por F. Morais Gomes

06
Jan 11

A esperança é a maior e a mais difícil vitória que um homem pode ter sobre a alma

George Bernanos

Nos dias que passam é corriqueiro e quase inevitável falar da famigerada crise, já não se passa sem ela, nos jornais, nos cafés, no emprego, no parlamento,creio mesmo que se um dia porventura acabar a sensação de orfandade será  tão grande que se há-de arranjar logo outra se possível pior para pôr à prova o nosso sadismo colectivo.Desde Alcácer Quibir que assim é, é endémico. O certo é que cá vamos estando(aliás, Portugal, país do gerúndio, não se vai ,vai-se andando , é a vida!)

A idiossincrasia dos povos tem destas coisas, mas analisando à lupa ,a História encarrega-se de provar que apesar do fado nacional , sempre soubemos domar os Adamastores, fossem eles  o grande e desconhecido Mar-Oceano ou os mais prosaicos e invisíveis "mercados".Já vêm da época dos descobrimentos os velhos do Restelo mas não deixámos de ousar lutar e ousar vencer, contra castelhanos, terramotos, franceses, ditaduras, e ainda cá estamos, o país mais antigo da Europa e com as fronteiras mais estáveis, a 5ª  lingua mais falada em todo o mundo, 32º no ranking mundial de 194 países ( com o detalhe de sermos dos mais pobres entre os ricos, mas ainda assim no clube...).Ponha-se os olhos em povos como o alemão,devastados por guerras que provocaram milhões de mortos , e destruição em massa,e, contudo,sempre a renascer das cinzas. Temos  sempre a desculpa de achar que a culpa é “deles”, os que nos governam (porque se governam) mas “eles” somos nós,todos, no que temos de bom e mau, como qualquer outro país.O pessimismo é como o auto-golo, só serve para perder pontos.

Vem isto a propósito da responsabilidade que em minha opinião têm as elites e a opinião publicada nos estados de alma que moldam o carácter nacional dos portugueses. O pathos nacional é marcado pelos vencidos da vida de várias gerações,desde o conformado "ainda o apanhamos" do Eça até essa peça sublime e igualmente derrotista que é a Mensagem, de Pessoa. Obras belas, plástica e literariamente, mas hinos à descrença, à resignação e ao fatalismo. Se  olharmos com atenção, todos os grandes gurus nacionais são-no na medida em que se assumem como profetas da desgraça,(os optimistas chamam-lhes "visionários...) quanto mais baterem no ceguinho mais premiados e idolatrados, pois eles,premonitórios é que viram para lá da nuvem. Um exemplo: a nossa cena de comentadores, os ditos opinion makers.Quem são os mais convidados e “respeitados”? os que autofágicamente anunciam a “piolheira” do país, os frustrados, os que querem  ajustes de contas com os adversários ou ex-amigos. Dê-se-lhes uma caneta ou um teclado e ei-los a zurzir inflamados a desgraça nacional e o fado de ser português, "isto só cá", como se todos soubessem em profundidade como é "lá". Já Almada dizia que o  pior de Portugal eram os portugueses, e os visados aplaudiram claro, porque nunca é nada "connosco", mas com "eles".

Faça-se uma experiência: ouça-se um dia inteiro iluminados como  Medina Carreira,  Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares, a equipa do Eixo do Mal ou o inenarrável Mário Crespo, e, se não estiver deprimido e enterrado em whiskies veja qual o contributo positivo deles para melhorar o estado de coisas, profetas da desgraça depois da desgraça ocorrer, na onda do “estava-se mesmo a ver, eu avisei”, mas entretanto não viram e se viram não avisaram ( até  presidentes passam a vida a dizer que avisaram, mas que podiam eles fazer, coitados, míseros presidentes da República,calimeros da política, sem poder real...)

As elites pensadoras são sobretudo faladoras, e sobretudo masldizentes, imensamente responsáveis pela degeneração da ideia de Portugal, e nisso pouco mudou desde a fuga de D.João VI para o Brasil. Porém, mal ou bem cá vamos, e sobretudo, cá estamos e apesar daquele autor que escreveu que um país que nasceu com o filho a bater na mãe não pode ir muito longe, somos uma matriz da civilização ocidental, um berço de culturas,(eu sei, cheira a discurso de 10 de Junho, mas é verdade!), O que faria então se nos entendessemos sobre as grandes questões, separando a árvore da floresta. Temos  a particularidade de estarmos sempre desavindos uns com os outros e desconfiarmos mais depressa de outro português do que do primeiro estrangeiro desqualificado que nos metam na frente.Como aquele velho anarquista que dizia:há governo? Sou contra!

Com crise ou sem crise, os povos não acabam,pode é suceder que como nos vírus da gripe, com o tempo transmutarem-se noutros, com novas roupagens e a geração que abriu o século XXI  não vir a sair muito bem na fotografia da História. Mas depois do tempo, tempo vem, e um pouco de azul sempre é melhor que o cinzento, apesar de estar negro, na rua e nos espiritos. Como um dia disse o general De Gaulle, "o fim da esperança é o começo da morte".


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:19

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