por F. Morais Gomes

28
Dez 10

Pela manhã daquele frio 28 de Dezembro Jorge na solidão dos seus dias vazios e sem esperança passeava no areal da Aguda, duas gaivotas pairando sobre o azul encrespado daquela mar atlântico e viril. Concluíra há mais de dois anos um mestrado em Antropologia, iludira-se com uma carreira de investigação na Universidade, duas experiências num call center da Vodafone e como guia turístico a recibo verde fora tudo o que conseguira, o pai e o avô iam ajudando.

Acabara com Mariana, aqueles arrufos que noutras circunstâncias de menor pressão logo se resolveriam mas que um mau estar depressivo amplificara, estava arrependido mas não conseguia dar o braço a torcer.O Filipe prometera ver o que se arranjava lá no armazém do pai, em Queluz, com a crise também por lá as coisas não estavam fáceis, dos vinte empregados sete foram despedidos, os restantes estavam à peça a receber pelo desemprego.

A Aguda estava particularmente spleen, só, naquele dia de semana, intervalo entre o Natal cada vez mais de disfarce e consumista, apesar da crise, e o novo ano, esse 2011 de que todos parecem querer fugir, como se de uma via sacra para a forca se tratasse. Enquanto um pescador solitário apanhava tiagem para a noite seguinte, ia desfolhando o seu passado recente, os amigos arrastando-se pelos cafés afogando em imperiais uma vida a marcar passo, os pais desavindos por causa dos empréstimos por pagar, a pequena Joaninha, irmã caçula brincando com a Barbie que, alheia ao mundo dos grandes ainda conseguira oferecer, o tempo esgotando-se entre as trivialidades do Facebook, onde tinham 500 “amigos” dos quais só conhecia 10, e o download de música dos blues favoritos.

Enquanto pensativo deambulava pela praia, desenhando círculos na areia molhada que logo ondas irritantes desfaziam, a repetida dolência das marés exibia a força da natureza pujante, por momentos lembrou-lhe um poema de António Nobre, e  o tsunami da Ásia, faz agora anos,  pela memória passou-lhe a imagem dantesca do que seria uma onda igual a consumir a praia, pouco provável, dadas as arribas alcantiladas da  costa armadilhada de recifes e fósseis.

Inseguro, de quando em quando puxava do telemóvel, ensaiava premir o número da Mariana, mas desistia sempre, entre o orgulho e a mágoa, se calhar era melhor assim, as coisas estavam a degradar-se de qualquer maneira, já não havia osmose nem química, só o conforto egoísta daquela pele macia e frágil, porto de abrigo de muitos dias de solidão e de planos de futuro oníricos e reconfortantes onde em pose fetal se acolhia protector depois de noites de entrega. Mas depois, cruel, a frieza da cama pela manhã, o quarto húmido onde fixamente olhava o tecto, a melancolia companheira da tristeza, a vontade de resistir, até quando?

Ao longe na areia, uma mulher, quarenta e tal anos, um cão de água português correndo ofegante, mais alguém no passeio matinal sorvendo aquele iodo terapêutico e vigorante, um cigarro na mão, olhar impassível e fechado. Por momentos, cruzaram-se já uma onda ousada molhava os sapatos de ambos, o cão feliz, solto ladrando atrás duma gaivota mais incauta.

A mulher tinha uma expressão serena, tal e qual a Angelina Jolie, pensou com os seus botões, ela colocou uns óculos escuros, apesar de não haver sol, inevitavelmente ele meteu conversa, o cão- há sempre um cão-como pretexto.

-Estes cães gostam muito de água, quantos anos tem?- avançou, uma atracção por aquele ar seráfico e impenetrável tornava interessante e desafiadora aquela desconhecida passeando na praia num dia de semana invernoso.

-Três meses, é cachorro ainda!- respondeu, leve sorriso não muito expansivo, o cabelo ao vento levado por uma leve brisa da nortada.

-É bonito.Como se chama?

-Fausto.O meu ex-marido só gostava de ter animais com nomes clássicos.

Bom, já sabia que havia um marido. Mas ex, a coisa não era assim tão desagradável. Ela logo o questionou:

-Vem aqui muitas vezes?Nunca o vi por cá!

-É raro, mas o ar frio é tónico, quando posso venho, moro aqui perto.

-As praias são locais onde muitas coisas se perdem e outras se ganham, as ondas trazem e levam muitos segredos, não são só botas velhas.-enigmática, as palavras soavam-lhe a filme de Manuel de Oliveira, com a cabeça assentava que sim, só para agradar e continuar a conversa.

-O meu avô dizia-me, quando quiseres que algo de novo aconteça, levanta uma pedra e surpreende-te pois aquilo que procuras pode lá estar.As praias são cofres de segredos a desvendar, para logo se desfazerem na espuma dos dias!-

Bonitas palavras, pensou, ela logo se despediu, já o cão sumia na direcção de Magoito, vasto areal nos baixios da manhã, o vento gélido na balada fria e misteriosa.

De novo só, o pescador à tiagem já vulto ao longe, continuou vagaroso desenhando círculos com o tronco seco que uma onda trouxera. Numa rocha repleta de percebes e mexilhões vestida de algas verdes e salgadas, deteve-se minutos a ver o mar, um súbito ruído de algo a bater na rocha chamou-lhe a atenção, coisa sólida e rija. Curioso, deitou o olhar sobre uma poça que o mar escavara, uma garrafa esverdeada e sem rótulo, fechada, deixava-se levar pelo ondulante bailado da água fria. Algo no interior logo o alertou.

A garrafa continha um papel dentro, logo a imaginação a trabalhar, quiçá alguém na Nova Zelândia mandando mensagem a um namorado de vinte anos antes, coisa de filme, ele também náufrago da vida com uma garrafa na praia, ao menos se fosse de gin reconfortante…

Desdobrado o papel, não muito antigo como erradamente imaginara, umas palavras enigmáticas, manuscritas:

Segunda feira 3 de Janeiro, está pelas 10 horas à porta da Universidade Nova. Um assistente de Antropologia vai ser convidado a dar aulas com entrada imediata. O destino baralha as cartas.Nós jogamos” .

Como assinatura, um sol risonho, amarelo, ingénuo. Atónito, releu a mensagem, e repetidamente a agarrou contra a mão firme como se por azar fosse escapar. Ao longe, um vulto de mulher, uma forma de peixe disforme no lugar das pernas lançava-se ao mar, uma gaivota por escolta. Ainda tentou ir no seu encalço, mas desaparecera, qual visão sonâmbula e irreal. Só o cão de água ladrando e abanando o rabo o rodeava agora, sozinho, traquina e brincalhão.


publicado por Fernando Morais Gomes às 12:47

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