por F. Morais Gomes

24
Jul 11

O Verão em Sintra era sempre um projecto de Verão, noites cacimbadas, o glaciar da Praia das Maçãs para descobrir, a nortada agreste e certa, soprada desses Açores desmancha-prazeres. Quando se está em Sintra, está frio, quando se volta a Lisboa anseia-se pela rápida fuga desse inferno marroquino, tórrida África com Torre de Belém dentro. Não havia meio termo. Gilberto pensara em Albufeira, a doença da mãe aconselhava a ficarem por perto, há vinte anos que não veraneavam na casa de Colares. O sítio pouco mudara, o Pomarinho, os patos no rio, agora sustido na estival represa, o quiosque dos jornais para o diário abastecimento de notícias com que se entreteriam as meias de leite com torradas no Cantinho da Várzea. Os plátanos junto à adega, que tanto barulho haviam gerado, lá estavam, renovados, tudo nos seus lugares, o Miguel Esteves Cardoso, recente morador na zona, escrevia agora esotéricos monólogos sobre couves, nabos e outros magníficos tesouros do mundo das hortaliças, a sua fase bucólica pós-menopausa, por certo. Nunca o vira pelos cafés da zona, pelo Público se sabia por ali andar em transumância, ia-o seguindo ao pequeno-almoço na coluna ao lado do Bartoon.

Colares conservava aquele ar anos cinquenta, carente de obras, chalés onde o dinheiro fugira ingrato para outras bandas, pérgulas a carecer de pintura, jardins irregulares e selvagens onde  aloés e sardinheiras imutáveis cresciam há muitos anos. Apesar do tempo, pouco mudara, melhor assim. A praia denunciava um ar decadentemente suave, amontoado branco de casas desordenadas, de várias épocas e cada vez piores gostos, o pátio do Búzio deprimia pelo dissonante  quintal das traseiras sem jeito,  que saudades do velho barracão do cinema, dois filmes, cinco escudos, a Xana pasmara de ali ter havido um cinema. Mas houve. E o Quivuvi, e o Casino, e a Concha, e o Bibió com as bandejas do sr.Rui, e o Xiripiti junto ao Neptuno, e a parafernália de baldes e pás para as ruidosas construções na areia. Gilberto tinha nostalgia desses tempos, outra encarnação, talvez por os saber desaparecidos veraneava mais noutras bandas, menos epidérmicas e com menos passado, aos miúdos apenas chamara a atenção venderem-se pizzas, e o Maçãs, onde com novos amigos do Banzão curtiam agora os sábados à noite.

O escritório fechara em Julho, Gilberto, para lá dos cinquenta, com os seus calções verdes e panamá azul enterrado na cabeça, diária e religiosamente dava a volta à praia depois de se abastecer de notícias no quiosque de Colares, familiar,  o velho Alberto do Búzio arrastando décadas de praia lá estava, sentado junto às sapateiras e robalos, o eléctrico partia e chegava rangendo como nos velhos tempos, Gilberto nunca mais nele andara, perdera a piada, com a idade já não podia ir no estribo a roubar fruta das árvores, os carros  acelerados na estrada ao lado não seduziam.

A praia perdera carisma,  prédios plantados na Tomadia a lembrar a Quarteira de mau gosto e espetados a ferros, até lojas chinesas havia já. O vento, esse, familiar, continuava o mesmo, que saudades da velha das bolas de Berlim e das batatas fritas Ti-Ti. Em tempos jogara futebol no recinto da praia, agora sintético, alguns velhos amigos ainda por lá andavam, barrigas de cerveja e carecas recentes, sempre jovens uns para os outros, o passado logo celebrado com uma amarela fresquinha a cada reencontro: o Tavares vivia em Inglaterra, dois putos já casados, o Adriano morava em Janas e era bate chapas, ele, como veraneante, sumira uns bons anos, gestor numa empresa informática, os anos das vacas gordas mais em Ibiza ou  no Algarve.

A casa de Colares levara obras uns anos antes, janelas, esgotos, churrasqueira nova, pouco restava do alçado à Raul Lino construído pelo pai nos anos sessenta, memórias, sim, muitas, o mundo era outro porém, os filhos dos velhos amigos adultos e feitos, os pêssegos e peras de vez sumidos, até o pão quente de Nafarros às cinco da manhã, após noitadas heróicas, reconfortante a fazer lastro acabara. Era bem diferente, nesses tempos, a aventura de deixar Lisboa para dois meses em Colares, qual viagem ao interior profundo, os cobertores, o fogão, as compras frescas na praça de Sintra ou na feira de S. Pedro ao domingo, galinhas e coelhos vivos, uvas, pão de Mafra a estalar. Agora eram as romarias para o shopping, industrial, o anódino código de barras, algumas tias renitentes haviam inventado o  mercado de frescos em Almoçageme, aí aos sábados seriam de novo chamadas “madames” e hierarquizadas as compras, nada que tivessem na caixa do hipermercado, como eram engraçadas com as unhas pintadas de vermelho vivo simulando sabedoria a escolher os rabanetes e melões que velhotes, agora rebaptizados de produtores biológicos, vendiam à beira da estrada.

Gilberto viera por quinze dias mas o verão chocho e avaro em sol mal o tirara de casa, lendo e tratando da relva. Até o calor a maldita troika levara, canibalizando o sacrossanto verão lusitano, pensava. Como a maioria, trocara o lavagante pelos percebes, James Marten’s nem ver, diabetes oblige, de quando em vez uma salada de polvo ou de ovas acompanhava a fresquinha da tarde. Descobrira uma moqueca de camarão num restaurante da praia, a repetir, os dias iriam correndo entre a leitura e o portátil e vespertinos passeios no calçadão da Praia Grande. No fundo,vivia tranquilo. Cortara Cancún e o resort, os anos despreocupados iam agora distantes, estava em casa, afinal, navegando seguro num passado que nenhum spread ou rating poderia apagar. Afinal, quem tem saudades do Inverno, sempre passa o Verão em Sintra, não é verdade?

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:59

Peste e sedição assolavam o Reino nos fins de 1382 quando João das Regras, doutor em Leis e brilhante discípulo de Bártolo, regressou a Portugal, aboletando-se em casa do padrasto, o velho Álvaro Pais, antigo chanceler, agora padecendo de gota. D.Fernando finava-se, a rainha Leonor passava por barregã de Andeiro, conde de Ourém, a princesa Beatriz, de apenas seis anos, contraíra casamento com o rei de Castela, iam agitados os tempos em Lisboa, João pensava se melhor não seria ter-se ficado por Bolonha.

O padrasto, moribundo, empenhava-se na perda de Leonor Teles, perigava o trono com os intentos de sucessão de D.João de Castela, a que acresciam as pretensões dos filhos de Inês de Castro, Álvaro Pais, velho português, apoiava para o lugar o discreto Mestre de Avis, filho de D.Pedro, mas bastardo de Teresa Lourenço. Ainda em 1383, na sua torre de Lisboa Álvaro convencera o irmão de Leonor, Afonso Telo a conspirar contra Andeiro, e por essa via contra a irmã, na sua casa, além de João se reuniam Rui Pereira, tio de Nun’Álvares, João Esteves de Azambuja e Martim Afonso da Maia. Primeiro passo: convencer o Mestre a matar o Andeiro, que por completo manietava a rainha Leonor, no paço e na alcova. Indeciso e receoso, o jovem mestre apresentou-se a Leonor Teles, a viúva recebeu-o, Andeiro estava na sala. Titubeante, ainda receou, mas cruel o punhal de D.João tirou a vida da erva daninha, saudado na rua pela turba, que a invectivava como adúltera e bandeada com os de Castela.

João das Regras manteve-se distante, recém-chegado de Bolonha, idoso e manco mais ágil parecia Álvaro Pais, empenhado em impedir o cada vez maior jugo castelhano. Depois de morto o Andeiro, juntou o povo no Rossio, aclamando o partido do Mestre,  doente,  propusera até a Leonor Teles o enlace com o Mestre  para evitar um conflito. Retirada para Alenquer, Leonor repudiou-lhe as ideias, Beatriz seria rainha e ela regente, o mestre, pusilânime queria sair para Inglaterra. Morto D.Fernando o reino parecia a ferro e fogo, com os nobres torcendo por Castela e por D.Beatriz, a herdeira de sangue, só frei João, o santo eremita  a pedido de Álvaro Pais impediu D.João de partir de vez, assustado.

Havia que repor a ordem. João das Regras, mais sereno que o padrasto, sugeria a imposição da lei, um governo rebelde foi então criado sob sua direcção, brilhante jurista e estrangeirado. O arcebispo de Braga, também homem de leis, Rui Pereira, João Gil e Martim Afonso da Maia compunham o grupo, o inglês Percival substituía D.Judas na guarda do Tesouro. O rei de Castela espreitava porém, e entrado pela Guarda veio reclamar os direitos da esposa. Desentendendo-se com Leonor Teles, enviou-a para Tordesilhas, donde mais não saiu. Lisboa resistia, contudo, durante meses pôs cerco à cidade, só o alastrar da peste negra provocou a debandada castelhana.

Quase dois anos haviam passado desde que D.Fernando se finara e o Reino permanecia em sobressalto, Nun’Álvares no Alentejo repelia os de Castela, herói da peonagem nos Atoleiros, impacientava-se com a delonga em colocar o Mestre no trono. Decidido, João das Regras entendeu então chegado o momento de reunir as Cortes, seriam em Coimbra, em Março desse ano de 1385

O Mestre chegou já rei na vontade do povo e dos homens dos ofícios, também o clero estava por ele, apoiante de Urbano VI, que ocupava o trono de Roma, ao invés do rei de Castela, que seguia Clemente VII, o anti-papa de Avignon. Mais renitente estava a nobreza, o senhor de Sintra, Henrique Manoel de Vilhena e outros tomaram partido por D. Beatriz, também o alcaide de Coimbra  os Vasques, senhores da Beira, os Melos optavam por tal solução. Era a vez de João, o homem de Leis, alto, magro, envergando a loba negra dos letrados entrar em cena. Duravam as sessões atribuladas um mês já quando finalmente usou da palavra, Coimbra calou-se para ouvir o discípulo de Baldo:

-Nobres procuradores, eminências, venerandos alcaides, supõem muitos nesta sala não existirem herdeiros do trono de Portugal. Há-os, e muitos! A dificuldade é escolher um entre tantos!- João fez silêncio e depois de um compasso, olhando a assistência continuou:

-O primeiro é El-Rei de Castela!- A sala ficou gelada, como podia o enteado de Álvaro Pais, defensor do Mestre, ter tal ousadia, com o povo todo contra os castelhanos? Sagaz, seguindo o seu plano, João das Regras continuou:

-El-rei de Castela é co-irmão do amado e defunto rei D.Fernando, e legítimo esposo de sua filha, a infanta D.Beatriz, e logo também ele co-herdeiro, dada a menoridade da dita senhora. Também os infantes D.João e D.Dinis, filhos de el-rei D.Pedro e da senhora D.Inês de Castro são de estirpe real. São quatro pois os putativos candidatos. E, ironicamente, o reino sem rei, eminentes procuradores! Com tantos herdeiros, e tão dignos, qual deles deve cingir a coroa de Portugal, segundo as regras do bom Direito? Para vos poupar trabalhos, vos digo, nobres procuradores, estão vagos estes reinos, e nenhum dos que nomeei os pode herdar!. A sala permanecia em silêncio, o Mestre, num canto, nada dizia, embevecido com a eloquência de João. Demolidor e certeiro, a sentença não tardou:

-Nulo é o casamento d’el-rei D. Fernando e de D. Leonor Teles, por ser ela anteriormente casada e serem ambos parentes. E assim fenecem de lei os direitos de D. Beatriz e de Sua Majestade o rei de Castela, seu esposo. O qual, repudiando a sagrada autoridade do Santo Padre Urbano, se tornou herege, ameaçando estender a excomunhão a este reino, se porventura de Direito o herdar. Restam, contudo, os infantes D. João e D. Dinis, filhos do saudoso rei D. Pedro e da malograda D. Inês. Também aqui subsistem dificuldades. Se é certo que D. Pedro sempre alegou a seu pai ter casado em vida com a dita senhora, onde foi tal união celebrada? Que provas há que tal enlace tenha ocorrido? - na assistência, Diogo Lopes Pacheco, um dos carrascos de Inês anos antes e entretanto reabilitado, já velho, assentava com a cabeça, apoiava agora o Mestre de Avis.- Em que dia, em que sé, quem foram as testemunhas? Não, meus senhores, nada existe, pois nunca foi celebrado semelhante casamento! E mesmo a ter ocorrido, tantos seriam os impedimentos que nunca o Santo Padre o poderia validar!. São pois bastardos e naturais os filhos d’el-rei D. Pedro!

A sala estava perplexa, D. Lourenço Vicente, o arcebispo de Braga exultava, também ele um homem de Bolonha, alguns procuradores do Porto esbracejavam, ante o impasse. João das Regras, tecendo o seu novelo, nada mais disse, a sessão terminou ali, para só ser reatada passados dias.O plano urdido fazia o seu caminho.

Na reabertura das Cortes, trazia um maço com provas: uma carta de D. Pedro ao Papa pedindo para desposar Inês, a que este nunca respondera.Provas de que os filhos de Inês haviam pegado em armas contra o Reino, contra ele se colocando. Achando o momento propício, qual Cícero no Senado romano, João atirou o laço com que em definitivo arrebataria a assembleia:

-Venerados procuradores, quebremos o impasse que tanto trás em cuidados este Reino e aclamemos pois como nosso rei aquele que cumpre aclamar, para não cairmos na sujeição dos nossos inimigos e heréticos! Aclamemos como rei a D. João, mestre de Avis, filho natural do falecido senhor D. Pedro, defensor e regedor deste Reino!

A sala, rendida, levantou-se e gritou arraial pelo novo rei, rei do povo alçado pela rua, em chusma e ruidosos correram ao paço onde nesse dia se encontrava e ali mesmo lhe conferiram a dignidade régia. O Reino ganhava um rei, o povo, um comandante, os sinos, ruidosos, repicaram em todas as igrejas. Satisfeito e muito saudado, João das Regras fora nesses dias pela palavra a espada da lei e a voz da razão. Atacado pela gota, em Lisboa, o velho Álvaro Pais, ausente de Coimbra, regozijava-se, orgulhoso do enteado e esperançoso no novo monarca. Por muito tempo ainda, e apesar de ainda irem falar as armas em Aljubarrota, o Reino de Portugal permaneceria em mãos portuguesas.

publicado por Fernando Morais Gomes às 01:05

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