por F. Morais Gomes

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Dez 10

Os pequenos príncipes Pedro e Luís estavam já no salão, impecáveis nos fatos tiroleses que o tio Augusto  oferecera para a recepção que  a rainha sua mãe e D.Fernando iam oferecer ao corpo diplomático no Natal de 1847.A noite estava amena, nas Necessidades um presépio gigante e dourado ladeado por  serafins de asas abertas adornava o salão contíguo à sala do trono.

Pedro  terminara as lições de geografia da tarde com o visconde  de Carreira, seu preceptor, e como sempre estava sorumbático, era o intelectual da família, dizia o papá, meio orgulhoso meio grave, Lipipi, mais bonacheirão, contemplava intrigado um barco numa garrafa tentando descobrir como o enfiaram dentro. Pedro seria rei um dia, o velho preceptor vigiava-lhe os movimentos, a postura, apesar de já ter dez anos não deixava de ser uma criança franzina e pálida.

Pelas sete horas,o salão profusamente iluminado e decorado com esculturas que Fernando comprara em Paris estava já repleto, embaixadores das nações amigas,ministros e mais convidados. O país estava por ora  pacificado com um governo de Saldanha, apesar dos reforços eleitorais dos cabralistas  depois da  convenção de Gramido, a família real procurava ficar distanciada,empenhada na educação dos filhos, já sete nesta altura, com o  recente nascimento do príncipe Augusto, em Novembro.

À hora marcada, D.Maria II fez a entrada na sala, Fernando a seu lado,as camaristas seguindo-a.Muitas gravidezes haviam-na tornado obesa ,um  lábio descaído,enfiada num vestido de veludo roxo que nada lhe favorecia as formas, evidenciava uma postura mais própria de  burguesa  que de rainha.D.Fernando, na farda de general dos exércitos ,cabelo louro em desalinho fazia suspirar as muitas cortesãs, ele próprio um pinga amor ,mas respeitador de Maria e  zeloso na educação dos filhos.

Nessa manhã fora sozinho a Mafra montando o Monarch e misterioso avisara que se preparassem pois iria fazer uma surpresa durante a recepção da noite. Tinham nascido poldros à Campo Maior, a égua da rainha, ia a  inspecionar, no regresso passaria na Pena a ver as obras, os carros de bois transportavam agora pedra para a ala sul, já se descortinavam os contornos altivos do palácio.

Na sala, rodopiavam os ilustres e grandes do reino.O príncipe Augusto, irmão de Fernando, de visita à corte para o Natal e conhecer o novo sobrinho, a quem puseram o seu nome,animado conversava com o barão Eschwege, que  ia dando pormenores sobre a construção da Pena, noutro canto,o  visconde de Carreira comentava com a marquesa de Lavradio como a rainha ficara desgostosa com um óleo que Beaulieu fizera dos príncipes, nada favorecidos.

Após  a rainha ter proferido breves palavras de boas vindas,Fernando, num português arrevesado pediu silêncio e mandou entrar o coro de S.Vicente de Fora. Doze jovens, não mais de doze anos e impecavelmente vestidos, em canto ambrosiano entoaram então canções de Natal,afinados e  compenetrados.No final,participante e contente,D.Fernando fez questão de cantar uma melodia tradicional austríaca, Stille Nacht, Heilige Nacht. Entusiasmado chamou então ao piano Manuel Inocêncio, o professor de música dos príncipes, e como já previamente combinado,qual barítono de voz possante num alemão perfeito e impressivo cantou para uma assistência maravilhada e rendida.

O ambiente, antes formal e protocolar estava agora desanuviado, qual festa de família na casa de um simples lenhador da Floresta Negra. D.Fernando  pediu  então a palavra, intrigante:

-Majestade, Excelências, cavalheiros, se não vos importais, passemos à biblioteca, tenho uma surpresa para vós!-era a altura de desvender o mistério da ida a Mafra de manhã.

Aberta a sala contígua até ali intrigantemente fechada, um pinheiro gigante  profusamente engalanado  irrompeu  repleto de luzes, doces e frutos .Vários candelabros  com velas e uma acolhedora e crepitante lareira emprestavam um ambiente de conto de fadas, logo todos irrompendo numa salva de palmas em sinal de admiração.

-Em Coburgo temos uma  lenda que  conta que São Bonifácio salvou um príncipe que ia ser sacrificado num bosque de carvalhos por alguns druidas. -explicou-Ao derrubar a árvore onde o príncipe ia ser imolado nasceu um pinheiro, que  para nós simboliza a paz. É nossa tradição desde então colocar nas casas uma árvore pelo Natal,como  símbolo de paz e fraternidade!.

Lipipi e Pedro logo extasiados  correram para a colorida árvore, enquanto a rainha Maria ,expansiva,apreciava as luzes que Fernando com o auxílio de Eschwege e alguns criados passara a tarde a colocar. Mas não estavam ainda concluídas as surpresas. A um bater de mãos do rei, um indivíduo vestido como um bispo antigo, oriental,barbas brancas, irrompeu pela sala transportando um grande e repleto saco:

-Eis um Weihnachtsmann, não sei como dizer em português, mas é alguém que  no Natal premeia quem praticou boas acções e distribui prendas, sobretudo às crianças!-explicou, olhar misterioso e promissor na direcção dos filhos.

Perante o espanto infantil de Lipipi, futuro rei D.Luís, seguiu-se a distribuição por todos de presentes saídos do saco que o homem das barbas carregava e Fernando pessoalmente entregava. Para Maria, um  vestido mais condicente , atenuando a sua figura desenxabida, vindo do atelier de madame Clochard, em Paris; para Pedro livros com a anatomia dos animais, oferta da rainha Vitória, que adorava os primos portugueses, um chapéu de almirante para Luís. Nenhum convidado  na sala foi esquecido, todos presenteados com pequenas aguarelas de flores e pássaros, pintadas por Fernando  no Verão nas sombras de Sintra.

Naquela noite serena e feliz, iluminou-se  pela primeira vez entre nós, uma árvore de Natal,sendo Fernando o émulo perfeito do misterioso weihnachstmann das distantes  terras do Norte, invadindo as Necessidades naquele  Natal português. Finda a  memorável noite, a todos saudou, feliz e agradado,coração cheio:

-Feliz Natal para todos vós!-Frohliche wehnachten!


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:59

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