por F. Morais Gomes

30
Jan 12

Pedro Alcobia era um filho de Sintra, pároco de Colares em 2013 e bispo em 2017, em 2021 ascendeu a cardeal-patriarca de Lisboa, com página no Facebook e homilias no You Tube, a Igreja ao clique de um rato. Controverso, defendia que Deus é mãe e não pai, convicto de não se dever combater os cataclismos, a vontade divina poder nenhum deveria deter. Crente nas alterações climáticas como sinal do fim dos tempos, intransigente com o celibato e o preservativo, publicou mesmo um livro contra o antigo Papa Ratzinger, que apesar de doutrinador rigoroso, havia cedido ao agnosticismo.
Estava pois à medida do Vaticano. Avesso aos políticos portugueses, as suas homilias  na Sé eram gongórico pedaço de retórica, elogiadas no Osservatore Romano e em Lisboa atacadas pelo Partido Radical, que reunia antigos comunistas e bloquistas, fundidos em 2016, sob a liderança de Ana Drago.Foi assim que depois da morte de João XXIV, o ruandês Joseph Kizomba, vitimado pelo HIV, o seu nome começou a circular nos corredores da Cúria como papabile, o cardeal Pescatore, de Milão, apostava mesmo nele em SMS  e mails mandados aos membros do Colégio Cardinalício, que lhe respondiam com enigmáticos smileys.
Passadas as exéquias por Kizomba, começaram reuniões conspiratórias, os chineses queriam um Papa asiático mas os americanos apostavam em  John Scottdale, cardeal do Texas e director do Banco do Vaticano. Com ele o rating da Santa Sé subira e Deus ajudava, abençoando as acções do Nasdaq, principal receita da Cúria. Mas europeus e latinos preferiam o português, paladino dos princípios e punidor dos desvios.
No dia da abertura do conclave, o cardeal Alcobia levantou-se às sete, orou e leu os mails, antigos paroquianos  de Colares enviavam twits para que o seu pastor se sentasse na cadeira de Pedro. De seguida, juntou-se aos eleitores na missa Pro Eligendo Papa, em S. Pedro, para em procissão, se dirigirem à Capela Sistina e dar início à eleição, o Espírito Santo iluminaria os cardeais.Interiormente, Alcobia ambicionava o lugar, místico, queria devolver Deus a um mundo profano, assolado pelo hedonismo e secularizado. Adepto da selecção natural, para si, o deus da paz também o seria da guerra aos inimigos da Igreja, descrentes que  conduziam o mundo a partir de Pequim, a potência mundial desde que a União Europeia acabara em 2015. Já na Capela Sistina, olhou Deus criando o mundo no azul celeste do fresco de Miguel Ângelo, e viu-se a si no topo, o anel do Pescador no dedo, a Nova Cruzada em embrião. Todos sentados, o camerlengo proferiu o ritual extra omnes, momento para os estranhos abandonarem a Capela Sistina. Vítor Godinho, o secretário do cardeal, aguardaria no gabinete, Alcobia dera instruções.
Depois dos rituais, votaram os cardeais mais idosos e depois os demais. O primeiro escrutínio deu 45 votos para o cardeal de Xangai, 35 para o de Lisboa, 7 para o de Palermo. O chinês sorriu, simulando surpresa com o resultado, o lobby asiático funcionava. Como não foi concludente, os votos foram queimados, foi negro o primeiro fumo na Capela Sistina. Nas três votações seguintes, o mesmo se repetiu, e o primeiro dia terminou sem que Roma conhecesse um novo Papa. Nesse período, entretanto, misteriosas mensagens surgiram nos aposentos dos eleitores, referindo “ É Pedro o herdeiro de Pedro, Peregrino da Cruzada”.
Ao quarto dia, em silêncio, repetiam-se os procedimentos sem fumo branco. Já havendo conversado entre si sob pseudónimo no Facebook, os cardeais decidiam finalmente. Lidos e contados os votos, Pedro Mendes Alcobia, antigo pároco de Colares e Cardeal-Patriarca de Lisboa, recolhia os dois terços necessários, o Espírito Santo finalmente iluminara o coração dos eleitores. Alcobia, de olhos cerrados, rezava, perante o facies amarelecido  do cardeal chinês. O Cardeal Diácono foi até ele e perguntou-lhe, solene:
-Reverendo Cardeal, aceitas a tua eleição canónica como Sumo Pontífice?
-Aceito, em nome do Senhor - respondeu, simulando indecisão e sacrifício.
-Como queres que te chamemos?
-Pedro. Pedro II -anunciou, sem hesitações.
A escolha do nome provocou um arrepio na sala, seguido do silencioso acto de obediência, com os cardeais prostrando-se e osculando-lhe o pé direito. Fumo branco saíu finalmente da chaminé, para gáudio dos fiéis em S. Pedro. Meia hora depois, o filho de um desenhador da Câmara de Sintra e de uma operadora de call center tornava-se o 268º Chefe da Igreja Católica e Vigário de Cristo na Terra. Em S. Pedro, apinhado de gente, urbi et orbi, o cardeal de Varsóvia proclamou o novo Papa:
-Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam! Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum Petrus, Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem qui sibi nomen imposuit Petrus Secundo.
Pedro Alcobia olhou a multidão e abençoou-a, solene. Uma trovoada, súbita e molhada, tombou tonitruante nos céus de Roma. Em Colares, onde a população eufórica se juntara frente a um ecrã gigante na Adega Regional, Virgílio Penaguião, blogger de temas esotéricos, interrompendo um post sobre o abate dos plátanos  e aumentando o volume da televisão, correu a buscar um livro na estante. Uma antiga profecia atribuída a S.Malaquias, bispo irlandês do século XII, falava de Petrus Romanus, o último dos Papas, que iria "alimentar suas ovelhas em muitas tribulações" e no "dia da perseguição final ".
Enquanto em Roma debaixo de borrasca diluviana Pedro Alcobia era aclamado pela multidão, os telejornais abriam emissões especiais  noticiando o lançamento de mísseis balísticos a partir de Pyongyang, um destruíra já o USS Obama, porta-aviões americano estacionado no Índico. Os dias do fim iam começar.



publicado por Fernando Morais Gomes às 19:54

29
Jan 12

 


Formigando vêm e vão, a medo torneando o Grande Fosso onde banhos purificadores hoje fantasmas espreitam, miram estátuas, casas, o verde esmagador, frémito da natureza perto do burgo encantado. Anárquicos tiram fotos, com palácios, com árvores, com eles, registo furtivo do dia em que bafejados contemplaram a eternidade, de carro, de trem, a pé, de mão dada, olhar em torno, plantas sorrindo, garbosas e ternas, loquazes a manjar apetitosos doces. Pigmeus, privaram com os duendes e as secretas sentinelas da Floresta Feitiçeira: a sacerdotisa Llansol e o Grande Maior, o Zeus das árvores encimado pelo céu, logo um asténico Cruges, pena de pato aflita e trepidante, Herculano taciturno, Nunes Claro jardineiro de almas com o regador da palavra, todos guardados pelo mestre Carvalho, fleumático mago da Pena, vigiando da alameda.
Sigurd, Camões, Beckford, Byron, Zé Alfredo, M.S.Lourenço, condenados à Vida Eterna, já prestes se acomodam no Paço para o Banquete das Almas, Viana da Mota orquestrando, a medo os vivos invadindo o Templo, bafejados pela mercê dum fugaz usufruto da natureza generosa, onde só os Noviços da Vida têm entrada relâmpago, e com retorno. Cai a noite, um derradeiro ressoar de cascos dum cavalo branco tornejando o Parque quebra o torpor, logo impacientes gárgulas ganharão vida para a milenar patrulha dos cumes pedregosos e das chaminés fumegantes. O homem das castanhas recolhe, o cheiro invade as narinas com o bálsamo revigorante, qual estupefaciente poderoso. Ao longe e já perto, as duas chaminés, da lauta cozinha esfíngicos elmos acenam, num lento despedir, para à noite chegarem novos companheiros, esvoaçantes, temporais, tangíveis.
Um último relance, e partir. Distante, uma harpa sequestrada numa casa onde a luz mortiça quebra o negro da noite, despede-se do dia lacrimejando torpor, capturando em silêncio o cavalo inerte, e logo o regresso aos trens, à finitude, à vida sem viver, sobrevivente de sonhos, órfã de destinos, carente de Ser

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:27

23
Jan 12


Era uma vez um mouro nascido na terra das amendoeiras, vagamente marafado à nascença, foi pelo pai ainda jovem mandado a estudar na madrassa, contas e álgebra foram a vocação. Alto e esguio, tímido e encavacado, um dia partiu para o grande bazar, onde se dedicou à banca. Legumes, frutos, amêndoas, de tudo vendia o jovem, mouro de trabalho, poupando para o futuro , professor mais tarde na madrassa onde antes estudara.
Estando o Emirado dominado pelos almorávidas, indo passear um camelo novo,anunciou a jihad, ele que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, e pregando a guerra santa chegou a emir. Allah u akbar!- gritou quando  de cimitarra em punho entrou no Palácio de Al Sanbent, perto da Grande Mesquita, seguido pelas tropas do Crescente Laranja.
Como emir fez obras, mas, mandado pelo Califado, mandou arrancar as amendoeiras e figueiras, fez estradas por todo o lado, mandou encostar os barcos e vender o gado, deu trabalho porém e os muezzin do minarete chamavam por ele como se o próprio Profeta fosse, senhor do Islam e pavor dos infiéis kafir , para ele nada mais que camelos.
Cansado, e tendo-se retirado dez anos, entendeu, ouvida uma moura encantada, voltar à Cidade Santa, para aplicar a sharia, mas os tempos haviam mudado e teve de o fazer com o vizir almorávida Youssuf El Socas, um estudioso de Filosofia e chefe das tribos do norte. Disputando a interpretação do Corão, deixou que se esbanjassem os dinares, obrigando a que enviados pelo Califado, três reis do Oriente chegassem trazendo ouro, incenso e mirra.
Envelhecido e agastado, Al Zeimer arrasta-se hoje, sem dinheiro nos cofres nem tâmaras na tenda, sem primavera árabe, resta-lhe o inverno em Bulik Eime,  se a isso os reis magos obrigarem e os dinares chegarem, na Coelha, se ao coelho dos três reis trocar os passos. A História guardará de Al Zeimer a memória de Ali Babá, que abrindo a gruta com palavras mágicas, logo, qual bolo-rei, se deixou levar por quarenta ladrões. Salam’alek, Al Zeimer, emir de Bulik Eime, senhor do Gharb Al Andaluz!

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:38

21
Jan 12


Terras Portucalenses, ano 928 da era cristã, a morte de Hermenegildo Gonçalves deixava-a senhora de vastas terras, de Portucale a Coimbra, viúva mas firme, a bisneta de Vimara Peres e tia de Ramiro II de Leão, Mumadona Peres, governaria com os terra tenentes, com mão forte como seu pai, o conde Diogo. Obesa e de olhos verdes, muitos anos levou tratando os seus domínios, arroteando as terras e ajudando a diocese.
Um dia, caminhando por uma ladeira, um velho cego duma vista, cantava uma melodia roufenha:
"Ai dona fea!/Foste-vos queixar/Que vos nunca louv'en meu trobar/Mais ora quero fazer un cantar/En que vos loarei toda via/E vedes como vos quero loar”
Reconhecendo-a, pediu um prato de sopa, tinha filhos com fome:
-Deus vos traga em sossego, condessa Mumadona. Poderíeis auxiliar um desvalido de vossas terras de Portucale, temente a Deus mas desprezado pelos homens?
A condessa, que escutou o maltrapilho cantando, pediu-lhe que repetisse a canção, espantado, o infeliz, de nome Ordonho cantou para ela, era uma toada alegre e descontraída, viúva entre homens, o coração de Mumadona alegrou-se, e mandou que o homem a procurasse na herdade de Vimaranes, lá o esperaria essa tarde.
Comparecendo e meio desconfiado, uma mesa com viandas e vinho aguardava o atarantado Ordonho. Mumadona sentou-se junto a ele, querendo saber mais sobre aquele homem, parco de letras e palavras certeiras, nunca no coro de Lorvão tal escutara.
Comendo avidamente, o camponês fitou a condessa e hesitou em falar, à vista de mais pão e vinho, lá se decidiu:
-Quereis saber onde aprendi tais canções? Com os pássaros na serra, escutando seus chilreios a eles juntando palavras dos enamorados sulcando os bosques de Vimaranes.
-Folgo em ouvir que em meus domínios se aprecia a música e enleva a palavra. Mais curial não era lavrares com arado ou cozer o pão?
-Alimento maior  para a alma é esse que o do corpo, senhora. Fazei de Vimaranes terra de canções e de trovas, mestres de cantaria e vitrais, e justificada fica a espada e a cruz, pois se por essas a lei de Deus se espalhará, pelas outras seu nome perpetuaremos!
Terminando, levantou-se e partiu pelas margens do Ave, Mumadona ficou a cismar e mandou chamar frei Torcato, que na matriz se cantasse e copistas fizessem iluminuras, braço da lei em terras portucalenses, queria em cada camponês um bardo e em cada lenhador um escriba. O frade cismou, mas lá se afinaram os coros e nos anos seguintes folgou em tangeres e trovas o condado de Portucale.
Vinte anos depois, Mumadona dividiu os domínios pelos seis filhos, vindo Gonçalo Mendes a ficar com o condado. Para si guardou Vimaranes, no sopé do Monte Largo, nessa herdade onde uma vez passara Ordonho erigiu mosteiro a S. Mamede, e logo um castelo, uma simples torre com cerca. Quando se sentiu envelhecer, a ele recolheu, recomendando a Gonçalo que fosse justo e ponderado:
-Sinto, meu filho, tranquilidade neste lugar, como se a bênção dos céus sobre ele caísse, sereno e devoto. Mouros espreitam, normandos também, teu punho forte lhe garantirá protecção, assim dando jus ao nome de teus antepassados!
Nesse dia, uma égua transportou Mumadona ao mosteiro, retirada das preocupações mundanas aí rezaria e faria votos o resto dos seus dias. Gonçalo pediu a bênção e acompanhou-a à porta, onde duas monjas a receberam. Entrando, olhou a planície e o castelo e não mais tornou a sair.
Mil e cem anos depois, a canção roufenha de Ordonho volta a terras de Vimaranes, por um ano cidade de tangeres e de escribas, de trovas e cantos muitos. É Guimarães, Capital da Cultura.

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:58

08
Jan 12

No laboratório da Calçada das Necessidades, o professor Guimarães e o seu assistente Guilherme ultimavam a experiência que finalmente demonstraria a possibilidade de viajar no tempo, a máquina, criada a partir de um aparelho de tomografia axial computorizada, permitiria, segundo ele, o transporte ao passado, a experiência decisiva estava marcada para essa noite:
-Caro Guilherme, de acordo com Einstein, o tempo passa mais lento à medida que um objecto se aproxima da velocidade da luz, logo viajar mais rápido que a luz abrirá a possibilidade de viajar no tempo. A ideia é entrar num buraco negro e penetrar numa estrela em fim de vida, que ao colapsar entrará num anel de neutrões rotativo. Este produzirá uma força centrífuga suficiente para impedir a formação de uma singularidade. Como o buraco negro não tem uma singularidade, vamos penetrá-lo usando este aparelho,  sem ser esmagados pela força gravitacional do seu centro! -o professor chegava agora a um momento alto da sua carreira, a experiência que até ali só o cinema e a ficção científica haviam tentado. Guilherme acompanhava o entusiasmo do mestre, professor de Física na Universidade de Lisboa.

-Ao atravessarmos, vamos sair num buraco "branco" que em vez de atrair o que estiver ao alcance da sua força gravitacional para dentro de si, vai empurrar tudo para fora e para longe. Esse buraco branco criará a possibilidade de viajarmos no tempo!
Preparados os fatos térmicos, programaram a máquina e experimentaram uma primeira viagem, curta: Lisboa e aquele mesmo local, o ano 1835.
Depois de náuseas e duma sensação de vertigem incontrolável, que durou trinta segundos, aterraram desgovernados num celeiro onde dois cavalos relincharam à chegada do inesperado volume. Ainda tontos, de olhos esbugalhados confirmavam o sucesso da experiência: mesmo em frente e de construção recente, o Palácio das Necessidades, a guarda real rendia a parada, pensativo, um padre saia do palácio. O professor dirigiu-se a uma taberna, num esconso perto do palácio, e perguntou o que se passava:
-Vossas mercês são de fora? Então não sabem que o marido da rainha está à morte? Pobre homem, ainda agora chegou a Portugal- respondeu um galego, carregando um barril.
Guilherme recapitulou os conhecimentos de História, pelas suas contas o doente só poderia ser o príncipe Augusto de Leuchtenberg, primeiro marido de D. Maria II, chegara a Portugal em Janeiro desse ano, mas viria a morrer de difteria dois meses depois. Aí, teve uma ideia luminosa:
-Professor, podíamos ajudar a resolver este problema. Sabe que o príncipe morreu de difteria? Podíamos usar os conhecimentos da medicina que já possuímos, e tentar salvá-lo!
-Boa ideia, Guilherme. Vamos ao palácio, tentaremos apresentar-nos como físicos experimentados, a ver o que sucede! Temos de ser discretos, e arranjar roupas da época!
Com facilidade o professor conseguiu acesso ao palácio, chorosa, a rainha antevia já o desenlace ao fim de dois meses de casada, desesperada, qualquer conselho seria bem-vindo. Efectivamente, as amígdalas e faringe do doente desenvolviam uma membrana de pus no fundo da boca, a produção da toxina e sua libertação no sangue poderiam levam à morte cerebral. Sacando duma mala que trouxera do futuro, o professor, perante a incredulidade dos físicos presentes, administrou ao doente uma vacina que actuaria sobre o  sistema imunológico, bem como doses de penicilina e eritromicina, para destruir as bactérias nocivas. Dois dias depois, a febre baixou, o príncipe deu sinais de melhoras e missas de júbilo foram rezadas por toda a cidade, o pior parecia ter passado. Os dois estranhos, a par de acompanharem a convalescença do real paciente, visitavam a Lisboa da época, tirando notas, apresentando-se aos mais desconfiados como académicos vindos da Prússia, o sucesso da recuperação do marido da rainha afastava quaisquer suspeitas.
Três dias depois voltaram ao presente, a registar a experiência e preparar novas viagens. O professor Adérito, um colega de Sintra ligou entretanto, queria trocar ideias com Guimarães sobre um acelerador de partículas, mal suspeitando do sucedido com o colega, já tentara ligar mas ninguém atendera. Sempre disponível para o Adérito, lá foi, era um velho amigo. Para seu espanto, à saída de Lisboa apenas árvores e campos de trigo se vislumbravam, a estrada de Sintra era um mero tapete em macadame e as hortas povoavam a paisagem, sem vestígio de comboio, IC-19 ou daquela selva de betão a que já se habituara. Na serra de Sintra, para seu espanto, desaparecera o Palácio da Pena, e só o castelo dos Mouros e o Paço da Vila subsistiam, ao abandono. Abordando um transeunte que passeava na vila, sondou-o sobre o que sucedera:
-Palácio da Pena? Ó amigo, ali nunca houve Palácio nenhum. Quando muito está lá uma ruína dum convento antigo, daqui até lá acima é só mato e pedras. Isto em Sintra, nunca ninguém fez cá nada! -suspirou, em torno do Paço havia um pequeno terreiro e vinte a trinta casas rústicas, nada estava como poucos dias antes. Num arremedo luminoso, percebeu o que acontecera, e sem ter chegado a falar com o colega voltou para Lisboa, aceleradamente, precisava de falar com Guilherme com urgência:
-Gulherme, temos de voltar ao passado de novo, aconteceu uma coisa terrível!
-O que foi professor? Baixaram o rating do país de novo? Isso já não é novidade…
-Pior! Ao salvarmos a vida do príncipe Augusto, alterámos o futuro!
-Como assim?
-D. Maria II depois de enviuvar casou em segundas núpcias, em 1836, como é sabido. Ora ao salvarmos a vida do primeiro marido, o segundo, D. Fernando Saxe-Coburgo não chegou a ser rei de Portugal, e como tal nem o Palácio da Pena nem tudo o que ele planeou foi construído. Mudámos a História de Portugal!
-Oh diabo, não nos lembrámos disso…- o assistente coçava a cabeça, fora ele que de boa fé sugerira salvar o moribundo príncipe com difteria.
-Temos de voltar lá e deixar a História cumprir o seu destino!
Nessa noite, voltaram a accionaram a máquina do tempo, lá deixando falecer, no meio do choro geral, o marido da rainha de Portugal. Detiveram-se porém alguns meses desta vez, a estudar os costumes da época, sempre cuidando de em nada contribuir para alterar o futuro. Quando os esponsais de D. Maria II e D. Fernando finalmente se realizaram, disfarçado no banquete, e exercitando os três anos de alemão no Goethe Institute de Lisboa, Félix Guimarães aproximou-se do novo rei, louro e de cabelos desalinhados, acabado de chegar:
-Majestade, vai gostar muito desta sua nova pátria. Olhe, sugiro que vá até Sintra, é um sítio maravilhoso e com um clima ameno e prazenteiro, semelhante ao do seu país. Poderia até edificar lá uma casa de Verão, a rainha iria adorar….

publicado por Fernando Morais Gomes às 21:02

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