por F. Morais Gomes

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Jan 11

Na barbearia do Quintela três gerações de cabelos e barbas passaram já pela rotineira e ritual cerimónia do corte,  higiene para uns, cuidado com o aspecto para outros, meia hora a olhar para um espelho enquanto a  forma, que não o íntimo, renova o aspecto, um emprego ou namorada a exigir, vaidade, o desejo de ter com quem conversar.

O futebol é fatal, o Correio da Manhã, essencial para dar o mote do estado a que isto chegou ,do que “eles” andam a fazer, enquanto a tesoura laboriosa vai esculpindo o novo corte, tradicional ou irreverente, uma imagem vale mais que mil palavras. Hoje, modernizada a barbearia, uma televisão permite  comentário na hora aos talk shows matinais,quase sempre suspirando por mais uma desgraça, o roubo do multibanco, o abuso de menores, a política ou o golo roubado por aquele “ladrão” do arbitro, comprado pela certa.

Três clientes  logo pelas nove, o velho Saraiva, reformado das finanças, viúvo recente, fanático do Benfica e saudoso de Salazar, o Alcino, dono do Café Lisboa, ainda fã da brilhantina,manequim da R. dos Fanqueiros ,calça de vinco demodê, e um jovem, pela primeira vez, nunca visto por ali, magro, olhos cavados,um brinco na orelha esquerda.

Pela ordem de chegada, primeiro o Saraiva, visita quinzenal, apenas uma coroa a aparar ,a careca dominava já,não precisava lavar.

-Ora então amigo Saraiva, o costume?

-É para ver se elas ainda nos pegam, Quintela-falava, tom elevado,um aparelho auditivo recente,  logo tirando o casaco e sentando, toalha branca a proteger, rotineira.-Então que me diz desta coisa do Carlos Castro?Isto a bichanagem... mas cada um leva onde gosta!.É o que dá as liberdades!.No meu tempo alguma vez isto se passava?...

-Mas ó amigo Saraiva, daí a matar?...,Fosse lá o que fosse nada justifica, Então o gajo afiambra-se ao dinheiro do velho, toda a gente sabia o que ele era e faz-se de anjinho quando é convidado para ir passar o ano com ele?.Deu cabo da vida é o que é,mas olhe, antes a dele que a minha,isto é querer subir a qualquer custo!- argumentou o Quintela, a tesoura dançando entre os dedos, uns poucos cabelos grisalhos caindo no chão.O Alcino ia anuindo com o Quintela, atento á necrologia, o rapaz em silêncio folheava uma Caras já antiga,os olhos no telemóvel a receber mensagens.

-Isto está tudo perdido, senhor Saraiva- interrompeu o Alcino-ainda no outro dia apareceram dois de mãos dadas lá no café e aos beijos isto é de nunca terem ido á tropa, a juventude está perdida!

-Pois, mas o gajo já era velho, e parece que foi ele que aliciou-alvitrou o Quintela.O jovem em silêncio nada dizia,tinha um ar absorto,umas patilhas estilizadas, roupa de marca justa ,ar andrógino, agora é assim, pensou o Quintela.

-Pois eu era uma coça em todos, isto está tudo perdido!- de dedo em riste,rematava o velho Saraiva, falando para o espelho como se de lá estivessem a ouvi-lo,a tesoura quase raspando a orelha.

-O Alcino ainda ironizou:

-Deixe lá, assim sobram mais mulheres livres para a gente, ó Quintela,o que uns não querem estão os outros desejando!-gracejou ajeitando a melena,a D.Rosa da lavandaria no pensamento.

Às tantas o rapaz,impávido e frágil,levantou-se e despediu-se, voz sumida e delicodoce:

-Desculpe, mas não posso esperar, tenho um compromisso ás dez e está demorado!- e saiu,em silêncio,rua acima.

-Quem é este tipo? Nunca o vi por cá!- interessou-se o Alcino,uma lugar ganho entretanto com a desistência.

-Alguém que veio para aqui morar recentemente, se calhar-rematou o Quintela, a escova já limpando os cabelos no casaco do Saraiva, despachado.

-Olhe olhe, ó Quintela, veja lá aqui o Correio da Manhã!-soltou acelerado o Alcino,como quem descobriu um tesouro em gruta, jornal escancarado no balcão junto ao espelho.

Todos precipitados para o jornal delator, na página 46, uma foto de um conhecido cantor do burgo, ao lado, sorridente, mão sobre o ombro, o jovem que acabara de sair, um pouco mais de cabelo, ambos flûte de champanhe na mão. Em título “ Ruben  M, o conhecido cantor  romântico vai casar com  jovem designer de 21 anos”

-Está tudo perdido!-reclamou o Saraiva, meneando a cabeça,logo se precipitando para o Café Lisboa a refrescar-se com um tinto que dum trago emborcou boca abaixo.No talk show da TV no canto,falava-se de mudanças de sexo.


publicado por Fernando Morais Gomes às 12:13

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