por F. Morais Gomes

17
Jan 11

João Carlos, 25 anos, era o típico chico esperto, vivendo rodeado de mulheres e de dívidas, arrastando-se ébrio pelos bares de Sintra. Inteligente, sempre envolvido com mulheres duvidosas, o Fernando da Junta já o tentara convencer a mudar de vida, mas estava-lhe na massa do sangue. Tal originava-lhe frequentes dissabores, por vezes dormia nos baixos do café Paris, embriagado e cravando cigarros aos passantes. Até que um dia, depois de uma zaragata mais violenta na Tasca do Manel o levar ao hospital decidiu que era tempo de mudar de vida.

A oportunidade surgiu quase por acaso, o tio Albertino, solteirão,    antiquário na Vila Velha morreu de repente, deixando metade do negócio a ele e a outra sobrinha, a Salomé, sua prima, quase da mesma idade, morava em Lisboa, eram os sobrinhos favoritos do velho. Mas havia uma observação enigmática no testamento dirigida a João, em voz grave lida pelo Dr. Celso, o notário no dia da abertura do testamento: ”Tudo está escrito, respeita tudo o que escrito estiver”. Loja herdada e reaberta, era a nova vida que precisava, deixou de beber e aos poucos pagou as dívidas do poker, fato e gravata novos, ar respeitável de antiquário.

Salomé era linda, cabelos castanho-claros, olhos esverdeados, corpo esculpido. Morava em Lisboa com a tia Júlia, o negócio a meias fez por aproximar os dois e mudar-se para Sintra e durante muito tempo deram-se bem, aliados. Os problemas começaram depois que um armário adquirido a um português natural de Goa chegou à loja. Era um móvel grande, negro, com baixos-relevos orientais, e  com ele vinha um misterioso bilhete que alertava para que a porta da direita nunca fosse aberta. João Carlos achou piada, coisa de hindu supersticioso, pensou, e em desafio diletante enfiou o bilhete na porta dita proibida. Coincidência ou não, naquele mesmo dia, uma conta não paga logo azedou o clima entre ele e Salomé.

O tempo ia passando e ninguém comprava o dito móvel, primeiro na montra, depois num canto, acabou nos fundos, poeirento. Os desentendimentos por causa dos negócios que começaram a fraquejar passaram a ser constantes, e João Carlos sentia-se mortificado, sem prazer no que fazia.

Já com a relação com a prima degradada, ao entrar certa vez na Piriquita deu com ela a tomar café com um estranho, bem parecido demais para ser só amigo, um namorado oportunista, pensou. Apesar de os ver, ignorou-os e na manhã seguinte mal falou com a prima, amuado. Estavam meio desencontrados, mas era um palmo de cara e ainda tinha esperanças que um dia as coisas resultassem entre eles.

O tempo ia passando, ia ficando cada vez mais triste e desalentado, pouco a pouco voltava à vida que levava antes de pegar no negócio herdado do tio. Jogo, álcool, prostitutas, a prima junta com o manguelas do Renato. Na loja, o armário indiano, silencioso, lá continuava há mais de um ano. Passara tanto tempo desde a compra que desistiu de vendê-lo e passou a usá-lo para guardar papéis relativos ao negócio. Encheu as gavetas, abrindo a porta onde guardara o bilhete que aconselhava a não usá-la, este havia sumido, o interior vazio. Imaginou que Salomé o tivesse jogado fora e colocou lá os livros de cheques da firma.

Dias mais tarde a prima veio perguntar pelos cheques, ao abrir a porta do armário, nada dentro, tal como o bilhete, nada de cheques, deixando Salomé furibunda e suspeitando de desvios e a ligar ao Renato para ele se travar de razões com João, queria contas. Renato, no dia seguinte e a sós com João entrou a matar com ironias, o móvel não havia de ter engolido os papéis. Aí, João, boa pessoa há tempo demais para o seu gosto, instintivamente pegou num Santo António em pau-santo, maciço, e certeiro atingiu a cabeça do garanhão da Vila Velha. O corpo caiu no chão, esperneando e acabando por morrer. Estava ainda quente no chão, turistas japoneses fotografando querubins na montra, quando Salomé chegou, vinda do Bristol. Enrascado, abriu a porta direita do móvel indiano, e empurrou o corpo lá para dentro, enchouriçado. Mal  a fechava  quando a prima entrou pela porta da frente:

- Viste por aqui o Renato?  Ele disse que vinha para cá!

- Não, não vi, porquê, hoje é dia de marmelada? - insinuou, invejoso, ao mesmo tempo sabendo o outro lastro para saco de batatas, valha isso.

- Deixa-te de brincadeiras. Se ele aparecer diz-lhe que estou no Arneiro! -a voz não era de brincadeiras, continuava bonita zangada, aquele narizinho…

Assim que a prima saiu, abriu a porta do armário, mas o morto havia desaparecido por completo, coisa anormal. Foram os cheques, agora o corpo, estranho mistério, nos dias seguintes a polícia em verdadeira caça ao homem em Sintra, o sumiço era o tema na Vila Velha, com fotos de Renato espalhadas na Junta de S. Martinho e nos bares e lojas de artesanato das redondezas .Com o tempo, nada se apurou, as buscas foram reduzidas e os primos até se reaproximaram, mas um mistério atormentando João, ao mesmo tempo aliviado por não haver um corpo que o denunciasse.

Três meses depois, ao entrar na loja, Salomé, com João ausente, tropeçou numa cadeira e caiu desgovernada no chão, mesmo em cima de uma mancha avermelhada no tapete, era sangue seco e ressequido, como logo apurou. Tomada duma consciência dos factos que rapidamente lhe avassalaram a memória, arrastou as peças expostas e enrolou-o, levando-o com ela, agora juntava dois mais dois.

João Carlos chegou mais tarde, estranhou a loja ainda fechada e entrando notou a falta do tapete velho mas não ligou. Já se sentava na escrivaninha do canto quando sirenes da polícia soaram vindas do lado do posto da GNR na estação parando junto á loja, o vulto da Salomé no banco de trás. Uma súbita palpitação levou-o a crer que teria a ver com o desaparecimento de Renato, e assustado tentou escapar-se, mas a prima antes de sair trancara todas as saídas das traseiras, não tinha como sumir. Fixando o móvel indiano à sua frente, abriu a porta proibida e escondeu-se lá dentro. A GNR entrou no local, arma em riste, Salomé a acompanhar, mas nada, tudo foi vasculhado, o móvel aberto, João Carlos não mais apareceu. Até hoje.

No cartório notarial, meses mais tarde, arquivava o Dr. Celso um testamento recentemente aberto quando lhe surgiram manuscritas as últimas vontades do velho Albertino. Pausadamente releu a misteriosa frase dirigida a João Carlos, infelizmente desaparecido, toda a Vila lamentara, e sorriu, patetices de velhos perturbados pela idade.


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:22

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