por F. Morais Gomes

21
Nov 10

Faria Machado correu ofegante para o gabinete no Quai Louis XVIII:

-Sr cônsul,  a fila está cada vez maior! Que fazemos?- o assustado funcionário do consulado de Bordéus passara quatro anos de calma, apesar da guerra, mas nunca vira nada parecido.

Aristides Sousa Mendes assomou à janela, mais de vinte pessoas formavam fila em busca de um visto para Portugal. Alguns com vestes de rabino, peias pelos ombros, yeddish, crianças com mães de ar apreensivo e assustado.

Era o dia 21 de Junho de 1940. Oito dias antes o exército alemão entrara em Paris e o Reich privara de nacionalidade pessoas de origem hebraica, ciganos e nacionais de estados ocupados, subitamente apátridas e sem papéis. Notícias vndas da Alemanha faziam temer o pior, Portugal, país neutral, era um inesperado porto de abrigo.Lisboa primeiro, depois se veria.

Sousa Mendes tinha instruções rigorosas, a circular 14 do Ministério dos Negócios Estrangeiros: nada de vistos sem consulta prévia a indivíduos de nacionalidade em litígio, apátridas, portadores de passaportes Nansen e russos, bem como a judeus expulsos dos países de origem.Porém, Portugal começara a ser visto como salvação desde que circulara que o cônsul concedera (à revelia do governo de Lisboa) um visto a Arnold Winitzer, judeu austríaco prestes a ser internado num campo de detenção francês. Mais dois ou três casos, repreendidos por Lisboa se sucederam, Sousa Mendes pisava o risco mas ganhava fama.

Taciturno, passeava no gabinete, pensando naquela gente em transe, entre um destino infausto e à distância de um mero carimbo, apanhados numa guerra que não percebiam, famílias inteiras respeitáveis e honradas, subitamente párias e perseguidos, era absurdo e desumano.No seu intimo, estava determinado:

-Faria Machado, chame o Vieira Braga e mande entrar por ordem de chegada. Venha para aqui e traga o selo branco! -resoluto, decidiu, não se é Homem sem humanidade.

Um aliviado sorriso atravessou a fila desesperada mal as portas se abriram, todos querendo passar à frente. Sousa Mendes fazia a triagem, assinava, Faria Machado, obediente mas preocupado ia apondo o selo branco. Havia que garantir um livre-trânsito em Espanha, geralmente fácil para passageiros em mero trânsito, o consulado de Bordéus era a redentora fronteira entre a Vida e a Morte.

Norah Kempinski, violinista da Orquestra de Viena e a mãe arrastando duas malas cartonadas com bom aspecto, sinal de uma vida até ali estável e de conforto, surgiram-lhe nesse dia, com ar pungente e quase suplicante. Olharam-se, silenciosos e cúmplices. Sousa Mendes fitou-as, cortês, leu e rubricou, a mão hirta mas salvadora, Norah em silêncio, no momento de assinar, colou a sua mão na dele, redentora e milagrosa. Pegou na mala e com a mãe desapareceu na esquina do Quai Louis XVIII, direita à gare de Bordéus, dezenas de portadores de passaportes Nansen, novos apátridas, aguardavam aquele Sud Express da Vida, cada minuto a mais nesse país descido aos infernos era uma eternidade e um risco.

Nos dias seguintes a fila agigantou-se de deserdados, Portugal, país que vagamente conheciam era agora p Eldorado de paz onde todos queriam chegar. Lisboa soube pelos ingleses do reboliço em Bordéus,o embaixador em Madrid,mandado por Salazar, foi mesmo a Hendaia travar o ímpeto temerário de Aristides, o Salvador. Quatro mil assinaturas haviam já livrado do inferno outros tantos inocentes, só culpados de estar vivos no sítio e hora erradas, ao som milagroso do matraquear dum selo branco marchavam em direcção ao Sul e ao Sol.

Lisboa fechou os olhos à entrada dos refugiados, a imagem de país acolhedor nem desagradava de todo, contudo a autoridade do Estado não podia perdoar, predador, o poder da disciplina caiu sobre o amotinado de Bordéus. Em Outubro, depois de suspenso, um ano de inactividade com metade do vencimento.Depois, aposentado, sem meios de subsistência, também ele refugiado agora  sem visto para a dignidade e  um selo branco para a miséria.

Norah Kempinski e a mãe chegaram a Lisboa em Julho.Joaquim Morais, comerciante na Baixa, coração solidário, conheceu-as numa sala  do Governo Civil, plena de refugiados, assustadas numa sala de espera. Uma filha da idade de Norah levou-o a fixar-se naquele ser frágil e perdido, inteirado da situação, ofereceu-se para as alojar, uma vida feita de dificuldades  dera-lhe a noção de quanto as pessoas contam nos momentos.

Por cá ficaram seis meses.Numa casa em Galamares, perto de Sintra, passaram com os novos e inesperados amigos em serena paz e longe da guerra aquele Verão de 1940. Não fosse o racionamento do açúcar nada deixava transparecer um mundo em conflito, os filmes de Leitão de Barros e a épica Exposição do Mundo Português exaltavam um país brando e tranquilo que o dr. Salazar sabiamente poupara a uma guerra distante.Foram meses para cicatrizar, a mulher e filha de Joaquim uma nova e inesperada família. Mais tarde, um vapor levou-as para a almejada América, uma agência judaica garantia assistência.Passada a Estátua da Liberdade, finalmente um futuro, do  lado de lá do Atlântico.

A guerra acabou e os anos passaram. Sousa Mendes, caído em desgraça, morreu na miséria, em 1953.Norah fez uma carreira de sucesso na Filarmónica de Boston, todos os quatro anos vinha visitar a família portuguesa para  uns dias à sombra da ameixoeira em Galamares. Fugira à Shoah e a um destino tenebroso, o  violino vibrante e as cordas em fúria choravam lancinantes pela sordidez dos injustos. Mas exaltava também os bons e gentios,  agora rostos distantes, sorridentes,  já mortos,por eles ainda mais  gritava virtuoso o inquieto violino em  muitas salas e concertos, também ela encontrara o  american dream.

Em 1975, avó e já retirada, pela primeira vez visitou Israel com os netos, essa pátria distante do êxodo e da  Terra Prometida, ainda chegara  pensar lá viver depois da guerra, desafiada por amigos do Ìrgun. Antes, passou  duas semanas em  Galamares com Amália, a filha de Joaquim Morais e os filhos desta. O “pai” Joaquim falecera já, mas um anel de estimação ficara em legado para aquela assustada Norah que um dia o destino pusera no Governo Civil de Lisboa e a quem se afeiçoou como se do seu sangue fosse. Foi a última vez em Portugal.

Em Jerusalém, entre um turbilhão de emoções, no Yad Vashem, altar da memória, buscou o  Jardim dos Gentios. Ruas de alfarrobeiras alinhadas, muitas flores frescas e sempre renovadas, em cada árvore uma placa identificando nomes,  homens bons  que desinteressadamente e sem preconceito haviam salvo vidas do holocausto, sem eles certamente perdidas num tempo de intolerância.Com os olhos correu os nomes: Wahlenberg, Schindler, muitos mais.Frente a uma alfarrobeira açoitada pelo vento, o nome desejado. Deteve-se, lágrimas na face, arrepio na espinha. Era ali.Sorrindo e chorando ao mesmo tempo depositou uma rosa branca,  lírios ainda viçosos denunciavam outras romagens recentes. Aristides Sousa Mendes, o homem do sorriso que com uma simples assinatura trinta e cinco anos antes a resgatara dum destino amargo, para a eternidade ali estava recordado.

A humanidade não é um estado a que se ascenda. É uma dignidade que se conquista.


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:05

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