por F. Morais Gomes

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Nov 10
Tarde de Outono.Uma cigana romena insistindo no Borda d’Água fotocopiado, uma esmola, lacrimejante, alguns turistas outonais comendo tostas mistas na esplanada do Tirol. Ana vinha da loja chinesa, ameaçava chover e um providencial chapéu de três euros que duraria para aí dois dias era necessário. Á porta do supermercado, sentado no chão, um pedinte, cabelos fartos, sujo, roupas em farrapos, vestidas sobre outras já em tiras. Cerca de vinte anos, porte altivo, cabeça levantada, poucos escutavam as palavras que pronunciava baixinho, não raro barafustando com alguém imaginário. Um rafeiro impassível ao lado, um chapéu onde algumas moedas de cêntimo denunciavam um dia pouco proveitoso. Os mendigos em Sintra são familiares, ao serviço à mesma hora que os funcionários dos bancos ou o comércio, parte da fauna urbana, incómodo postal ilustrado da vida real.

Este era um mendigo novo, nunca havia sido visto por ali, sinal dos tempos, algum desempregado caído na rua, novos pobres a necessidade apertando, sem casa para morar uma rua para viver, um cigarro de enrolar sempre na boca, olhar alheio.

Ana mirou-o, movida pela novidade deixou os cinquenta cêntimos do troco do guarda-chuva no prato, assim não a importunaria se porventura continuasse por ali nos dias seguintes.Com um aceno de cabeça, silencioso, agradeceu, o cão dormitando ao lado.

Uns dias mais tarde, Ana levou o pequeno Tiago ao dentista, traquina brincava com o mp4, donde se soltava uma Lady Gaga estridente, parou na Urca a comprar laranjas. O pequeno Tiago, cinco anos rabinos, ouvindo um carro sonoro publicitando um circo na Portela correu atrás da música, palhaços e leões ao findar da rua.Na curva da Desidério Cambournac um carro seguia na peugada, embate inevitável.

O grito de Ana, uma travagem brusca, a mão providencial e súbita do mendigo evitava o pior,o cão ladrando na porta do supermercado.Ana em transe correu a abraçar o filho, os mirones do costume logo cercando o lugar. O mendigo, em silêncio, voltava para o posto, na pressa deixara os poucos cêntimos dentro do chapéu à mercê de mesmo esses serem furtados.

Ana correu para ele, agradeceu, modesto disse que não era nada.Pegou em cinquenta euros, surpreendentemente não aceitou.Voltou para casa, emoções fortes a assentar.

No dia seguinte, o cão dolente ao lado, lá estava ele. Cumprimentou-o, agora familiar, ensaiou uma conversa:

-Então o que é que lhe aconteceu? Desempregado?

O mendigo hesitou na resposta.

-Coisas da vida!...- e enrolou mais um cigarro,moda recente fugindo ao preço do tabaco.

-Se puder ajudar alguma coisa, diga, nunca será suficiente, acredite!-respondeu, sincera, agradecida.

Com a continuação lá foi deixando cair algo sobre ele: chamava-se Sebastião, tinha saído de casa seis anos antes,emprego em Londres.Uma hepatite B obrigara-o a voltar, perdera o contacto com a família a quem nunca avisara duma partida súbita e impensada,o dinheiro acabara. Tivera de recorrer à rua, o cão abandonado por única companhia.

Ana interessou-se, pediu-lhe informações. Pelo Google descobriu nomes, um pai autor de artigos sobre agricultura forneceu uma pista, logo um telefone, o trabalho de detective excitava-a. O pai, aposentado, estava no Alentejo, a mãe morrera.

Alguns dias mais tarde rolavam no Toyota de Ana pela estrada rumo a sul, Sebastião tenso, Tiago atrás brincando com o cão.

Na porta dum monte, azul e branco caiado, uma figura alta e alva esperava. Sebastião, olhos baixos, ensaiou um olhar, remorso contido.

O pai, engenheiro reformado, gente de posses, agora viúvo, do filho perdera o contacto. A visão de quem julgava perdido para sempre, e quase pródigo e envelhecido voltava, comoveram o idoso pai. Depois de hesitações, abraçaram-se, em silêncio, Ana feliz ao longe, o pequeno Tiago correndo atrás dum galo, o cão da trela velha ladrando contente.

Sebastião mora agora com o pai em Arronches, plantaram um novo olival, regadio farto, perseverança, apesar da crise, Teresa, professora local debaixo de olho.

Ana voltou para o emprego no banco, diário café no Tirol, laranjas doces na Urca. Novo mendigo, sem cão, ocupa agora a porta do supermercado, a romena do Borda d’Água ainda lá,pessoas absortas acima e abaixo. Detrás da vida muitas vidas há.


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:20

Tomara os que estão detras da vida conseguissem todos tomar a iniciativa de andar atras dela...
Tomo a liberdade de aqui deixar o titulo de um livro, acerca deste mesmo tema, cuja historia vale a pena conhecer e tomar como exemplo: A Procura da Felicidade, de Chris Gardner, que inspirou o filme de Gabriele Muccino.
Daniela Colaco a 29 de Novembro de 2010 às 13:08

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