por F. Morais Gomes

31
Out 11

    

Emília fora despedida, com o marido entrevado depois duma queda da grua e um filho autista, não se podia dizer que a vida lhe sorrisse. Ainda jovem, depositara esperanças em ser professora, desiludida, terminara numa fábrica, fazendo um trabalho rotineiro e mal pago. A fábrica faliu, deixando salários por pagar e  contas a acumular. Moravam em Lourel, aziaga terra entre dois cemitérios, como costumava dizer em momentos de depressão. Ainda se lhe saísse o Euromilhões! Jogava todas as semanas, mas a sorte nunca lhe sorrira.

Naquela sexta-feira, jogou os seis euros do costume no café do Baptista e seguiu para casa. No dia seguinte ao sorteio buscou no jornal a chave premiada, geralmente origem de nova decepção, mas ao procurar pelo registo, não o encontrou. Cartões, facturas para pagar, o passe, nada! Deixá-lo, não iria sair, de qualquer forma. Lembrou-se que tinha apostado em números seguidos, 6-7-8-9-10, e nas estrelas, no 4 e no 5. Conferindo a chave, os números premiados eram 6-7-8-9-10 e as estrelas o 4 e o 5, a televisão anunciava haver apenas dois  premiados, um em Portugal, outro na Bélgica, cinco milhões para cada um.Emília quase teve um enfarte! Eram os seus números! Voltou a casa, e esvaziou a mala, a carteira, as gavetas, até o contentor do lixo. A sorte passara à porta e jamais veria o dinheiro que mudaria a sua vida.

No dia seguinte, Dia de Todos os Santos, como manda a tradição,rebanhos de miúdos ruidosos de saco de pano na mão, correram as casas pedindo Pão por Deus, na busca da romã, língua-de-gato ou chocolate que os vizinhos oferecessem, como acontecia de geração em geração. De porta em porta, os mais velhos guiavam os mais pequenos, tocando as campainhas e repetindo a cantilena que abriria as portas naquela espécie de Natal antecipado. Pão por Deus! Pão por Deus!

Filipe, com o Joãozinho pela mão foi também, a mãe deixara, na condição de não irem para longe e estarem em casa ao meio-dia. Com o saco quase cheio, bateram à porta da Emília, mais três casas e terminariam.

 -Pão por Deus! –iam gritando, com os os cães a ladrar à passagem daquela desusada procissão.

Ainda em choque com a história do Euromilhões, Emília queria sossego, e muito menos estava com paciência para miúdos:

-O que é que querem daqui? Julgam que isto é a Mitra? Tomara eu ter para mim, quanto mais para vocês estragarem. Os vossos pais que vos aturem! –reclamou, mal-humorada. E se não se vão já daqui embora, largo-vos o cão, vão ver!

-Pronto, minha senhora, vamos já embora!

À saída do quintal, Joãozinho deu com os olhos num papel branco caído atrás dum vaso. Na inocência dos seus oito anos, não percebeu o que era, e chamou a Emília, que estava ainda à porta, esperando que fechassem o portão do quintal.

-Oh minha senhora. Quer que lhe ponha este papel no lixo?

-Qual papel? Ainda aí estão? Com um raio, nunca mais se vão embora! –arengou, impaciente.

-Isto! -e correu a entregar-lhe o papel achado junto ao vaso.

Milagre de todos os santos! Era a premiada chave do Euromilhões, os cinco milhões da felicidade. De olhos esbugalhados, Emília soltou um grito emocionado:

-Virgem Santíssima! Ai meu Deus, que me dá um enfarte! Alberto! Alberto!

Joãozinho  não entendeu a algazarra, a mulher não só não lhes dera nada, como era maluca, pensou, e afastou-se para ira ter com o irmão, a volta do Pão por Deus estava quase completa.

Junto à porta, Emília abraçou o marido, tanto ria como chorava, num chorrilho de emoções incontroladas. Vendo que o pequeno sumia na esquina, correu no seu encalço:

-Ó filho, vem cá, não te vás embora!

Deu-lhe dois beijos lambuzados e correu à cozinha, donde três pacotes de bolachas e um Toblerone voaram para o saco, repentinamente pequeno-E para a semana vem cá ter comigo sem falta, ouviste? Já tens  Playstation?

Maria Emília mora agora numa vivenda em Colares, com um jardim tratado pelo senhor Isidro. O marido montou um negócio, foram de férias às Canárias e o pequeno Tiago anda agora numa escola de educação especial. O resto do dinheiro, é para assegurar o futuro.

Um pequeno papel branco pode mudar o papel de muitas vidas. Para o ano, e por alguns anos ainda, lá estará o pequeno João com o seu saco de pano, patrulhando as casas daqueles pais natais sem barba branca, enchendo o saco de línguas-de-gato e rebuçados coloridos, proferida que seja a palavra mágica: Pão por Deus!      

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:26

29
Out 11


Fim do verão prolongado em Sintra,  e tempo dum já esperado inverno, finalmente a natureza retomava rotinas e cheiros de finais de Outubro. Para a velha Gracinda, médium de Galamares e por muitos levada a sério em conselhos e mezinhas, os espíritos dos mortos do ano voltariam nessa altura, predadores dos vivos para neles viver no ano seguinte, dissera-o à Virgínia, durante uma sessão espírita onde por mil euros a pusera a “falar” com o defunto Inácio. Zombando mas ainda assim cautelosos, os homens temiam sempre esses dias de Outubro, refugiando-se na água pé e castanhas, bem mais espirituosos que os propalados espíritos agoirados pela velha, perita em pragas, em tempos providencial parteira da aldeia. Chegava o Dia de Todos os Santos e o dia de fiéis defuntos, os velhos rumariam aos cemitérios, os mais novos, retomando a tradição pediriam pão por Deus no renovado e ruidoso ritual anual.

Na noite de 31 de Outubro, agora também recente e celebrado Halloween, Hugo e Jaime montaram-se na motorizada a caminho duma festa na garagem da Vera, em Cabriz, combinada com os amigos do liceu. Vestidos a preceito, de vampiro, abóboras com velas adornavam-lhes o muro da casa, antevia-se uma noite de copos, fria mas aquecida pelo álcool e algum “bruxedo” mais noite dentro, depois de providenciais dentadinhas no pescoço. Estava frio e sem vivalma, animados, tomaram o caminho do Torrado, nessa noite silencioso e perturbador. Apenas alguns rotweilers ladravam, à passagem, sentado atrás de Hugo, Jaime com uma capa preta acossava ainda mais os cães inquietos, segurando as garrafas do vodka com que a festa enfim animaria. Junto ao moinho em ruínas, a scooter em segunda mão acusou o peso em excesso e qual burro velho “pifou”, ainda metade do caminho não estava percorrido.

-Bolas, é preciso azar, meu, esta treta não quer andar mais!- rosnou Hugo, os olhos pintados de negro, mais parecia um Zorro de segunda classe, montado numa pileca cansada - acho que por hoje não vai dar mais! - conformou-se, dando um pontapé na roda da velha motorizada.

-Fogo, meu, ganda cena! Vamos a pé, daqui lá é pouco mais de meia hora! Amanhã a ver se o Leonel vê o que se passa! Bora!

Encetado o caminho a pé, ainda mandaram um SMS a avisar do atraso, nenhum dos amigos estava de carro que os pudesse apanhar. À passagem pela casa ao abandono do velho Vicente, um cão preto, rafeiro, saiu-lhes ao caminho. Manso, escanzelado, ali ficara desde a morte do velho amolador três meses antes, vadiando e ladrando aos rapazes, conhecidos de longa data:

-Tejo, anda cá!- gritou o Jaime- vai para dentro, meu, andas às cadelas? Vai, vai!

O cachorro, sem dono agora, ainda os acompanhou uns metros. Em noite sem estrelas e falhado o candeeiro já perto da Várzea, um repentino breu envolveu-os, entre a folhagem densa e as árvores frondosas que antecediam a povoação. Ao longe, uma luz na casa da velha Gracinda, subitamente apagada, a velha recolhia-se por certo, no meio das suas velas e mesas pé de galo.

Um pouco mais à frente, uma voz roufenha cantava um velho fado de Marceneiro. Era o Seca Adegas, bêbedo como sempre, a pé para casa. Um vulto indistinto seguia-o a poucos metros, cambaleante mas em silêncio, à primeira não vislumbraram quem fosse, algum companheiro de copos, Seca, borracho como todos os dias, pronto a recomeçar no café do Sérgio na manhã seguinte. Ruborizado, cantava, com voz de cana rachada, à vista dos dois jovens mascarados, ensaiou um ar de surpresa e empunhou a garrafa de tinto como se fosse uma espada em riste:

-Quem são vocês os quatro, homens de Deus? Se é para roubar vêm enganados, daqui não levam nada!

-Pôe-te lá manso, ó Seca, somos nós não nos reconheces?

O velho ébrio cerrou os olhos e agarrou os dois pelo ombro, mudando de atitude, o bafo a aguardente quase contagiante:

-Oi, rapaziada! Então onde é o Carnaval? Não pagam um copo aqui ao vosso amigo? Estou com uma sede danada, quase não bebi nada hoje…- arrastou a voz, completamente borracho

-Vai-te mas é deitar, meu!- afastando o braço do seu ombro, Jaime procurava libertar-se do bafo e do cheiro a bosta, não deveria tomar banho há semanas- então e esse aí quem é?

-Esse quem?- questionou meio zonzo o velho funileiro- não está aqui ninguém, só vocês!...- arengou

-Aquele ali, com um casaco pre…

Antes que terminasse a conversa, um objecto contundente tombou brutalmente sobre a cabeça de Jaime, decepando-a do corpo, deixando o resto do corpo a cair desgovernado, o fato de vampiro jorrando sangue na estrada de macadame. Hugo ficou gélido, Boris Karloff de ocasião disfarçado para o Halloween. Sem que o Seca Adegas reagisse, o vulto chegou-se à frente, para zona iluminada, boquiaberto, Hugo reconheceu o rosto desfigurado do Vicente, lívido, e coberto de terra, segurando um machado de cortar lenha. Atónito, esfregou os olhos, o Vicente morrera três meses antes, como podia estar ali.

Olhando quer o vulto do Vicente quer o alheado Seca Adegas, viu chegar ladrando contente o Tejo, a roçar-se no regressado dono. Sem dizer nada, desatou a fugir, a capa de vampiro ondulando, embrenhando-se no mato e deixando o corpo inerte do amigo na viela sem luz.

Ao passar pela casa da velha Gracinda, esta estava à porta, segurando um candeeiro a petróleo, como se já esperasse por ele. Com um riso aberto e sórdido, apontou-o com a mão enrugada e carcomida e sentenciou:

-Acreditas agora no regresso dos mortos? O Vicente veio buscar a sua presa. Para o ano, será o Jaime quem virá buscar a sua! E como quem lança uma praga rematou ameaçadora:

-Assim é, na Noite das Bruxas. Hoje e na noite dos tempos!- e voltando para dentro apagou a luz, desaparecendo na escuridão da casa isolada no Torrado.

Em Cabriz, os amigos do liceu já eufóricos com a vodka preta e à luz de velas, faziam a festa, divertidos. Vera estranhou a demora dos amigos, e comentou com Pedro, escondido atrás dum disfarce de Scream:

-Onde estarão aqueles dois? Já tinham tempo de cá estar, meu!

-Não te preocupes, já devem estar com uma de caixão à cova…

Lá fora, a serra vigiava perturbadora e a noite silenciosa escondia mais um crime de 31 de Outubro. Alheio e brincalhão, o Tejo ladrava às cadelas no caminho do Torrado…

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:43

23
Out 11


 

-Que chatice!- protestou Ana Maria a caminho do Instituto, maçada com a chuva persistente, ela bem sabia que aí vinha, fazia 5 dias que o forecast de satélite prognosticava o fim do verão anormalmente prolongado. Sismologista no Instituto de Meteorologia há 4 anos, cabia-lhe e a um pequeno grupo fazer a monitorização da actividade sísmica em território nacional. Na véspera, 23 de Outubro, domingo, apenas um registo insignificante, um abalo na latitude 36,96 longitude -13,58, magnitude 2.0 na escala de Richter, registara o sismógrafo do Instituto em Lisboa. Nesse mês, o registo mais forte fora dia 7, pelas 22h18m, 4.0 na escala de Richter, nos Açores, com epicentro a 50 km oeste-noroeste de Ginetes, em S.Miguel.

Aproximando-se mais um aniversário do grande terramoto de 1755, iria trabalhar na comunicação que faria na Gulbenkian, no dia 31, com a ajuda de Tomás Moreira, jovem e entusiasta colaborador,  um nerd, segundo a filha Bárbara, que tendo-se cruzado com ele uma vez logo o achou um chato, atrás duns óculos de massa e cabelo cheio de caspa. Nessa manhã, também Tomás chegou cedo, para alinhavarem a comunicação:

-Bom dia, doutora? Bela chuvinha, hã…Já cá faltava!

-Sim, ao menos já não teremos problemas com a falta de água em Bragança, espero, Tomás. Como estamos de comunicação?

-Tenho o powerpoint quase pronto, doutora- adiantou-se, terminando um croissant, querendo mostrar serviço- veja!.

Abrindo o computador foi passando uma sequência de quadros sobre o terramoto de Lisboa, explicando-os em detalhe:

- Em 1914, um americano, Harry Fielding Reid disse que a origem teria sido no Atlântico, a cerca de 100 quilómetros a ocidente de Portugal. Em 1940, um catálogo da sismicidade na Península Ibérica, de um autor espanhol, propunha uma zona um pouco a norte do Gorringe, através das cartas de intensidades dos danos. O Algarve, Lisboa, Sevilha e o Norte de África foram bastante afectados.Foi o Gorringe, a 200 quilómetros a sudoeste do Cabo de São Vicente e a 300 de Lisboa, que durante muito tempo concentrou as atenções. Esta montanha submarina tem 200 quilómetros de comprimento, está a apenas cerca de 50 metros de profundidade e é rodeada de planícies abissais que descem até aos cinco mil metros. E parece que tem estado activo, por estes dias, não tem vistos as notícias, de erupções submarinas nas Canárias, doutora?

-Sim, mas esses já são frequentes- desvalorizou a sismóloga- Se fossemos a levar a sério todos os abalos dos Açores, por exemplo, vivíamos em alerta laranja…

Compenetrado, Tomás continuou:

-É uma estrutura geológica que está numa zona crítica para a tectónica de placas, na fronteira entre as placas euroasiática e africana, que começa nos Açores e se segue com facilidade até ao Gorringe, mas aí, deixa de se perceber a transição. O traço da fronteira desaparece, porque passa a ser distribuído em várias falhas. O ponto onde se dá essa viragem é o Gorringe, por isso chamou tanto a atenção.Depois do sismo de 28 de Fevereiro de 1969, com uma magnitude de 7.5, passou a considerar-se que a origem do terramoto de 1755 teria sido a mesma. Ou seja, a sul do Gorringe, na Planície Abissal da Ferradura...

-Sim, Tomás,mas não esqueça que a chegada à costa dava tempos superiores aos dos registos históricos. Daí que se tenha vindo a eliminar esse local. Em 1998 apresentaram-se novas teorias em artigos no Journal of Geodynamics. O Nevio Zitellini, do Instituto de Geologia Marinha de Bolonha, descobriu uma falha geológica, a 100 quilómetros a oeste do Cabo de São Vicente. Chamou-lhe "Marquês de Pombal", num artigo publicado em 2001, foi essa a localização provável da origem do terramoto de Lisboa!

-O problema é que essa falha, com 60 quilómetros de comprimento, não chegava para gerar um sismo de 8,7 de magnitude, doutora. Mesmo se se rompesse todo o segmento do Marquês de Pombal, a energia libertada corresponderia a metade da do sismo de 1755. Há de certeza uma segunda localização! O Zitellini descobriu uma origem dupla para o terramoto: para ele, deveu-se a uma ruptura da Falha do Marquês de Pombal, em conjugação com o rompimento da crosta ao longo do banco do Guadalquivir.

Entrando nessa altura o doutor Guedes, outro cientista do Instituto, ajudou ainda mais à especulação, introduzindo nova teoria:

-Meus amigos, somos cientistas ou charlatães? É claro que o epicentro foi no arco de Gibraltar! Ali é uma zona de subducção activa, na qual um bloco de uma placa velha mergulha e, ao descer no manto, deforma a superfície. Acreditem, foi aí que nasceu o terramoto de 1755!.

Montada a apresentação, na tarde de 31 de Outubro lá apresentaram a comunicação. Bárbara, a filha de Ana Maria compareceu, sentando-se contudo longe de Tomás, que a aborrecia com as suas teorias sobre sismos e tsunamis. A sala estava composta, poucos minutos antes de subir ao palco o telemóvel de Ana começou a tocar, interrompendo a conversa com o prof. Jenkins, de Liverpool, uma autoridade mundial em tsunamis e orador essa tarde. Como não parasse o toque, do Instituto por sinal, acabou desligando o telemóvel.

A comunicação foi muito aplaudida, se bem que as várias teses de epicentro permanecessem irredutíveis. Eram oito horas, já noite, e dali seguiriam para um jantar com os convidados, portugueses e estrangeiros, na zona das Docas, em Lisboa. Chuvosa, a noite de Lisboa, saída a porta da Gulbenkian, tinha um ar pesado, uma claridade esquisita, mais chuva para o resto da semana, pensou Ana Maria, enquanto Tomás colocava um chapéu ridículo que fazia lembrar o Professor Pardal, neste caso mais Lampadinha que inventor.

Só chegados às Docas voltou a ligar o telemóvel. O Tejo estava revolto, e todos os restaurantes tinham recolhido as esplanadas. Procurou um telheiro e ao sinal de ligação, vários SMS foram despejados em cadeia, todos iguais:” Liga Instituto. Urgente”

-Nem a esta hora me largam!- protestou agastada, clicando as teclas para o Instituto, estavam lá o Guedes e o Vasco Pedroso, porque lhe ligariam a essa hora e em véspera de feriado? Estabelecida a ligação, o Guedes agitado e deixando escapar um arfar de pânico mal deixava entender o que dizia:

-Ana, onde estás?! Temos um caso grave, muito grave! O sismógrafo de Mafra indica actividade sísmica muito alta com origem em El Hierro, nas Canárias. Para cima de 8.5! É uma catástrofe! E foi dado um alerta de tsunami, em 90 minutos as ondas podem atingir a costa portuguesa…

Sem bateria, a chamada caiu, deixando Ana Maria atónita, com Tomás e Bárbara ainda a caminho, noutro carro. Olhando para o Tejo, a ondulação era mais forte agora, galgando a margem na Rocha do Conde Óbidos, invasivo, um abalo fortíssimo fez tombar um candeeiro a seu lado, abrindo de imediato uma grande racha no solo. Uma sirene do INEM ecoava ao longe, a onda teria chegado já a terra firme. Correu para o lado da estrada, subindo  o viaduto da Infante Santo, em baixo, carros jaziam esmagados pelo desabar de alguns prédios mais antigos. Ao longe, mastodôntica,uma vaga com mais de seis metros recortava-se por trás da Ponte sobre o Tejo, um cacilheiro para Porto Brandão viu mesmo ser sugado em segundos como casca de noz.

Em pânico, fugiu para a zona alta, a onda assassina e inesperada engolia já Alcântara e as Docas e contentores desgovernados entravam pelas ruas, arrastados pela força das águas. Ana Maria correu, sem olhar para trás, como  muitos outros apanhados no local,até que, predadora, a onda os capturou, furiosa e prepotente.

Quase trezentos anos depois, a Velha Senhora voltava a Lisboa, invasiva e diluviana. Presa num varandim, a pasta com a comunicação de Ana Maria ficou ondulando, quase desfeita, contendo o trabalho em powerpoint, agora definitivamente desactualizado.

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:41

21
Out 11

Omar chegara ao Al Andaluz pelo tempo das laranjas, passado o mar antes cruzado por Tarik e Tarif, para os arredores de Ushbuna (Lisboa) o mandaram, perto do mar e da montanha, enviado a Xintara(Sintra), terra de clima frio e solo fértil, urgia ocupar o qala’â, castelo defensivo no rochedo escarpado, vizinho de Ushbuna. Al Munim Al-Himiari, estudioso e introspectivo, seguiu-o no séquito, apontando notas e recolhendo plantas, mais dado às letras que ao uso da cimitarra. De Al-Batayaws (Badajoz) haviam partido ordens rigorosas, o rei Al Muttawakkil queria os arredores de Ushbuna protegidos, face à ameaça almorávida. Alheado, Al Munim, uma vez chegados, deteve-se contemplando a riqueza dos frutos, as violetas na serra, ou o âmbar recolhido na costa. O rei aftássida, de origem berbere, possuía já ligações a cidades próximas, ocupado o castelo impunha-se ocupar território, trazer noras e charruas, a palavra do Profeta e a obediência ao Corão nas terras dos infiéis kafirun.

Belicoso mas obediente, Omar instalou-se no qala’â,construído de soga e tissão, revestido por pedras argamassadas, dali se dominava o mar e Ushbuna, os campos e o povoado. Guarnições foram destacadas para Banu Qasim (Cacém) e para o  harmonioso vale das amendoeiras, o Qu’al-luz (Queluz), ao longo da antiga estrada romana. Sem grande ameaça, melhorou a mesquita no castelo, onde os fiéis acorriam ao chamamento dolente  do muezzin, mandou plantar macieiras e limoeiros nas várzeas envolventes, que se instalassem famílias e se ensinasse a Palavra. Al Munim, que desposara Fátima recentemente, instalou-se em Maçfal (Mucifal) local de frutos generosos e bom pasto para as alimárias, escrevendo, temente a Alá, grato pelas mercês conseguidas e em paz com os kafirun, fiel à jihad, não das armas, mas dos corações.

Omar, guerreiro das planícies quentes, tinha postura diversa. Aos kafirun idólatras havia que vergar, derrubar-lhes as estátuas e cumprir o testamento de Muhamad na hora da subida aos Céus em Al-Qous (Jerusalém).

Certo dia houve que castigar um kafir que roubara um alqueire de favas em Al Marje (Almargem), a sharia não deixava dúvidas: a mão havia de ser decepada, para que não repetisse, desobediente. Al Munim, já adaptado aos costumes brandos de Xentra, pediu perdão para o ladrão, fora para comer que roubara:

-Allah u akbar, misericordioso xeque Omar!- abordou-o no soukh  de Xintara, no mesmo dia- esse homem tem quatro filhos sem malga de couves ou um pedaço de carneiro, de férteis que são as terras, pouco dano terão feito as favas, por certo!

-As salaam alekum!- saudou o cadi, apressado- os anciãos não me perdoariam, Al Munim. Acaso dás mostras de ceder na nossa fé e desdenhar do ensinamento de  Muhamad, que Alá o guarde?

Al Munim hesitou em responder. Longe da medina africana e dos mullahs, tornara-se mais tolerante, após uns tempos em Xintara. Omar mandou buscar o kafir, e que lho apresentassem no castelo, um monte de favas o perderiam, assim dando uma lição aos demais e mão pesada para a justiça. O ladrão era um velho escanzelado, temente ao Deus dos hebreus, não comia havia uma semana, a mulher definhava entre palhas, acometida por febres. Omar olhou-o de soslaio, após o mirar de alto abaixo ergueu a voz e sentenciou:

-Respeitar o Livro Sagrado é o maior dever dum crente em terras de Al Andaluz, kafir!- gritou, para o velho acabrunhado- nunca ouviste falar na centésima nona sura do sagrado Corão?

O velho tremia que nem varas verdes, a um canto, Al Munim contemplava-o apiedado. Omar, garante da ordem e do Livro, levantou a voz e recitou a sura como se ele próprio fosse o Profeta, tal como a escutara vezes sem conta nas madrassas de Fez:

-"Ó incrédulos! Não adoro o que adorais! Nem vós adorais o que adoro! E jamais adorarei o que adorais! Nem vós adorareis o que adoro! Vocês com a religião de vocês e eu com a minha!" – e rematou, triunfante:

-A mão que rouba não mais deve roubar! É a lei dos justos! Entendes, kafir?

O velho tremia,com os olhos no chão, exposto no pátio do castelo de Xintara. Já Omar mandava que se cumprisse a sentença, decepando a criminosa mão, quando Al Munim se adiantou, respeitoso e ponderado:

-Alá, o misericordioso, que esteja guardado no paraíso, é exemplo de liberalidade para a humanidade. Perdoar é mostrar o caminho e abrir as portas do Céu!. Este homem tirou para comer, não por luxúria ou maldade, mas por fome e miséria. Faça-se a jihad salvadora, sim, grande Omar, mas tomando pela palavra  o coração dos incrédulos, e assim os kafirun destas terras melhor verão quem é o verdadeiro Deus, o Único, o Misericordioso! Não disse o profeta, que Alá o guarde, "vocês com a religião de vocês e eu com a minha?". E repetiu, em árabe, pausadamente.

Impressionado com a convicção de Al Munim e vendo a tremura do velho desvalido e esfomeado, Omar  acabou mandando que o levassem, sem o olhar de frente. Não ficaria sem mão, trabalharia porém na horta do cahrói de Al Marje a quem furtara as favas até que novo alqueire crescesse ao espoliado hortelão. O Al-Islam chegara a Xintara, novas gentes lavravam os campos, estudavam os astros, mas paredes meias com outros credos e outras palavras, do mesmo Deus, quem sabe, sabia ser tolerante nessa taifa, por vezes, assim convivendo alguns séculos mais à sombra benfazeja do altaneiro cala'â e do Crescente protector.

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:05

20
Out 11

7h30m, noticiário da manhã, a dívida, o desemprego, o desespero, assaltos. Os dias mais escuros, levantar, mais um dia de chumbo, cheiro a ovos mexidos na cozinha, o calor reconfortante do duche antes de Mafalda sair para mais um dia de aulas. No jardim, o cachorro ladra, arrastando um balde roubado à avó Ana, é um brincalhão o Google, irrequieto motor de busca, sobretudo em casa dos vizinhos. O padeiro chega, entrevado, com cara de poucos amigos, seis carcaças e um pão saloio, saudado pelo Google e outros cães desconfiados de padeiros.

Mimeticamente, as rotinas sucedem-se, cadenciadas e sem surpresa em mais um dia de Mafalda: a corrida atrasada para o autocarro das 8h25m, o jardineiro do vizinho, como sempre, a caminho do mata bicho, fantasmas enraivecidos ao volante, acelerando estrada fora, gritando com tudo e todos, fanfarrões e impacientes.

Mafalda, um caderno e os inseparáveis phones, toma o caminho para a escola, ao encontro dos colegas mais que de outra coisa, uma pizza ao meio dia no jardim frente à escola e uma profusão de SMS para as amigas encherão o dia, para ela risonho, que a crise é mais para maiores de dezoito. Noutro mundo, aconchegada nos seus quinze anos ingénuos, as caras mortificadas no autocarro revelam moribundos que se arrastam para frágeis empregos, caminhando por ruas cada vez mais soturnas: doenças sem comparticipação, maridos desempregados, filhos rebeldes, deserdados da esperança. O inimigo está ali. Nós mesmos. Inertes, passivos, carpindo o destino que deixámos acontecer, messiânico e brutal. Mafalda, adolescente e alva, segue alheia  a tudo, problema é ter Moche para falar aos amigos, cinco euros para sair à noite, tásse. A mãe já só faz frango, coitada, carne da mais barata, ontem cortaram a luz, o tio Zé desenrascou o dinheiro, mas só por uns dias, coisa de cotas mal dispostos, comentava na escola com a Xaninha, a melhor amiga, olhando de soslaio o Bruno do 8ºC

Em casa, só o futebol interrompe o flagelo da crise nos dias assombrados,  força maior que tudo, ópio do povo e sacrossanta força. Um canto não marcado, um fora de jogo, hoje no campo, amanhã na vida, a vitória ou derrota já no tempo dos descontos. Agitado,o pai pagou a luz, só para não perder o jogo, em canal aberto.

Na escola, sussurram-se revoltas. Dos professores, congelados e cortados, dos colegas, filhos de pais desempregados e caídos no álcool, contra um futuro sem futuro, suspirando por um passado já passado. É dose. A stôra de História fala dos navegadores e outros dias de glória, passados, terá sido cá? Que remotos Ronaldos conquistaram o Brasil e a Índia nessa Champions, com Portugal no torneio de Tordesilhas? O Filipe, do 9ºB, levou um autocolante com as cores de Portugal, orgulhoso, colado no caderno. Angustiada, a professora de História passou-lhe a mão pela cabeça e afagou-o, entristecida. Haverá algo desses tempos, ainda? Valem os dias, quentes e amenos, como se os deuses compensassem a crueza dos tempos com réstias de bom tempo, ainda assim agoirando os antigos a seca e o atraso das sementeiras.

Nos edifícios junto à escola, pelo almoço, funcionários do estado clamam contra a iniquidade dos cortes nos direitos, da discriminação, surpreendentemente a escola de línguas regista um aumento de inscrições, a inglês. Para os putos se pirarem um dia destes, alvitra o Mike, professor de inglês, com dez anos de Portugal. Alheias, Mafalda e amigas correm do café para o jardim, seguidas pelos rapazes da turma, acne no rosto e barba recente, chegada a puberdade e o tempo da sedução. As folhas amarelecem, mas tardam a cair.  No café do Baptista, notícias mostram a Grécia em chamas, o ataque dos mercados, indelevelmente anuncia-se o fim dos amanhãs de prosperidade. Alheio e ausente, um gato, gordo e amarelo, lança-se sobre restos da pizza espalhados no jardim.

Anoitece já quando Mafalda torna a casa, no mesmo autocarro da manhã, a D.Lurdes voltando do médico, com mais uma receita, mais cara agora, ruidosos colegas alegrando o autocarro, as curvas de Sintra serpenteando, com os castelos silenciosos lá no alto. E a um dia outro seguirá, a cumprir calendário, que não vida. Das casas em silêncio saltam rumores, desabafos, vidas perdidas, doentes acamados. À porta de casa, o Google, alheio e abanando o rabo ladra e acompanha-a à porta da entrada, a avó espera com um yogurte e um pão de leite. Tempo de Facebook, de SMS, de Morangos, e agora de chat com o Bruno do 8ºC, um gato, lançou a escada.Colada à tv, no sofá do quarto, a avó, já noite, vê a Casa dos Segredos e abana a cabeça, cada uma em seu quarto, no confessionário de silêncios. É Portugal, é 2011.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:17

15
Out 11


Na arejada sala de aulas, bem perto da rive gauche, na luminosa Paris, o professor Sainceau deitava um olhar aos novos alunos, para o semestre de Filosofia Política. Quarenta anos de Sorbonne, soixant huitard o suficiente para ter arrepiado caminho, céptico convicto depois de tempos de dúvida seguindo Henry Levy e Castoriadis, desde meados de oitenta que convencido, porque vencido, se dedicava ao ensino em exclusivo, sempre com o seu cachimbo aromatizado que lhe emprestava uma elegância sartriana de ex-compagnon de route perdido na década errada.

Os novos alunos eram quase todos estrangeiros, polacos, belgas, espanhóis, um ou outro mais entradote na idade, pessoas com tempo, e sobretudo vontade de questionar, no fundo, pensava ele, de falar mais que de ouvir, sempre assim fora nas suas aulas. Peripatéticos modernos em busca dum púlpito, buscando convencer os convencidos e julgando tudo saber pela etérea confusão entre fé e fezada, razão e teimosia, empirismo e experiência. Uns chatos, no fundo, pensou, passando revista à turma com os olhos e lançando sobre ela uma cachimbal baforada de desprezo.

- Bom dia, meus senhores, bem vindos. Eu sou o professor Sainceau, e desde já aviso que todas as mentiras que ouviram a meu respeito são provavelmente verdade!

A turma sorriu. Um dos alunos recém-chegados, já com alguns anos, virando-se para um colega, de Salamanca, anuiu:

-Grande tirada, e grande verdade. Já o experienciei na pele!

O espanhol sorriu, sem dar grande sequência à conversa, o novo aluno, grisalho, falava com sotaque, francês não era, aparentava um ar próspero, roupas de marca e telemóvel de última geração, segundo deu para apurar. Sainceau continuou, expondo os grandes temas do semestre:

-Primeiro, deambularemos em torno da epistemologia, do estudo do conhecimento, tentaremos responder às dúvidas com o que é e como alcançamos o conhecimento. Com a experiência, a verdade empírica ou a razão, cartesiana e fria…

-Comigo foi sempre com a experiência. Primeiro a experiência e em cima da experiência aplicamos a verdade adquirida!- sussurrou o aluno grisalho, com um ar de quem nunca teve dúvidas. A razão decorre sempre da experiência individual. Daí que não haja razão, mas razões…

-Pareces já adiantado ao curso, hombre!- rematou o colega ibérico, tirando notas, Sainceau continuou:- os filósofos antes de Sócrates buscavam explicar tudo através da razão e do conhecimento científico. Podemos citar, neste contexto Tales de Mileto, Anaximandro e Heráclito.

-Antes de Sócrates não sabiam nada, era a confusão! - comentou Janek, um polaco ruço com um bigode enrolado.

-Grande verdade, amigo, grande verdade! - anuiu de imediato com a cabeça o grisalho, ante o silêncio do espanhol, um tal Angel Menendez, de Segóvia.

-Também abordaremos questões em torno da problemática da estética, lá para a frente….- continuou Sainceau.

-Aí não tenho problemas, sempre fui um homem de bom gosto e cultor do belo…-interrompeu o grisalho cada vez mais falador, do alto das suas roupas Armani e corte de cabelo apurado, a bem dizer, contrastava com o ar troglodita da maioria dos colegas, jovens e enxovalhados e muito rive gauche.

Deitando um olhar enfadado ao aluno, o professor Sainceau já começava a embirrar com o fala barato, com o tempo a passar, despejou o essencial do programa para o semestre:

-Outra vertente do novo curso será o conceito de ideal. O ideal segundo Hegel era uma tentativa de transpor a realidade dura e cruel da vida quotidiana e ao mesmo tempo projectar para si mesmo exemplos a serem seguidos. O ideal é algo espiritual, do plano da imaginação do sujeito, pouco interessando a realidade ou as suas representações…

-Acho que vou adorar estas aulas…- comentou de novo o quarentão, para um já familiarizado Angel.

-Por fim, abordaremos a lógica como conjunto de axiomas e regras que visam representar formalmente o raciocínio válido. A lógica, meus senhores, define a estrutura de declarações e argumentos para elaborar fórmulas através das quais estes podem ser codificados, compreender o que gera um bom argumento e quais os argumentos falaciosos.

-Ah, aqui sim, senhor professor, creio poder contribuir com a minha experiência para uma nova teorização da lógica- interrompeu o aluno fala barato, levantando-se e mirando a sala com um olhar triunfante.

-Sim?... Temos então aqui alguém com ausência de cepticismo, um endeusador do belo, pelo que observei, e um veterano de deduções lógicas… Como é mesmo o seu nome, monsieur?

-Sócrates!

A sala estarreceu, imaginando em vez da aula de filosofia do professor Sainceau estar numa sessão espírita ou num programa de apanhados. O aluno grisalho, fixando os colegas como o fazia em reuniões para salas cheias num passado recente apresentou-se, adversário do cepticismo e epicurista, cultor dum particular tipo de belo:

- José Sócrates, de Portugal. Trabalhei para o governo português até há pouco tempo….E diferentemente do meu homónimo grego, que apenas sabia que nada sabia, eu sei que tudo sei.E também sei que os outros nada sabem! É um óptimo ponto de partida para estas aulas, não acha, professor Sainceau?- rematou o novo aluno, guardando o Magalhães numa pasta de pele, e saindo para o George V, precedendo uma nada céptica jantarada no Boulevard des Italiens.

publicado por Fernando Morais Gomes às 08:41

14
Out 11

 

Bruxelas, 14 de Outubro de 2011. Apressado, o comissário europeu da Economia e Finanças, o circunspecto Olli Rehn chegava ao seu gabinete, onde como nos últimos meses choviam relatórios matinais nada tranquilizadores sobre a evolução da conjuntura económica, sobretudo a da zona euro. Ainda mal se sentara na secretária já o ministro grego Vanizelos, do alto dos seus cento e vinte quilos vociferava a partir de Atenas, o dinheiro não chegava, a situação nas ruas estava difícil de conter. Malditos gregos, pensou Rehn, enfadado, lamentando a hora em que aceitara o lugar na Comissão Barroso, a início bem mais tranquilo. Despachado o grego troglodita, saiu a comer uma waffle perto do Grand Sablon, uns minutos de relaxe antes de mais um Ecofin, o FEEF iria avançar, apesar dos eslovacos, querendo pregar partidas. Num canto da patisserie, ornada com tesouros de chantilly e chocolate, solitário e tímido, o ministro português, Gaspar, pausadamente degustava uma fatia de tarte de maçã, pensativo e abúlico. Reconhecendo-o, Rehn saudou, sem se levantar, teriam tempo uma hora mais tarde para os cumprimentos da praxe. Terminado o repasto e um reconfortante cappuccino, aprestava-se a voltar ao gabinete quando um grupo de jovens, tatuados e arvorando cartazes de protesto se postou frente à porta da patisserie, chegados de vários pontos para a manif dos indignados, no sábado seguinte e alertados para a presença no local do fleumático e plácido finlandês.

-Abaixo a globalização! Queremos ter futuro!-gritavam alguns, em  espanhol, secundados por tambores que um grupo da Galiza trouxera propositadamente. Polícia não havia por perto, continuando metodicamente a comer, Vítor Gaspar enfiou uns phones e abstraiu da confusão, um pouco de Chopin repousar-lhe-ia o espírito antes da reunião, com o “”buraco” da Madeira na agenda e o país ainda em choque com os anúncios de cortes da quinta feira,13.

-Ó Gaspar, já viu isto? São uns ingratos, estes tipos!...- arengou o comissário, vendo que teria de chamar a segurança para voltar para o gabinete climatizado.

-Não ligue, senhor comissário! Peça delicadamente por favor e eles deixam-no passar- sugeriu o super delicado ministro, pagando e limpando os lábios.

Com intervenção dos gendarmes, Rehn lá abalou, sem ter sido reconhecido, Gaspar pegou na mala e seguiu para a reunião a pé, que saudades tinha dos seus tempos sossegados no BCE.

Regressado a Lisboa, o estado de choque pelo anúncio das medidas para 2012 era generalizado. Um popular no aeroporto, reconhecendo-o atirou-lhe um sonoro “ladrões” a que respondeu com uma vénia cortês, nos jornais a oposição e os comentadores massacravam o governo. Desabafos, pensou o ministro, tolerante, há sempre uns descontentes, nada que uma fatia de tarte de maçã não acalme.

Com o fim de semana à porta, brigadas de indignados reforçadas com piquetes de sindicalistas promoveram manifestações à porta dos ministros. Em Massamá, pior que Tripoli em dias de guerra, um gang da Pedreira dos Húngaros reteve em casa a esposa do PM, que tentou escapar invocando as suas raízes africanas; Miguel Relvas, apanhado no Solar dos Presuntos pelos Homens da Luta foi emboscado numa mesa do canto, ainda engasgado com um rojão, e sem bateria no telemóvel para chamar Miguel Macedo, à ministra Assunção Cristas, um grupo de ceifeiras de Odemira amordaçou de supetão à saída da Zara, onde comprava um top em saldo, com o cartão do ministério. Descamisados ocupavam o Ministério das Finanças e por toda a parte carrinhas pick-up promoviam caça aos ministros e deputados. Com uma gabardina velha à porta do metro dos Restauradores, o sisudo Paulo Macedo simulava pedir esmola, com um chapéu enterrado até aos olhos, tentando passar despercebido à fúria das ruas.

Melancólico, sorrindo e cumprimentando com delicadeza os amotinados em pleno Rossio, Gaspar, sem ser reconhecido, parou para uma fatia de bolo numa pastelaria de esquina, a um desempregado possesso sugeriu mesmo calma, por causa da hipertensão. Com delicadeza aumentara os impostos, cerimonioso e educado cortara apoios sociais, sem sombra de grosseria castigara o governo da Madeira, uma fatia de bolo e um chá de camomila e aqueles senhores com tensão alta voltariam a casa e respeitosamente compreenderiam que dinheiro não é tudo na vida, pelo menos nada que valesse uma tarte de maçã e um Chopin reconfortante. A crise, pensava, saboreando uma garfada, é para ser tratada com elevação.

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:39

09
Out 11


O domingo de Outono estava solarengo, sol baixo e fora de época. Intruso na praia em tempo de vindima, Bruno rumou à cidade, deserta como há muitos domingos para cá, desde que fugindo os moradores se mudaram para o subúrbio, escapando das rendas caras e dos prédios em ruína. Ao domingo, Lisboa era pachorrenta e ausente, ruas vazias e centro despovoado. Sob um prédio bem central, um sem abrigo dormitando dava voltas na caixa de papelão dum plasma de último modelo, aumentando os tamanhos aumentavam as suas chances de um  abrigo de corpo inteiro, a cidade inteira como quarto, o céu como candeeiro. Após um galão num tasco decadente, decorado com ovos verdes e jaquinzinhos da véspera, rumou à Graça no 28, celebrado amarelo esventrando as aguareladas vistas de Lisboa, dolente e intemporal. Velhinha e mal tratada, a cidade era sempre familiar, rica de passados, tragédias e alegrias, manjericos e canastras de peixe, mourisca e meridional, varina do rio e da viela, aristocrática contudo, silenciosa testemunha de idos autos de fé e chegadas da Índia, de especiarias e escravos, e também da peste e dos cercos. E a luz, esse azul rasgado, só nosso, cegando de radioso, quente e colorido.

Ao contrário do céu, iam cinzentos e perigosos os dias e tempos. O espírito em baixo, os amigos desalentados, uma súbita vontade de partir sem saber para onde, sem mapa para a felicidade ou plano B para um amanhã sem planos. Uma prostituta velha saía duma pensão familiar de décadas, ambas velhas e a cair, observador, Bruno sentou-se junto ao miradouro, onde sobreviventes de vidas sumidas se arrastavam com as bengalas a caminho de mais um campeonato de sueca, ponta de cigarro ao canto da boca, rugas marcadas e veteranas. Uma turista nórdica fotografava, a miséria fica sem bem nas fotos, visual poema radiografando almas em silêncio. A manhã passava devagar, numa velha tasca deteve-se tomando um licor, familiares, os eléctricos chiando cruzavam-se num ritual lisboeta.

Curiosamente lembrou Fernando Pessoa. Como ele agora, imaginou-o sulcando a cidade, só, bebendo aguardentes em tascas, vendo os mesmos eléctricos, o mesmo céu azul, quem sabe outras prostitutas e velhos pelo jardim. Há uma magia em Lisboa, e a sua poção é o fado, intemporável, repetível, pensava.

Tocando o telemóvel, Susana perguntava por ele, saíra sem avisar, um desejo irresistível de deambular trouxera-o à cidade de comboio, não se inquietasse, voltaria pela tarde. Um casamento rotineiro, esfriando a paixão, aguçava o desejo de solidão, a pensar nas coisas, prisioneiro do tédio e das diárias idas para o emprego, a mesma bica à mesma hora, a mesma imperial no final do dia, espectral e sórdida.

Descendo à Baixa, a pé, tocava o sino na Sé, o casario envelhecido despertava aos poucos, vindas das missas, senhoras idosas com ciáticas e reumáticos voltavam a casa. Por momentos pareceu-lhe ver a gabardine coçada de Pessoa a seu lado, a parar para mais um brandy, antes de descer a R. Augusta a marcar o ponto no Martinho. Faltava um Martinho a Bruno, cansado do café do Baptista, mausoléu de chamuças requentadas e bolos de arroz intragáveis, até nisso era execrável o subúrbio.

Melhor seria voltar a casa, enfiar-se num Chopin com gin ou num Duke Ellington de reserva, Susana fora ver a mãe ao Pendão, entretanto, um domingo horroroso em perspectiva, fugido da cidade nua refugiar-se-ia no quarto, esperando-a, sonhando cidades felizes e futuros construídos no papel, no seu mundo de  fortuito escritor por terapia. Voltou ao comboio, esse fantasmagórico comboio de terrores mundanos, vidas perdidas e outras sem salvação, olhares aflitos arrastando-se na selva grafitada do depósito de existências, suburbanas, revoltadas, vencidas e cerrou os olhos, ausente, exilado.

Na estação de Queluz, novo café, faria horas até Susana voltar da visita à mãe, já não tinha pachorra para os queixumes de D.Berta, os atrasos da pensão e os bicos de papagaio. Estranhamente, pareceu ver de novo o vulto de Pessoa ao lado, devia ser do licor que bebera junto à Graça, que faria o poeta de Orpheu naquele PALOP desqualificado, sem Chevrolet nem absinto. Tinha razão de ser, pensando bem, lembrar Pessoa ali, perdido entre vidas perdidas num  apeadeiro a leste da esperança.

Susana chegou entretanto,recriminando a ida a Lisboa sem avisar, de volta a casa, voltou a sair, a aviar um xarope na farmácia. Letárgico e aliviado por mais uns momentos a sós, Bruno enfiou-se no quarto, pondo um Mussorgsky em tom baixo, saudosista, buscou um velho álbum de fotografias, confortando-se com os rostos alegres e vivos dum passado feito a sépia. Curioso como o passado era sempre feliz e os rostos sorridentes e soltos, nunca as fotos de família transmitiam angústia ou pesar, crença no futuro, rostos alvos e sem acne, glamorosos mesmo, dos tempos em que se punha o melhor fato para ir tirar o retrato.

Tocou o telefone, interrompendo a introspecção de Bruno. Era João, colega do escritório, convidava-os para um fondue chinês lá em casa, estavam só os dois, os miúdos com os avós em Odemira. Aceitou, pensando bem, o domingo fluía já depressivo demais, o Reguengos de 96 do João depressa reporia tudo no sítio, devolvendo-o à rotina e ao presente. Antes, e já regressada Susana, foi tomar um banho. Ao arrumar o álbum na gaveta, numa foto solta do casamento do avô Jesuíno descortinou de relance um vulto posando com os noivos sorridentes. Era Fernando Pessoa, ou o diabo por ele, com um ar melancólico parecia olhar para fora da foto fitando Bruno e dando a entender não ser outro senão ele.

Bruno esfregou os olhos, fechou a gaveta e meteu-se no chuveiro. Chegava de um  domingo cinzento sob um luminoso e magnânimo céu azul.

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:12

07
Out 11

Bruges, Primavera de 1527. Companheiros de letras e jovens fidalgos, Rodrigo Aires de Sousa e François Villot, nobre francês e grande amigo de Rodrigo nos dois anos de estudos na Flandres, despediam-se junto à catedral de S. Salvador, cada um com destino a seu país, irmãos de armas e boémia, e estudiosos da retórica e das leis. Rodrigo, fidalgo da casa dos Sousas, volvido a Lisboa e depressa enfadado com as intrigas do paço, onde um abúlico D. João III reinava sobre uma corte puritana e bafienta e cioso de aventuras, breve se ofereceu para a armada das Índias, e em Maio de 1530, ao serviço de Martim Afonso de Sousa, destemido almirante amigo de seu pai, procurou lonjuras, em terras de desvairadas gentes, já que saudoso deixara aquela Flandres onde namoradeiro e viril partilhara aventuras com François, também ele de regresso ao Langdoc e à casa condal da família.

A 3 de Dezembro de 1530, dia frio e cinzento,  partiu de Lisboa Martim Afonso de Sousa com uma armada de duas naus, um galeão e duas caravelas a fim de tomar posse da região do rio da Prata, frequentemente assaltada pelos espanhóis, fundar uma povoação no sul do Brasil e escorraçar os corsários franceses que infestavam o litoral. Rodrigo, altivo, seguia excitado pelo desafio e desejo de aventura. Era arriscada a missão, para lá da linha de Tordesilhas e mais emocionante por isso.

Em finais de Janeiro de 1531 foi avistada costa brasileira, perto do Cabo de Santo Agostinho, e logo uma nau francesa surgiu navegando para norte, a que a armada de Martim, até ali sem história, excitada deu caça, alguma surgia acção finalmente. Não tendo forma de se escapar, a nau optou por encalhar, fugindo os tripulantes para terra, receosos de serem chacinados pelos portugueses. Rápida foi a perseguição, não tendo Rodrigo sentido sequer um cheiro a batalha.

Retomando a armada o caminho para sul nesse mesmo dia à tarde, nova nau francesa foi capturada, sem oferecer resistência, ignóbeis homens do corso rondando as terras de D. João. Ao anoitecer, Martim Afonso de Sousa destacou as duas caravelas, sob o comando de Pêro Lopes, para ir em patrulha à ilha de Santo Aleixo, insistindo, Rodrigo acompanhou-o. Quando amanheceu, uma nova nau francesa foi avistada, navegando para norte, a que, quais adolescentes desejosos de aventuras  deram perseguição. Se bem que levasse dianteira favorecida pelos ventos, só ao fim da noite a caravela onde seguiam Pêro Lopes e Rodrigo conseguiu alcançar a nau inimiga, trovejando a artilharia a descarregar por todos os lados. O combate durou todo o dia e toda a noite, ficando ambos os navios muito destroçados, mas com baixas mínimas, seis do lado dos franceses, nenhuma do lado português. Tendo acabado a pólvora, a nau francesa rendeu-se finalmente perto da baía da Traição.

Lançando-se sobre a nau inimiga, Rodrigo deu voz de prisão a alguns corsários, ainda atordoados, enquanto os de Pêro Lopes se apoderaram do leme, dando caça ao piloto, a quem Fernão de Sintra montou guarda, não tivesse alguma ideia soez. Entrando na cabine do capitão, um homem, combalido, sangrava da cara, de espada em riste preparava-se para matar ou morrer. Já pronto a ferrar, Rodrigo avançou sobre ele, quando familiar, o reconheceu atrás daquela poça de sangue: era François, o amigo de Bruges, por motivos que só o destino saberia capitão de corso e declarado inimigo das velas de Portugal. Arregalando os olhos, François reconheceu Rodrigo, e ante o espanto de Pêro Lopes, correram a abraçar-se, três anos e um oceano os separaram, quisera agora o destino que em campos distintos se encontrassem em longínquas e tépidas águas a sul do Equador.

Quando o resto da armada de Martim Afonso de Sousa chegou ao local, já a batalha havia terminado, incrédulo, o almirante via o jovem Rodrigo amparando pelo ombro o vulto de um corsário inimigo. Antecipando-se, Pêro Lopes contou toda a história, e magnânimo, acabou oferecendo uma enxerga para que o francês pudesse curar-se das feridas da abordagem. Como Rodrigo, também François fora em busca de aventura e riqueza, com uma carta de corso ousava desafiar os mares que o Papa fizera portugueses e Tordesilhas em letra consagrara.

Terminada a contenda, a nau francesa foi incorporada na armada portuguesa, e rebaptizada como Nossa Senhora da Candelária, seguindo todos em paz para Pernambuco.

Inebriados pelos cheiros e cores das terras férteis e quentes, Rodrigo e François por lá ficaram, mais tarde se acasalando com nativas e fundando um povoado, dos muitos que mais tarde haveriam de vir a ser o Brasil. Sob os sinos de S.Salvador de Bruges ou nas florestas húmidas da colónia, o destino tecia um novelo de encontros e desencontros, na madrugada de um tempo novo, inicial e puro.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:28

06
Out 11

Carta Aberta ao venerando chefe do estado a que isto chegou

Senhor Presidente

Há muito muito tempo, nos dias depois que Abril floriu e a Europa se abriu de par em par, foi V.Exa por mandato popular encarregue de nos fazer fruir dessa Europa do Mercado Comum, clube dos ricos a que iludidos aderimos, fiados no dinheiro fácil do FEDER, do FEOGA, das ajudas de coesão e mais liberalidades que, pouco acostumados,  aceitámos de olhar reluzente, estranhando como fácil e rápido era passar de rincão estagnado e órfão do Império para a mesa dos poderosos que, qual varinha mágica, nos multiplicariam as estradas, aumentariam os direitos, facilitariam o crédito e conduziriam ao Olimpo até aí inatingível do mundo desenvolvido. Havia pequenos senãos, arrancar  vinhas, abater barcos, não empatar quem produzisse tomate em Itália ou conservas em Marrocos, coisa pouca e necessária por via da previdente PAC, mas, estando o cheque passado e com cobertura, de inauguração em inauguração, o país antes incrédulo, crescia, dava formação a jovens, animava a construção civil , os resorts de Punta Cana e os  veículos topo de gama do momento. Do alto do púlpito que fora do velho Botas, V.Exa passaria à História como o Modernizador, campeão do empreendedorismo, símbolo da devoção à causa pública, estóico servidor do povo a partir da marquise esconsa da casa da Rua do Possôlo. Era o aplicado aluno de Bruxelas, o exemplo a seguir no Mediterrâneo, o desbravador do progresso, com o mapa de estradas do ACP permanentemente desactualizado. O tecido empresarial crescia, com pés de barro e frágeis sapatas, mas que interessava, havia  pão e circo, CCB e Expo, pontes e viadutos, Fundo Social Europeu e tudo o que mais se quisesse imaginar, à sombra de  bafejados oásis  de leite e mel,  Continentes e Amoreiras, e mais catedrais escancaradas com um simples cartão Visa.

Ao fim de dez anos, um pouco mais que o Criador ao fim de sete, vendo a Obra pronta, V.Exa descansou, e retirou-se. Tentou Belém, mas ingrato, o povo condenou-o a anos no deserto, enquanto aprendizes prosseguiam a sanha fontista e inebriante erguida atrás dos cantos de sereia, apelando ao esbanjamento e luxúria.

No início do novo século, preocupantes sinais do Purgatório indicaram fragilidades na Obra, mas  jorrando fundos e verbas, coisa de temerários do Restelo  se lhe chamou. À porta estava o novo bezerro de ouro, o euro, a moeda dos fortes, e fortes agora com ela seguiríamos, poderosos, iguais. Do retiro tranquilo, à sombra da modesta reforma de servidor do Estado, livros e loas  emulando as virtudes do novo filão foram por V.Exa endossados , qual pitonisa dos futuros que cantam, sob o euro sem nódoa, moeda de fortes e milagreiro caminho para o glorioso domínio da Europa. Migalha a migalha, bitaite a bitaite, foi V.Exa pacientemente cozendo o seu novelo, até que, uma bela manhã de nevoeiro, do púlpito do CCB, filho da dilecta obra, anunciou aos atarantados povos estar de volta, pronto a servir. Não que as gentes o merecessem, mas o país reclamava seriedade, contenção, morgados do Algarve em vez de ostras socialistas. Seria o supremo trono agora, com os guisados da Maria e o apoio de esforçados amigos que, fruto de muito suor e trabalho, haviam vingado no exigente mundo dos negócios, em prol do progresso e do desenvolvimento do país.

Salivando o povo à passagem do Mestre, regressado dos mortos, sem escolhos o conduziram a Belém, onde petiscando umas pataniscas e bolo-rei sem fava, presidiria, qual reitor, às traquinices  dos pupilos, por veladas e paternais  palavras ameaçando reguadas ou castigos contra a parede. E não contentes, o repetiram segunda vez, e V. Exa, com pungente sacrifício lá continuou aquilíneo cônsul da república, perorando homilias nos dias da pátria e avisando ameaçador contra os perigos e tormentas que os irrequietos alunos não logravam conter. Que  preciso era voltar à terra e ao arado, à faina e à vindima, vaticinou V.Exa, coveiro das hortas e traineiras; que chegava de obras faraónicas, alertou, qual faraó de Boliqueime e campeão do betão;  que chegava de sacrifícios, estando uns ao leme, para logo aconselhar conformismo e paciência mal mudou o piloto.

Eremita das fragas, paroquial chefe de família, personagem de Camilo e Agustina, desprezando os políticos profissionais mas esquecendo que por junto é o profissional da política há mais anos no poder, preside hoje V.Exa ao país ingrato que, em vinte anos, qual bruxedo ou mau olhado, lhe destruiu a obra feita, como vil criatura que desperta do covil se virou contra o criador, hoje apenas pálida esfinge, arrastando-se entre a solidão de Belém e prosaicas cerimónias com bombeiros e ranchos.

Trinta anos, leva em cena a peça de V.Exa no palco da política, com grandes enchentes no início e grupos arregimentados e idosos na actualidade. Mas, chegando ao fim o terceiro acto, longe da epopeia em que o Bem vence o Mal e todos ficam felizes para sempre, tema V.Exa pelo juízo da História, que, caridosa, talvez em duas linhas de rodapé recorde um fugaz Aníbal, amante de bolo-rei e desconhecedor dos Lusíadas, que durante uns anos pairou como Midas multiplicador e hoje mais não é que um aflito Hamlet nas muralhas de Elsinore, transformado que foi o ouro do bezerro em serradura e  sobrevivendo pusilânime como cinzento Chefe do estado a que isto chegou, não obstante a convicção, que acredito tenha, de ter feito o seu melhor.

Respeitoso e Suburbano,  devidamente autorizado pela Sacrossanta Troika

António Maria dos Santos

Sobrevivente (ainda) do Cataclismo de 2011

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:19

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