por F. Morais Gomes

19
Jan 11

O arquitecto apressava-se a apanhar um táxi, fila extensa na zona das chegadas do Aeroporto da Portela, uma corrida até ao Algueirão, depois da visita à Batimate em Paris, queria chegar e tomar um banho, o atelier esperaria para o dia seguinte. O motorista, cabelo grisalho, cinquenta anos, calado transportava a mala para o porta bagagens, taxímetro ligado, a menina da central monocordicamente a debitar pedidos pelo intercomunicador.

António Salaviza depois de quinze anos como técnico da Câmara Municipal de Sintra metera uma licença sem vencimento e aventurara-se na privada, umas moradias no Algarve, um projecto interessante para o Lobito agora, como todos os anos vinha de mais uma feira de materiais de construção, menos portugueses agora, sinal da crise.

O motorista pelo retrovisor de quando em quando deixava escapar um olhar sobre o passageiro, António meteu conversa:

-Então o serviço? Muitos passageiros?

-Está mau, nesta altura do ano menos turistas, não chega para o petróleo -desabafou, uma buzinadela para um Fiat a fazer uma manobra perigosa na Gago Coutinho.

A voz e a expressão do rosto pareceram-lhe de súbito familiares

-O amigo é daqui da zona?

-Sou da Abrunheira, aliás sou de Tomar mas moro há muitos anos em Paiões. A seguir a deixá-lo aproveito e até vou almoçar a casa -respondeu, mais expansivo.

De repente uma luz avivou ao arquitecto a memória daquela figura:

-Desculpe lá, mas você não é o Ribeiro Antunes, que tinha umas urbanizações ali para os lados de Paiões?

O taxista deixou escapar um ar de surpresa, virou-se e mirou o cliente:

-Olha se não é o arquitecto Salaviza, da Câmara de Sintra!.Há muito tempo, senhor arquitecto!- um sorriso recordando velhos tempos, melhores por certo, o rádio apagado para falar melhor.

-Então mas o que é que lhe aconteceu? Mudou de ramo?

-Coisas da vida, arquitecto. Lembra-se daquela urbanização em Paiões, os vinte lotes da minha empresa, a Antunobra, até levou cinco anos para aprovar..

-Sim, tenho uma ideia, eu também já não estou na Câmara, sabe, nem vou lá há muito tempo.

-Pois é, deu tudo para o torto. O meu sócio o Parreira, fez um desfalque nas contas, e o banco veio em cima de mim, até o terreno lá na terra foi à vida. Depois com a crise, os lotes não se venderam, a Câmara começou a cortar nas licenças e tive de me virar.

António Salaviza meditava sobre as ironias do destino. Lembrava  anos antes o agora motorista de táxi num Porsche a convidar para almoços no Porto de Santa Maria, garrafas para os amigos no Elefante Branco, o boom da construção no seu auge. Desorganizado, fazia do banco do lado do Porsche o escritório, onde se misturavam licenças e alvarás, plantas e alçados, reuniões com vereadores que lhe ligavam directamente, sessenta empregados com que sempre fazia lautos almoços em cada pau de fileira das urbanizações a crescer na Sintra dos anos 90.Agora, guiava um táxi e  almoçava em casa.

-Então e não pensa retomar noutro lado?

-Já estou velho arquitecto. E sabe, assim até estou melhor, são menos dores de cabeça, fiquei com uma moradia lá em Paiões, os filhos estão criados... -encolheu os ombros, o semáforo caía na segunda circular, pelo telemóvel a mulher perguntava se ia almoçar, eram pataniscas com arroz de grelos.

-Pataniscas? Bem bom, com um tinto lá de Tomar, vai saber que nem ginjas! -consolou-se, outra vida, outro mundo. Salaviza lembrava os almoços com vereadores e empreiteiros, as lagostas suadas e os whiskies de vinte anos, como Portugal mudara do oito para o oitenta, da selva de betão que sempre lhe fizera confusão, mas que os políticos pressionavam, em nome do interesse para o concelho, ao  quase marasmo, nem uma obra que se  visse ou uma grua em toda a linha de Sintra, noutros concelhos também.

Ao passar por Rio de Mouro, o taxista teve um olhar melancólico para a esquerda. Ao fundo ainda se viam as silhuetas dos prédios da Antunobra por vender, tomados pelo banco, o andar modelo no último piso. Ribeiro Antunes suspirou e carregou no acelerador, IC 19 acima. Chegados ao local, Salaviza deixou-lhe o telefone, mal ou bem era um personagem  dum passado recente e ao mesmo tempo longínquo, alimentado pelo novo-riquismo da época, a convicção de que as coisas não acabam nunca. Antunes agradeceu, tirou as malas  à porta da moradia e lançou um olhar cúmplice ao antigo técnico da Câmara:

-Deseja factura, senhor arquitecto?


publicado por Fernando Morais Gomes às 09:20

Mais uma excelente história. Adoro estes curtos episódios com gente da minha terra.
Só uma nota: Porsche leva s antes do ch :-)
Abraço.
ZM
Zé Maria a 19 de Janeiro de 2011 às 10:06

Obrigado pelo reparo.Carros não são o meu forte.Um abraço
Fernando Morais Gomes a 19 de Janeiro de 2011 às 10:09

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