por F. Morais Gomes

23
Fev 12


Nos vinte e cinco anos da morte de Zeca Afonso, mais gordos e burgueses, encontraram-se na Trindade para um mítico bife e recordar esses dias frenéticos de conspiração nos corredores da Aula Magna, quando o Zeca anunciava futuros e era consequente a luta. O tempo separara-os, hoje advogados de sucesso e políticos do centrão, um, cantor romântico até, deitara as leis às malvas para enfrentar outros  júris.

Nos fins de setenta, Direito era território maoísta, iconográficos, os retratos de Ribeiro Santos e Maximino de Sousa pontificavam no átrio da faculdade, chorados heróis de escaramuças passadas. A maioria era conservadora, liberal, como após Abril era correcto dizer e durante a greve académica havia-se pregado a revolução na rádio universitária e em zelosos piquetes. Alexandre, o da voz mais grave, entre jingles anunciava a gloriosa luta dos estudantes e à moda do Pão com Manteiga, em voga na época, lançava setas aos instalados professores, achincalhando a obesidade da Magalhães Colaço ou as épicas tiradas de Soares Martinez. Sem graça, metera-se uma vez com o professor Sousa Franco, crismando-o de inteligente, por tudo lhe entrar por um ouvido mas jamais sair pelo outro, assim gozando com a sua deficiência na orelha. Glorinha, agora procuradora em Aveiro, era a mais acirrada, quebrando a vitrina das pautas com um pé de cabra, duas vezes fora detida por vandalismo, mas imediatos comunicados desmascaravam a discricionariedade fascista, estudantes unidos jamais seriam vencidos. Pedro Heitor, hoje deputado, depois da passagem por uma Câmara, primeiro como assessor e depois vereador, via o jantar como a oportunidade de mostrar que até fora irreverente em tempos, romântico aos vinte, calculista aos quarenta. Do grupo, só Rafael enveredara pelos jornais, investigava a fuga ao fisco dum político, por sinal do partido de Heitor.

Haviam sido tempos gloriosos. Comunicados policopiados, pichagem de paredes, oportunos e revolucionários “copos” no Bolero e no Jamaica, para tudo acabar no Cacau da Ribeira, após a tomada da Aula Magna. Portugal mudara muito, e até há pouco tempo só o Charneca, o eterno contínuo, continuava vendendo cópias de exames no átrio da faculdade, prova viva de que aquele passado existira, afinal. Glorinha  mantinha a beleza de outrora, todo  o 5º ano a disputava nessa altura, Passionária do Campo Grande, uma voz de arrepiar, muitas vezes se tinham reunido cantando os hits do momento, sonhando amanhãs e congeminando protestos. Em 1979 o socialismo caminhava já inexorável para a gaveta e os avós da troika já cá estavam, mas era quente a luta e com muita garra. A utópica alegria de rasgar caminhos os unira, hoje, apesar de madura, essa recordação sobrevivia ainda, nostálgica.

Por esses dias correram Lisboa no Audi do pai do Heitor, chamando à luta, reuniões no Técnico, em Económicas e em Letras, sempre bem servido de moças com bom aspecto, o plenário na Aula Magna apesar de alguns provocadores, correu bem. Durante dias, fumos negros nos braços e tiras nas paredes decretaram luto pelo ensino, depois de experiências fracassadas e da revisão curricular. Ao lembrar a cena, Rafael comentou como irónico parecia hoje ser o “exorbitante” preço das propinas, uns meros selos no valor de seiscentos escudos, comparado com os tempos de hoje, mais elitistas, apesar do ruído com a defesa da escola pública.

No jantar da Trindade, abatidas varias canecas, revisitaram-se mergulhados nesse passado fraterno, onde coexistiam Zeca, Pablo Neruda ou os Fisher-Z, perdidos nos esconsos das garagens onde após lânguidos slows se haviam prometido amores eternos e o nirvana do Shangri-La socialista. Após o jantar, como nos velhos tempos, voltaram ao Jamaica, depois de um copo no Hot Club, ali Rafael apanhara a sua primeira cardina, chamando princesa a uma desdentada deusa da noite perto do Fontória. O passado era marcado pelos bares: primeiro o Archote, o Whispers, o Bolero, depois o Jamaica, o Bora-Bora, o Charlie Brown, mais burguêses o Ad Lib ou os Stones, atrevidos  a Cova da Onça e o Pipodrom junto ao Coliseu, onde por uma moeda de vinte cinco escudos se via  a Olga de Jurídicas por um óculo, fazendo streap-tease para pagar os estudos. Todos os rapazes da turma lá foram várias vezes, à vez esbugalhando os olhos ante a visão celeste do corpo da hoje ilustre advogada no Algarve. No final da noite, à porta do Jamaica e abraçados, celebraram esse passado, já de si marcado num filme de vida várias vezes rebobinado.

Os anos passaram, e a seu modo haviam respondido à chamada do seu tempo, de sangue na guelra para as causas generosas e razoavelmente exigindo os impossíveis, pois só salvando o mundo se poderiam salvar. Salvara-se a memória, o orgulho de ter tentado e a certeza de nunca ter desistido. Deambulando a pé até à Baixa, no Rossio, um grupo de jovens dormia, passavam já as duas da manhã. Junto ao Nicola, em silêncio, os veteranos da greve académica miraram os ingénuos actores das novas utopias. Atrás de tempo, tempo vem, muitos anos passaram e valera a pena, o som dos Vampiros, metálico e dolente soava no rádio dum táxi. Hoje como ontem, o tempo ainda é feito de mudança.

 

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 18:26

07
Fev 12

Passando hoje 200 anos sobre o nascimento de Charles Dickens, reedito a história "Os pesadelos de Alfredo Regaleira",que se inspirou na sua obra "A Christmas Carol", adaptada a outros Scrooges mais próximos....

                  

 

Alfredo Regaleira ganhara as autárquicas de 2017 pelo Partido dos Verdadeiros Sintrenses, criado após o resgate do FMI  de 2011 e formado nas redes sociais. Oriundo duma família abastada, fora administrador de empresas municipais, vereador e suplente da distrital. Depois da inesperada morte de João Xavier, o candidato preferido do partido, o  recurso foi o cinzento tecnocrata, eleito pela margem mínima  presidente da Câmara de Sintra, para um mandato de quatro anos.

Era uma pessoa amarga e seca, enfiado em estatísticas, telemóveis e impessoais powerpoints. Raramente visitava as associações  ou recebia os munícipes, o Orçamento  pautava-se por cortes cegos, ferrenho adepto  do fim do estado social. Os funcionários odiavam-no, mas receavam pronunciar-se. A introdução de controlo da assiduidade através da retina, a diminuição dos funcionários para metade, as câmaras de vigilância nos serviços, controladas a partir da presidência, aconselhavam prudência e Ivone, a secretária, detestava-o, sempre carrancudo, um sorriso de plástico apenas para a televisão ver, implicara até com um retrato da filha que tinha na secretária. Familiaridades a mais, dizia, mal-humorado. Aos que lhe pediam apoio, despachava sem contemplação, "não há dinheiro, não sou a Santa Casa", respondia, insensível. Até um lancinante pedido dos pais da pequena Sandra para ajudar a fazer um transplante de medula enviara para o Querida Júlia,as pessoas são lamechas”, desabafava entediado, “haveriam de lançar um peditório.” Divorciado e sem filhos, morava na Beloura com Sócrates, um labrador ainda cachorro, e aí se isolava quando se conseguia livrar das aborrecidas cerimónias nos infantários e lares de idosos, distribuindo beijos a crianças ranhosas e velhas sempre a queixar-se.

Uma noite, já tarde e de regresso a casa, passado o Ramalhão, um vulto sumido e esbranquiçado arrastando correntes nos pés, surgiu-lhe à frente do carro. Esfregou os olhos, alguma digestão mal feita, pensou. O vulto, translúcido, entrou pelo vidro do carro e sentou-se no banco a seu lado:

-Boa noite Alfredo! -saudou numa voz metalizada. Sou eu, o Mário!

Atónito, reconhecia Mário Rabaçal, seu correligionário político e  antigo administrador da empresa municipal de educação, falecido meses antes num acidente perto dali.

-Não é possível! Mas tu não morreste? Estive no teu funeral, c’um raio…

-Estou morto sim, Alfredo. Mas venho para te avisar que ainda estás a tempo de emendar a mão. Os cortes no leite das escolas, a comida estragada que servíamos nas cantinas, o desfalque na tesouraria, tudo paguei bem caro, errando agora como uma alma penada! -e exibiu um grilhão, pesado, parecia  uma cena de  thriller americano. -Venho avisar-te que ainda esta noite receberás três visitas, às quais deves estar muito atento.

-Mas…E antes que tivesse tempo de concluir, o banco do lado ficou de novo vazio, eclipsando-se o vulto no éter.

Chegado a casa, bebeu um chá de limão e foi deitar-se. Devia ter sonhado, pensou. Meia hora não era volvida quando uma figura irradiando luz, de casaca e cartola, lhe surgiu no quarto. Sobressaltado, pensava chamar a Policia, quando o vulto o advertiu que não abrisse a boca.

-Boa noite Alfredo Regaleira. Eu sou a Sintra do passado. Levanta-te e acompanha-me!

Mal tivera tempo de reagir e de pijama, já o vulto o levava voando nos céus de Sintra, para logo pousarem no Palácio da Pena. Candelabros com velas profusamente espalhados iluminavam a noite, lá dentro uma orquestra tocava no salão grande, onde vistosas damas e dignitários envergando fardas coloridas deslizavam dançando. Animado, o rei D. Fernando conduzia uma corada cortesã ao som da Marcha Radetsky. Lá em baixo, na vila, carruagens passeavam dandyscom casadoiras donzelas, na estação do Larmanjat, saloios com seus jumentos esperavam novos forasteiros, para os transportarem ao Lawrence e ao Nunes. Felicidade e harmonia reinavam. Alfredo, absorto, admirava aquele quadro de beleza, Sintra no seu esplendor, romântica e aristocrática. Ia interpelar o espírito, quando de novo se viu  na cama, sentado e baralhado. Foi à cozinha beber água, apaziguando o torpor em que se achava. Minutos depois, encostada ao frigorífico, outra figura o aguardava já, um homem de fato e óculos escuros, fumando um cigarro e com um jornal debaixo do braço. Conformado, abordou-o:

-Suponho que sejas Sintra do presente…

O vulto assentou com a cabeça, e de automóvel saíram para Sintra, deserta à noite. Num lar de idosos racionava-se a luz por falta de verba, uma família de desempregados vasculhava caixotes buscando comida, enquanto na Volta do Duche, um jovem  fazia carjacking a um incauto turista, logo se pondo em fuga. Encolheu os ombros, suspirando, e pediu que voltassem, esta realidade conhecia ele, mais pelos relatórios que por experiência.

De volta a casa, inquieto e pensativo no sofá da sala, com o labrador aos pés, receava a terceira visita. Das traseiras, minutos depois, surgiu um jovem desdentado, com um capuz na cabeça e dois piercingsno lábio. Olhando-o com desprezo, fez sinal que o seguisse. Acabrunhado, de motorizada foram ver a Sintra do futuro: sem-abrigo aqueciam-se em fogueiras na zona pedonal da Estefânea, na Vila, no lugar da Piriquita, surgira uma loja chinesa, apenas sete moradores resistiam, a igreja ruíra por falta de obras. Na Volta do Duche, alinhavam-se contentores onde moravam famílias sem tecto depois dos despejos  por si ordenados. A pequena Sandra morrera por falta de transplante, desesperados, os pais não haviam conseguido o dinheiro para a operação. Parando no cemitério do Chão Frio, o jovem dos piercingsapontou-lhe uma lápide grafitada onde se lia: “Alfredo Regaleira 1970-2018”, e  descontraído, um cachorro urinava em cima. Estarreceu, com suores frios.

Mal refeito, acordou na cama, em sobressalto. Abriu os olhos, o labrador que dormitava ergueu-se e lambeu-lhe as mãos, brincalhão. Amanhecia lá fora.

Vestiu-se num ápice, meteu-se no carro e correu para a Câmara. Pelo caminho, sorridente, distribuiu bons dias aos atónitos munícipes, acenando e buzinando, e parou numa florista a comprar um bouquet  para a Ivone, a quem entregou com um beijo na mão.

-Ivone, mande chamar os pais daquela pequena, a Sandra, desmarque todas as reuniões, e convoque o director do departamento de assuntos sociais, é urgente. Ah, nunca lhe disse que o seu penteado é muito charmoso?

Ivone hesitava entre o boquiaberto e o espantado, derretendo-se dengosa ante o piropo. Correu a dar andamento, o homem tinha-se passado, com certeza.

Daí em diante, as pessoas foram a prioridade de Alfredo Regaleira. Inaugurou o novo hospital, apoiou os artistas do concelho, aboliu o controlo de assiduidade, criou empregos. Foi reeleito duas vezes, sempre com maioria absoluta. À cabeceira da cama, na casa da Beloura, onde agora a pequena Sandra, curada, brinca com o labrador, está sempre um inspirador livro da autoria de Charles Dickens…

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:29

06
Fev 12
Estava a chegar, mesmo para os que não tinham jardim nem viviam nos campos, despertadas, as Criaturas da Mata anunciavam a presença, sinos do submundo tocavam, arautos da cor e clorofila, despertando perfume nas flores. Tonitruante, toda a nação dos pássaros tocava a rebate, comandada por zelosas andorinhas, voltadas do Grande Sul. Depois do Branco Inverno partir para o sono de várias luas na gruta-ventre, exércitos de borboletas invadiam libertinas os ares em  sagração, poisando em pétalas redentoras, bafejadas por raios generosos. Poetas estremunhados abandonavam os invernosos esconsos, bebendo Luz e respirando jasmim, em busca da Iniciação Multicolor.Era o Começo.
Ostara chamava a reunir, gamos e colibris, crisântemos e girinos, libelinhas e lagartos, todo o mundo do silêncio convocado pelas forças da Criação em noite de Equinócio. No bosque da Cynthia Imortal, lá onde entre o oceano e fortalezas homens ergueram templos à Floresta Mãe, reunia a Grande Assembleia de elfos e centauros, como sempre, desde a noite dos tempos, a desenhar o anel de luz e em prece às chuvas, sémen da vida e seiva de renovação. No silêncio cúmplice da noite, a sagrada chama crepitava no altar, ao lado, a vigorante poção dum druídico caldeirão saciava ressequidos lábios, bafejados por novo renascimento. Toda a Floresta comparecia, absorvendo o anel dourado na altura do ano em que  dia e noite se faziam iguais. Os dias escuros partiriam agora, a terra albergaria sementes, o mundo renovaria a Luz.
No altar sagrado, pejado de grinaldas e ovos, grãos e raízes, o Coelho Pontífice guardava sentinela, atento às entranhas de Cynthia, perturbada e perturbante. De mãos dadas, os convocados, em adoração à deusa liberta da longa noite de  Inverno, entregavam-se ao ritual das fragrâncias, viajando por ramos e folhas, orvalho vitamínico e puro. Toda a Floresta desvairadamente celebrava, num festim de castanhas, pinheiros, verduras e verdes límpidos.
Terráqueos da montanha colocavam flores no altar e no chão, no caldeirão água pura e flores esperavam o momento da oferta, enquanto na clareira, iluminada pela argêntea Lua, incensos e brancas velas se acendiam em acordo com os elementos. Rasteiros e vindos de Cynthia, terráqueos assustados tocavam as plantas, em busca do milagre da vida, prometendo amizade e cumprindo o círculo, para depois partirem por algumas luas, ao encontro de Beltane, Litha mais tarde celebraria o apogeu de Ostara e o seu declínio, para os entes da floresta e desde a noite dos tempos, sinal sabido da chegada breve de Samhein e Yule, e com eles das trevas da gruta em novo apagar de fogueiras, fugidas ao eólico norte e à escuridão da tundra uivante.
Nas aldeias de Cynthia, as terras pediam sementes, e as árvores folhagens, chilreios em beirados prometiam fertilidade, logo partiriam sulcando céus e mares, noites e dias, até o grande astro outra vez os trouxesse. Ostara, como sempre, protegiria Cynthia, antes a fizera rude e pedregosa, e agora apoteose do verde.
Toda a noite o fogo redentor aqueceu os terráqueos, com Pã no carvalho chilreando a flauta e logo em melódico coro acompanhado pelos rouxinóis e toutinegras. Ao amanhecer, cristalina e espelhada nos frescos lagos, a Primavera reinaria enfim esplendorosa, com o seu ceptro de azevinho e coelhos nervosos saltitando. Os avaros dias do longo Inverno cresceriam generosos, frutos e plantas brotariam suculentos e em abundância, cardumes cruzariam os rios, serpenteantes patos se banhariam nos riachos atrás de irrequietas rãs.
No ano seguinte e em todos a seguir, assim seria até ao fim dos tempos, ou até que Odin na Valhalha juntasse os guerreiros no  esperado advento do Ragnarok. Cynthia veria choros, risos, lutos, borrascas, milagres, sagrado e eterno templo da floresta, e sempre no tempo em que o dia seria igual à noite, Ostara voltaria, fugaz e pitonisa, a espalhar a  redentora Luz.

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:26

05
Fev 12
"Um Glenffidich, com gelo, em fundo, a dança dos espíritos abençoados, do Orfeu e Eurídice. É domingo, e cada vez mais Inverno.Para quê sol nos corpos quando gelam as almas? Odeio os domingos. Dantes a família almoçava, depois da missa, enfiada nos fatos domingueiros. Já não há famílias, nem missa. Que saudades do passeio de barco ao Ginjal, no fatinho à marujo, a comer enguias e a visitar a avó, que esperava com o bolo de noz e scones com geleia. Nunca mais comi bolo como esse. Também têm passado, os sabores, Rogério, e muitos deles sem futuro. E o rádio, com o relato da bola, gritando cada canto como antecedendo um enfarte.
É, o passado está todo aí, na prateleira, como tu, em porcelana. Nos álbuns, arquivos mortos de vidas passadas. Cansei do Gluck, põe o Strauss, Rogério, a valsa do esquiador, seja, encerra juventude e nostalgia, só por isso, outro Glenfiddich, raios partam o Famous Grouse. Engraçado. Nunca estive nesse passado, com valsas e palácios, mas também ele é passado do meu passado. Cliché. Bonito. É sempre bonito falar do passado, por nostalgia ou arrependimento. Tem uma vantagem: ao menos tem-se passado. E apaga a televisão, chega de electrodomésticos, por hoje!
Não mexe uma palha lá fora, sabes, mas dentro, corre um vento intranquilo. Que presente recordaremos daqui a vinte anos como bom passado? Os copos que se beberam? A infância dos filhos, ingénuos e puros, azul ou rosa como os fatos que lhes enfiámos à nascença? Queria ouvir o Morrison, mas estou intemporal, apetece-me música de salão, hoje. Põe a Annen, Rogério, sim, a polka 117 de Strauss, grande música para um slideshow de vida, feliz e realizada. Para os infelizes, antes Philip Glass ou Bartok, eu quero evadir-me, quero Glenffidich, aumenta o som, diz à vizinha que enlouqueci e que o som é a conselho médico!
Engraçado, Rogério, sinto-me um pássaro em melodia de Dvorák, ainda bem que o domingo acabou. Naquele tempo não importavam os domingos, todos os dias eram de Vida, sem separar por semanas, décadas, gerações.Amanhã será segunda. Monday. Dia da Lua. Na Serra da Lua, curioso. Olha, esconde a garrafa de Glenffidich e diz ao mundo- ou pelo menos ao caseiro- que Arnaldo da Nóbrega desistiu de viver. Só ouvia vinis e num mundo onde já não  vendem pontas de diamante, riscou-se de membro. Que partiu, ao som de Annen, levando os livros, os sonhos, o perfume de Sofia,os passeios ao Ginjal e o bolo de noz da avó. Auf Wierdersehn! É forte, o adeus em alemão, seguro e sem lamechas. Rogerio! Maldito boneco de porcelana, não fosse a tia Zita e já te tinha esfrangalhado, degenerado!"
publicado por Fernando Morais Gomes às 11:38

04
Fev 12

 


A funcionária da limpeza pasmava, no hemiciclo da Assembleia, nem oito da noite eram e um indivíduo, deputado por certo, dormia com a cabeça sobre a bancada, como não haveriam as pessoas de ter má opinião dos deputados. Preparava-se Olívia e a sua esfregona para lavar o local onde muito se lava roupa suja, quando aquele vulto com óculos de massa lhe surgiu no areópago do povo.Hesitando em acordá-lo, aproximou-se, era na bancada do Partido da Liberdade, o computador estava aberto na página do Facebook e uma mensagem dum tal Libertador rezava“Já pagaste pelos teus actos.Lol”Visto mais de perto, o deputado parecia branco como a cal da parede, já ninguém restava no hemiciclo, a sessão sobre os novos impostos terminara pelas sete horas.A medo, tentou acordá-lo, ao que o corpo sem acordo do representante da Nação, a um toque, tombou no chão. Uma mancha de sangue brotando da camisa branca deixava à vista o horroroso cenário: o deputado estava morto!
Sirenes de ambulância e piquetes das televisões acorreram, mal se espalhou o sucedido. Crime na Assembleia, relatavam uns, ajuste de contas, aventavam outros, Hélder Carneiro, deputado por Faro, estava ligado ao sector imobiliário, um condomínio de luxo em Vilamoura antes de ser candidato originara querelas entre sócios, um dos quais ele. E o Libertador? Quem seria a enigmática figura?
O inspector Tomás, dos Homicídios tomou conta da ocorrência. Autopsiado, a causa da morte foi atribuída a um tiro de pistola com silenciador, em cheio no coração, a ultima pessoa a ver Carneiro vivo fora Vasco Trigoso, do Partido dos Valores, adversário político mas correligionário da caça, ainda dias antes tinham estado em Vinhais, numa batida ao javali. Nada fazia supor tal tragédia: deixava mulher e um filho e na assembleia apenas se levantara uma vez para votar o Orçamento. Sempre que havia plenário jogava Farmville, apenas interrompendo para aplaudir ou rematar com um “muito bem!” as intervenções dos colegas. Um pormenor chamou a atenção ao inspector: sobre a mesa, num papel, estava desenhado um flamingo, a morte tê-lo-ia surpreendido quando faltava terminar a pata.
Nada fazia sentido. Na televisão, o Primeiro-Ministro e vários deputados recordavam o insigne cidadão e o muito que havia a esperar de tão loquaz parlamentar. Nenhuma pista parecia esclarecer o móbil: não tinha inimigos declarados, a família era equilibrada, politicamente pardacento, nunca se ouviria falar dele, não fora a infausta morte no seio da representação nacional.No dia do funeral, muito concorrido, o inspector Tomás, discreto, observou os presentes: gente do Algarve, deputados de todos os partidos, e muito povo, sempre pronto a comparecer quando a televisão está por perto. Formado o cortejo fúnebre, uma carrinha branca com três homens dentro incorporou-se, era dum tal Hotel Flamingo, em Vilamoura, um animal semelhante ao do papel encontrado junto ao corpo do deputado estava pintado na porta.
Curioso, Tomás não mais a largou. Depois do funeral, parou no Gambrinus, onde os dois ocupantes jantaram, falando baixo e num tom zangado, viu pelo esbracejar dum deles. Com o telemóvel, tirou umas fotos e mandou averiguar as identidades, todos tinham mais de quarenta anos e um usava um laço preto, como se fosse um maestro. Dali seguiram para um hotel, onde outro homem os aguardava no lobby, detendo-se a conversar um pouco e subindo para os quartos depois. Mal se retiraram, Tomás ligou a Eduardo, seu colaborador na PJ, que chegou em dez minutos e identificando-se pediu os nomes dos três. Eram os donos do hotel, informou acabrunhado o recepcionista. Daquele e de muitos outros, o Flamingo de Vilamoura também. Havia gato ali, mas por enquanto nada tinha de concreto.
Colhidas informações na Assembleia, ficou a saber que o discreto deputado Carneiro integrava a comissão de inquérito ao BPN, como vogal, Felício Borges, correligionário de bancada, lembrava-se de o ter ouvido certa vez ao telefone a falar com um tal Loureiro, e a garantir que ou viria um flamingo ou seria pior para ele. Requisitado o historial de chamadas, efectivamente havia entre os contactos um tal Abel Loureiro, a residir em S.Tomé desde o Natal. Perspicaz, teve uma ideia: adicionou sob nome falso o Libertador no Facebook e escreveu, sob o pseudónimo Albatroz: “Libertador, tenho o Flamingo comigo”. Do outro lado, ao fim de uns minutos, alguém entrou no chat: “Quem és tu, Albatroz?”, a que se seguiu “O dono do milho. O pobre do Milhafre ficou pelo caminho mas o voo do Albatroz há-de prosseguir…”. Continuando a dar conversa, o Libertador perguntou: “E onde é o poleiro do Albatroz?”. Aí, Tomás lançou o isco: “Na casa do Flamingo para uma bebida. Às cinco.
Às cinco da tarde, no bar do Hotel Flamingo, Tomás, de fato e gravata, simulando ser um empresário, aguardava com um gin tonic. Minutos depois, um, que reconheceu do hotel e do funeral apareceu. Desconfiado, cumprimentou, e mandou vir uma garrafa de whisky e cajus. Era Macário Teles, industrial hoteleiro. O inspector Tomás inventou uma narrativa: queria investir no Algarve, e o grupo do Flamingo pareceu-lhe de referência. O nome da cadeia fora-lhe sugerido pelo deputado Carneiro, que grande perda fora para o país. A invocação do nome do falecido deixou o Teles desconfiado e a tirar nabos da púcara:
-Conhecia o deputado Carneiro, senhor….
-Almeida. Almeida da Câmara. Sim, era amigo da família e tivemos negócios no passado. Grande fatalidade! Quem terá cometido um crime tão hediondo? E no sítio que foi…
-Pois é, ainda custa a crer. Ele foi meu sócio há uns anos, em Armação de Pêra, nuns prédios de apartamentos, depois meteu-se na política e só acompanhei de longe...
O telefone de Tomás tocou nesse instante, era o Eduardo, da sede, com informações frescas. Sorrindo, Tomás foi dando goles no gin enquanto Teles fumava um charuto. Terminado o telefonema, e mais incisivo, Tomás voltou à conversa com o seu interlocutor, desta feita mais incisivo:
-Diga-me, os senhores não fizeram esses apartamentos com dinheiro oriundo do tráfico de droga? E quando a sociedade se desfez não lhe ficou a dever dinheiro?
O outro ruboresceu, e antes que dissesse algo, Tomás sacou da pistola e identificou-se:
-Tomás de Oliveira. PJ!
Sem reacção o outro deixou-se estar, retorquindo com alguma calma aparente:
-Não sei do que fala, inspector. Não via o Carneiro há anos, e se quer saber, até dei dinheiro para a campanha dele por Faro, através do partido. Quanto ao resto, são especulações, quero um advogado, se não se importa.
Tomás chamou a brigada, levando Macário para a PJ. Somados dois e dois, chamadas telefónicas comprovavam um conluio entre Teles e Loureiro, a partir de S.Tomé, para se verem livre de carneiro. Aproveitando-se do novo posto, este chantageara Macário com uma queixa por fuga ao fisco, com documentos que provavam negociatas nos anos oitenta e das quais não recebera a sua parte. Na comissão do BPN, implicaria Loureiro, pois todo o projecto do Flamingo fora financiado pelo banco com dinheiro sujo duma off-shore em Gibraltar. Ao meter-se com quem não devia, pagava com a vida, o autor material fora um pistoleiro contratado, um brasileiro, disfarçado de administrativo, que o alvejou já só ele restava no hemiciclo. Acabou sendo preso no Meco, enquanto tomava uma caipirinha. Era Teles o Libertador.
Presos os responsáveis, Tomás, regressando ao local do crime, a dar conta das conclusões, viu no lugar do defunto o deputado que o substituíra: Porfírio Lopes, antigo negociante de carnes, ali para dar o corpo pelo partido, e se possível, por algum bife do lombo… Info-excluído, porém, não sabia usar o computador, nem tinha amigos no Facebook

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:15

02
Fev 12


1-Introitus: Requiem aeternum
Petrificados plátanos saudavam o cortejo, miserere mei, seguia para a eterna noite, oh glórias vãs, poderes etéreos, interrompidas esperanças. Estão Giotto, Guariento, Vitale, a Sacra Via de  suplicantes à porta dos Céus, impotentes corpos  servidos em tarde pascal. Chove nas almas, descansam os corpos, morri no dia em que se morre.
2-Kyrie
Confesso. Confesso, não vivi. Aqui vou, deitado, eu que já não sou, nós que não seremos, a Matilde chora por mim, preso neste corpo inerte, ah, um cipreste confortante, logo as almas sairão, fraternos patrulharemos angústias. E Deus, existirá? Ficarei à sua direita? Faz frio, arrefece. Voltem, não vão já, não me deixem, egoístas, de volta às vossas mortes diárias. É apertada a urna, falta  o ar. Cheira a flores, flores de morte.
3- Diez irae
Inicia-se a viagem, Anúbis barqueiro em silêncio maneja o remo, Matilde chora, bem vejo, porque levantarão o som, é o Inferno pela certa. E Jesus? Não está, regressou dos mortos, qual filme de Corman. São belos os quadros aqui, perfumados, olha, Brunelleschi, Fra Angelico, Donatello, Masaccio. Renascimento, lhe chamam, todos mortos, porém. Quando parará a barca?
4.Tuba mirum
Chegamos ao cais, miserere mei, misere mei, disformes embuçados carregam-me o caixão, será bom sinal? Vejo Matilde ao longe, acaricia-me em foto, porque não guiei devagar? É esquisita a morte, cheira a flores e cera. Dois homens riem naquela margem, chegaram agora, novos, discípulos do Cancêr, guerreiro da Morte.
5.Rex tremendae
Mandam-me erguer do caixão, que aguarde, à volta retábulos e dentro deles mortos, vivos, mortos-vivos, Van Eyck retoca um morto, e madonnas, muitas, florentinas, papais. Há vida também, caminhos para o Paraíso, olha a Vénus, Botticelli, Bellini, Verrochio. Os corpos estão desnudados, a mim desnudam também, pecador corpo suplicando por um lugar. Sim, são cicatrizes, muitas, cataterismos, acidentes de mota, não foi por eles que cá estou.

Ei-lo, o Redentor, Altivo, Castigador. Existe! Afinal existe! É como nos filmes, velho como o mundo. E agora, ajoelho, choro, que faço? Tirem-me daqui, quero comer, quero os meus amigos, já sei, daqui a pouco vou acordar e rirei a bom rir. Não vejo a Matilde agora, está escuro, toda a luz  recai sobre o Velho.
6.Recordare
Sim, é verdade. Matei rolas, indefesas. Bati no Alcides, coitado. Pequei, pequei, pronto. Pecados mortais? Todos. Bem, todos não, nunca tive inveja  do Antunes, coitado, só do Porsche. E a mulher do Brás, foi ela que quis...
7. Confutatis
Abre-se uma porta, estou nu e faz frio. Pronto, pronto, como queiram. Os quadros mais belos passam agora, olha o Bellini, Leonardo. O Leonardo, Deus meu, desculpa, Deus tu, é o paraíso por certo, com Leonardo só pode ser o paraíso, espreito ao fundo, parece Sintra, há castelos, e muitos anjos. Virarei anjo, sem sexo e com asas? Quando a Matilde me vir...
8.Lacrimosa
Passa um filme. Sou eu, é a minha vida. Olha, a avó Chica, tão frágil, o Zézito, coitado, morreu em África. Olha a Matilde, chora. O Velho nada diz, estuda-me, bem vejo. Deixem-me voltar, não sou daqui, as minhas lágrimas nada valem? Onde está a caridade? Afastem de mim este frio, tapem-me, torturem-me, mas deixem-me.
9.Domine Jesu
Afinal há mais gente. Jesus, o Nazareno. Como é magro, nos olhos o sofrimento do mundo. Olha-me, acaricia-me a cara, segue pela esquerda, sumiu. O Velho hesita, começo a ficar conformado. Sempre há os quadros, Rafael, mais Leonardos. Sublimes, imortais, perenes, serenos, gloriosos. Mandam que avance. É agora. Toca Mozart, ah Wolfgang, estarás cá também, salvo da abjecta vala onde te deitaram? Só pode. Volto a ver a Matilde, está bela, a dor torna as pessoas belas.
10.Hostias
O Velho baixou novo quadro. A avaliação está feita.Tenho medo, mas estou sereno. Oh, não pode, Michelangelo, a Capela Sistina, o camarote da Vida, será para mim?
11.Sanctus
Adão, Noé, Abraão, filhos de Israel, crianças do Darfur, os inocentes, estão cá todos. Vou entrar! Sanctus, Sanctus, acredito agora, desnudado entro, tocam tubas, repicam carrilhões, Matilde, Matilde, é Sexta Feira Santa, não chores, estava escrito. Olá, sou o Alberto, cheguei hoje, estagiário no Paraíso, aleluia! aleluia!
12.Benedictus
A imagem some no ar, entrei! Não eram graves os pecados, choro e rio, oh catártico quadro onde afinal morto revivo. Oh triunfo de azul, azul de Céu, azul dos teus olhos, Matilde, azul do nosso mar, salgado, só nosso. Estás longe, cada vez mais longe, mas posso escutar-te a respiração, clara e próxima.
13.Agnus Dei
Apagam as luzes lá atrás, qual passarola voo agora, criação de Michelangelo, em sistino paraíso sulco os Céus, rodeado de anjos, seráficos e louros da cor do ouro, como os serafins do antiquário em S.Pedro.
14.Communio: lux eterna
Adeus, Matilde. Ao morrer, vivo para sempre. Fala de mim ao André, é lindo o nosso filho. E quando tiveres saudades, abre o livro grande da sala. Lá estou, celestial sentinela e redimida alma, criatura de Michelangelo.
Fecham a porta do cemitério. Adeus, Matilde, até já…

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:58

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