por F. Morais Gomes

25
Nov 10

D. António Castelo-Branco Correia e Cunha, 5º conde de Pombeiro escolhera quarta-feira para reunir os membros da Nova Arcádia na sua Quinta de Belas, a nova fonte de Neptuno e as obras recentes tornavam-na um dos locais mais agradáveis fora da capital. Em tempos pertencera ao traidor Diogo Lopes Pacheco, um dos algozes de Inês de Castro, e o próprio rei D.Pedro depois de a confiscar aí viveu algum tempo.

Conquanto as tertúlias fossem habitualmente no palácio do conde em Lisboa, desta feita o aniversário da esposa trazia os académicos e ilustres membros a apanhar ares de Belas. Alem dos condes e família, marcavam presença o padre Domingos Caldas Barbosa, Bocage, o conde de Vimioso, José Agostinho de Macedo, outros mais, a Lisboa da Viradeira.Também convidado, ar carrancudo e austero, o intendente da Polícia, Pina Manique.

Caldas Barbosa, o mulato Lereno, como literariamente se baptizara, era o mais expressivo. Gongorismos recorrentes, via ninfas em qualquer matrona, tágides no charco mais mal cheiroso, glosando as futilidades tão do gosto do conde. O fofo conde, como lhe chamava o cáustico Bocage.

Ao invés dos saraus em Lisboa com bolinhos e torradas, desta feita a festa era de gala, aniversário natalício, noite literária em perspectiva.

Bocage detestava aquela fauna, sobretudo Lereno, e só aceitara comparecer porque sempre seria mais um jantar grátis, alguma sopeira mais matrona com que se refastelasse nalguma alcova dos fundos colmataria as alarvices do conde e os esgares patéticos de Agostinho de Macedo. Como arcáde adoptara o acrónimo de Elmano Sadino, sarcástica coqueluche nos salões de Lisboa e visita assídua dos calabouços do Limoeiro.

A busca do ideal campestre, o locus amenus de que tanto se emulavam fazia da pueril Belas o recanto idílico para investida de bucólicas odes e inspiradas elegias, assim corressse o tinto ou o branco, proclamando o corte no inútil, inutilia truncat, como de cátedra apregoava Macedo, ele mesmo entre inutilidades bolçando poemas a metro.

Nessa noite um clarete providencial espevitara Bocage, boémio desbocado, estrela dos salões e guerreiro do escárnio, sempre perto da polémica ou do Aljube. De copo cheio, meteu-se com Lereno:

-Então que me diz da adega do conde? Boa uva, soneto inspirado vem a caminho, não? -sarcástico, provocava, três copos já esvaziados.

-O néctar de Baco apenas enviesa os espíritos néscios, sr. Bocage, nunca talentos seguros como o meu! -rematou enfatuado o ditoso génio dos salões.

Nesse ano de 1791 já Bocage fundador da Nova Arcádia se incompatibilizara com vários dos outros membros, era notória a sala dividida entre a corte dos amigos e inimigos de estimação, a muitos votando gargalhadas de desprezo, logo vingativos sonetos acabariam com os infames.Bocage era o assassino da pena, a Lisboa do prostíbulo infiltrada nos salões dos peraltas.

Entre um canapé e mais um branco de Colares vislumbrou na sala a criada de fora, Marília, que corada e lânguida servia os convidados. Logo fixando aqueles seios arrebitados e formoso colo, se lhe colou lascivo.A pretexto de usar os lavabos postou-se na saída para a adega, onde logo Marília iria repor mais litros de verve no copo dos quejandos mestres da palavra, o escol do reino.Na penumbra das pipas, vasilha na mão, mal a sentiu chegar, logo o braço esfomeado lhe agarrou a fina cintura e o traseiro redondo e apetitoso, o sangue aos pulos, a vasilha logo no chão.

Na sala, o conde, pedindo silêncio, chamou Lereno a improvisar encómios para a piedosa e aniversariante esposa, pouco favorecida por Vénus, peruca francesa desenxabida, pó de arroz pastoso, uma mantilha de cambraia a estrear.O imbecil, enfatuado, respirou fundo e papagueou qual dançarino um minuete de elogios tais que a própria condessa questionava se era dela que estavam falando. No final aplaudiu, rosada, e mais vinho correu no salão de Belas, palmas fervorosas. Agostinho Macedo perorava sobre a decência, que as cortesãs recatadas deveriam obedecer a seus maridos, entronizadas no Belo, mas castas e obedientes, enquanto os demais anuíam.

Bocage, entretanto, no escuro da adega e entre guinchinhos ofegantes e os barris do conde de Pombeiro materializava nova elegia no corpo branco de Marília, já esquecida da sala onde se esperava a vasilha.

Voltado à sala, já composto, foi a condessa quem lhe pediu um soneto. Bocage, regressado, respirou fundo, qual forcado antes de enfrentar o toiro, e com o pensamento ainda na carnuda Marília lá desfiou panegírico fervilhante, esbanjando odes àqueles olhos buliçosos e lábios voando, cabelos subtis e luminosos, dedos melindrosos, tudo o que se entendesse e ainda mais, o salão exultava.

O conde, antes embevecido, começou a achar exagerado o tom usado e com tosses secas abreviou a récita, com a condessa já vermelha sacudindo o leque, afogueada. Acabada a poesia, seguiu a festa com a inevitável modinha brasileira do boçal Lereno. Agostinho de Macedo, entretanto, invectivava a pobreza dos Lusíadas, ele faria melhor, enquanto Pina Manique e o conde de Vimioso falavam sobre a nova obra do intendente, a Casa Pia de Lisboa.

Bocage, ainda mal recobrado dos deleites com a bela Marília já de novo escapulia e ardente a procurava.Um sinal com o dedo e a cavalariça do conde era agora leito quente e aconchegado, qual gruta de Belém com ele arcanjo. Amar e poetar, eis a felicidade, pensava Bocage, saltimbanco da vida e bardo do prazer.


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:23

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