por F. Morais Gomes

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Jul 11

Telefonar ao Rui, porque não? Fazia meses que não se viam, o novo emprego em Almada afastara-o, nem Facebook nem um SMS, a voragem dos dias ia deixando a velha amizade pelo caminho. Será que ainda há amizades, não sobrará apenas a necessidade de ter pessoas em volta, rodeando imagens e não pessoas de carne e osso? Filipe descrera já da verdadeira amizade, os silêncios de Rui, seu velho companheiro eram o desgosto mais recente, afinal as coisas apenas pareciam durar enquanto durasse o tempo dumas rodadas ou enquanto não se partisse para melhor, onde os vultos bons dos dias maus só lembram a existência desses dias maus, mesmo quando têm gente boa dentro, firme e leal.

Filipe sempre estimara os amigos, todos, dos dias bons e maus, até porque quando viessem os bons haveriam de celebrar e abraçar-se como sobreviventes dos tempos de chumbo, sempre acreditara nisso. Mas não. Aquilo que para ele era amizade para outros não passava de rotina, do tásse bem de figurantes na espuma dos dias. Rui arranjara namorada, não mais voltara a ligar, apesar das promessas de lealdade e companheirismo sem nódoa, sumira, assim, como se os anos de nada servissem e o velho amigo fosse agora igual ao cliente do café que todos os dias à mesma hora lia o jornal e que já era familiar também.

Absorto e sentado numa rocha na praia, Filipe saboreava o silêncio, esse sim, verdadeiro, só dele, cansado do mundo, de ilusões.  Envelhecia-lhe o corpo, e se sempre procurara manter o espírito jovem e crédulo, tinha de admitir que assim não era já. Começava a ver mal, ele que sempre se metera com os “caixa de óculos”, a não distinguir as letras do jornal. O álcool, antes libertador, era agora castigador e pesado, bebidas brancas nunca mais, que delator o fígado já se queixara, as caixas de Ben-Uron antes apodrecendo no armário da cozinha tinham agora saída frequente, uma por semana, logo chegaria a rebelde próstata, os colegas no emprego iam avisando, a vida a estreitar caminhos e a fechar portas. Pequenas por enquanto, logo farmácias substituiriam os bares na busca de bálsamo para o corpo e anestesia para a alma.

O mar era uma coisa estranha. Poderoso mas estranho, à falta de se poder domar, contempla-se, como que o querendo amaciar. Apático, Filipe olhava ao fundo e qual diaporama via o seu passado em filme, reflectia como nos seus quarenta e sete anos já vivera várias vidas, como as do gato, todas diferentes, sempre nela entrando renovados personagens, histórias, amizades e logo sem dar por isso, encerradas em capítulos estanques, até que outro capítulo se abriria e de novo tudo começava. E ele, ingénuo, incauto, voltando a dar o benefício à Vida e esta a jogar às escondidas, sempre com os mesmos personagens mas estas com caras novas, diferentes roupas, geografias recentes. Idiota, nunca mais aprendia a não cair na ritual armadilha, a acreditar em desacreditar das pessoas, a limpidez da verdade vertida na intermitência da farsa.

Mirou o telemóvel e correu a agenda com o cursor: o Rui, a Susana, o Beto, a Maria Madalena, números dantes sinal de alegria e festa, milhentas vezes tocados para cá e para lá, agora arquivo silencioso e morto, estranho, o Rui que diariamente falava pelos cotovelos até o seu número esquecera já, recordava-o agora, relendo, melhor seria apagar, virar a página.

Era um lamecha. Crescido nas festas de garagem e nas promessas de amanhãs cantando, tardio crente na amizade do tirar a camisa ou do largar tudo para acorrer aos “nossos”, sagrados, via-se agora só. O mais perturbador é que se sentia bem assim, couraçado, protegido de novas traições, ausente mas presente para si, nunca como agora apreciara tanto a solidão, ele que a receara em tempos. Os da sua geração saltitavam do dentista para o centro de saúde, caseiros e sem conversa, vencidos da vida e chatos, neles revia a sua juventude, mas pouco lhe diziam, sombras nimbadas mas etéreas, arquivados no passado onde pertenciam, no álbum, guardadinho, tesouro intransmissível, património de baú. Aos recentes agradava-lhe a juventude, os sonhos, o poder ser paternal e ao mesmo tempo irmão mais velho sem paternalismo, companheiro cota e protector. Tudo era efémero, porém, inquieto olhava em volta e tudo surgia fugaz, sem futuro, todos amargamente sem futuro, vencidos da vida e sem vida, arrastados pelas mesas dos cafés ou como zombies deambulando pelos shoppings ou no libertador calçadão da Praia Grande.

Em silêncio, foi até ao Angra, como sempre beberia a fraternal cerveja e puxaria dum papel a registar palavras que logo jorraria fora, com os guardanapos já rasgados teria hoje por certo um livro já escrito, até chegara a pensar num título, Diário dum Guardanapo sem Futuro, psicanálise do fim da tarde, com mar em fundo. O empregado da esplanada era da velha guarda, “amigo”, se amigos são todos os que ficaram rindo na foto, prova morta dum passado a sépia. Não há amigos. Há momentos. Amigos talvez fossem os que por acaso estavam quando o flash disparou. Capturados. No passado. Presos.

Sentia que algo se perdera e também ele por aí se perdera, outros também, e curioso é que ninguém se ousava encontrar, seguindo obedientes o argumento dum filme já escrito de onde só se regressa em flashback. Filmes demodé, de final feliz, de vidas desejadas não vidas vividas. Cinemas Paraíso.

Olhou para o telemóvel, terminou a cerveja, e sem hesitar apagou o nome do Rui da agenda. Mais um. A vida é uma agenda em permanente actualização.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:28

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