por F. Morais Gomes

08
Dez 10

Mais uma rotineira viagem do 441 das 7h 35m de Fontanelas para a Portela de Sintra com os irritantes e habituais cinco minutos de atraso.

Logo em Fontanelas entrou José Alexandre, funcionário da câmara, mais um dia ouvindo munícipes carpindo reclamações, silencioso e distraído ia lendo o último Miguel Real, seu antigo professor, absorto da diária e  familiar paisagem, as mesmas pessoas entrando nas mesmas paragens com os seus passes e pré-comprados. Era o primeiro passageiro como sempre, o dia ainda a clarear. Na paragem junto à escola das Azenhas três adolescentes ruidosos a caminho da secundária de S.Carlos, a derrota do Benfica na véspera estimulando picardias, em voz alta chingando Jorge Jesus e a prestação de David Luís.

Na Praia das Maçãs, Susana, funcionária no Pingo Doce já atrasada  meia hora lentamente arrastava uma barriga de oito meses, breve seria mãe, uma menina,babada colocara a ecografia no Facebook para os amigos verem. O companheiro estava desempregado e apenas o seu ordenado ajudava nas despesas da apertada casa da sogra na Tomadia, esse desordenado  Cacém junto ao mar.

Quatro velhotas a caminho da praça subiram em Colares a tia Josefa, toda de preto, denunciava a morte recente ,atropelado na curva da Praia Grande, do neto de cinco anos. O marido falecido há seis meses, e agora o neto, carregava o calvário da vida solitária, só intervalada pelas viagens no 441 das 7h35m e a diária volta pela praça a buscar ração para os animais. Sozinha com os dois gatos e um canário, a quinta das tabuletas não tardaria, pensava.

O autocarro seguia atrasado e embaciado, tempo pastoso e vento de nortada ameaçavam um dia de chuva, esquecera o chapéu, lembrou José Alexandre, um de três euros nos chineses colmataria por ora.

O motorista, fleumático e algo antipático, mecanicamente fazia o papel, paragens com e sem passageiros, bilhetes e trocos, o irritante semáforo em Galamares, seis  viagens diárias para cá e para lá, os mesmos passageiros às mesmas horas, para variar um japonês perdido perguntando pelo Cabo da Loca, que não, é o 403, espere mais dez minutos.Subitamente acelerou,os  passageiros a travar com os pés para não serem cuspidos da inesperada montanha russa.

Na recta da Ponte Redonda, Susana até aí lendo uma revista cor de rosa, teve uma pequena dor, uma cólica, pensou, agitando-se na cadeira. A tia Josefa, na cadeira ao lado, reparando, meteu conversa:

-Está tudo bem,minha senhora? -sorriu, timidamente, olhando-lhe a barriga já proeminente -não tarda muito tem aí uma menina…

-Obrigado, não é nada, já passa. Como sabe que é menina? -interrogou, curiosa.

-Na minha idade essas coisas não enganam….só eu foram cinco, no tempo da fome. Mas todos se criaram, graças a Deus!

Na curva da Ribeira, apenas os jovens barulhentos no alvoroço próprio de quinze anos quebravam a modorra dos dolentes passageiros, vidas em tumulto, a crise nos olhares, os mp3 debitando músicas metalizadas. Susana de novo fez um esgar de dor súbita, quase pânico, e agitou-se na cadeira.

-É agora! Ai Jesus, é agora!

A tia Josefa assustada, prestável, segurou-lhe na mão e sorriu premonitória:

-Chegou o momento….rebentaram-lhe as águas não foi? Ó senhor motorista pare lá aí o autocarro que esta senhora está a ter uma criança!

A notícia apanhou o cinzento motorista de surpresa. Encostou o autocarro, já Susana se reclinava com dores ao longo de dois lugares na fila do meio. A tia Josefa e as outras velhotas faziam um círculo em torno dela, o xaile de uma logo a fazer de almofada, os passageiros de repente personagens duma viagem diferente.

José Alexandre abeirou-se enquanto os barulhentos miúdos na ponta de trás do autocarro de repente emudeceram. O motorista correu a pegar uma caixa de primeiros socorros na bagageira, tesoura e álcool pelo menos teria, os carros na retaguarda impacientes apitavam e blasfemavam contra aquele autocarro mal estacionado e sem triângulo.

Susana aflita e enervada fazia força reclinada de acordo com as instruções da tia Josefa, improvável parteira na maternidade do 441.José Alexandre logo despejou a mochila e improvisou um cesto de bebé para deitar o rebento mal visse a luz do dia.

Três minutos depois, um choro, um rosto ensanguentado, Susana arfando ofegante em clímax de felicidade, as velhotas regozijadas com mais aquele rebento, todas recordando as suas horas pequeninas muitos anos atrás.

Num gesto compulsivo, todo o autocarro rebentou numa salva de palmas, as velhas pegando como em troféu na mais recente passageira para Sintra, sem bilhete, ironizava agora embevecido o até então sorumbático motorista, os miúdos pelo telemóvel ligavam aos amigos, não iam acreditar.

Recomposta e chorando de alegria, Susana agarrava os três leves quilos de vida que não quiseram esperar pela cama do hospital, e instintivamente beijou a testa da tia Josefa, a quem uma lágrima correu pelo rosto, aliada a uma sensação de apesar de velha ainda ser útil, só por isso nesse dia a ração para os animais haveria de ser reforçada.

Três meses depois, realizou-se o baptizado da pequena Sofia e todos os passageiros e motorista daquele dia diferente foram convidados, testemunhas e cúmplices do renovado milagre de vida no 441.A tia Josefa perdeu um neto mas ganhou agora uma neta nova para quem no regresso do mercado todos os dias traz chupetas e bonecos e feliz e ocupada toma conta durante as horas de trabalho de Susana.


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:47

Esta está fantástica. Cheguei a emocionar-me com o ritmo e o suspense da escrita. Parabéns.
(300 gramas é que é um engano, devia querer dizer 3000 gramas ou 3 kg, não? :-))
Zé Maria a 9 de Dezembro de 2010 às 11:09

Caro Zé Maria.Obrigado pelo reparo, efectivamente 300 gramas nem um cabrito.Vou emendar, três quilitos parece-me bem!
Fernando Morais Gomes a 9 de Dezembro de 2010 às 21:20

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