por F. Morais Gomes

24
Nov 10

A carta de Oliveira da Figueira chegara a Moulinsart misteriosa e enigmática.O amigo português de Tintin pedia ao repórter belga que viesse  a Portugal investigar o misterioso roubo de um valioso rubi  na Quinta da Piedade  em Sintra, requeria-se discrição e celeridade.

Chegados a Sintra, Tintin, Milú e o capitão Haddock instalaram-se em casa de Oliveira da Figueira no Largo do Vítor, Milú logo ladrando atrás de Sissi, a gata siamesa que pachorrenta dormitava na soleira da casa.

-Pois ainda bem que veio, meu caro.A minha amiga, a marquesa do Louriçal está muito preocupada, pois o rubi é valiosíssimo, veio para  Portugal pelas mãos de um seu familiar que aqui se instalou no tempo de Junot,há duzentos anos .Mas ela é muito avessa à imprensa e deseja discrição.E lembrei-me de si!

-Compreendo.Podemos começar por visitar o local então!.

-Havemos de encontrar os iconoclastas, com mil milhões de macacos!-rugiu estimulado o capitão Haddock, mirando um quadro de Burnett na parede.

No dia seguinte, serra acima lá foram até à Quinta da Piedade pela estrada de Monserrate no jipe cheio de tralha de Oliveira da Figueira, agora negociante de antiguidades orientais, deixara-se de viagens pelo mundo.

A Quinta, rodeada de frondosas árvores, era um pequeno paraíso, vista deslumbrante, a Pena em fundo.O rubi desaparecera de um cofre de parede atrás dum retrato de Napoleão. Nem sinais de arrombamento, tinha sido aberto por quem conhecia a combinação. Na biblioteca, a marquesa num cadeirão, o segundo marido, vinte anos menos, ao lado, contou a história da jóia desaparecida.

- Meus senhores, em 1802, um ladrão de nome Marcel, roubou em Paris, 82 rubis orientais raríssimos, entre eles um com 24 quilates. Em 1807 Marcel foi preso na Bastilha e condenado à morte, mas a troco duma fuga consentida que o salvou da guilhotina deu a um antepassado meu esse rubi, o qual desde então se tem mantido na nossa família-foi contando, a marquesa tinha ascendência francesa e um trisavô fora director da famosa prisão de Paris, o tal a quem Marcel dera o rubi a troco de o deixar escapar.

Tintin pediu para ver a casa, e saber quem a ela tinha acesso.

-Comigo vive o meu marido, René, o mordomo, o Perestrelo, e a cozinheira, a Marília. Mas há dias dei uma recepção, vamos ter um recital aqui em Sintra e fez-se uma homenagem à famosa cantora lírica Castafiore- recordou, o marido em pé ofereceu whisky, só Haddock aceitou.

-Castafiore? A Castafiore está em Portugal? -perguntou surpreso o capitão Haddock

-Sim, está em Seteais, vai actuar nos jardins amanhã á noite, junto com o José Carreras.

Tintin deu uma volta pela quinta. Junto a uma trepadeira, dois vultos agachados pareciam mirar algo.

-Boa tarde! -atirou

Os intrusos, sobressaltados, na pressa de se levantarem chocaram um com o outro.Eram os detectives Dupont e Dupond.

-Vocês aqui? Que fazem estes peripatéticos idiossincráticos aqui ?-vociferou o capitão,sempre embirrara com eles e o seu bigodinho retorcido.

-Não se assuste, caro capitão. Estamos a investigar para uma companhia de seguros!- explicou Dupont, tirando o chapéu em cumprimento.

-Sim, há um seguro de cinco milhões de euros, sabia? -logo acrescentou Dupond, seguro de desvendar uma novidade.

-E já descobriram algo? -interrogou Tintin.

-Quase, quase.Vêm esta coisa no chão? - e Dupond, apontou um detrito acastanhado no chão, junto à trepadeira-É o resto dum charuto cubano, um Monte Cristo nº 5, dos puros! -e com um lenço pegou o vestígio, ar ufano, Sherlock Holmes não faria melhor.

Juntos foram ter com a marquesa: se tinha reparado em algum convidado na recepção fumando charuto. Recordava-se efectivamente, um amigo do comendador Berardo fumava, o cheiro intenso recordava-lhe o personagem, um armador grego, pensava, a negócios em Viana do Castelo, ela detestava o cheiro de charuto.

-Mas espere, o meu mordomo, o Perestrelo deve saber o nome, havia uma lista de convidados.

O velho Perestrelo, fleumático, buscou numa gaveta a lista da festa. Grego ou parecido, havia um Giorgios Papadopoulos, de Salónica, um careca de bigode escuro e monóculo no olho direito, lembrava-se de com Berardo discutirem a nova exposição do Tate Modern.

-Monócolo? Grego? Está tudo explicado! –interrompeu Tintin,fazendo luz-O nome não é esse, mas sim Rastapapoulos.É um famoso ladrão internacional , pensava que tinha morrido num naufrágio em Djibuti há 3 anos, foi noticiado na imprensa.Afinal safou-se!

-E onde o poderemos encontrar? -questionou René,interessado.

-Segundo o Berardo, está na Penha Longa, querido, parte esta semana-esclareceu a marquesa, recordada.

Logo se dirigiram para o hotel no carro de Oliveira da Figueira,com sorte ainda o encontrariam.

Lá estava Rastapapoulos, relaxado, bebendo um bloody mary no clube de golfe, sorridente contemplava o green. Vendo-os chegar,  reconheceu aquelas figuras familiares de outras peripécias e correu a esconder-se num lavabo. Mas já Tintin lhe atalhava o passo, enquanto o capitão Haddock o imobilizava pelo pescoço numa zona isolada do relvado.

-Alto aí tratante ditirâmbico, esdrúxulo ladrão de jóias! -gritou, enquanto lhe torcia o braço, Dupond e Dupont, na peugada algemaram-no, presa grossa, afinal o falso morto estava vivo e bem vivo.

-Eu não fiz nada! O que me querem? – gritou ofegante,esbracejando

-Confessa onde guardaste o rubi, miserável escatológico! -ameaçou o capitão.

-Que rubi? Apenas vim jogar golfe, não sei de nada!

-O rubi que roubaste em Sintra, confessa!

-Foi o marido da marquesa que me pediu que lhe simulasse um assalto, não o queria vender mas ia dá-lo como roubado para receber o seguro!

Ainda tais palavras não estavam concluídas quando pela esquerda, René, revólver em punho, punha fim à cena.

-Parecia um plano perfeito, mas você é um amador, Rastapapoulos.É pena que nunca se vá saber que estava vivo depois de estar morto.C’ést la vie!

Preparava-se para atirar quando Milú saltando sobre ele o abocanhou na perna, caindo com a dor, soltando um disparo para o ar desgovernado.Logo Tintin e o capitão o imobilizaram enquanto os Dupont seguravam o enraivecido Rastapapoulos.

Presos os ladrões, rubi no cofre, todos no dia seguinte admiravam a Castafiore, rouxinol estridente nos jardins de Seteais, cantando a Norma de Bellini. Todos? Todos não. O capitão Haddock já meio zonzo saboreava um bourbon num salão do Hotel, já a Pena eram dois e os Dupont quatro.

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:39

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