por F. Morais Gomes

21
Jan 11

O grupo de sindicalistas aguardava no exterior da residência oficial do primeiro-ministro, os cortes salariais na função pública e nos direitos sociais no cerne dos protestos. Duarte Madureira, do Sindicato da Administração Local e delegado sindical em Sintra integrava a comitiva, dois plenários haviam reunido mais de duzentos participantes, o maior em vários anos, a explosão social latente com o apertar do cinto criava terreno fértil ao descontentamento.

Em Sintra, Duarte trabalhava no  núcleo de fiscalização dos SMAS. Cinquenta e dois anos, um percurso político coerente desde que aos dezasseis anos e aluno de liceu participara nas primeiras reuniões gerais de alunos que culminaram na federação de Lisboa de estudantes do ensino secundário. Passara pelas vigílias no Ministério da Educação, guardadas por militares do COPCON em 75, as greves estudantis, conheceu a primeira companheira  numa manif na 5 de Outubro, juntos entraram em Letras depois, o empenho na associação académica levou a que nunca concluísse o curso. Mais tarde passou pela Sorefame, como escriturário e delegado sindical, desde 1993 que trabalhava nos SMAS de Sintra, sindicalista militante. Os cabelos desalinhados e a barba hirsuta dos generosos anos setenta foram entretanto dando lugar a uma coroa grisalha tapando a careca, um segundo casamento com uma camarada de Almada acalmara sem matar a rebeldia da juventude. Os tempos eram outros, Abril cada vez mais distante, os cravos ,simbólicos, apenas nos rituais 25 de Abril.

Na antecâmara de S.Bento juntavam-se agora vários dirigentes, todos com anos de sindicalismo, o grosso nas fileiras da CGTP, os técnicos superiores penalizados também associados contra o funeral da classe média, reiterava Ramiro Simeão, jurista do Ministério da Agricultura com um corte de 10% a acicatar o protesto.

Como o primeiro -ministro não estava, foram encaminhados para uma sala onde dois assessores engravatados os receberam, ar protocolar e formal, telemóvel na mão sempre a tocar. O documento foi entregue com promessas de encaminhamento e  não durou mais de sete minutos, cumprimentos um a um na despedida junto à escadaria, para as televisões.Quando chegou a vez de Duarte, cumprimentado o chefe de gabinete, já apaticamente estendia a mão sem entusiasmo ao outro assessor, quando sentiu a mão deste apertar a sua com força e com um olhar subitamente vivo e expressivo chamá-lo pelo nome:

-Duarte! Há quantos anos! - o assessor engravatado e até ali circunspecto saía do pedestal cerimonioso,com os demais olhando desconfiados para aquela inesperada cumplicidade com o poder.

Duarte fixou os olhos no interlocutor, e por trás do fato Armani e dos óculos reconheceu Pedro Lavrador, colega dos anos de Letras, ele próprio compagnon de route das reuniões inter-associações no fim dos anos setenta. Surpreso e agradado pelo reencontro, mas receoso dos comentários sobre aquele conluio com a burguesia, cumprimentou-o com um leve sorriso, logo um convite dele para um café ali perto de S.Bento para matar saudades.

Mais de trinta anos haviam passado, de repente o som distante das marchas revolucionárias e dos amanhãs que cantam que os fizeram cúmplices nos anos da revolução sentava-os em torno duma mesa, aparentemente em barricadas diferentes. Portugal mudara muito e agora ,no fio da navalha da crise, esbracejava acossado pelos mercados.

-Mas conta-me, Duarte, que é feito de ti? E a Susana?

-Já não estou com ela, separámo-nos em 86, agora tenho outra companheira. Estou em Sintra, nos SMAS, sou lá delegado sindical. E tu? Que  fazes aqui neste ninho de lacraus?

-É uma longa história, velho amigo. Quando tu desististe de Letras, conclui o curso e dei aulas em Alverca, casei. Tenho um filho com 26 anos, já arquitecto, sabias?- explicou entusiasmado, sacando de uma foto de família, junto à piscina em Vilamoura -Depois quando foi da adesão à CEE concorri para um lugar de tradutor e fui para Bruxelas, dez anos cá  e lá…

Apesar do fato e da pose tecnocrática, Duarte por trás da fachada reconhecia ainda o velho Pedro, grande cantor nas sessões de canto livre com o Adriano , sacola a tiracolo e cabelos compridos  pastosos por falta de lavagem que a água enfraquecia a pele, dizia na altura, um  cachecol cinza  grosso feito pela avó, outra encarnação, fantasma do tempo.

-Há sete anos passei a integrar um núcleo de apoio diplomático, e agora estou aqui destacado. É um trabalho exigente, mas gosto do que faço!- explicou, o passado  sépia abafado pelos toques do Blackberry.

-E ainda és de esquerda? -lançou Duarte, curioso, muitas desilusões mas fiel aos velhos ideais, apesar do  desprendimento dos mais novos que no serviço até gostavam do cota esquerdista.

Pedro sorriu, pediu mais um café, Duarte recusou, a diabetes desaconselhava, e cúmplice abriu-se com o velho amigo:

-Meu velho, esquerda e direita são coisas que já não contam nos dias de hoje. O mundo mudou , até a surda muda… gracejou, pagando as bicas com o cartão do Gabinete -E sabes: quem não é revolucionário aos vinte anos, é porque não tem coração. Quem é revolucionário aos quarenta é porque não tem cabeça…- e levantou-se apressado, o chefe de gabinete chamava por ele, tinha havido uns desacatos com polícias à saída da delegação dos sindicatos.

Depois da troca de números de telefone, Duarte a sós desceu a D.Carlos I e deteve-se junto ao Tejo ,a Lisnave ao fundo lembrando lutas de outros tempos. Na televisão dum bar junto ao rio, um ministro de ar grave garantia que o Estado Social nunca seria destruído…


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:50

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