por F. Morais Gomes

28
Nov 10

O vigilante fechava as portas de madeira, o projector sobre o torreão estava já apagado, uma da manhã. Em volta, poucos circulavam, noite de Inverno, as chaminés da Vila imitavam o lento apagar, lua cheia, cintilante, a vila dormia.

O leão de pedra, silenciosa sentinela dos paços do concelho de repente parecia uma lâmpada de néon. De branco fez-se azulado, os olhos vermelhos, ganhava vida, com um salto, seguro postava-se majestoso frente à Tasca do Manel. Abanando a cabeça ,rugiu e subiu direito à estação.

Shintara,assim se chama o leão, havia sido em tempos um vizir árabe a quem uma vil e vingativa feitiçeira transformara em pedra havia mais de mil anos, no Castelo dos Mouros. Durante o dia, hirto, contemplava o movimento, serra ao fundo, cidadãos tratando dos seus assuntos, funcionários atarefados com processos, vereadores marcando reuniões. À noite, ganhava vida, até ao nascer do sol, quando inexoravelmente voltaria ao pedestal, tinha uma missão a cumprir: fazer justiça a quem ali tinha ido em busca dela e saído sem resposta, proteger os fracos,o rei da selva lutando pelo reino da justiça.

Naquela noite havia vários locais a visitar, injustiças a reparar, várias pessoas haviam já falado num leão nocturno deambulando em Sintra,mas como loucos ou ébrios foram tratados. Leão em Sintra só um que era polícia, dizia o Manel da tasca, aviando uma bica.

Shintara subiu a rua, o último comboio saíra já, um derradeiro táxi esperava o tardio cliente. A primeira paragem seria no Morais. Uma rajada de vento dias antes soltara o grosso galho de um plátano sobre o carro de Sandra, faltara a sinalização, a câmara que não, não podiam indemnizar, fizesse uma exposição. Sandra ganhava o ordenado mínimo, trabalho na Abrunheira, o seguro não cobria os danos e tinha de trabalhar todos os dias, a creche do pequeno Ruca para pagar. Shintara, resoluto, dois polícias na ronda sem o verem, rugiu, bandeou a farta juba, e como por milagre, o carro em segunda mão ficava agora como novo, chapa sem riscos, vidros repostos, os galhos ameaçando queda subitamente cortados e removidos.

Esboçando um ar de felicidade, fechou os olhos e seguiu em frente, missão cumprida.Na Portela de Sintra, morava Dolores, funcionária administrativa. Miguel Gomes fazia quinze dias que subia e descia as escadas da câmara em busca duma licença  que permitisse a festa de Natal da escola primária do filho, incluía a comissão de pais.Dolores estava renitente: era o número de contribuinte, primeiro, o IRS depois, este não, tem de ser original, o certificado dos bombeiros, a licença de ruído. Passaria o Natal e a festa estava em risco. Dolores dormitava, trinta anos de câmara e toneladas de requerimentos, o prazer de levantar mais um problema, um impresso, uma taxa.

Shintara galgou a varanda de um salto só, um primeiro andar antigo, e focando a cama onde ela e o marido dormiam, rugiu zangado, levantando-se nas patas traseiras do lado de fora da vidraça.Só eles o viam e ouviam, tinha o dom de só se deixar ver a quem queria, em pânico fugiram para a sala. Shintara fixou Dolores e, voz gutural, sentenciou:

-Se criares dificuldades para vender facilidades, a fúria de Shintara cairá sobre ti, imprestável! Faz o teu trabalho e serás reconhecida!- deixando a velha funcionária a  correr em busca de um Valium, atónita, o marido escondido na dispensa.

A última paragem era em Lourel: Fernando metera um projecto para ampliar a pequena casa onde vivia, uma mãe idosa que não queria internar no lar precisava de um quarto, simples, familiar. O arquitecto levantava problemas, a volumetria, o PDM, a legenda. Shintara entrava agora no jardim da casa com onde o arquitecto vivia. Dormia, televisão ligada. Desta feita, por hipnose fez aparecer em sonho ao dorminhoco arquitecto uma família feliz, a velha avó com os netos brincando aos pés, um sorriso de felicidade, ele inconscientemente dormia e esboçava um sorriso e com a mão instintivamente acariciava o mais pequeno apalpando a almofada.

A noite ia já longa. Um sem abrigo ajeitava os cartões e a placa de esferovite que lhe servia de colchão, a lua cheia reflectia a sombra do grande felino no empedrado da Estefânea. Era tempo de voltar, depressa clarearia, os primeiros funcionários da manhã rotineiramente cumpririam mais um dia entre a parafernália de requerimentos, guias, despachos, certidões.

De volta à câmara, pulou para o pedestal, rugiu uma última vez, e lentamente foi ficando azulado, prateado e logo branco, alvo, eterno, orgulhoso.

Pelas sete horas chegavam as senhoras da limpeza, o Manel aquecia a máquina do café, o comboio cumpria o ritual diário de partidas e chegadas, turistas, utentes, alunos.

Sandra boquiaberta ria e chorava ao mesmo tempo, carro renovado, despesa riscada, Dolores chegava surpreendentemente simpática e pontualmente abria o guichet, prestável, o arquitecto requisitava o processo e apunha diligente um parecer favorável.

O leão, impassível sentinela, interiormente regozijava, logo tornaria à sua ronda justiceira, nova noite, novo périplo. Nessa tarde ainda sentiu na cabeça uma involuntária festa de Miguel Gomes que apressado ia buscar a licença que franquearia a festa de Natal de muitos pequenos na escola. Isenta de taxas.


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:31

E que achou Shintara da nova paragem do "BUS", em pela curva da Estefânea ?
Anónimo a 30 de Novembro de 2010 às 10:02

Rectifico: em vez de pena deverá ler-se plena.
Anónimo a 30 de Novembro de 2010 às 10:03

bolas...
Rectifico: em vez de pela deverá ler-se plena.
Anónimo a 30 de Novembro de 2010 às 10:05

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