por F. Morais Gomes

01
Jan 11

A farmácia ia ficar de serviço na noite de fim de ano, a Mafalda asseguraria o expediente, o comboio das 22h para Sintra estava a chegar e Eduardo apenas pensava em chegar a casa onde Sónia esperava com um Raposeira e as passas para a entrada em 2011.

A farmácia no Cacém era  um espelho, os unguentos para o reumático da velhota sempre a aviar receitas prova de vida, enquanto avia está viva e vai reclamando das dores e das artroses, os Gurosan da fauna da noite, sorriso entre o malandro e o ressacado, o antibiótico para a pneumonia do pequeno Gonçalo, pai desempregado ,mãe a dias num infantário da Amadora. Com a Mafalda  dividia o serviço, o pior eram as noites, o Cacém cada vez mais perigoso, vidas perdidas e desgovernadas entre seringas e antidepressivos, nada como uma farmácia para apanhar o pulso à a real dimensão da crise, pensava.

Consigo uma mala com amostras que o Rogério deixara, no dia seguinte, feriado, entreter-se-ia a folhear  a literatura médica, os laboratórios sempre a inventar novos produtos, todos a produzir  o mesmo efeito mas a maquina a precisar de ser oleada,há que criar produtos fármacos, vira como sucedera com a   paranóia em torno da gripe A.

A viagem até à Portela  de Sintra seria de apenas quinze minutos, já poucos  passageiros no comboio, muitos mais na direcção contrária para Lisboa, jovens a caminho das docas e do Terreiro do Paço, animados, a crise pode esperar, só se vive uma vez. Na sua carruagem ,os quatro ou cinco restantes da noite, um velhote careca, amorfo, olhar baço reflectido no vidro grafitado da carruagem, duas brasileiras a caminho de uma noite de diversão,cheiro a perfume barato , roupa exuberante, um jovem de óculos com um portátil, absorto “falando” com amigos no Messenger. A carruagem silenciosa, só intervalada por uma voz melosa indicando o nome da próxima paragem, como soava doce e apetecível a palavra Algueirão naquele momento, quem não conhecesse poderia pensar estar a chegar a Paris ou Barcelona.

Em Rio de Mouro saiu o velhote, vencido da vida arrastando  a maleta, a marmita do almoço por certo, passagem de ano a dormir ou uma ginjinha com a mulher, sem ar de grandes festejos, mais um dia, mais um ano, a vidinha que não vai mas tem de ir indo. Na carruagem ao lado, quatro jovens, africanos, headphones ao pescoço, piercings reluzentes como árvore de Natal, bonés da NBA e ténis reflectores, algazarra abrindo e fechando portas das carruagens, nas outras também poucos retornando a casa, noite fria e gelada. Alguns pontapés tonitruantes nas cadeiras, marcando o território, abrir e fechar de portas invasivas e invasoras, um maior e de calças quase pelos joelhos aproximou-se de Jorge e quase sem este se aperceber, apontou-lhe uma faca de ponta e mola à jugular:

-Meu, passa para cá o graveto, e depressa! E não te chibes que ainda é pior!

Eduardo sentiu uma lâmina fria roçar a garganta, as brasileiras surpresas nada disseram, nestas coisas o melhor é ficar de fora, indocumentadas por certo, o melhor é fazer que nada se viu. Buscou no bolso das calças a carteira, apenas 30 euros, o cartão do multibanco , cartões de delegados de informação médica.

-Só isso, man? Então não há festa hoje, sócio? -reclamou um dos outros, pelos vistos teriam de ir abordar o caixa de óculos, que fazia não ser nada com ele, encafuado no teclado.

Eduardo achou melhor não dizer nada, afinal eram quatro, levaram os trinta euros e enquanto já se preparavam para sair em Mem Martins o da faca mantinha-o imóvel não fosse pegar no telemóvel e chamar a polícia, depressa desapareceriam na noite do subúrbio a beber umas cervejas ou enrolar um charro.

Junto à porta um dos sócios, aí dezoito ou dezanove anos de repente empalideceu e num ápice caiu desamparado no chão da carruagem. Os outros aflitos logo esbracejaram face à inusitada situação.

-Levanta-te chavalo, estás bezano, meu?-um deles sacudiu-o, inerte, os outros baratas tontas sem saber o que fazer, as brasileiras cada vez mais à nora, parecia coisa de morro no Rio.

-O minino bébeu? Nossa, é barra pesada! -comentou uma, sem se levantar, um decote de passagem de ano deixando ver um peito rijo e saliente,mais uma noite de table dance no bar de alterne em perspectiva.

Eduardo virou-se para o seu momentâneo sequestrador e interpelou-o:

-Oiçam, eu sou farmacêutico, percebo um pouco destas coisas, deixem-me tirar-lhe a pulsação -sugeriu, apesar da situação era um profissional.

O da faca, capuz enfiado, hesitou e lá aceitou, desviando a lâmina, o do computador aproveitando a trégua inesperada juntou-se curioso, ambiente de súbito invertido, e já o Algueirão ficava para trás sem que ninguém tivesse saído, Eduardo colocava o aparelho no braço inerte do jovem assaltante.

-É quebra de tensão, oiçam, trago aqui umas amostras duns comprimidos novos que estimulam o organismo, isto deve ajudar -diagnosticou, abrindo a mala das amostras que levara para ler no feriado. Abrindo-lhe a boca, ante a passividade de repente neutralizada dos assaltantes amadores, enfiou-lhe uma cápsula branca, o do computador trazia uma garrafa de água na mochila, e cinco minutos depois sentado num banco da carruagem já o jovem, Vando se chamava, recuperava, dor de cabeça e ar assustado.

-O melhor é fazer umas análises, pode ser algo do coração, ainda és novo, puto!- recomendou Eduardo, apesar de assaltado não resistiu a pôr a mão no ombro do rapaz, vidas perdidas que talvez nunca tivessem sido programadas para ser de outra forma.

Vando acabrunhado nada disse, os outros em silêncio rodeavam-nos. O da navalha olhou Eduardo nos olhos e com um ar fechado e inexpressivo estendeu-lhe a mão onde trazia enrolados os trinta euros do assalto. Este sorriu, olhou-os de relance e sem aceitar, despediu-se, conformado:

-Bebam um copo à minha saúde!

E saiu, era a Portela de Sintra e quase onze horas, as brasileiras também, entrando num carro de gama alta que as esperava, o do computador logo se perdeu igualmente na noite fria onde em breve seria 2011, para os cúmplices diários daquela linha de Sintra cadinho de vidas em risco, comboio de rejeições. Os quatro sócios em silêncio seguiram para a Vila, deambulando junto ao paço, o Vando meio absorto e mais descontraído. Metendo a mão ao bolso, um volume inesperado, a embalagem inteira dos comprimidos das amostras, na frente, escrito a  azul um “Bom 2011” em letras grandes.


publicado por Fernando Morais Gomes às 12:19

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