por F. Morais Gomes

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Dez 10

O plátano cresceu pujante junto à várzea, companheiro fiel  e sombra fresca do fértil rio.

O plátano viu maçãs e romãs, uvas e alfaces, hortas fecundas  bordejando as plácidas águas da charneca na serra da Lua.

O plátano acompanhou círios e charangas, descargas de uvas  e o pisar de muito vinho.

O plátano chorou com cheias e ciclones, fogos e queimadas, natureza amiga também madrasta.

O plátano vibrou com ciclistas e atletas, corredores e amadores do crosse,colarejas e saloios.

O plátano protegeu caçadores e pescadores, lebres e furões,galinholas e  patos nadando livres no rio.

O plátano viu choros de vida , enlaces de amor, lamentos de morte ao som do sino na igreja distante.

O plátano foi verde, amarelo, castanho, sombrio, vestido, despido, frondoso, perene,pigmalião , guerreiro da vida na várzea.

Muitos sóis e muitas luas passaram e não era já um,  eram dezenas,patrulhando as alamedas nas estradas da serra, da vila ao oceano, garbosos guardando a dolente locomotiva vermelha que  sorridente levava a banhos e  aos ares iodados ruidosas crianças conquistandoras de acessíveis nespereiras e respirando os  perfumes da terra e do estrume, da alfazema e jasmim.

Um dia o som terrível da humana trituradora silenciou os chilreios dos pássaros, os ninhos das andorinhas, o esconderijo do ouriço e a sombra do pachorrento jerico. Mercenários de Cynthia, de viseira e espada avançaram e esquartejaram, implacáveis no crime de lesa floresta com cúmplices silenciosos e mandantes impunes, os pássaros  em uníssono carpiram chilreios , pombas esvoaçaram, mas em vão,o sol se fez noite e o rio vermelho cor de sangue.

Já despido das folhas , ensanguentados cotos , perenes testemunhas de muitos solstícios e equinócios passados, fúnebres marcharam para a câmara ardente de muitas lareiras, crematório de muitos passados, num deles  a marca ainda de um coração esculpido, os nomes enlaçados de eternos namorados perdendo-se no fogo.

Em Dia de Trevas, o Deus da Floresta, capturado pelos gnomos da viseira e serra eléctrica nada pôde fazer no infausto campo de batalha da sagrada terra de Colares nesta era do  Aquário.

Logo logo os pequenos seres que habitam a floresta  laboriosos fertilizarão o plátano, todos os plátanos, e no tempo que as flores despontarem e os pássaros voltarem do Grande Sul a seiva da vida e o clorofila do Tempo voltarão a reinar, sagração da mágica renovação da Fénix, permanecendo por muito tempo depois dos homens da viseira e serra eléctrica desaparecerem das florestas.

Foto de Pedro Macieira, no blogue Rio das Maçãs

http://riodasmacas.blogspot.com/

publicado por Fernando Morais Gomes às 17:15

Muito comovente este texto, mas, melhor seria que não tivesse sido necessário o Fernando tê-lo escrito. O primeiro plátano, contra todos os protestos, foi já "sacrificado".
emília reis
emilia reis a 15 de Dezembro de 2010 às 15:12

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