por F. Morais Gomes

21
Dez 10

Na árvore de Natal de Janas todos os anos desde 1995 aparece sempre pendurado um envelope vermelho, singelo, sem remetente ou destinatário. Tudo começou por causa do tio Álvaro, o velho e espartano solteirão detestava o Natal, não porque não estimasse a família, mas porque sempre tivera aversão ao comércio natalício que para ele massificava  emoções e fazia da fraternidade algo a que se acresce lucro  e iva. Era contra as compras supérfluas,as comezainas pantagruélicas, o ridículo fato de Pai Natal que o Alfredo vestia logo soltando uns oh! oh! oh! mais próprios de tísico terminal  distribuindo o inócuo par de meias  com ursinhos ou  a agenda embrulhada com fitas cintilantes, confissão desesperada de quem não tinha conseguido pensar em nada mais original para oferecer. Até o tal do pai Natal fora inventado pela Coca-Cola, alegava reticente.

Sabedora daquele feitio torto, naquele Natal  Sofia decidiu deixar de lado as peúgas e gravatas às bolas e foi à procura de algo diferente que ele apreciasse, e a ideia surgiu um pouco por acaso: Tiago, o filho de 10 anos, jogava futebol no colégio, e em meados de Dezembro  a sua equipa foi disputar uma partida contra outra de Monte Abraão. Em contraste com os equipamentos limpos e de boas marcas da equipa de Tiago, os deles eram usados e sujos, sapatilhas esfarrapadas, o mundo de Lá, cruel e real. Nesse dia levou o tio Álvaro  ao jogo do filho, e sentiu claramente a diferença entre  os que têm e os que anseiam,outros mundos deste mundo. Os de Monte Abraão perderam o jogo, em silêncio e com o orgulho ferido digeriram a derrota, não eram só as sapatilhas a única coisa esfarrapada por ali.

O tio Álvaro, velho adepto de futebol e do Sporting- nasci para sofrer ,dizia- no fim do jogo encolheu os ombros taciturno:

-Os miúdos da outra equipa têm potencial ,é pena, têm poucas condições, é assim que depois desistem. Apesar de torcer pelo nosso Tiago hoje gostava que tivessem ganho eles! -desabafou, pouco expansivo era contudo um coração de ouro.

Nos anos sessenta Álvaro Camacho fora treinador de equipas juniores no Seixal,a alguns viu mesmo singrar nas divisões intermédias, amigos para o resto da vida. Ainda agora, na mesa do café do Fernando com muitos dos putos já veteranos comentava regularmente as partidas e as carreiras difíceis.

O desabafo inspirou a Sofia uma ideia para um presente de Natal que por certo o levaria a mudar de ideias quanto à hipocrisia da data. Divorciada, dona de um pronto a vestir, alguma folga financeira que permitira a moradia nova no pinhal de Janas, tinha  um coração generoso.Dias mais tarde entrou numa loja de desporto, comprou onze pares de sapatilhas e enviou-as à escola de Monte Abraão. Na véspera de Natal, discretamente pendurou na árvore cintilante  um envelope vermelho com um bilhete dentro para o tio Álvaro, a oferta  aos miúdos era o presente dela para ele. O até ali contrafeito tio ,surpreendido, esboçou um sorriso discreto mas luminoso e  naquele ano,depois da ceia, até comeu filhoses e bebeu dois copos de Porto.

Nos anos seguintes,a árvore de Natal passou a contar com o singelo envelope vermelho  pelo qual um inesperado grupo de crianças ou pessoas carentes beneficiava, sem o saber, dum tio que recriminava o Natal, virando mesmo tradição:  foi um cheque para uma família com um filho paralímpico e sem meios; outro ano a oferta do peru de Natal ao lar de idosos onde  morava a Ercília, a velha criada lá de casa, o envelope surpresa passou a ser o momento alto dos Natais em Janas pelo qual o tio Álvaro agora aguardava ,sem grandes demonstrações exteriores de ansiedade mas feliz interiormente. Religiosamente era sempre o último presente a ser aberto  e lido na noite de Natal, e com os anos até o Tiago e os irmãos mais novos deixavam de lado os brinquedos e jogos que já sabiam ir receber, à espera do momento em que, qual entrega dos Óscares se revelaria o nome dos contemplados no envelope mistério desse ano.

O tempo foi passando, as crianças crescendo,os brinquedos substituídos por presentes mais adequados, mas o inevitável envelope vermelho nunca perdeu o seu lugar e encanto.

Um dia,um cancro de pulmão fez das suas e o tio Álvaro partiu , levando o homem que detestava o Natal mas  involuntariamente fora a causa de vários Natais felizes.

O ano passado, ainda chorosos pela perda do carismático idoso, Sofia e Tiago , já adulto,como sempre enfeitaram a árvore junto  a uma  lareira onde pontificam os retratos de familiares sorridentes, mortos e vivos, o tio Álvaro em destaque com o seu bigode russo e nariz aquilino.No meio das bolas, das luzes, do  velho presépio da avó Chica,de novo um envelope vermelho ao centro.Era Tiago quem agora cúmplice o colocava entreolhando a mãe. Perto da hora do almoço da véspera de Natal, um segundo envelope adornava outra ramagem da árvore, à noite, antes da ceia, mais três se lhe juntavam.Também os irmãos mais novos de Tiago, sem o dizerem, haviam colocado envelopes e sorridentes disfarçavam surpresa, alegando ser coisa do pai Natal.
Á meia noite, depois da ceia e dos presentes, todas à vez foram buscar um envelope e leram a prenda que em memória do tio Álvaro haviam doado: a Joaninha, duas bonecas para o ATL dos meninos  da escola de Morelinho; o Sérgio uma bola de futebol para os filhos do Etelvino, desempregado em dificuldades, a beneficiar da ajuda do Banco Alimentar; até o Marquitos na ingenuidade dos seus cinco anos ofereceu um pijama e um desenho daquele vago tio Álvaro, que mal conhecera, com dois meninos a jogar futebol , para o infantário onde andava.

Nos natais da casa de Janas, o espírito de Natal passou a ser o sagrado momento da homenagem àquele velho tio avesso ao consumismo e às aparências, e a ser  mais importante o dar que o receber.

É Dezembro de Natal e chove,na rádio toca Rudolph the Red Nosed Reindeer, e fico por aqui que tenho envelopes para ir comprar…


publicado por Fernando Morais Gomes às 06:35

Um bonito conto de Natal, com a mensagem mais adequada a transmitir nesta época, e nos tempos que correm, que têm vindo a distorcer o verdadeiro sentido da tradição natalícia ...
Daniela Colaço a 22 de Dezembro de 2010 às 13:38

Dezembro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9

12
13
17

19
22

26
30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO