por F. Morais Gomes

20
Jan 11

Era uma agitação na Praia das Maçãs, a retroescavadora retirava  terras para executar as fundações da obra atrás do mercado e tinha chocado em algo compacto, uma espécie de parede em pedra não longe do tholos romano ao abandono, local de alívio de muitos banhistas perdido atrás do canavial. António Alves obtivera licença para uma moradia, três  longos anos no Parque Natural para parecer,  os tipos da Rede Natura 2000 a chatear, arrancava agora  finalmente com a obra, mas  a máquina deparava-se com um inesperado obstáculo rochoso apenas a 3m de profundidade. Destapada a camada dura com enxadas,  ficaram à vista três colunas de pedra cortadas em forma de prisma, com uma grande quantidade de letras  inscritas nos pedestais,  atraindo a atenção do Marinho e do Lopes que logo vieram coscuvilhar, vindos do clube da praia onde jogavam uma partida de sueca.

Nas colunas estava gravada  uma figura feminina envergando uma túnica, braços abertos para o céu, um halo com ramificações em frente, como se fosse um sol ou uma medusa, arte romana,parecia ao João Rodrigues, jurista recente mas entendido em História, e que também passava na altura. O Alves. pensativo ,antevia já chatices, se aparecessem os tipos da Câmara mandavam por certo parar a obra por causa duns achados velhos, bem vira o que acontecera em Almornos com a moradia da filha, três anos parada por causa duma lápide que o lunático do arqueólogo da câmara teimou em achar que era valiosa, para ele boa para  decorar a churrasqueira, isso sim. Um pouco mais escavado o terreno,  mais colunas surgiram, coisa antiga, pelo aspecto, alvitrava o velho Alberto do Búzio, palitando os dentes. Logo mais uns artefactos e umas ânforas, cada cavadela cada minhoca.

O Alves, preocupado,achou que deveria resguardar mais os achados antes que se propagasse a notícia, e vai de fazer constar que ia meter tudo numa carrinha e levar para um museu, para estudo, discretamente  desviou os populares e foi pagar-lhes uma rodada  ao Loureiro enquanto o Crispim e o Zé Luís  longe dos  mirones carregavam as malditas colunas para uma carrinha de caixa aberta. Meia hora e três imperiais depois, o tema de conversa era já o Benfica e o sorteio da Taça, o Rio Ave ia levar cinco secos, prometia o Alves, lampião empedernido, despachando os tremoços.

Na obra entretanto,máquinas  paradas e o buraco semiaberto, passou um carro da GNR,um guarda zeloso  a perguntar pela licença a um operário que ficara de guarda.Faltava a placa identificativa da obra,  dizia o guarda com ar de reprovação, amanhã a ver se está afixada senão são quinhentos euros.Cesário anuía, humilde, com o patrão no bar e as colunas já longe da mira. Ah, e o capacete sempre na cabeça, frisou o guarda do alto da autoridade, seguindo na direcção das Azenhas do Mar.

Retornado à obra, com os outros já dispersados e  a caminho de mais uma partida de sueca, o Alves  continuou a escavação, aparentemente sem mais  sobressaltos, havia que dar fogo à peça para executar as sapatas e começar a betonar nas semanas seguintes, as colunas diligentemente a caminho dum vazadouro na Amora, entulho por cima para disfarçar.Como é que alguém pode dar importância a tralha velha desta, ainda pensou o Alves com os seus botões, nada mais no seu caminho, aparentemente.

No dia seguinte, com  sol radioso e as máquinas em movimento acelerado, o Alberto do Búzio abeirou-se da obra e sondou o Alves:

-Então ó António, chegaste a saber o que eram aquelas pedras de ontem? Se calhar pertenciam àquela coisa do tôlo ou tólo, como chamam ao matagal acolá, os gajos lá de Odrinhas andam sempre à procura de trampa dessa, ainda se fosse  para virem comer um robalo ao sal dos meus... - e logo partia na direcção do Barmácia, ganhara uma aposta ao Luís  com o resultado do Braga, ia a cobrar o seu tinto, que de manhã é que se começa o dia.

O Alves pelo sim pelo não mandou colocar uma vedação à volta do desaterro, se aparecesse algo de novo ninguém chegaria a aperceber-se, arriscava sete ou oito anos parado com o processo num gabinete em Lisboa e o banco não ia esperar, os juros logo a contar, a ver se alguém  já se governara com o tal tholos, atrasos de vida duns tipos que nunca fizeram nada na vida senão chatear, pensava.

Ao mesmo tempo, não longe dali,  no museu de S.Miguel de Odrinhas, Maria João, mestranda de Arqueologia debruçava-se sobre uns manuscritos de Félix Alves Pereira, arqueólogo e estudioso da zona de Sintra, há meses que dissecava textos sobre a presença romana na Praia das Maçãs, aventara-se mesmo a existência de um importante templo dedicado ao sol no alto da Vigia. O director do museu, Cardim Ribeiro tinha obra prolixa sobre o assunto, Maria João cruzava documentos e ia juntando o puzzle. Nessa tarde, excitada,como quem descobriu a  pólvora, entrou no gabinete do doutor Cardim, que se regalava com uma maçã reineta, e disparou a sua descoberta:

-Professor, ou me engano muito, ou a localização do templo do sol  não é na Vigia, como vaticinou o Francisco de Holanda, mas no lado oposto, junto ao mercado, veja aqui, os pontos cardeais estão mal assinalados! - e mostrava um papel vegetal onde desenhara localizações a partir dos estudos de Alves Pereira.

Cardim até ali ausente,logo sacudiu a maçã , óculos apontados ao papel, fez silêncio uns segundos e concordou, olhos arregalados, havia que escavar no local, finalmente podiam estar à beira de descobrir o lendário templo do sol da Praia das Maçãs, só podia ser ali, pensava agora, o tholos era a ponta do icebergue.

- Veja professor, o Francisco de Holanda dizia que o templo seria um recinto circular implantado sobre uma plataforma de terra, sobre a qual se distribuíam 16 aras prismáticas  organizadas a espaços regulares, com um disco solar raiado ao centro -continuava a investigadora.- Porém, não é de excluir a hipótese de o desenho dele ser apenas aproximativo: as aras poderiam ser simples bases ou socos de uma colunata ou de estátuas, e ser apenas em número de doze, o que permitiria supor o carácter astrológico do santuário. E repare, diz-se que era junto ao mar, mas o mar nessa altura chegava ao local do actual tholos,  o assoreamento pode ter levado a que esteja hoje onde está e não junto ao mar, aconteceu o mesmo com a Torre de Belém!

-Maria João,os meus parabéns, creia-me, esta descoberta vai ser mais importante que os fósseis de Foz Côa! –gritava o professor Cardim, voz de criança com brinquedo novo, casaco no braço a caminho da Praia das Maçãs.

Nos Foros da Amora, as colunas despejadas pelos homens do Alves, entre carroçarias podres de carros vazadas no aterro aberto para os inertes e terras retiradas do novo túnel da Arrábida descansavam  já, incógnitas para mais dois mil anos, quando talvez voltassem a ser descobertos e dessa feita lançados, quem sabe, ao mar, para não prejudicar de novo alguma construção.


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:38

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