por F. Morais Gomes

25
Dez 10

Mais um Natal os três, Baltasar, Gaspar e Melchior, sócios na ourivesaria ,solteirões inveterados, à meia-noite trocaram presentes e comeram azevias e  bolo-rei, agora sem brinde já não tem piada, comentava o Gaspar.

Baltasar, 51, era o mais velho e gerente da loja, muitas alianças de casamento vendidas,nunca  a dele, a olho nu distinguia um fio de ouro de um pechisbeque com banho dourado.Com Gaspar iniciaram o negócio  há oito anos,chegaram a correr o país em feiras e mercados antes de finalmente se estabelecerem numa zona elegante, até hoje nem um assalto, felizmente. Melchior retornara de África com a descolonização, era mestiço, após um casamento falhado conheceram-se os três numa viagem à Turquia , durante um tour de camelo em Ismir,acabou  partilhando o negócio e a casa no Banzão.

Na véspera de Natal haviam tido algum movimento na loja, apesar da crise, uns brincos, quatro relógios, uma salva em prata, dava para ir mexendo, à noite em paz jantaram e foram à missa do galo em Colares.

Pela manhã de 25 de Dezembro coube a Melchior despejar o lixo, tarefa rotativa de acordo com as regras  lá  de casa, papeis de embrulho,a caixa do bolo rei e uns restos dos camarões tigre da ceia de Natal, bacalhau lá em casa não era tradição. Tinham uma empregada duas vezes por semana, a Maria ,por ser feriado não  foi trabalhar, eles mesmo acomodavam a sala e cozinha, iriam almoçar mais tarde à Ericeira, apesar do tempo chuvoso sempre dava para arejar e desentorpecer as pernas.

Já Melchior voltava para casa quando ouviu um restolhar  junto ao contentor, algum cão buscando sobras de peru, pensou. Curioso, aproximou-se, uma alcofa de estopa atada com um fio de nylon estava encostada mesmo ao lado do contentor, parecia conter algo, agitava-se ligeiramente. Espreitando de soslaio, assombrado se lhe deparou um bebé, ainda com sangue no corpo, não teria mais que umas horas de vida, ali abandonado na manhã fria do dia de Natal.

Olhou em redor,ainda  atónito, tentando descortinar alguém na redondeza, algum carro, quem poderia ter cometido uma barbaridade daquelas, e a medo, de quem nunca pegou num recém-nascido antes, agasalhou-o com o casaco de lã que vestia e levou-o para casa.

Baltasar fazia a barba, enquanto Gaspar dolente fazia zapping com o comando, todos os canais na bênção do Papa, comentou entediado, o passo ofegante de Melchior com um volume nos braços assustou-os.

-Depressa! Vejam só o que estava no lixo! Não há direito! - exibiu Melchior um ensanguentado e roxo nascituro, um rapaz ,segundo vira logo.

Baltasar e Gaspar miraram-no atarantados, Baltasar ainda com creme da barba na cara, o pequeno dormitava inocente e porém já órfão.

-Tem de se avisar a polícia.Mas esperem, vamos dar-lhe banho primeiro-sugeriu Gaspar, logo correndo a buscar um alguidar com água quente.

-E comida? Há algum biberão?-

Melchior, mete-te no carro e vê qual a farmácia de serviço.Traz fraldas e um biberão. Ah e pergunta o que é que se dá de comer nestas idades!-logo destinou Baltazar, o ourives improvável baby-sitter sem experiência  com crianças.

O bebé com o barulho acordou, desfazendo-se num pranto. Enquanto Melchior não voltava, vinte minutos que mais pareciam vinte horas, foram deitando leite morno nos lábios daquela criaturinha inocente que ela logo sugava instintiva,e dizendo aquelas patetices que se dizem aos bebés como se fossem bonecos.

Regressado Melchior os três dividiram as tarefas daquela original manhã de dia de Natal, e uma hora depois já dormitava na cama do Baltazar, protegido por almofadas dos lados para não cair, o trio embevecido adorando aquela cena que só pensavam acontecer nos filmes. Sócrates, o gato siamês, assistia a tudo espantado e miava sem saber o que se estava a passar, comida não era.

Entretanto chegou a Maria, apesar do feriado passara a saber se era preciso alguma coisa.Maria, vinte e dois anos, separada de fresco do Zé Luís, entretanto despedido da secção de móveis do Ikea, ficou abismada com a história e, maternal, logo ficou a tomar conta do pequeno anjo,nascido não em manjedoura mas num caixote da câmara de Sintra. Ela própria recentemente passara por um traumatizante aborto involuntário e agora ali um bebé, poderia ter sido o seu,salvo  numa chuvosa mas radiante manhã de vida no presépio do Banzão.

Chegada a autoridade, todos se deslocaram para a GNR de Colares, onde dois guardas de serviço o colocaram ternurentos, também eles pais de filhos,em cima de uma secretária junto à árvore de Natal da esquadra,ao fundo num televisor um coro alemão cantava o Adeste Fidelis. Seguiria para uma instituição de acolhimento, por certo, formalidades,mas logo Baltasar e os outros quiseram seguir o caso, se pudessem estavam interessados em criá-lo, Gaspar, mais crente, associava aquele acontecimento a mais que uma coincidência e logo na data que fora.

Reluzindo às cores com o reflexo das luzes de Natal no rosto minúsculo, o pequeno a quem algum drama pessoal  conduzira ao abandono atroz, parecia sorrir na alcofa com todos em volta mirando, silenciosos mas de coração grande.

No rio de Colares, duas pombas brancas esvoaçavam soltas e livres, chaminés fumegantes anunciavam o lento acordar duma manhã de Natal, a vida se renovava e o que por certo seria mais um drama da vida madrasta de famélicos de 2010  prenunciava agora novos começos nesta vida sempre a recomeçar.

-Há-de chamar-se Salvador! -profetizou Maria, uma lágrima no olho adoçando o sorriso  de esperança, maternidade reencontrada junto  com três  tios  emprestados para o que der e vier.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:27

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