por F. Morais Gomes

15
Jan 11

Seis meses. Seis parcos meses restavam de vida a Cristóvão Valdágua, cruel sentenciara o dr.Chambel, um linfoma trepando a montanha que conduziria ao desenlace, ingrato e furtivo. Primeiro revoltara-se, pensando em Felícia, os quarenta anos de casamento, os estudos islâmicos e viagens no  mundo árabe, a finitude das coisas. Agora queria ganhar tempo e ser feliz, preparar a partida em paz com ela ao lado.

Uma última viagem a dois seria o selo com que repararia algumas falhas para com a companheira, muitas vezes  deixada só e com os filhos, sobretudo durante as  várias  e longas viagens à Turquia , a tese de que a Arca de Noé nunca baixara em Ararat tinha sido a sua luta dos últimos anos, um documentário no National Geographic. A Tunísia, amena e próxima, mediterrânica, seria o destino do adeus, miscelâneo e tépido.

Felícia, conformada mas com amargura, acedeu, a tangencia da carne terminaria mas a paixão ficaria, um último  álbum de fotos seria tirado.

Em Port El Kantaoui, mar quente e amendoeiras em flor, Algarve de lá, perderam-se em passeios pela areia, tâmaras ao fim da tarde, um cúmplice narguilé na tenda do Youssuf  na noite estrelada do Magreb, com  o  muezzin ao longe chamando para a prece nocturna. Um circuito pelas pedras de Cartago, berço de Cipião e Jughurta que tanto estudara devolveu-o ao seu mundo de civilizações antigas, agora tomadas pelos escorpiões e turistas em busca da foto. Sidi Bou Said e um peixe fresco nessa cidade branca, solarenga e florida, propiciaram a felicidade dos momentos simples, agora avaramente saboreados, Felícia sempre com os medicamentos na bolsa, as olheiras cavadas nele moldando já a máscara do fim. Ao contrário de outras viagens já não tirava notas, em guardanapos de papel escrevinhava  pensamentos que depois rasgava, indignos de imortalidade.

Depois, o grande Sul, aquele deserto agora tão cheio de sentido, também ele ali iniciando uma travessia do deserto a caminho de Lá, fosse lá onde fosse, ateu empedernido descobria-se agora com pensamentos místicos, a provável existência dum outro mundo amenizava as dores do corpo e da alma dilacerada. Uma última vez,o amarelo vivo das dunas, os palmeirais de Tozeur, o branco fantasma do Chott-El-Jerid, o grande lago salgado. E os chás de menta nas covas trogloditas, sempre rodeados dos inefáveis vendedores de quinquilharia, seduzindo, com a graciosidade de mosquitos e com as inevitáveis referências ao clube de futebol ou jogador mais conhecido do momento.

Em Douz, fronteira do Grande Deserto, num jantar berbere enfiaram tradicionais djellabia, ele um tarbush na cabeça, e andaram de camelo,figurantes em remake de filme da legião estrangeira, encenando os cada vez mais raros momentos de felicidade, a ampulheta de areia esvaziando, como toda aquela imensidão seria agora desejável para encher uma nova, acabar os livros, perseguir o tempo desperdiçado Na tenda que lhes servia de hotel, um alaúde dedilhado ao longe, amaram-se como na primeira vez ainda jovens estudantes em Coimbra, Felícia a mais bela, fora ele o sortudo do curso de 67.É fria a noite no deserto, mas ali estava todo o calor do mundo com que se queria aquecer.

Na última etapa, depois da cidade santa de Kairouan, a calmaria de  um  quarto junto ao mar em Jerba, pescadores em frágeis batéis na faina e  turistas ocidentais na placidez do azul marítimo. Cristóvão, já cansado, dispensou as visitas aos souks, quedaram-se pelo hotel, junto ao mar, Felícia e ele, ele e Felícia, mãos dadas em silêncio, o sol laranja dominando o horizonte, quente.

Uma tarde, na varanda, Cristóvão, ofegante mas  rosto sereno, acariciou-lhe o rosto e beijou-a:

-Agradeço  teres aparecido  no meu caminho na hora certa e no lugar certo. Naquele momento, tudo foi tão perfeito. Adorava ficar ao teu lado, sentir o teu abraço, o teu cheiro, teu calor! Fostes o anjo que veio até mim e me  fez esquecer  o sofrimento que  passei na minha vida. Mas agora já não há tempo. . .Foi - se o tempo…

-Cristovão, não digas nada, meu amor. Ninguém vai partir, vais ver…

Ele pôs-lhe um dedo no lábio, cerrando-o, pequeno, e continuou:

-Já não pertencemos um ao outro, tomamos rumos diferentes agora. Quero que continues na estrada que percorremos. Eu na berma, tu ao centro, esplendorosa, a melhor de todas!

Felícia continha uma lágrima, ele acariciava-a,  olhar perdido no mar azul vivo, bafejado pelo suão da tarde.

Fixa no horizonte deixou escapar uma confidência:

-Lembras o dia em que me pediste namoro e eu te disse que tivesses respeito e não fosses atrevido? Foi o dia mais feliz da minha vida, há semanas que secretamente desejava que sucedesse, eu…

A mão de Cristóvão, ainda enlaçada na sua estava agora morna e sem força, ele fixo no horizonte e sorrindo, inerte, o Grande Sul levava-o já, talvez num cavalo alado, uma nuvem de areia uivante soprava dos lados de Monastir. O historiador de assuntos islâmicos encerrava também ele agora o último capítulo do derradeiro livro.


publicado por Fernando Morais Gomes às 08:50

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