por F. Morais Gomes

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Dez 10

Formigando vêm e vão, a medo torneando o Grande Fosso onde banhos purificadores  hoje fantasmas espreitam,miram estátuas, casas, o verde esmagador, frémito da natureza na aproximação ao burgo encantado.Anárquicos tiram fotos, com palácios, com árvores, com eles, registo furtivo do dia em que bafejados vieram contemplar a eternidade, de carro, de trem, a pé, de mão dada, olhar em torno, plantas sorrindo garbosas e ternas, loquazes  a manjar os apetitosos doces.Pigmeus privaram com os duendes e secretas sentinelas da Floresta Feitiçeira:a sacerdotisa Llansol e o Grande Maior,o Zeus das árvores encimado pelo céu, logo um asténico Cruges , pena de pato aflita e trepidante, Herculano taciturno, sempre,Nunes Claro jardineiro de almas com o seu regador da palavra, todos  guardados pelo velho mestre Carvalho fleumático Merlin da Pena vigiando do alto da alameda.

Sigurd, Camões, Beckford, Byron, Zé Alfredo, M.S.Lourenço, mortos condenados à Vida Eterna já prestes se alinham no vetusto Paço para o Banquete das Almas, Viana da Mota orquestrando, os  vivos a medo invadindo o Templo bafejados pela mercê dum  breve e fugaz usufruto do condomínio da natureza generosa, onde só os Iniciados da Beleza e Noviços da Vida têm entrada relâmpago e com retorno para fora da Caverna.

Cai a noite, um derradeiro ressoar de cascos dum cavalo branco tornejando o Parque da Liberdade quebra o torpor, logo  grifos e  gárgulas já impacientes ganharão vida para a milenar patrulha dos cumes  pedregosos e das chaminés fumegantes. O vendedor de castanhas recolhe a tenda, o cheiro a Natal invade narinas possuídas de bálsamo revigorante qual poderoso estupefaciente. Ao longe e já perto, as duas chaminés, esfíngicos elmos da lauta cozinha acenam num lento despedir para a noite e para a chegada de novos companheiros, esvoaçantes, aflitos, finitos, temporais, tangíveis.

Um último relance e partir, distante uma harpa sequestrada numa velha casa onde uma luz mortiça quebra o negro da noite despede-se do dia lacrimejando melodias de torpor,capturando em silêncio o cavalo inerte, logo o regresso aos trens, aos carros, à finitude, à vida sem viver, sobrevivente de sonhos, órfã de destinos, carente de Ser.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:19

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