por F. Morais Gomes

16
Jul 11

-“Joana”…- Foram as ultimas palavras de Delfim Mourão, em torno do leito de morte familiares do velho advogado de Sintra entreolhavam-se. No momento em que partia do seio dos vivos fixara o tecto do quarto, já partindo, e balbuciara esse nome, nenhuma parente ou amiga conhecida tinha tal nome próprio. Quem seria Joana?

Delfim Mourão, oitenta anos, fora proprietário agrícola nos anos setenta, com a emergência da urbanização já no outono da vida conjugara o seu próspero escritório com negócios no imobiliário. Lido e viajado, nunca fora um pato bravo, dinamizara mesmo uma fundação de estudos históricos, que anualmente atribuía um prémio com o seu nome. Um antigo presidente fizera-o comendador no 10 de Junho. Deixava Matilde, devotada esposa de cinquenta anos e três filhos, nenhum seguira Direito ou os negócios. Flávio era jornalista, David agente de seguros, António vivia na Holanda onde abrira um atelier de design.

Os últimos dias aceleraram um cancro do cólon devastador. Delfim sabia, conformado fizera testamento e enquanto as forças deixaram fizera um roteiro sentimental pelo seu passado: a vinha de chão de areia em Fontanelas onde seu avô Manita cultivara o guloso ramisco; a Sociedade União Sintrense, onde muitos escudos deixara ajudando a velha colectividade; com os filhos e netos haviam feito um almoço, que todos adivinharam ser o último, no João Padeiro, em Nafarros. Filantropo, causídico, vagamente tido como mulherengo na mocidade, Sintra perdia um valor e uma referência.

Joana… Flávio, o mais velho estranhou-lhe as últimas palavras. Depois do enterro, largamente chorado e participado pelas autoridades, feitos os discursos pesarosos pela perda irreparável, Flávio recolheu-se na casa de Nafarros, capturando com o olhar cada pormenor e cada objecto, como se todo o seu passado ali estivesse e como ao velho Delfim deixasse de vir a recordar, posta que fosse a venda da casa. A mãe não queria lá continuar, as memórias esmagavam, cinquenta anos pendiam daqueles retratos e trepadeiras, o baptizado de António, a formatura de David, que depois deixaria Económicas de lado, a morte da avó Ermelinda.

Numa gaveta da velha secretária de bilros, onde pontificava um busto da República oferta de Salgado Zenha, velho vizinho e amigo, jaziam cartas amarelecidas trocadas com José Alfredo, o velho escriba de Sintra, um poema de Francisco Costa, uma caricatura sua feita pela Maria Almira, com uma carinhosa dedicatória no verso. A casa cheirava a cera, forte, daquela cera que transporta para passados de canjas de galinha com um ovo dentro, gemadas de açúcar, cânfora e naftalina nos móveis para castigadoras expulsar as traças. Cheiros datados, como os musgos da parede, certificação de vetustez e passado, os renovados ninhos de andorinhas no beirado, anualmente arribando nos idos de Março, sinal de vida neste caso e de renovação.

Delfim Alves Mourão tivera uma vida austera. Liberal na política mas conservador nos costumes, poucas vezes se lhe vira uma lágrima, uma palavra desalentada, era uma força da natureza. E um asceta também. Não bebia, anualmente ia para as termas, já depois dos quarenta, frequentemente escutava Brahms numa velha grafonola ficando largos minutos mirando a serra, sobretudo nos dias cinzentos, com a neblina a enevoar os cumes e recolhendo os palácios numa dimensão irreal onde eles efectivamente pertenciam. Vendo o filho absorto na leitura de papeis do pai, Matilde Mourão, ainda combalida pela perda, juntou-se-lhe no escritório, instintivamente mãe e filho acariciaram-se, uma foto na parede de toda a família testemunhava para a eternidade três gerações de Mourões, com os patriarcas ao centro, foto do velho Granja, devidamente assinada como era bom tom. Flávio manteve-se uns instantes em silêncio para logo tentar saber mais sobre o mistério que o atormentava:

- Mãe, que Joana era aquela que o pai mencionou antes de fechar os olhos?

-Não sei, Flávio, não sei. O teu pai conhecia muita gente, e naquela altura a bem dizer estava já delirando. Alguém do passado, uma cliente…- Matilde já se preparara para a perda, há meses que o Dr. Botelho a desenganara, os tratamentos no IPO haviam parado, não adiantariam. Flávio manteve-se nostálgico alguns segundos, e voltou à carga:

-Diga-me. Acha que o pai foi feliz?

Matilde fez um sorriso esfíngico e saiu para o quarto, deixando uma frase enigmática:

-“Nada de precioso é transmissível. Uma vida feliz é um segredo perdido”

Flávio fechou a gaveta, olhou uma última vez para o retrato de família na parede do escritório e saiu a tomar ar, breve teria de voltar para o jornal e o quotidiano de mundos efémeros e voláteis. Numa prateleira da estante recheada de clássicos e manuais de Direito, uma foto a sépia fazia de separador ao centro dum velho livro. Sorridente prisioneira num passado distante, ciosamente guardada entre letras de um romancista francês, a foto risonha e despreocupada de Joana Travassos, a primeira paixão de Delfim ali dormia na obscuridade, cheirando a mofo, arqueológico testemunho de uma das várias vidas de Delfim Alves Mourão, ilustre causídico de Sintra.

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:16

Julho 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

12
13
15

23




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO