziava-se, generoso, pintalgando de rosa as salientes bochechas do Moreira, enfiado no seu casaco da moda, só a cartola custara-lhe uma nota das grandes.

Faria da Costa anuía, nada como rigor e exigência, aliados a bom gosto próprio de gente instruída:

-Os bailes terão de ser só para os associados e famílias, e há que impor regras: terão lugar aos domingos e dias santificados, começarão às 8  e findarão à meia noite! E estranhos, quando sejam de fora da terra, só se apresentados por algum sócio, o que só deverá ocorrer duas vezes, para não dar ideia que isto é alguma charanga!

A sala estava feericamente engalanada, vários candelabros e garrafas de champanhe servidas aos cavalheiros emprestavam um tom aristocrata e de fartura. Ao lado, a silhueta do Paço adicionava patine e seriedade que faria do Grupo dos 14 o mais distinto clube fora da capital. Mazzioti, deputado local e cacique experimentado, chupando um puro duma remessa que nessa tarde adquirira na Havaneza, concordava e reforçava a nota:

-Isto para ser à inglesa, cavalheiros,é proibir chapéus no salão ou pessoas em mangas de camisa, como qualquer campónio de Colares depois do círio. E sugiro desde já o seguinte: os lugares para as senhoras devem ser dos dois lados a começar da teia, e como salão de bem, não deve ser permitido a cavalheiro algum sentar-se entre as senhoras, quando não seja pessoa de família, há que manter o respeito pelos valores da decência!- ia arengando, virando-se para o presidente - ó Moreira, ponha lá no regulamento que  os lugares sentados  devem ser concedidos de preferência às senhoras, e qualquer cavalheiro cumprirá o dever de delicadeza de se levantar quando alguma esteja de pé por falta de cadeira. Assim é lá fora, nas grandes capitais das Luzes, e Sintra, a quem o defunto D.Fernando fez farol dessa Europa não pode destoar, meus senhores!

João Moreira, já embalado por divinais tragos de Colares, ia mais longe, aconselhara-se mesmo com Luigi Manini, o culto cenógrafo de S.Carlos, que a Sintra vinha às vezes na companhia do Carvalho Monteiro, o ricaço pensava erguer um vistoso  palacete junto aos Pisões:

 -Lá fora,  as danças, as valsas, polkas ou mazurkas são reguladas pelo mestre de sala. Nada de viras nem pares de um só sexo, nem bandalheira de quermesse. E sobretudo, gente embriagada, nunca!- verberava, terminando de um golo o cognac francês, os demais concordavam brindando com os seus copos.

Na sala cheia, uma Marcha Radetsky um quanto roufenha aquecia a noite, as damas de Sintra, balzaquianas e ruborizadas cobiçavam-se os vestidos, não fosse alguma ter a pretensão de parecer mais elegante, toda a semana haviam corrido o Chiado em busca de chapéus do último grito em Paris, até os jornais de Lisboa tinham noticiado com destaque o lustroso baile do novo Grupo dos 14. Quando tudo apontava para o epílogo  memorável duma noite deveras extasiante, um estrondo súbito soou na sala vindo do lado da orquestra deixando os convivas surpresos e levando ao imediato silenciar da música. Elegante e europeu, João Moreira, o distinto presidente da colectividade  tombava desamparado no sobrado, apreciadas doses  de palhetos de Colares faziam das suas, levando ao  fraquejar das pernas. Bêbedo borracho nunca, apenas selecta e elegantemente etilizado.


publicado por Fernando Morais Gomes às 21:38

14
Jun 11

A televisão estava ligada, ao fundo num preto e branco sumido passava pela enésima vez O Pátio das Cantigas, a cena do candeeiro apesar de vista muitas vezes era sempre impagável. Actores histriónicos que não há mais, pensava Aníbal, à mesa da sala, concentrado no seu novo livro e dedilhando o computador portátil em torno das palavras certas. Escrever é ingrato, forçoso se torna ignorar os leitores, esses invasores que sem pedir licença profanam as palavras escritas para depois as evocar malditas, interiorizava, pensando uma coisa e escrevendo outra. Aníbal passava por problemas pessoais, a Fernanda deixara-o, o editor atrasava-se no pagamento dos direitos, o médico torcera o nariz aos exames, fígado numa lástima. Despegado, desde que houvesse para o gin, o talento fluiria à velocidade do gole esplendoroso, pujante orgasmo da palavra correndo solta até que, saciado e vingador, o dedo furioso martelando o teclado se cansasse.

Depressivo, a cena do candeeiro transportava-o para a sua própria realidade, como o Vasco Santana do filme sentia a invasiva solidão, amigos de sempre haviam-se afastado, vegetava emocionalmente, não arengando a um candeeiro num pátio esconso e silencioso, mas   náufrago entre palavras soltas, escrevendo vingador, vomitando o desprezo em letras que talvez leria, quanto mais não fosse o Semedo da editora.

A noite ia fresca, cansado da escrita deu um pulo ao café do Borges, um gin fizz e novo maço de tabaco, intervalo para pensar no romance, cansara-se do personagem principal, queria matá-lo mas ainda só tinha trinta páginas, era cedo, tal como ele, um alcoólico perdido, nada de autobiográfico, claro, embora ao espelho nada os separasse a não ser o facto de no personagem do Vasco praticar o seu vudu canibal, ao matá-lo matar-se-ia a si, o resto do livro seria em flashback, no fim talvez tivessem saudades do herói.

Patrícia era uma jovem no segundo ano de Literatura. Dezoito anos, o último Philip Roth já a meio, sempre se interessara por Aníbal, vizinho do prédio ao lado, um professor já dele lhe falara como grande talento. Ao vivo, próximo e ao mesmo tempo distante, observava-o de longe, macilento emborcando o gin ao balcão, aquele homem alcoolizado em nada correspondia ao pujante Aníbal Gralheiro que a crítica saudava como saudada revelação. Avesso à vida mundana, dava poucas entrevistas, a antipatia era parte do seu carácter, o editor porém até concordava, o epíteto de escritor maldito era bom para o marketing das vendas, funcionara com o Jorge de Sena, o Mário Henrique-Leiria ou o Lobo Antunes. Já ele saía do bar para regressar a casa, onde à espera apenas tinha o Troika, um gato que recolhera na rua e o teclado sedento de geniais palavras ou expectante dum cruel delete, Patrícia abordou-o, um sorriso jovial, entre o inocente e o esfíngico deixou-o subitamente interessado:

-Você é o Aníbal Gralheiro, não é? O meu professor já me falou em si!- abordou-o, o Philip Roth debaixo do braço deixava entender ser pessoa instruída, Aníbal entre o abúlico e o interessado esboçou um riso cínico e contra-atacou, mais uma leitora embevecida pela sua extraordinária obra, desde que o idiota do Vargas no “Jornal Literário” o chamara de “genial” passara a best-seller do Continente:

-Sim? Também gostou da “Profanação em Líquido”?

-Não!- ripostou, segura e surpreendente. -Acho que você deve ser um tipo muito frustrado e sem sensibilidade para entender os outros. Acho que escreve sobre coisas que não conhece. Uma fraude, um personagem à procura do reconhecimento do autor!

Aníbal embasbacou, como se atrevia, nunca devia ter lido nada senão sinopses idiotas ou resumos no Google, que percebia ela de escrita. Simulando indulgência e segurando a situação, lançou-lhe um sorriso, entre o perdido e o conformado:

-Muito bem! Já vi que temos novo ogre literário a caminho! Adoro os pseudo-intelectuais, sabe, são óptimos para levar às vernissages de pintura, ficam bem na fotografia e sempre dão um ar repugnante de cultos!- sem palavras certas, enveredava pelo cliché, de repente pensou como o seu personagem se sairia duma destas no livro, mas teria de ter uns seis confortantes  gin’s de avanço. Ali era um impotente cliente numa costumada crise balcânica, aquela que diariamente cultivava ao balcão do café antes de na cumplicidade da noite virar o talentoso e inovador escritor da moda.

Patrícia sorriu e saiu apressada, virando-se para ele deixou um último comentário complacente:

-Quando conseguir ser pessoa talvez venha ser escritor. Até lá, não é mais que um administrador de fantasmas. E histórias como as suas não são o meu estilo, prefiro o original à cópia o sofrimento sempre é mais autêntico, sabe?. Tchau!

O Borges do café escutava e disfarçava desinteresse, secando um copo com um pano. Aníbal, sentindo-se humilhado, pediu outro gin e saiu, danado. Em casa, pontapeou o portátil, num acesso de fúria, afugentando o Troika que dormitava no sofá, e sentou-se no cadeirão. Na televisão, O Pátio das Cantigas chegava ao fim, o Rufino do candeeiro, por amor à senhora Rosa florista abandonava a bebida e incensava o leite, com a filha do Brasil e já curado, marchavam no Pátio das Cantigas, felizes para todo o sempre, a palavra FIM depois do beijo deixava antever que sim. Apanhando o portátil do chão, sentou-se na mesa com a cabeça entre as mãos, olhando a garrafa do gin atirou-a contra a parede e enraivecido fez delete das páginas já escritas do novo livro,  Vasco, o personagem, morria assim antes de nascer.

No dia seguinte telefonou à Fernanda e numa voz trémula pediu-lhe para a ver, pedia o contacto do Anselmo, que fizera uma cura de desabituação da bebida. Pela hora do almoço, voltou ao Borges, Patrícia, vaporosa, tomava café com o namorado. Pediu uma Frize, que bebeu em silêncio ao balcão, ao sair acenou-lhe, na mesa do fundo, e sem que ela tivesse tempo de dizer algo, levantou a voz e lançou-lhe um sonoro “Obrigado!”. É assim a vida às vezes, nestes novos pátios de cantigas…

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:55

11
Jun 11

Sintra, há muito, muito tempo. Na Era das trevas e alvor de conquistadores e heróis, no alto da Serra Sagrada entre elfos e silfos vivia solitário o mago Klingsor, velho de mais de duzentos anos, não longe dos domínios que Afonso Henriques na madrugada de Portugal dera aos Trinta do Arrabalde, templários cristãos e guerreiros, rodeados de laboriosos mouros  nas férteis várzeas e zelosos da cruz obnubilada. Lá bem alto, no castelo sinistro, rodeado de pedras e urze já sem idade, Klingsor, o Mago, construíra um jardim povoado de ninfas e amazonas que com seus perfumes e encantos seduziriam os incautos, fazendo que quebrassem seus votos de castidade e pureza, perdendo-os capturados em feitiços, vingando assim a profanação desse Reino de Klingsor. Vinte anos haviam passado desde que a maura lança cedera em terras de Xentara, Afonso continuara a saga para sul e para leste, tempos depois com angústia souberam os cavaleiros ter seu rei ficado ferido às portas de Badajoz, grave aleijão o trazia doente e febril, entrapado no leito. Não fora seu genro e o rei mouro de Badajoz lhe teria retomado os domínios já conquistados. Pensava Afonso Henriques ser aziaga sina o que o derrubara nesse dia ingrato, porém um anel que Urraca Ximenes, velha aia, um dia lhe ofertara,  permitia que à distância Klingsor lhe manietasse o destino, ardendo em febre e delírio em seu paço de Coimbra. Tal maleita, agoirara Urraca, serva de Klingsor, só um coração puro e sem pecado poderia debelar, quanto não o reino luso soçobraria à vontade do mago, captor dos da Cruz enredados em seus desígnios predadores.

Gonçalo Ramires, sobrinho de Rodrigo de Sintra, um dos trinta do arrabalde, crescera nas faldas da serra. Órfão de Ramiro, morto em cilada no além Tejo ainda insubmisso, aos catorze anos sonhava com feitos de cavalaria, honra e amizade, valores de cavaleiro probo e leal, caldeado na virtude, sem ódio no coração. Avisado da existência de Klingsor, cedo o alertaram que se não aproximasse do eremita, perigoso druida fervendo seu caldeirão, por bruxaria tentando quebrar a força desse reino novo. Perseguindo um gamo, certo dia, porém, passou a Terra Proibida, galgando a alcáçova de Canaferrim, fronteira de todos os medos onde rastejantes e estranhas bestas serpenteavam na mata orvalhada. Um silêncio perturbador dominava entre as brumas, nada indicava ser o jardim sequer habitado, ao fundo,um altivo cisne nadava num lago espelhado. Atraído, Gonçalo quis vê-lo de perto, sem receio o cisne deixou-o aproximar para logo por magia se revelar como uma jovem e morena mulher, uma moura de olhos castanhos e longos cabelos. Morgana seu nome, prisioneira e escrava de Klingsor, no cume alto e ventoso, o mago manipulava a cena, vendo-a reflectida numa tina de água, com feitiços conduzia Morgana a seu intento de seduzir o jovem Gonçalo, usando a beleza e graciosidade. Repentinos silfos esvoaçantes emprestavam estranheza ao momento, Klingsor seguia seu plano, uma vez subjugado pelos dons da sensual Morgana dele faria agente do seu poder, cavaleiro das Trevas com a missão de pôr cobro a Afonso, moribundo em Coimbra, e de novo restaurar para as gentes de Mafoma o sagrado Al-Andaluz que os homens da Cruz ousavam esventrar.

Dois rouxinóis chilreavam na floresta, um furtivo furão assustado atravessava o restolho, Gonçalo e Morgana, fixando-se e sem trocar palavras, falaram a linguagem dos corpos puros com um beijo cristalino, contudo, súbita dor lhe perpassou o corpo qual lâmina afiada, no leito e em Coimbra, ao mesmo tempo, El-Rei Afonso soltava um grito de dor, como se através do beijo o fel de Klingsor capturasse as suas presas subjugadas. Suspeitando da armadilha, Gonçalo sacou da espada e cerce decepou a cabeça da moura, que como cisne ensanguentado tombou logo avermelhando o lago. Um sonoro trovão atravessou os ares, no alto, o castelo de Klingsor chispava e lá dentro o velho mago salivava de ódio. Correndo até ao Arrabalde, Gonçalo mandou tocar a rebate e prestes todos os cavaleiros de Canaferrim a cavalo galgaram a serra a cercar o bruxo no seu antro. Ao falhar com Gonçalo, Klingsor perdia poderes e furioso ordenava aos elfos que marchassem contra os de Sintra, impotente, nada lograva, em Coimbra, também Afonso Henriques melhorava num ápice e resoluto pedia armadura e um cavalo, para pasmo do chanceler e das infantas. Já o tropel dos cavalos alcançava o castelo, com Gonçalo à cabeça, quando enormes labaredas invadiram as muralhas do tenebroso refúgio, o calor era tal que não puderam os do Arrabalde aproximar-se, qual Apocalipse em dia do Juízo Final.

Dias depois, apagado o fogo e assaltado o antro do mago, nem sombras deste ou vestígios de que alguma vez ali houvesse estado. Gonçalo, da barbacã olhou a vila, cá em baixo, alheios, laboriosos mouros lavravam as terras, o mar revolto ao fundo marcava a fronteira dos do Arrabalde. Um mensageiro a galope chegava entretanto à vila, anunciando o recobro do rei, feito saudado com o repicar de sinos. Num momento benfazejo, o anel de Urraca caíra-lhe do dedo,  estava também ele livre agora para a defensão do Reino em temor a Deus.

Anos mais tarde, Gonçalo partia para os Santos Lugares, herói em Éfeso, guerreiro em Gaza, tornando à Pátria, foi elevado a alcaide de Sintra, morrendo de provecta idade. Em silenciosas noites de luar, alguns juravam avistar por vezes o vulto de Klingsor errando na floresta e jurando vingança, na Fonte dos Passarinhos um circunspecto cisne aguarda ainda hoje desatentos visitantes em dias de nevoeiro.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:59

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