por F. Morais Gomes

16
Jan 11

Um programa Erasmus na Hungria, Engenharia do Ambiente, era o novo desafio de Vanessa, 12º ano na Leal da Câmara, a mudança de Rio de Mouro para Budapeste soou a coisa caída dos céus, um mundo novo e novos amigos em perspectiva.

Bilhete de avião na mão, uma residência universitária não longe do centro, era a aventura magiar, se a Europa servia para alguma coisa era para isto. Chegou a Budapeste no início de Setembro, ano lectivo a começar duas semanas depois.

A cidade era limpa e aristocrática, velhos edifícios da era dos Habsburgos marginando o plácido Danúbio, pontes pedonais e praças perfumadas pelas harpas e violinos dos artistas de rua, todo um universo diferente do multicultural subúrbio sintrense. Os primeiros dias foram de total descoberta, num inglês pirrónico, a impronunciável língua local  abafada pelos gelados e gulosos crepes gundel palacsinta. A universidade  funcionava num edifício clássico,colegas quase todos húngaros, no programa Erasmus apenas um italiano,Matteo,  e  Ilse, sueca de trato fácil, José Mourinho superstar a unir logo as conversas sem rodeios iniciais. Ao fim de uma semana tinha já amigos, a alegria esfuziante da jovem de Rio de Mouro derrubava  fronteiras e conquistava  o leste.

Aí surgiu András. András Szabo, 19 anos, colega de turma, ar franzino,  das aulas aos passeios na Praça Vörösmarty  para um  sorvete logo chegaram as deambulações de mãos dadas pelas velhas pontes  entre Buda e Peste. A paixão falou alto, e apaixonados passaram a partilhar um apartamento  não longe da verdejante ilha Margarida.

András nas horas vagas ganhava um dinheiro extra  no Karpátia, um restaurante junto à catedral, em Buda, invariavelmente  lautos pratos abrilhantados pelas czardas e marchas debitadas pelos nervosos violinos dos zíngaros.Á noite, ela esperava-o e ceavam  juntos, Portugal cada vez mais só uma recordação do sol e dos amigos.O Facebook amenizava as saudades e um amanhã parecia despontar naquele país de que vagamente ouvira falar  e onde agora o futuro parecia sorrir. Aos fins de semana passeavam em Visegrád, Danúbio acima de bicicleta por  florestas pintalgadas de cavalos selvagens ou banhavam-se no Balaton,  cristalino  lago a sul, copo de Tokay branco a aquecer os corações  e a cama nas noites frias da estepe magiar.

Ao fim de dois meses, András começou a  ter  de ausentar-se com frequência, a mãe viúva adoecera e tinha de lhe dar assistência viajando até Esztergom, terra natal perto da Áustria. Vanessa a início compreensiva, entretinha-se nessas alturas a passear pela cidade e estudar na biblioteca, onde Matteo, o divertido italiano de Pisa  surgia frequentemente, a alegria tonitruante do italiano, mais anárquica e expansiva contrastava com a postura eslava  e marcial do magiar, os risos eram agora mais com Matteo que com András, de repente um ambiente rotineiro e seco a instalar-se no apartamento, quando à noite ele voltava do Karpátia já só beijos silenciosos, o odor a goulash e sültmalac da roupa dele a suscitar agora enjoos. A adrenalina do ménage a trois mesclada com um desejo físico irreprimível estimulava o ego de mulher e a volúpia de fêmea dividida. András era o cérebro, Matteo o corpo.

Até que Matteo, inevitável, sucedeu a András naquela poliglota sociedade de nações do desejo. Certa noite, com András ausente  em Esztergom, jantaram numa acolhedora trattoria perto do Kempinski, na baixa da cidade.Ele, vinte anos, moreno e ar atlético, transpirava virilidade, umas Dreher loirinhas ao som dum cimbalon embalado e logo o apartamento foi o destino óbvio sem apeadeiros, a jovem de Rio de Mouro em onda de internacionalizações trepidante nos seus dezanove anos.

Assim se foram passando  ambíguos os dias e  semanas. Em finais de Abril voltou a Portugal, de férias, apesar dos jantares com os amigos, era em Budapeste que os pensamentos estavam já, mais com Matteo que com András, deixaria correr, despreocupada, gata dengosa  com os seus dois bichanos.

No regresso , András inexplicavelmente deixara o apartamento  sem aviso e levara as suas coisas, na faculdade ou no Karpátia ninguém o vira mais. Telefonou-lhe  durante alguns dias, perguntou por ele, desaparecera sem rasto. Matteo, liberto do rival passou a acompanhá-la mais  assiduamente, acabou mudando para o apartamento, rei morto rei posto. Dois meses passaram, András definitivamente  para trás, talvez em Esztergom junto à mãe, esqueceu-o.

Num primaveril domingo de Junho foram até Visegrád para um  passeio a cavalo , rotina agradável adquirida apesar de nem um ano na Hungria, com Matteo cavalgava agora, cabelo solto ao vento. Findo o passeio, Vanessa deteve-se feliz no miradouro sobre o rio, o Danúbio deslizante entre colinas verdes tranquilo e seguro, sobranceiro ao velho castelo,a paixão profunda que vivia era o azul que sempre almejara, e mais, podia escolher, ganhara liberdade e dimensão.

Matteo fora aos lavabos, demorava já porém, as noites húngaras chegam cedo,havia que regressar, foi procurá-lo. Nos serviços não estava, no picadeiro ninguém mais o havia  visto desde o final do passeio, o castelo medieval estava já fechado a visitas. Contornava já preocupada a vetusta barbacã  quando um vulto ,hirto, um cachecol familiar ,ressaltou no meio do capim: Matteo jazia morto, uma faca de cozinha espetada nas costas. Enfiado na boca um papel branco com a frase “Com os cumprimentos do Karpátia”.


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:50

lol. Isto nunca aconteceria num programa Erasmus...!
D. Colaço a 16 de Janeiro de 2011 às 09:57

Pois é, mas um dos três não estava no Erasmus, faltava a onda....Bom fim de semana! Fernando

É verdade, é verdade... Depois também pensei nesse pormenor. Ainda assim, que tragédia!, hehe. Igualmente, bom fim de semana para o Fernando.
D. Colaço a 16 de Janeiro de 2011 às 16:11

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