por F. Morais Gomes

06
Dez 10

Acamado na velha casa de Colares, António Melo e Castro rodeado de livros e quadros agonizava vendo os dias esgotarem-se como areia em ampulheta, ameaçados pelo cínico evoluir do linfoma desmancha prazeres.As barbas brancas antes milimetricamente tratadas estavam agora em desalinho, breve deixaria aquele mundo de mundos já mortos, ele próprio já alfarrabista da vida.Solteirão empedernido, valiam-lhe nesta fase os sobrinhos, Gustavo, professor de português na Sarrazola e Gabriela, pianista na Metropolitana de Lisboa, herdeiros daquele legado de séculos de história vertidos em cada objecto ou livro raro.

Naquele dia, depois de a enfermeira  ter saído, o velho antiquário chamou os sobrinhos, queria falar-lhes:

-Este corpo velho já pouco vai durar, mas antes que chegue a minha hora é meu dever contar-vos o Segredo.

-O Segredo? Mistérios agora, tio António? -sorriu complacente Gabriela, sempre adorara aquele tio, culto e melómano, custava admitir ter de em breve separar-se dele.

-Sim, o Segredo. Gustavo, vai ali à biblioteca e da segunda prateleira traz-me um livro castanho com lombada em couro, está na horizontal por cima dos outros.

Gustavo trouxe o livro e entregou-o ao tio, agora misterioso e ofegante,a doença deixava-o em estado de prostração.

-Este livro contém o segredo que de geração para geração tem passado na nossa família. É agora a vez de vo-lo transmitir.Mas como a mim fizeram meu pai e antes dele meu avô e bisavô tereis de o descobrir por vós mesmos.Só assim sereis merecedores dele.Poucos na nossa família o conseguiram.

O livro era uma versão fac-similada de um velho pergaminho, a Fábula do Rio das Maçans, dum Francisco Melo e Castro.

-Um antepassado nosso escreveu este poema, que durante quase duzentos anos esteve sumido, até que em 1800 um frade franciscano Frei Vicente Salgado o descobriu e copiou no Convento de Nossa Senhora de Jesus,em Lisboa. Foi o meu bisavô quem o descobriu num alfarrabista -ia desfiando, enquanto folheava o livro -Mas no princípio do século ele descobriu que o livro continha a pista de um mistério que ninguém até hoje deslindou.Cabe-vos agora a vez de tentar e ganhar a felicidade ou falhar.Eu não consegui, daí ter chegado a este estado! -lamentou, conformado.

-Ora tio, deixe-se de fatalismos, vai melhorar, vai ver! -animava Gabriela, pegando-lhe nas mãos.

Gustavo tirando os óculos leu a anotação a lápis na última página.

-“Quem partindo do dez alcançar a dezasseis o meio a luz plena verá a vinte e nove”.Uma charada, pensou.

Três dias depois António partiu deste mundo, deixando órfão aquele cemitério de pinturas e livros, depósito de muito mundo e muitas histórias, descansando em S. Gregório não longe da velha casa de Colares.

Gustavo e Gabriela não voltaram a interessar-se muito pela conversa, porém quando tiveram de despejar a casa e dividir os bens, de novo depararam com o livro castanho, e a frase a lápis. Gustavo pegou nele e mostrou-o a João Subtil, um amigo das Azenhas do Mar que se especializara em história de Sintra, com alguma obra já editada. João interessou-se vivamente pelo exemplar e pediu se podia ficar com ele uns dias, eles anuíram.

Dias depois, João telefonava eufórico marcando encontro no café das Patrícias.

-Creio ter desvendado o mistério, Gustavo, está tudo no livro!

Gustavo mostrava impaciência, tanto poderia ser importante como o produto de uma mente febril, mas confiava em João, Gabriela chegava também entretanto para ouvir o que teria descoberto.

-Este livro conta a história do rio de Colares, e tem duas vertentes: uma iniciática e simbólica, se assim quisermos, onde tudo aponta para um mundo de signos e símbolos e outra que esconde, creio, um caminho no fim do qual estará a recompensa que deve ser merecida. Terá sido isso que o vosso bisavô descobriu, e por qualquer motivo não teve tempo de desvendar! -e continuou, folheando o livro, ar místico -este livro divide-se em 65 oitavas. Conjugando a décima com as últimas quatro da décima sexta descobriremos o ponto de chegada que está claro na vigésima nona! Amanhã vamos seguir esta pista!

No dia seguinte encontraram-se junto ao Cantinho da Várzea, João sugeriu que seguissem até ao Covão, onde o rio de Colares, o tal das Maçans passava não longe do Hotel Miramonte.

-Lê a oitava nº 10, Gustavo! -ordenou João. Este pegou no livro e recitou:

"Na mais secreta parte onde com pena

Me leva o murmurar da agua leve

Escondida se queixa Philomena

Onde apenas irá quem não for ave

Apartando da entrada assaz pequena

Os ranmos d!hum loureiro;hu velho grave

Hua espaçosa gruta manifesta

Onde elle em frio passa a ardente sesta"

-Estás a ver ali aquele loureiro? O que é que está atrás dele?

-Um castanheiro grande

-“o velho grave”…-sentenciou João

Acercaram-se da margem do rio. Dois patos mudos nadavam tranquilos, num mouchão sinais de uma pequena abertura. Gustavo e João com a mão afastaram a terra, mole e húmida, e destaparam uma pequena gruta, restos de troncos e já sinais de mar próximo, seixos e conchas dispersas há centenas de anos o mar chegara a Colares, sabia-se, formando alagamares e enseadas, hoje assoreadas.

-Lê agora o final da 16-continuou João, guardando algumas conchas mais vistosas.

-"Nas paredes se vê pintura viva

De búzios e de conchas debuxada

Desencontradas ellas e elles tais

Que dous não achareis que são iguais"

João com um pincel raspou o que parecia um paredão argiloso e o contorno de vieiras e conchas pintadas na superfície, de diversas matizes, ficavam agora à vista. Não a cor viva, mas o tempo aí era inexorável…

-O local é este! -sentenciou. E pegando numa pá, começou a cavar, Gustavo e Gabriela entusiasmados mas ao mesmo tempo sem saber o que procurar. A certa altura um sapo cruzou a pequena gruta, quando João tocou uma coisa rija e avermelhada. Raspou a terra húmida em torno e qual Arquimedes na hora do banho gritou ufano:

-Achei! Lê o princípio da 29, Gabriela -atalhou João.

-“Sobre um leito de toscas pedras frias

Entre epatica esta, e língua Servina

E o verde limo ali de largos dias

Lhe serve de colchão e de cortina”

-Meus amigos, o vosso bisavô soube ler a mensagem criptada no manuscrito do vosso antepassado.O velho do poema não é um velho físico, mas sim metafórico.Ele descobriu o segredo que muitos almejam há séculos: a pedra filosofal!

 

Gustavo e Gabriela estavam incrédulos.João, segurando a pedra prosseguiu -Por qualquer razão que nunca saberemos o vosso antepassado ter-se-á cruzado com Nicolas Flamel o alquimista que da cabala retirou a fórmula que transmutava a pedra em ouro. Vejam bem!

E raspando a pedra, esta ganhou cor e solidez, era em ouro maciço.

Ainda tais palavras não eram findas, um inesperado desmoronamento de terras deslocou um pedregulho grande que logo esmagou os três intrusos de novo bloqueando a entrada da pequena gruta.Saliente e inerte debaixo dele, a mão de João segurava ainda a pedra, agora vermelha e incandescente, de novo liberta.

A Polícia Judiciária procura ainda hoje três pessoas desaparecidas em Colares no Verão de 2008,sob pena de ao fim de seis anos ter de se decretar a morte presumida. Na casa de Colares, fechada para inventário, uma Fábula do Rio das Maçans repousa abandonada no fundo duma caixa de cartão.


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:31

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