por F. Morais Gomes

09
Dez 10

O italiano executara tudo como solicitado e naquela tarde Manini e António Augusto Carvalho Monteiro faziam a primeira visita ao poço agora findo, uma impressiva galeria com escadaria em espiral sustentada por colunas esculpidas.

-Senhor Monteiro, está como pediu, nove patamares separados por lanços de 15 degraus cada, e as referências à Divina Comédia. Lá em baixo mandei embutir em mármore uma rosa-dos-ventos sobre uma cruz templária -ia explicando o italiano, cenógrafo de óperas agora metido a arquitecto.

-Perfeito!- soltou satisfeito o velho Monteiro, tirando a cartola a escorrer o suor, esse era o seu emblema heráldico e simultaneamente indicativo da Ordem Rosa-Cruz, tudo estudara em pormenor para dar um cunho pessoal e simbólico à sua nova Quinta da Regaleira onde pedra de Ança chegava às toneladas nos comboios de mercadorias e canteiros trabalhavam incessantemente desde há quatro anos. Com ar sério deixou escapar um comentário meio enigmático:

-Sabe que é impossível elevar-se para a luz sem descer ao inferno? Só o afrontar do Mal em nome do Bem permite o acesso aos estados superiores do Ser!

Entrados no poço, o eco ampliava qual rugido do além a já de si tonitruante voz do velho magnata. O labiríntico poço estava ligado por várias galerias e túneis a outros pontos da quinta, a Entrada dos Guardiães, o Lago da Cascata e o Poço Imperfeito, morcegos deambulavam também eles guardiães no escuro e no desassossego. A luz rareava naquele fim de tarde, pela primeira vez iam subir a escadaria, qual ritual secreto e cadenciado, começando pela torre subterrânea. Carvalho Monteiro antes de subir, parando meditativo, abordou Manini:

-Este já era o espaço e agora é o tempo para abandonar o velho e enfrentar o novo. A cada entrada, um novo nascimento, nova renovação…

-Como vê, sente-se a mão do Grande Arquitecto…-ironizou Manini, retorcendo o bigode, naquele sotaque lombardo, apesar de vinte anos de Portugal.

-Neste caso, você, meu caro! -sorriu o velho filantropo, com uma palmadinha nas costas do italiano.

-Agora repare: saindo da escada em espiral o elemento aquático ganha aqui novo esplendor, previ uma passagem sobre o lago por cima de quinze pedras ziguezagueantes -Manini com as mãos abertas, gestos largos, desenvolvia o seu plano, qual mapa do tesouro por etapas, Monteiro absorto tomava atenção aos pormenores enquanto dois belos cisnes brancos nadavam principescos. Passaram de seguida por uma íbis egípcia logo lhes surgindo a estátua de um leão encravada entre três bancos:

-Este leão simboliza os reis de Chipre, familiares dos Lusignan seus antepassados. Eu mesmo o desenhei!

-Podia ser um pouco maior…E agora?

-Agora sobe-se a torre em direcção à cripta.

A escada em caracol remetia-os para o mundo de sombras que a megalomania do velho bibliófilo idealizara, hiperbólica teia pronta a ser tecida. Passando ao palácio, para onde já a vasta biblioteca de Lisboa estava a ser transferida, Monteiro fez questão que Manini observasse um livro que havia adquirido recentemente:

-Conhece este livro? -pegou num largo volume encadernado contendo a cópia de um manuscrito, Fama Fraternitatis e desfiou-o:

-Aqui está a verdadeira história dos rosa cruzes. Sabia que o Rosenkrautz era descendente de uma família alemã do século XIII que abraçava as doutrinas albigenses? Toda a família foi condenada à morte por Conrad de Turíngia, excepto ele, com cinco anos foi levado secretamente por um monge e colocado num mosteiro sob influência dos albigenses onde conheceu os quatro Irmãos que mais tarde estariam na fundação da Irmandade Rosa-Cruz.

Manini ouvia em silêncio, mais interessado num magnífico relógio numa prateleira, em lugar destacado que dois empregados acabavam de trazer com luvas brancas. O milionário reparou e correu a mostrar o troféu:

-Já tinha visto o Leroy O1? Esteve na exposição de Paris, tem um mecanismo de quatro níveis e mais de novecentas peças…Custou-me vinte mil francos, um capricho!-e riu como uma criança junto dos brinquedos de estimação, o mundo de Carvalho Monteiro era sem dúvida outro.

De seguida, juntos completaram o périplo pela obra quase pronta Patamar dos Deuses acima, a água da serra-mãe correndo cristalina na fonte dos íbis, detendo-se extasiados na Entrada dos Guardiães, imponente e altiva. Na gruta de Leda, Monteiro colocou a mão sobre o cisne, também ele Zeus do seu império terreno, e suspirou, enrolando a sedosa barba branca:

-Quem nunca demandar os interiores da terra nunca encontrará a verdade oculta! Aqui semearei o caminho da verdade, caro Manini!

Nesse final de 1909 Carvalho Monteiro tinha o seu Olimpo quase concluído, deus entre os deuses, sortilégio das trevas, a torre, ímpar, rasgando o céu triunfante. Nos anos seguintes, o caldeirão do Espírito fervilhou nas entranhas da terra-gruta, palpitante guardando os segredos que só o génio dos homens consegue e pode desvendar. Até que uma noite, findava já o ano de 1920, o Druida partiu para a Grande Viagem, etéreo descendo ao poço, etapa por etapa, das Trevas á Luz, ecoava o grasnar lancinante e premonitório de dois cisnes brancos reflectidos pela Lua-Prata protectora do Jardim.


publicado por Fernando Morais Gomes às 17:58

É um conto?
CADOSO a 9 de Dezembro de 2010 às 19:26

É apenas uma crónica romanceada
Fernando Morais Gomes a 10 de Dezembro de 2010 às 01:02

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